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Como a Rússia manipulou milhões de americanos: a máquina de propaganda digital da IRA nas eleições de 2016 (Parte 2/2)
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Este texto dá continuidade ao texto anterior disponível no blog: 'Como a Rússia tentou sabotar as eleições de 2016: hackers, dossiês e o início de uma guerra invisível ' - PARTE 1/2.
Você sabia que a Rússia
esteve por trás de uma das campanhas de desinformação mais sofisticadas da
história recente? As eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos foram
profundamente influenciadas por uma série de eventos controversos, com a
alegada interferência russa no centro dessas discussões.
As investigações
conduzidas pelo FBI, pelo Congresso e pela comunidade de inteligência dos EUA
sugerem que o governo russo desempenhou um papel significativo no processo
eleitoral, utilizando uma combinação de hackers, desinformação e relações
suspeitas com membros da campanha de Donald Trump. Esta análise revisita os
principais eventos que moldaram esse cenário.
O Dossiê Steele: O Início das
Investigações
O Dossiê Steele,
produzido por Christopher Steele, um ex-agente do serviço de
inteligência britânico MI6, é amplamente considerado como um dos primeiros
documentos a levantar sérias preocupações sobre as relações entre a campanha de
Trump e a Rússia. Steele foi contratado pela Fusion GPS, uma empresa de
inteligência privada, a princípio financiada por um grupo republicano anti Trump e posteriormente pelo Comitê Nacional Democrata (DNC).
Christopher Steele, um ex-agente do serviço de
inteligência britânico MI6. New York Times
Este dossiê alegava que
o governo russo possuía informações comprometedoras sobre Donald Trump, tanto
financeiras quanto pessoais. Entre as afirmações, estavam alegações de que a
Rússia tentava influenciar Trump através de operações de chantagem (chamadas de
"krompromat" no jargão da inteligência). Embora várias partes
do documento não tenham sido corroboradas, ele foi o catalisador para
investigações mais profundas.
Enquanto o Dossiê Steele
levantou questões cruciais sobre as relações entre Trump e a Rússia, as táticas
de interferência se tornaram ainda mais evidentes através de ataques
cibernéticos.
Fonte CNN - 2018.
No ano de 2018 em uma
conferência de Imprensa realizada em Helsinque estavam no palco: Donald Trump e
Vladimir Putin, ambos respondendo questionamentos da imprensa, até que surgiu a
seguinte pergunta: “A Rússia tem informações comprometedoras – “krompromat” –
sobre o presidente Donald Trump?”
“E agora, para o material comprometedor”,
disse Putin. “Sim, eu ouvi esses rumores de que supostamente coletamos material
comprometedor sobre o Sr. Trump quando ele estava visitando Moscou. Bem, colega
distinto, deixe-me dizer-lhe o seguinte: Quando o presidente Trump estava em
Moscou naquela época, eu nem sabia que ele estava em Moscou. Eu trato o
presidente Trump com o máximo respeito, mas naquela época, quando ele era um
indivíduo privado, um homem de negócios, ninguém me informou que ele estava em
Moscou”.
A
Interferência Digital: Hackers e ciberataques
Uma das mais claras
formas de interferência russa foi através de ciberataques direcionados
ao Comitê Nacional Democrata (DNC) e à campanha de Hillary Clinton.
Hackers identificados como membros da GRU, a agência de inteligência
militar russa, invadiram servidores do DNC e roubaram milhares de e-mails e
documentos internos. Esses dados vazaram posteriormente via plataformas como o WikiLeaks,
causando embaraço para a campanha de Clinton.
Agência de Inteligência Militar Russa - GRU
Esses vazamentos
incluíam discussões sobre como o DNC teria favorecido Hillary Clinton durante
as primárias democratas, em detrimento de Bernie Sanders, provocando uma crise
de confiança no processo eleitoral do partido. Isso também levou a grandes
questionamentos sobre a cibersegurança das instituições políticas americanas,
revelando vulnerabilidades críticas.
Hillary Clinton e Bernie Sanders em campanha juntos, em setembro de 2016. --fonte: Britannica.
Bernie Sanders - Wikipédia
Desinformação e a Internet Research
Agency (IRA)
No contexto das eleições
presidenciais de 2016 nos EUA, a desinformação emergiu como uma arma poderosa,
sendo a Internet Research Agency (IRA) um dos principais atores nessa trama.
