No Mundo em Conflito, analisamos com profundidade temas de geopolítica, espionagem e conflitos internacionais. Vamos além das manchetes para revelar os bastidores do poder global, explorando estratégias, operações de inteligência e disputas de influência. Com base em fontes confiáveis, oferecemos uma leitura crítica e acessível para quem busca entender o que realmente está em jogo no cenário mundial.
A Perspectiva Russa no Conflito na Ucrânia: Tensão Geopolítica, Revoluções, Justificativa para a Invasão e o Campo de Batalha
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A Revolução Laranja de 2004 foi o
marco inicial de uma crescente tensão entre a Rússia e a Ucrânia, que
desencadearia eventos geopolíticos ainda mais significativos nas décadas
seguintes. Quando Viktor Yushchenko, um candidato pró ocidental, venceu as
eleições presidenciais ucranianas, acusando-se fraudes eleitorais, uma onda de
protestos sacudiu o País. Para Moscou, essa vitória representava uma ameaça não
apenas à sua influência política, mas ao seu domínio geopolítico sobre a
região. A ascensão de Yushchenko significou um afastamento da esfera de
influência russa e um desejo crescente de aproximação com o Ocidente –
particularmente com a União Europeia e a OTAN. A partir desse momento, as
tensões escalariam, culminando em episódios dramáticos como a Revolução Maidan
e a guerra no Donbass, até o ponto de inflexão definitivo com a invasão de
2022. Este artigo explora a ascensão das tensões geopolíticas entre a Rússia e
a Ucrânia, analisando os eventos, as declarações dos líderes russos e os
conceitos que estruturam a justificativa da Rússia para as intervenções
militares na região.
Mapa da Ucrânia de 2014 com as regiões. Fonte: Viacheslav Lopatin
Revolução Laranja de 2004: O Início da Tensão
A Revolução Laranja de 2004 foi
um ponto de inflexão nas relações entre a Rússia e a Ucrânia. A vitória de
Viktor Yushchenko, um candidato pró ocidental, nas eleições presidenciais
ucranianas, desencadeou uma onda de protestos devido às alegações de fraude
eleitoral. Para a Rússia, a vitória de Yushchenko representava não apenas uma
derrota política, mas também uma ameaça geopolítica. Moscou havia apoiado seu
rival, Viktor Yanukovych, e via a eleição como uma tentativa da Ucrânia de se
afastar de sua influência histórica e buscar uma maior aproximação com o
Ocidente, especialmente com a União Europeia e a OTAN.
O ex-presidente da Ucrânia Viktor Yanukovych com o presidente Vladimir Putin. Fonte: The Moscow Times.
A perspectiva da população
ucraniana em relação à Revolução Laranja também merece destaque. Embora muitos
vissem em Viktor Yushchenko uma oportunidade de romper com o legado soviético e
se aproximar de valores ocidentais, a polarização interna foi evidente. Regiões
mais próximas da Rússia, como Donetsk e Luhansk (em ucraniano) ou Lugansk (em russo), demonstraram resistência
significativa às mudanças, perpetuando divisões políticas e culturais que se
aprofundariam nos anos seguintes. Essa polarização se tornou um fator central
na instabilidade que culminaria em conflitos mais intensos.
Depois a Revolução Laranja de 2004, Viktor Yushchenko foi eleito presidente da Ucrânia.
A Revolução Laranja de 2004 foi um marco importante na história da Ucrânia, caracterizada por protestos massivos contra as fraudes na eleição presidencial daquele ano. O candidato governista, Viktor Yanukovich, foi acusado de manipular o processo eleitoral, levando a uma onda de insatisfação popular concentrada, principalmente, em Kiev, a capital. Milhares de ucranianos tomaram as ruas, adotaram a desobediência civil, e exigiram um processo mais transparente, mobilizando o País de maneira inédita.
Candidatos. Fonte: Arline Sullivan
As manifestações se destacaram pela cor laranja, que era o símbolo do partido de oposição liderado por Viktor Yushchenko. Essa identificação visual acabou batizando o movimento. Diante da pressão dos protestos e das evidências de irregularidades denunciadas tanto dentro, quanto fora do País, a Suprema Corte ucraniana anulou a eleição e determinou um novo pleito. Nesse segundo turno, Yushchenko saiu vitorioso com 52% dos votos, superando Yanukovich e assumindo a presidência em janeiro de 2005.
Yushchenko vitorioso com 52%, contra Yanukovych com 44%. Fonte: Arline Sullivan
Por mais que tenha representado um avanço democrático, a Revolução Laranja também evidenciou as profundas divisões políticas e culturais na Ucrânia. Enquanto o oeste do País apoiava a integração com o Ocidente, o leste mostrava forte simpatia pela Rússia, aprofundando as diferenças regionais. A vitória de Yushchenko marcou uma aproximação do País com a União Europeia e a OTAN, intensificando as tensões com o governo russo, que via a situação como uma ameaça direta aos seus interesses estratégicos.
Embora as expectativas em torno do novo governo fossem altas, a realidade logo trouxe decepções. Problemas como corrupção, influência de oligarcas e desigualdade social persistiram, minando a confiança da população na política tradicional. As divisões internas continuaram se agravando, e a frustração da sociedade com as promessas não cumpridas deixou uma marca significativa no cenário político do País.
Na visão russa, o movimento em
direção ao Ocidente da Ucrânia representava uma tentativa de
"dissolução" da esfera de influência russa e uma ameaça à segurança
nacional. Em discursos subsequentes, Vladimir Putin comentou que a Revolução
Laranja foi orquestrada por potências ocidentais, como uma estratégia para
minar a estabilidade e a soberania da Rússia, uma retórica que se tornaria
central nas análises geopolíticas russas nos anos seguintes.
Revolução Laranja de 2004. Fonte: UOL
A Revolução Maidan de 2013-2014: A Escalada do
Conflito
O próximo ponto crítico foi a
Revolução Maidan, em 2013, que culminou em 2014 com a deposição de Viktor
Yanukovych, o presidente pró russo. A revolta popular, que teve como estopim a
recusa de Yanukovych em assinar um acordo de associação com a União Europeia,
foi vista pela Rússia como uma continuação das tentativas do Ocidente de
afastar a Ucrânia da sua esfera de influência.
Para Moscou, a revolução
representava uma "intervenção ocidental" em um País historicamente
ligado à Rússia. A percepção era de que, por trás das manifestações em Kiev,
havia o apoio oculto de governos ocidentais, como os Estados Unidos e a União
Europeia. O apoio ocidental a Maidan foi interpretado, em grande parte, como
uma tentativa de fazer a Ucrânia se alinhar com os interesses geopolíticos
ocidentais, em detrimento da segurança e das relações históricas com a Rússia.
Outro ponto essencial a ser
analisado é o papel das organizações internacionais durante esses eventos.
Tanto a União Europeia quanto a OTAN desempenharam papéis indiretos, mas
influentes, no fortalecimento das aspirações ucranianas de integração
ocidental. Ao mesmo tempo, a Rússia denunciava tais movimentos como interferência
estrangeira, reforçando sua visão de que essas instituições estavam minando sua
soberania e ameaçando sua segurança regional.
Em uma entrevista coletiva em
2014, Vladimir Putin declarou que a Ucrânia era parte integrante do "mundo
russo" e que qualquer tentativa de separá-la da Rússia representava uma
ameaça existencial para Moscou. Ele enfatizou que a Rússia não poderia aceitar
a perda da Ucrânia, dada a sua importância estratégica e histórica. A retórica
de Putin se tornou ainda mais dura após a deposição de Yanukovych, e, em
resposta, a Rússia anexou a Crimeia em março de 2014.
Na visão de Moscou, os eventos que ocorreram em Maidan, durante os protestos de 2013-2014, não foram apenas uma crise interna na Ucrânia, mas sim um movimento estratégico amplamente influenciado pelo Ocidente para desestabilizar a Rússia. Desde o início das manifestações, Vladimir Putin e outros líderes russos sustentaram a narrativa de que os protestos em Kiev não se tratavam de um movimento genuíno do povo ucraniano, mas de um golpe cuidadosamente orquestrado por Estados Unidos e União Europeia.
O massacre de Maidan, em particular, é visto pela Rússia como um evento deliberadamente explorado para criar um ponto de ruptura. Moscou argumenta que o uso de violência durante o episódio foi uma peça fundamental na estratégia de derrubar o governo pró russo de Viktor Yanukovych, substituindo-o por um regime mais alinhado aos interesses ocidentais.
A Revolução Maidan durou 93 dias, de 21 de novembro de 2013 a 22 de fevereiro de 2014, culminando na deposição de Yanukovych. Os momentos mais sangrentos ocorreram entre 18 e 20 de fevereiro de 2014, quando os confrontos entre manifestantes e forças de segurança deixaram pelo menos 108 manifestantes e 13 policiais mortos.
A questão dos atiradores desconhecidos continua sendo um dos pontos mais controversos do evento. Enquanto unidades da Berkut, a tropa de choque ucraniana, foram acusadas de abrir fogo contra a população, há relatos e investigações sugerindo que franco-atiradores desconhecidos dispararam tanto contra manifestantes quanto contra policiais, intensificando o caos e a violência. A origem e os mandantes desses disparos seguem sem consenso, alimentando diferentes narrativas sobre a revolução.
Para Moscou, os protestos de Maidan foram um golpe apoiado pelo Ocidente para remover um governo pró Rússia e instalar um regime alinhado aos interesses geopolíticos europeus e americanos. Já o então presidente ucraniano, Petro Poroshenko, afirmou em 2015 que a Rússia esteve diretamente envolvida nas mortes em Maidan, sugerindo que Moscou teria incentivado ou até participado da violência para desestabilizar a situação.
O Kremlin também aponta que há muitas lacunas no entendimento do que aconteceu nos dias cruciais do massacre. Discursos oficiais questionam quem exatamente foram os responsáveis pelos disparos e se os chamados "snipers" tinham conexões com os grupos que apoiavam os manifestantes ou se atuavam para inflamar ainda mais a crise. Tal interpretação reflete uma visão já recorrente em análises russas: a ideia de que o Ocidente usa métodos indiretos, como revoluções coloridas e ações clandestinas, para minar regimes que resistem à sua influência.
Para Putin, o que ocorreu no Maidan é a síntese de uma política ocidental que, nas palavras dele, "ignora as regras e invade as esferas de influência históricas de outros países". Esse evento se tornou um ponto-chave na construção da retórica russa que busca justificar, ao menos em parte, suas ações posteriores, incluindo a anexação da Crimeia e a intervenção no leste ucraniano.
Em 20 de fevereiro de 2014, franco-atiradores não identificados abrem fogo
contra manifestantes desarmados enquanto avançavam na rua Instituska. De
acordo com uma fonte oficial, 70 manifestantes foram mortos a tiros, Ucrânia, Revolução Maidan. Fonte: Jérôme Sessini.
Manifestantes ucranianos levantam a bandeira nacional durante um dos
dias mais mortíferos da Revolução Maidan (18 de fevereiro de 2014). Fonte: Mstyslav Chernov
Depois de confrontos violentos com a polícia antimotim que fez cerca de 70 vítimas, os manifestantes limpam a praça Maidan, Kiev. Fonte: Jérôme Sessini
Como o Ocidente Treinou a Ucrânia para a Guerra: Assistência Militar e Influência Estratégica
Após a anexação da Crimeia e o início da guerra no Donbass em 2014, a Ucrânia percebeu a necessidade urgente de reformular suas forças armadas. O Exército Ucraniano, que antes enfrentava problemas estruturais, passou por uma profunda modernização com o apoio do Ocidente, principalmente dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Polônia. Esse suporte resultou em mudanças significativas tanto na doutrina militar quanto na capacidade operacional das tropas.
O treinamento militar ocidental desempenhou um papel central nessa transformação. O Exército dos EUA, através de programas como a Operação Fearless Guardian, começou a treinar unidades da Guarda Nacional da Ucrânia, incluindo batalhões como o Azov, que possuíam elementos ultranacionalistas e controversos. Além disso, países como Canadá, Reino Unido e Polônia também forneceram treinamento militar às forças ucranianas. O programa Operation UNIFIER, conduzido pelo exército canadense, treinou milhares de soldados ucranianos, incluindo técnicas de combate e guerra híbrida. O Reino Unido, por meio da Operação Orbital, especializou-se em táticas de infantaria e guerra irregular, enquanto a Polônia auxiliou no treinamento de forças especiais e inteligência militar.
A modernização do exército envolveu a substituição gradual da doutrina soviética por um modelo mais descentralizado e ágil, semelhante ao utilizado pela OTAN. Em vez de comandos rígidos e centralizados, as unidades passaram a operar com maior autonomia, permitindo respostas mais rápidas e flexíveis no campo de batalha.