A IRA, por exemplo,
empregava uma equipe diversificada de especialistas em comunicação e marketing,
operando em um espaço de trabalho semelhante ao de uma agência publicitária. Os
funcionários eram instruídos a se infiltrar em grupos de discussão e
comunidades online, criando uma presença que parecia orgânica e autêntica.
Além dos ciberataques, a
Rússia investiu pesado em campanhas de desinformação e influência
através de redes sociais. A Internet Research Agency (IRA), uma
organização russa especializada em guerra de informação, teve um papel crucial
nesse processo. Utilizando milhares de contas falsas e bots em plataformas como
Facebook, Twitter e Instagram, a IRA promoveu narrativas polarizadoras sobre
temas sensíveis nos Estados Unidos, como raça, imigração e controle de armas.
Estudos indicam que
posts da IRA alcançaram até 126 milhões de usuários no Facebook, com uma taxa
de engajamento que superou em muito a de campanhas legítimas, dados fornecidos
em 2017 pelo próprio Facebook ao Congresso dos Estados Unidos.
Além disso, essa
informação também foi confirmada peloSenate
Intelligence Committee Report de 2019. O relatório
detalhou que as campanhas da IRA no Facebook tiveram um engajamento extremamente
alto, muitas vezes superando o de campanhas legítimas em termos de
compartilhamentos, curtidas e comentários.
A IRA frequentemente
utilizava Memes humorísticos e notícias sensacionalistas, visando apelos
emocionais que ressoavam com as frustrações de grupos específicos, como
eleitores conservadores ou progressistas.
A Internet Research
Agency (IRA), estabelecida em 2013, é uma das principais entidades russas
envolvidas em operações de desinformação nas redes sociais. Reconhecida por
suas táticas sofisticadas de manipulação da opinião pública, a IRA se tornou um
componente crucial na estratégia russa de influência global.
A campanha de
desinformação não apenas disseminou "fake news", mas também manipulou
o discurso político para aumentar as divisões já existentes na sociedade
americana. Memes, vídeos, artigos fabricados e páginas de apoio a causas
extremas foram amplamente compartilhados. Essas táticas sofisticadas
confundiram os eleitores e minou a confiança no processo eleitoral, um dos
principais objetivos da operação russa.
Postagens feitas pela IRA por agentes do GRU - direcionadas aos afro-americanos -Fonte: The Atlantic (New Knowledge)
Foram
inúmeras postagens semelhantes a esta, nas mais distintas redes sociais (Pinterest, Instagram, Twitter, vídeos no YouTube e Facebook) com
o objetivo de atingir determinados grupos e pessoas de distintas classes
sociais, regiões e interesses, acima tem apenas um dos exemplos.
Estrutura Organizacional da IRA
A organização da IRA era
complexa e dividida em vários departamentos, cada departamento especializado em
diferentes aspectos de suas operações:
Departamento de Criação de Conteúdo:
Função:
Produzir e disseminar uma variedade de materiais, como posts em redes sociais,
artigos e imagens manipuladas.
Objetivo:
Criar narrativas que ressoassem com diferentes audiências, utilizando temas
polarizadores para maximizar o engajamento.
Departamento de Estratégia e Planejamento:
Função:
Desenvolver planos de longo prazo para campanhas de desinformação, incluindo a
identificação de alvos e cronogramas de postagem.
Objetivo:
Assegurar que as campanhas fossem alinhadas com eventos políticos e sociais
relevantes, aumentando a probabilidade de impacto.
Departamento de Análise e Monitoramento:
Função:
Coletar e analisar dados sobre o desempenho das campanhas, incluindo métricas
de engajamento, alcance e feedback do público.
Objetivo:
Ajustar as estratégias em tempo real com base na eficácia das postagens e nas
reações do público.
Departamento de Gestão de Redes Sociais:
Função:
Administrar contas em plataformas como Facebook, Twitter e Instagram,
promovendo interações autênticas com os usuários.
Objetivo:
Criar a ilusão de uma discussão genuína, incentivando o compartilhamento de
conteúdo manipulador e fomentando debates.
Departamento de Pesquisa e Inteligência:
Função:
Conduzir pesquisas sobre o cenário político e social dos países alvo,
identificando tendências e temas sensíveis.
Objetivo:
Informar as campanhas e garantir que o conteúdo fosse relevante e provocador.