Além do treinamento, o Ocidente forneceu equipamentos modernos às forças ucranianas, incluindo drones táticos, sistemas de comunicação encriptada e armamentos avançados, como os mísseis Javelin dos EUA e os NLAW do Reino Unido. Paralelamente, houve uma reformulação no sistema logístico e de comando, tornando as operações mais eficientes e coordenadas.
No entanto, esse suporte também gerou controvérsias. Há alegações de que parte do treinamento ocidental teria beneficiado combatentes ligados a milícias paramilitares que atuaram no leste da Ucrânia. Embora não existam provas definitivas de que ONGs e treinadores militares tenham armado diretamente manifestantes ou milicianos, sua influência na formação ideológica e tática de grupos que mais tarde se envolveriam no conflito é inegável.
A transformação das forças armadas ucranianas foi fundamental para sua resistência inicial à invasão russa de 2022. O impacto do treinamento ocidental, aliado à nova mentalidade de defesa nacional e ao uso eficiente de armamentos modernos, permitiu que a Ucrânia enfrentasse um inimigo superior em números e equipamentos, tornando-se um dos exércitos mais experientes da Europa em guerra convencional e irregular.
21ª Brigada da Guarda Nacional Ucraniana em treinamento com Exercito EUA na Operação Fearless Guardian em Yavoriv, Ucrânia. Fonte: U.S. Exército
Instrutores de engenheiros de combate canadenses e americanos demonstram
quebra de portas e procedimentos de limpeza de salas para soldados ucranianos no Centro Internacional de Manutenção da Paz e Segurança em
Starychi, Ucrânia, em 23 de fevereiro de 2017. (Foto: Força-tarefa
Conjunta – Ucrânia)
Soldado ucraniano envolve um alvo como parte do treinamento de guerra
urbana fornecido pelo
pessoal militar canadense durante a Operação UNIFIER no Centro
Internacional de Manutenção da Paz e Segurança (IPSC) em Starychi,
Ucrânia. Fonte: Câmera de Combate das Forças Canadenses, DND
A Guerra em Donbass: "A Proteção das Populações
Russas"
Após a queda de Yanukovych e o
início da Revolução Maidan, as regiões de Donetsk e Luhansk no leste da
Ucrânia, predominantemente russófonas, declararam sua independência. Para a
Rússia, a crescente violência contra as populações russas e russófonas na
Ucrânia, especialmente após a mudança de governo em Kiev, justificava a
necessidade de intervenção. A Rússia acusou o novo governo ucraniano de
realizar uma "operação punitiva" contra os russos do Donbass.
Putin e outros líderes russos,
como o Ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov, frequentemente se
referiam à proteção dos direitos das populações russas no leste da Ucrânia como
uma justificativa para as ações de Moscou. A narrativa russa apresentava a
guerra em Donbass como uma luta contra a “fascistização” da Ucrânia,
argumentando que o novo governo em Kiev havia sido infiltrado por elementos
radicais e nacionalistas, e que a Rússia precisava intervir para evitar uma
repressão sistemática aos russos na região.
A questão linguística no Donbass foi um dos fatores que aprofundaram as tensões entre a Ucrânia e a Rússia, especialmente após a adoção de políticas que restringiram o uso do idioma russo. Em 2014, logo após a queda do presidente Viktor Yanukovych, o Parlamento ucraniano revogou a Lei de Línguas Regionais, que desde 2012 permitia o uso do russo como língua oficial em regiões com grande população russófona, ou seja, região em que a língua russa é amplamente falada. A medida gerou revolta no leste da Ucrânia, contribuindo para o fortalecimento dos movimentos separatistas em Donetsk e Luhansk.
Posteriormente, em 2019, o governo de Volodymyr Zelensky aprovou a Lei da Língua Estatal, que tornou o ucraniano obrigatório em escolas, serviços públicos e na mídia, chegando ao ponto de impor multas para aqueles que utilizassem o russo em ambientes oficiais. A restrição se intensificou em 2020, quando as escolas do Donbass foram obrigadas a substituir o ensino em russo pelo ucraniano, limitando o acesso a materiais e aulas no idioma falado pela maioria da população local. Essas políticas foram rapidamente exploradas pela Rússia, que construiu uma narrativa de perseguição aos falantes de russo, justificando seu apoio aos separatistas e, mais tarde, a invasão de 2022 com o argumento de que era necessário proteger essa população. Além disso, a marginalização de milhões de russófonos dentro da Ucrânia aprofundou as divisões internas, impulsionando o apoio ao separatismo e aumentando a instabilidade na região.
Idiomas mais utilizados na Ucrânia. Novembro de 2018. Fonte: El País.
As forças russas e os separatistas pró russos assumem o controle da vila de Nikolaevka, principal estrada logística das cidades de Donbass - região de Donetsk, Ucrânia em 27 de fevereiro de 2022 • Anadolu Agency via Getty Images
Em 2015, os Acordos de Minsk
foram assinados na tentativa de resolver o conflito, mas a Rússia e a Ucrânia
se acusaram mutuamente de violar os termos. Para Moscou, os acordos foram
prejudicados pela falta de vontade de Kiev de cumprir as disposições que
garantiriam maior autonomia às regiões de Donetsk e Luhansk. Enquanto isso, o
Ocidente, liderado pelos Estados Unidos e pela União Europeia, impôs sanções
econômicas à Rússia, aprofundando a animosidade entre Moscou e o bloco
ocidental.
Líderes dos países negociantes e de Belarus reunidos em Minsk no ano de 2015. Da esquerda para a direita, Alexander Lukashenko, Vladimir Putin, Angela Merkel, Francois Hollande e Petro Poroshenko. Fonte: Kremlin.ru
A relevância dos acordos de Minsk
merece atenção especial, pois eles foram um dos poucos esforços formais para
mediar à crise no Donbass. No entanto, a falta de confiança mútua entre as
partes e as acusações de violações frequentes comprometeram sua implementação.
A percepção russa de que a Ucrânia não cumpria os compromissos do acordo foi
usada como justificativa para intensificar sua presença militar e suporte às
regiões separatistas.
Mais detalhadamente, o Acordo de Minsk II
foi assinado em fevereiro de 2015, como uma tentativa de resolver o conflito
entre a Ucrânia e os separatistas apoiados pela Rússia no leste da Ucrânia. Com
mediação da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), o acordo
tinha como principal objetivo a implementação de um cessar-fogo, a retirada de
armas pesadas e a realização de reformas políticas na Ucrânia. Uma das
principais exigências do acordo era a descentralização do poder e a realização
de eleições nas regiões de Donetsk e Luhansk, controladas por separatistas,
além da troca de prisioneiros e da melhoria das condições humanitárias nas
áreas afetadas pela guerra.
Porém, apesar de sua
assinatura, o acordo não foi efetivamente implementado. Muitos pontos não foram
cumpridos, como a devolução do controle das fronteiras ao governo ucraniano e a
autonomia maior para as regiões separatistas, que eram um dos focos da
negociação. O Kremlin, ao longo dos anos, foi sendo visto como um dos
principais fatores para a falha do processo, já que continuava a apoiar de
maneira encoberta os separatistas e a manter a instabilidade na região. De
fato, Minsk II não pôde evitar o agravamento das tensões e a intensificação dos
combates, especialmente à medida que as partes envolvidas não conseguiram
concordar sobre o formato da solução política.
As consequências do Acordo
de Minsk II foram decisivas para o futuro da guerra: ao não cumprir os
compromissos assumidos e ao falhar em estabelecer uma paz sólida, o acordo
deixou um vácuo de confiança que, com o tempo, se transformou em mais um fator
para o aprofundamento do conflito. Quando a Rússia, em 2022, deu início a uma
invasão em grande escala da Ucrânia, o fracasso de Minsk II ficou evidente,
reafirmando a incapacidade de um acordo diplomático ser eficaz diante de
interesses geopolíticos mais amplos, ligados diretamente à postura do Kremlin
em relação à Ucrânia.
Tentativa para forçar a aplicação do acordo de paz Minsk II 2015. Da esquerda para a direita: Putin(Rússia), Francois Hollande (França), Angela Merkel (Alemanha) e Petro Porshenko (Ucrânia). Fonte: Reuters
Região de Donbas. Fonte: BBC
A Importância Estratégica
da Crimeia
A Crimeia é uma das
regiões mais estratégicas para os interesses da Rússia, tanto do ponto de vista
militar quanto econômico e cultural. Do ponto de vista geoestratégico, a
península é essencial para o controle do Mar Negro, servindo como uma via
de acesso ao Mediterrâneo através do Estreito de Bósforo. Além disso, a base
naval em Sebastopol desempenha um papel central para a projeção de poder
marítimo russo, sendo uma infraestrutura vital por estar localizada em águas
que não congelam no inverno, garantindo operações militares e comerciais durante todo o ano.
Península da Crimeia Fonte: AFP
Essa localização estratégica ainda permite à Rússia monitorar diretamente a
atividade de países da OTAN na região e projetar influência em áreas próximas,
como o Cáucaso. Após a anexação da Crimeia, em 2014, Moscou ampliou
significativamente sua presença militar, fortalecendo sistemas de defesa aérea,
a frota do Mar Negro e reposicionando submarinos equipados com mísseis
balísticos.
Importância estratégica da Crimeia. Fonte: BBC News
Militares em Perevalne, perto da cidade de Simferopol, na Crimeia. Fonte: Carta Capital
Comandos pró russos junto de uma base da guarda costeira ucraniana na Crimeia. Fonte: ALEXANDER NEMENOV/AFP
No campo econômico, a
Crimeia se destaca pela produção agrícola e pela relevância de seus portos
marítimos. A região é uma grande produtora de grãos, girassóis e
outros alimentos, abastecendo tanto o mercado interno russo quanto outros
países. Seus portos, como Sebastopol e Kerch, são fundamentais para o
transporte dessas mercadorias, tornando a Crimeia um ponto logístico essencial.
Para integrar a península à economia russa, foi construída a Ponte da Criméia,
uma obra estratégica que reforça o controle russo sobre o território e facilita
o transporte de recursos. A região também possui importantes reservas de gás
natural e petróleo na plataforma continental do Mar Negro, o que fortalece a
autonomia energética russa e sua capacidade de influenciar mercados
internacionais.
Uma imagem de satélite da Maxar Technologies mostra grãos sendo carregados no casco do navio de bandeira russa Matros Pozynich na Crimeia. Fonte: Maxar
Além disso, a Crimeia
carrega profundo valor simbólico e histórico para os russos. Anexada pela
Rússia Imperial em 1783, a região foi palco de importantes eventos históricos,
como a Primeira Guerra da Crimeia que ocorreu entre 1853-1856 e a Segunda Guerra Mundial entre 1941 e 1945.
Zuavos franceses e soldados russos enfrentam-se na torre Malakoff durante a Batalha de Sevastopol. Fonte:Gustave Doré, The Illustrated London News double page from 22 September 1855.
Nacionalistas dos tártaros da Crimeia.
Foto: RIA Nóvosti
Embora tenha sido
transferida para a Ucrânia em 1954 durante o período soviético, a maioria de
sua população é etnicamente russa, reforçando os laços culturais e a identidade
nacional da região. Após a anexação de 2014, o presidente Vladimir Putin
apresentou a decisão como um retorno ao “porto de origem”, enfatizando que, na
visão de Moscou, a península sempre foi parte do território russo.
Assinatura da Adesão da Crimeia e Sevastopol à Federação Russa. Da esquerda para a direita: Serguey Aksyonov, Vladimir Konstantinov, Vladimir Putin e Aleksei Chaly. Fonte: www.kremlin.ru
A partir de 2014, a Crimeia
também se tornou um epicentro de conflitos geopolíticos. Sua anexação pela
Rússia foi um marco que desafiou a ordem internacional liderada pelo Ocidente,
agravou tensões com a OTAN e gerou sanções econômicas contra Moscou. Ao mesmo
tempo, fortaleceu o controle russo sobre os fluxos comerciais e energéticos no
Mar Negro, garantindo maior influência nos mercados globais e consolidando a Crimeia
como uma barreira estratégica contra potências ocidentais.
Por todos esses fatores, a
Crimeia ocupa um lugar de destaque para a Rússia. Militarmente, protege
interesses estratégicos e expande seu raio de ação. Economicamente, é um ponto
vital de produção, transporte e acesso a recursos naturais. Cultural e
historicamente, reforça a narrativa russa de integração e poder regional. É um
território central para entender os movimentos geopolíticos de Moscou, suas
ambições globais e o impacto de suas ações no cenário internacional.
Situação da Ucrânia antes de 2022. Fonte: Valor.
A “Operação
Militar Especial” em 2022: O Ponto de Não Retorno
Em fevereiro de 2022, o Kremlin
lançou a "Operação Militar Especial" na Ucrânia, uma ação que
rapidamente escalou em uma guerra em grande escala. A justificativa oficial
dada por Putin foi a "desnazificação" e "desmilitarização"
da Ucrânia, além da proteção das populações russas e russófonas, que incluem não apenas os habitantes da Rússia, mas também aqueles em países da ex União Soviética e outras regiões onde o russo é amplamente falado. Para Moscou, a
operação tinha como objetivo garantir a segurança da Rússia contra a crescente
ameaça da OTAN e a aproximação da Ucrânia com o Ocidente.