Edifício da Agência de Pesquisa na Internet (IRA) em St. São Petersburgo, Rússia. - CNN
Vídeo secreto de dentro da Agência de Pesquisa da Internet mostrou trolls russos no trabalho em 2018.
Por Andrey Soshnikov e Katharina Krebs fonte: CNN
Liderança e Responsáveis
A IRA foi fundada por
Yevgeny Prigozhin, um empresário próximo ao Kremlin, que supervisionou as
operações da agência. Prigozhin, conhecido como "chef" por suas
ligações com o catering presidencial, usou seus contatos políticos para
estabelecer a IRA como uma ferramenta de desinformação do estado russo. Outros líderes chaves incluíam:
Aleksandr
Khinshtein: Um dos gerentes de projetos,
responsável pela estratégia de comunicação.
Dmitry
Sokolov: Coordenador de operações online,
focado em maximizar o alcance das campanhas.
Funcionamento dos Serviços da IRA
A IRA operava em um
ambiente altamente organizado e metódico. Os serviços eram coordenados em um
fluxo de trabalho que seguia várias etapas:
Pesquisa
e Identificação de Alvos: A equipe de pesquisa utilizava
dados demográficos e tendências sociais para escolher grupos alvo e temas que
poderiam gerar maior engajamento.
Desenvolvimento
de Conteúdo: Após identificar os alvos, o
Departamento de Criação de Conteúdo produzia materiais adaptados para ressoar
com esses públicos, muitas vezes usando linguagem e imagens culturalmente
relevantes.
Distribuição
e Promoção: Os posts eram distribuídos através de várias contas
falsas e manipulados nas redes sociais, criando a aparência de uma discussão
orgânica. Além disso, a equipe de Gestão de Redes Sociais interagia com os
usuários para fomentar a credibilidade.
Análise
e Ajustes: Após a publicação, o Departamento de Análise e
Monitoramento avaliava o desempenho das campanhas, fazendo ajustes conforme
necessário para melhorar a eficácia.
Impacto das Operações da IRA
A estrutura
multifacetada da IRA permitiu que a agência realizasse campanhas de
desinformação altamente eficazes, especialmente durante eventos cruciais, como
as eleições presidenciais dos EUA em 2016. A combinação de criatividade na
produção de conteúdo e rigor na análise de resultados fez da IRA uma das mais
temidas operadoras de desinformação do mundo.
As operações da IRA não
apenas moldaram a narrativa da eleição de 2016, mas também acenderam um alerta
sobre a vulnerabilidade das democracias modernas diante de campanhas de
desinformação bem orquestradas.
O Caso
Felix Sater e a Trump Tower Moscou
Felix Sater, empresário com laços antigos com a Trump Organization, foi uma figura
importante nas investigações sobre as ligações de Trump com a Rússia. Ele
tentou facilitar um acordo para a construção de uma Trump Tower em Moscou durante a campanha de 2016, um projeto que alimentou
suspeita de que Trump tinha interesses financeiros significativos na Rússia,
apesar de publicamente negar tais laços.
Sater, que havia
cooperado anteriormente com autoridades americanas em investigações contra o
crime organizado, manteve contato com representantes russos, tentando acelerar
o projeto imobiliário. Apesar disso, o projeto não avançou, e até hoje, a
extensão do envolvimento de Sater com o governo russo permanece pouco clara.
Félix Sater e Donald Trump. fonte: The New York Times
A Reunião da Trump Tower: Promessas de
Informações Comprometedoras
Em junho de 2016, Donald Trump Jr., filho mais velho de
Donald Trump, participou de uma reunião na Trump Tower em Nova York com a advogada russa NataliaVeselnitskaya. A
reunião foi marcada após Trump Jr. ter sido informado que Veselnitskaya possuía
informações prejudiciais sobre Hillary
Clinton, supostamente fornecidas pelo governo russo.
Entre os participantes
da reunião estavam também Jared Kushner,
genro de Trump, e Paul Manafort,
o então gerente de campanha. No entanto, a reunião não gerou os resultados
esperados. Veselnitskaya focou sua apresentação em questões relacionadas à Lei Magnitsky, uma legislação que
impôs sanções a figuras do governo russo envolvidas em violações de direitos
humanos. Apesar de inicialmente ter sido vista como uma oportunidade de obter
material comprometedor sobre Clinton, a reunião rapidamente perdeu relevância.