Invasão ou para a Rússia, a "Operação Militar Especial" começa no dia 24 de fevereiro, em quatro frentes. Foto: Editoria Arte O Globo
Uma das primeiras imagens dos ataques Explosão em Kiev: Rússia ataca a Ucrânia — Foto: escritório presidencial da Ucrânia
Vídeo fornecido pelo Serviço de Fronteiras da Ucrânia, veículos militares Russos passam pelo posto de controle de Armyansk na fronteira Ucrânia-Crimeia, sendo uma das primeiras imagens do conflito — Foto: Reprodução via AP
A narrativa russa, conforme
expressa por Putin, baseia-se em uma ideologia que vê a Rússia como a defensora
de um modelo alternativo ao Ocidente. Para líderes russos como Sergey Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia e Dmitry
Peskov, porta-voz do Kremlin, oficialmente, Peskov ocupa o cargo de Secretário de Imprensa do Presidente da Federação Russa, a guerra é uma luta contra a hegemonia dos
Estados Unidos e a agenda globalista. Em vários discursos, Putin afirmou que a
Rússia estava lutando não apenas pela Ucrânia, mas pela preservação de sua
soberania e valores contra uma ameaça existencial representada pela aliança
ocidental.
Dentro do âmbito militar, um
conceito fundamental para compreender o comportamento de qualquer nação em
tempos de conflito, é a satisfação de um interesse estratégico militar, como pode ser observado na perspectiva da Rússia na guerra contra a Ucrânia. A Rússia busca garantir sua segurança nacional ao impedir a expansão da OTAN para suas fronteiras, proteger as populações russas e russófonas no leste da Ucrânia e assegurar o controle de territórios estratégicos, como a Crimeia e áreas com importantes infraestruturas energéticas. Além disso, a Rússia deseja evitar que a Ucrânia se aproxime ainda mais do Ocidente, preservando sua esfera de influência e evitando a criação de um regime pró Ocidente em seu território. Essa abordagem busca entender a guerra não apenas por suas fronteiras e
ocupações de territórios, mas como uma construção de segurança de longo prazo e
projeção de poder geopolítico. Ao adotar este conceito, é possível desvendar a
perspectiva estratégica da Rússia em relação à guerra na Ucrânia, algo
frequentemente negligenciado por parte da mídia ocidental, que em muitos
momentos deixa de explorar a totalidade das intenções de Moscou. Esse tipo de
análise geopolítica objetiva não é uma manifestação de torcida por uma das
partes, mas sim uma busca por compreender o que está em jogo para a Rússia com
base em suas necessidades históricas, políticas e militares. A Rússia, como qualquer outra nação, toma decisões estratégicas em função de sua história, posição geográfica e as ameaças percebidas, e a compreensão dessas dimensões é essencial para entender suas ações no contexto da guerra. Ao analisar esses fatores, podemos observar que, para a Rússia, a preservação de sua influência na região e a proteção de suas fronteiras são questões centrais, refletindo suas preocupações de segurança e sua visão do equilíbrio de poder global.
Sob o ponto de vista russo, o
início de qualquer processo de negociação de paz está intimamente ligado à
realização de algumas condições essenciais para garantir a segurança nacional e
a estabilidade estratégica da Rússia em relação à Ucrânia e à OTAN.
O primeiro ponto fundamental está
na liberação do Donbass,
abrangendo as regiões separatistas de Donetsk e Luhansk (Lugansk), que são vistas por
Moscou como a base para a segurança russa no sul do País. Não se trata apenas
de uma disputa territorial, mas de um requisito estratégico para a Rússia
assegurar uma zona de buffer (zona tampão), termo que se refere a uma área geográfica intermediária criada para reduzir o risco de confrontos diretos entre potências militares, funcionando como uma proteção às fronteiras de uma nação. Nesse caso, para a Rússia, garantir essa zona de buffer no Donbass significa barrar a presença ocidental mais próxima de suas fronteiras, assegurando sua esfera de influência e diminuindo a ameaça de uma expansão da OTAN e do Ocidente.
Região de Donbass (Lugansk e Donetsk). Fonte: El País
Outras áreas cruciais incluem a região
de Zaporizhzhya, onde o controle parcial até a interseção com o sul de
Donetsk é visto como uma condição imprescindível. Moscou também visa controlar
a margem esquerda do rio Dnieper, uma posição estratégica que possibilita
maior controle sobre os fluxos logísticos e o fluxo de energia no território
ucraniano, consolidando ainda mais o domínio russo sobre a região do leste da
Ucrânia.
Região de Zaporízhia. Fonte: The Jamestown Foundation All rights reserved.
O rio Dniepre, corta a Ucrânia praticamente ao meio. Fonte: Map of the Dnipro River Basin
Com relação ao campo político, a
demanda russa para a neutralidade permanente da Ucrânia é clara e
inegociável. Para Moscou, qualquer movimento que leve à adesão da Ucrânia à
OTAN constitui uma ameaça existencial e não é aceitável dentro da política
externa russa. Nesse contexto, a desmilitarização da Ucrânia se torna
uma prioridade central não apenas no terreno, mas também no que diz respeito a
sua capacidade futura de resistência, ou seja, a destruição das forças
militares ucranianas e a eliminação das capacidades de mobilização humanitária.
Esse ponto, no entanto, é de
extrema complexidade, pois está ligado à redução permanente da capacidade de
combate da Ucrânia perante a Rússia, o que leva a um inevitável nível de
brutalidade, e é lamentavelmente a realidade nua e crua da guerra. Embora, a maioria
das análises ocidentais frequentemente enfoquem os aspectos territoriais da
guerra — vitórias e perdas de terreno — a estratégia russa está voltada para um
objetivo mais complexo, que vai além do controle territorial, como: eliminar a Ucrânia como um Estado funcional, destruindo sua estrutura de poder, sua capacidade militar e, sobretudo, desestabilizando as bases políticas de Kiev, enfraquecendo o governo central e comprometendo a coesão política interna.
De acordo com Mariana Besublaia,
vice-presidente da comissão de defesa da Rada, o sacrifício das melhores
unidades de combate da Ucrânia em batalhas emblemáticas, como a Batalha de
Kursk, expôs as forças ucranianas a uma perda de resistência significativa.
Ela ressalta o impacto direto na moral do exército, destacando o
enfraquecimento da 80ª e 82ª Brigadas de Assalto Aéreo como exemplos claros
disso.
Ataque ucraniano começou pouco após o amanhecer; a princípio, até mil soldados ucranianos invadiram a região de Kursk com cerca de trinta blindados, segundo Moscou — Foto: Editoria de Arte/O Globo
Além disso, um ponto essencial
que deve ser analisado com seriedade é o nível elevado de deserção nas
tropas ucranianas, o que reflete as condições internas do exército e da
população. A 155ª Brigada, uma força treinada por franceses, é
emblemática deste problema, com presidente francês, Macron, já
mencionando em mais de uma ocasião a crise de deserções dentro das forças
ucranianas.
O Deep State ucraniano, em fontes como o Kyiv
Independent, afirmam que o número de desertores ultrapassou a marca de 200
mil apenas em 2024. Esse dado não apenas mostra uma crise interna nas
forças armadas ucranianas, mas também reflete a perda de confiança de uma parte
significativa de seu exército, afetando o desempenho geral e minando qualquer
potencial de uma resistência mais eficaz contra a pressão russa.
Soldados Ucranianos treinam em um campo militar na França, 9 de outubro de 2024. Fonte: Thibault Camus, Pool.
Finalmente, no campo de
batalha, as forças russas enfrentam uma dificuldade logística enorme ao
tentar atravessar o rio Dnieper para expandir seu controle nas duas margens do rio,
elemento estratégico central, especialmente para a tomada e cerco de Odessa,
uma operação ainda indefinida e com complexidades significativas.
As forças russas enfrentam enormes desafios logísticos ao tentar atravessar o rio Dnieper para expandir seu controle nas duas margens. A principal dificuldade está na criação de pontes de tropa seguras, essenciais para o transporte de tropas e armamentos pesados, que são frequentemente alvo de ataques ucranianos. Além disso, a travessia do rio expõe as forças russas à vulnerabilidade ao fogo de artilharia, com as forças ucranianas utilizando pontos elevados ao longo do rio para atacar as linhas russas. A operação também exige o uso de embarcações e pontões (plataformas flutuantes usadas para criar pontes temporárias ou travessias em rios e outros corpos d'água) , sujeitos a ataques, o que dificulta ainda mais o transporte de equipamentos pesados e a mobilidade das tropas. O terreno pantanoso e as condições climáticas adversas, como chuvas intensas e frio extremo, complicam ainda mais a movimentação das forças russas, dificultando a manutenção de uma linha de suprimentos eficiente. Por fim, as defesas fortificadas ao longo do Dnieper, incluindo campos minados e posições camufladas, tornam qualquer tentativa de avanço um grande risco, exigindo esforços consideráveis para superá-las. Esses fatores combinados tornam a travessia do Dnieper um dos maiores obstáculos logísticos e estratégicos para as forças russas na guerra.
As
dificuldades logísticas de atravessar uma região marcada por pontes destruídas
e um terreno complexo não são apenas desafios físicos, mas representações
claras de que a Rússia tem se preparado para um confronto longo e exige grandes
esforços logísticos para cumprir suas condições
estratégicas na Ucrânia.
Oblast de Odessa. Fonte: Depts Cartographic.
Portanto, a guerra na Ucrânia,
sob a ótica russa, não se resume a ganhos territoriais pontuais ou a vitórias
temporárias. A realidade estratégica da Rússia envolve distorcer e destronar
a Ucrânia enquanto uma entidade política funcional, garantir um controle
regional amplo, minimizar a possibilidade de a Ucrânia entrar na OTAN
e, eventualmente, garantir uma neutralidade permanente que imponha os
interesses geopolíticos e militares da Rússia em longo prazo.
Essa visão raramente encontra espaço nas análises midiáticas ocidentais, que tendem a se concentrar principalmente na questão territorial, tratando o conflito de maneira simplificada e sem explorar as complexas motivações e objetivos por trás das ações do Kremlin. A cobertura ocidental, em muitas ocasiões, se limita a uma visão dicotômica, frequentemente inclinada para a perspectiva ocidental, como se seguisse uma narrativa própria, que ignora as realidades políticas e estratégicas da Rússia. Este texto, por sua vez, busca apresentar a perspectiva russa de forma imparcial, reconhecendo os desafios enfrentados pelo Kremlin sem recorrer a julgamentos ou alinhamentos ideológicos, oferecendo uma visão mais ampla sobre as motivações e decisões russas no contexto do conflito.
A Batalha de Bakhmut: Uma Conquista Estratégica Sob a Perspectiva Russa
A Batalha de Bakhmut, que
durou de agosto de 2022 a maio de 2023, foi apresentada por autoridades russas
como um marco estratégico na campanha militar no leste da Ucrânia. O controle
dessa cidade na região de Donetsk, segundo fontes oficiais e lideranças
políticas, representou não apenas um avanço tático, mas também um símbolo do
desgaste infligido às forças ucranianas.
Declarações Oficiais e o
Enfoque Russo: Após a conclusão dos combates e a
conquista de Bakhmut, o Ministério da Defesa da Rússia foi categórico ao afirmar
que a vitória destacou a eficácia das forças armadas russas, em especial a
coordenação entre as tropas regulares e os elementos do Grupo Wagner. O
porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, descreveu o desfecho da batalha como um
"passo crucial" para alcançar os objetivos estratégicos na região do
Donbass.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. Fonte: Sputnik/Sergey Guneev/Kremlin via REUTERS
Evgeny Prigozhin, Ex líder do
Grupo Wagner, desempenhou um papel ativo nas comunicações sobre a batalha,
afirmando em diversos momentos que a captura de Bakhmut demonstrou a eficiência
de seu grupo em condições adversas. Ele destacou o papel das suas forças na
"desarticulação de algumas das principais unidades ucranianas" e
declarou que o custo elevado em baixas havia sido "justificado pela
importância da vitória." Apesar de ter entrado em atrito com o alto comando
militar russo ao longo do conflito, Prigozhin reiterou o impacto significativo
que a batalha teve para o avanço das operações.