Jared Kushner,
genro de Donald Trump.Fonte: Getty Images, antagonista.
Crossfire Hurricane: A Resposta do FBI
Em resposta às
crescentes suspeitas de conluio entre a campanha de Trump e a Rússia, o FBI
lançou a operação Crossfire Hurricane
em julho de 2016. O objetivo era investigar possíveis ligações entre membros da
campanha de Trump e o governo russo. Entre os investigados estavam figuras como
Paul Manafort, Michael Flynn e George Papadopoulos.
Papadopoulos, um
consultor de política externa da campanha de Trump, se tornou uma figura
central após alegar, em uma conversa com um diplomata australiano, que sabia de
informações sobre e-mails "sujos" que os russos possuíam sobre
Hillary Clinton. Isso impulsionou ainda mais as investigações.
O Relatório Mueller: Revelações e
Limitações
Após dois anos de investigações,
o Relatório Mueller foi
publicado em 2019, revelando detalhes importantes sobre a interferência russa.
O relatório concluiu que a Rússia realmente interferiu nas eleições americanas
de 2016, utilizando ciberataques e campanhas de desinformação para influenciar
o resultado. No entanto, o relatório não encontrou provas suficientes de uma
conspiração criminosa entre a campanha de Trump e o governo russo.
O documento também
deixou em aberto questões sobre a obstrução de justiça por parte de Trump,
especialmente em relação às tentativas de interromper as investigações. Embora
Trump não tenha sido acusado formalmente, o relatório gerou intenso debate
político sobre seu comportamento e o papel da Rússia no processo eleitoral.
O Relatório Mueller sobre a
investigação da interferência russa nas eleições presidenciais de 2016 é
fotografado em Nova York, em 18 de abril de 2019.REUTERS/Carlo Allegri.
Ilustração POLÍTICO/Getty Images
Interferência Contínua: As Implicações
para as Eleições Futuras
As descobertas das
investigações sobre a interferência russa nas eleições de 2016 trouxeram à tona
preocupações não apenas sobre o passado, mas também sobre o futuro. A
vulnerabilidade das democracias à manipulação estrangeira, especialmente por
meio de novas tecnologias de comunicação e redes sociais, se tornou um tema de
discussão constante. As eleições subsequentes de 2020 também foram cercadas de
alertas sobre potenciais interferências, embora as medidas de cibersegurança
tenham sido significativamente reforçadas.
A persistência da
desinformação e os desafios para a integridade dos processos democráticos
seguem sendo questões fundamentais. A habilidade da Rússia de explorar as
divisões internas nos Estados Unidos por meio de campanhas bem orquestradas
demonstra como a política externa contemporânea se entrelaça com as novas
tecnologias e a guerra cibernética.
Conclusão
A interferência russa
nas eleições americanas de 2016 não apenas revelou as vulnerabilidades do
sistema eleitoral dos Estados Unidos, mas também colocaram em evidência as
novas formas de guerra híbrida em que as nações podem influenciar os destinos
políticos de outras. O legado desse episódio segue vivo, com questionamentos
sobre a legitimidade de processos eleitorais, tanto nos EUA quanto em outras
democracias ao redor do mundo. O Relatório
Mueller foi crucial para entender a dimensão da interferência russa, mas
a ausência de uma conclusão definitiva sobre o conluio direta entre Trump e
Moscou deixou muitas perguntas sem resposta.
A crescente sofisticação
das campanhas de desinformação e as ameaças cibernéticas exigem vigilância
constante, e a história de 2016 é um alerta poderoso sobre os perigos da
interferência externa nas democracias modernas.
Escrito por:
Gabriel Chagas.
Entusiasta
por Geopolítica, Espionagem, Relações Internacionais e Autor do Blog Mundo em
Conflito.
Recomendação: A referência utilizada para a produção do texto foi a série da Netflix "Agentes do Caos". Esta
série foi uma fonte essencial para a produção deste artigo e oferece
uma análise minuciosa dos eventos que moldaram a interferência russa nas
eleições americanas de 2016. Através de entrevistas exclusivas e uma
narrativa envolvente, a série revela os bastidores das ações russas e o
impacto que tiveram na política global. A imersão na série proporcionará
uma visão mais completa e esclarecedora sobre os complexos laços entre
as partes envolvidas e as consequências de suas ações.
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