Yevgeny Prigozhin em vídeo publicado no Telegram, em 25/05/2023 (Handout / TELEGRAM/ @concordgroup_official/AFP)
Evgeny Prigozhin, empresário russo e fundador do Grupo Wagner, se destacou como uma figura central nas operações de guerra híbrida da Rússia, com presença em conflitos como Ucrânia, Síria e Líbia. Essas operações combinam ações militares convencionais e não convencionais, como o uso de forças proxy e campanhas de desinformação, permitindo à Rússia alcançar seus objetivos geopolíticos sem um envolvimento direto. Através de grupos como o Grupo Wagner, liderado por Evgeny Prigozhin, a Rússia tem operado por meio de mercenários e ações clandestinas, desestabilizando regiões estratégicas e avançando seus interesses, tudo isso enquanto mantém um grau de negação plausível sobre sua participação. Sob sua liderança, Wagner desempenhou um papel crucial na captura de Bakhmut, na Ucrânia, mas suas críticas públicas ao alto comando militar russo, incluindo Sergei Shoigu e Valery Gerasimov, culminaram em uma rebelião armada em junho de 2023, posteriormente interrompida após negociações mediadas por Belarus (Bielorrússia).
A Bielorrússia, sob o regime de Aleksandr Lukashenko, é um forte aliado da Rússia, apoiando as políticas de Vladimir Putin, especialmente no contexto da guerra na Ucrânia. Lukashenko permite o uso do território bielorrusso para operações russas, reforçando a parceria militar e econômica, além de colaborar com Moscou na resistência às sanções ocidentais. A aliança com o Kremlin garante a estabilidade política do regime de Lukashenko e fortalece sua posição frente ao Ocidente.
Putin e Lukashenko durante uma reunião do Conselho Supremo de Estado da União em São Petersburgo, Rússia, 29 de dezembro de 2024. Fonte: Dmitry Astakhov, Sputnik.
Imagens de satélite mostram mobilização de tropas russas na fronteira com a Ucrânia, em Belarus, e implementação de mísseis balísticos Iskander . Fonte: Maxar
Em 23 de agosto de 2023, Prigozhin morreu em um acidente de avião na região de Tver, levantando suspeitas de sabotagem devido ao contexto de sua insubordinação e aos atritos internos no alto escalão da Rússia.
Local onde caíram destroços do avião na região de Tver, na Rússia, em 23 de agosto de 2023 — Foto: Ostorozhno Novosti/Divulgação/Reuters
Prigozhin e o Grupo Wagner com Tropas em Bakhmut alegando controle da Região. Fonte: Reuters
O então Ministro da defesa Russo Sergei Shoigu, à direita, e o então chefe do Estado-Maior Russo e o então primeiro vice-ministro da Defesa, Valery Gerasimov, Moscou, 27
de fevereiro de 2022. Fonte: Alexei Nikolsky, AP
O presidente Vladimir
Putin também comentou a conquista da região de Bakhmut, descrevendo-a como "um resultado sólido
e necessário para a continuidade das operações militares especiais."
Segundo Putin, o controle de Bakhmut não apenas trouxe benefícios táticos, como
também provou que as forças russas eram capazes de "quebrar a resistência
do inimigo, apesar do intenso apoio ocidental às tropas ucranianas."
O presidente da Rússia, Vladimir Putin Foto: SERGEI BOBYLYOV/AFP
Um Símbolo de Resistência
e Cálculo Estratégico: As autoridades russas frequentemente
enquadraram a Batalha de Bakhmut como uma prova do desequilíbrio na relação de
forças com a Ucrânia. Sergei Shoigu, Ministro da Defesa, apontou que a vitória
havia exposto os limites do auxílio estrangeiro aos ucranianos e o quanto o
conflito estava drenando os recursos logísticos do Ocidente.
"Era inevitável que a
cidade caísse, dada a pressão constante exercida por nossas forças e a
determinação em alcançar os objetivos delineados para a campanha no
Donbass," afirmou Shoigu em coletiva de imprensa. Ele também enfatizou o
impacto psicológico sobre as forças ucranianas, que perderam um ponto
estratégico de sustentação nas linhas de frente.
General Shoigu. Fonte: site Defesa aérea e Naval.
A narrativa russa sobre a
Batalha de Bakhmut reforça a ideia de que sua captura foi tanto um feito
militar quanto um marco simbólico em uma guerra de desgaste. Embora as perdas
tenham sido significativas de ambos os lados, para Moscou, a queda da cidade
serviu como um exemplo de sua capacidade de cumprir metas estratégicas, apesar
dos desafios impostos pela resistência ucraniana e o suporte ocidental.
Imagem de drone de sexta-feira mostra destruição em Bakhmut, no leste ucraniano — Foto: Tyler Hicks/NYT
Antes e o depois de Bakhmut. Fonte: Maxar.
A
BATALHA DE MARIUPOL
Partindo de Novoazovsk na
região do Oblast de Donetsk, Donetsk sob domínio separatista desde 2014, uma
força blindada do 8º Exército de armas combinadas da Rússia, sob comando do
General Andrey Mordvichev avançou na direção de Mariupol, rapidamente tomando
as posições defensivas fixas ucranianas na fronteira, enquanto ocorria o avanço
terrestre de blindados, a artilharia avançada da Rússia iniciou a bombardear a
cidade. Defendendo Mariupol, estava posicionada uma força militar Ucraniana de
aproximadamente 7.000 homens, incluindo a guarda nacional, fuzileiros navais e
a 17ª brigada de tanques e o regimento Azov da Ucrânia que era comandado pelo
Major Denis Prokopenko.
General Andrey Mordvichev. Fonte: Pravda
Instituto para estudo da guerra: BBC
Major Denis Prokopenko. Fonte: Observatório.
O antigo Batalhão Azov havia sido integrado a Guarda
Nacional da Ucrânia ainda em 2014, sendo alguns anos depois expandido e
tornando-se um Regimento, a unidade tinha um desenvolvido aparato de propaganda
e publicidade com vídeos em alta resolução de suas ações sendo espalhadas pela
internet, o que tornou-lhe ainda mais um alvo para Moscou, que considera a
unidade um reduto de fascistas e neonazistas, inclusive, há imagens de símbolos nazistas e membros do Batalhão que possuem tatuagens nazistas. O grande culto virtual que o
batalhão Azov criou gerou prioridade para o recebimento de novos armamentos
ocidentais, como Javelin.
Soldado ucraniano segura o
FGM-148 Javelin, um míssil antitanque portátil de fabricação americana
em um posto de controle perto da cidade ucraniana de Kharkiv. Foto: Sergey Bobok/AFP/Getty Images
Soldados do Batalhão Azov. Fonte: Estadão.
Mariupol era ameaçada pelo avanço Russo que estava
nas regiões de Donbass e também pelo avanço do 58º Exército de armas combinadas
da Rússia que saiu de suas bases na Crimeia e avançaram com intensidade no primeiro dia
do conflito atingindo as cercanias de Kherson, as margens do Rio Dnieper, no
dia seguinte o 58º Exército da Rússia atingiu Melitopol, capturando a cidade e seguindo
imediatamente para Berdiansk, uma importante cidade portuária, os militares
Ucranianos conseguiram segurar por alguns dias o avanço das tropas Russas pelo
Leste, mas com a proximidade da linha de frente, um grande número de artilharia
autopropulsada atingiu as cercanias da cidade e iniciou uma devastadora
barragem de fogo que interrompeu o sinal de internet, fluxo de gás natural e a
eletricidade da maior parte dos moradores.
2S7 Pion – um dos canhões autopropulsados mais potentes do mundo, desenvolvido pela União Soviética nos anos 70. Seu canhão de 203 mm pode disparar projéteis convencionais e até nucleares táticos.
Fonte: Ministério da Defesa da Rússia/Global Look Press.
Mapa dos combates em Kherson, no Sul da Ucrânia — Foto: Editoria de Arte
3 de junho 2022, os ponto de conflito. Fonte: O Globo.
No dia 2 de março de 2022, os
militares da linha de frente do 8º e 58º do Exército Russo se uniram ao norte da cidade fechando
o cerco sobre o Mariúpol, cortando a linha de abastecimento, e logístico das
tropa Ucranianas que estavam no interior da cidade e na mesma tarde a
artilharia Russa iniciou uma intensa e destruidora chuva de fogos de artilharia
de 15 horas sobre o Subúrbio da cidade, ocasionando um caos em uma intensidade
imensa. No dia seguinte, Eduard Basurin,
porta voz da milícia da república de Donetsk, emitiu um ultimato aos soldados
ucranianos que defendiam a cidade, ameaçando-os a se renderem ou enfrentarão
ataques precisos e destruidores a suas formações. O general Igor Konashenkov,
Porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia informou que o cerco estava sendo
apertado com a captura de três cercanias ao entorno de Mariupol.
Exército Russo fechando
o cerco sobre o Mariúpol, cortando a linha de abastecimento, e logístico das
tropa Ucranianas que estavam no interior da cidade. Fonte:BBC.
Basurin em 2015, Porta-voz do Comando Militar da RPD (Milícia de Donetks). Fonte: Desconhecida.
Prédio de apartamentos incendiado depois que ele foi atingido pelo bombardeio de um
distrito residencial em Mariupol, Ucrânia, em 11 de março de 2022. (AP
Photo/Mstyslav Chernov, Arquivo)
General Igor Konashenkov,
Porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia. Fonte: Ministério de Defesa da Federação Russa.
Vadym Boychenko, prefeito
da cidade de Mariupol foi a público solicitar a evacuação dos civis da região,
que segundo ele, se encontravam sem água e luz, e isso resultou no início de
uma trégua de 5 horas no dia 5 de março de 2022, em um acordo que seria
monitorado pelo comitê internacional da Cruz Vermelha. A evacuação foi
impossibilitada pela continuação do bombardeio da cidade por unidades da
artilharia Russa e nos dias seguintes negociações para um novo cessar-fogo não
resultaram em acordo, em 12 de março de 2022 as forças Russas iniciaram o
ataque a cidade em si, capturando os subúrbios ao leste de Mariúpol e 48 horas
depois, o primeiro corredor de evacuação foi realizado com a retirada de mais
de 160 veículos civis, Konashenkov disse que 450 toneladas de assistência
humanitária haviam sido trazidas pelo exército Russo e estavam sendo
distribuídas na zona sob controle de suas tropas.
Vadym Boychenko, prefeito de jure de Mariupol, em Kiev no dia 2 de março 2023. fonte: El Pais
Civis deixam Azovstal em operação de passagem segura. Fonte: CICV
Ramzan Kadyrov líder da
Chechênia, esteve brevemente na cidade e gravou vídeos para as redes sociais,
confirmando que tropas Chechenas estavam atuando no cerco a forças ucranianas
no cerco a Mariúpol e nas semanas seguinte um fluxo constante de vídeos
mostrando esses militares em ação na cidade foi espalhado por ele nas redes sociais,
ao mesmo tempo em que as redes sociais do Regimento Azov eram atualizadas com
conteúdos semelhantes, mostrando o lado Ucraniano no combate, chamando a
atenção do mundo todo para a guerra em Mariupol. Nos dias seguintes cerca de
20.000 civis deixaram a cidade e em 18 de março de 2022 tropas russas
capturaram o aeroporto e adentraram o centro de Mariupol e a partir deste ponto
se desenvolveu uma guerra de atrito com lentos avanços, com confronto de casa
em casa sendo feito pelos Russos que sofreram duras baixas de soldados e
equipamentos, foi quando os comandantes do regimento Azov, o tenente coronel
Denis Prakopenka e da 36ª Brigada independente de fuzileiros navais, o coronel
Volodymyr Baranyuk foram condecorados por Kiev com a Estrela Dourada de herói
da Ucrânia, em 20 de março de 2022 um novo ultimato de rendição foi emitido
pelo comando Russo, prontamente rejeitado pela resistência ucraniana na cidade
que já começava a se retirar para o extremo Sul de Mariúpol, dentro do imenso
Complexo da Siderúrgica Azovstal.
O chefe da República Chechena Ramzan Kadyrov em
uma cerimônia de inauguração em Grozny, Rússia, em 5 de outubro de
2021. REUTERS/Chingis Kondarov
Ramzan Kadyrov, líder da Chechênia, em reunião com comandantes do 8º Exército Combinado da Rússia e forças especiais em um centro de operações durante o conflito na Ucrânia. Mariupol, 28 de março de 2022. Fonte: REUTERS
Paramilitares chechenos celebram a “conquista” de Mariupol. Foto: Gazeta do Povo
Mapa do complexo de Azovstal Foto: Editoria de Arte
Operações Noturnas de
evacuação começaram a ser realizadas com helicópteros Ucranianos em 21 de
março, e dois dias depois as autoridades locais, incluindo o prefeito, foram
retiradas de lá. Em 28 de março de 2022, forças Russas capturaram o quartel
general do Regimento Azov e no dia seguinte haviam conseguido separar as tropas
ucranianas na cidade em dois ou três bolsões afastados e distantes um do outro.
A situação para os ucranianos se complicou ainda mais em 2 de Abril de 2022,
quando um batalhão inteiro de fuzileiros se rendeu aos Russos, isolando de vez
o restante da 36ª Brigada de fuzileiros dos Soldados do Azov, a situação
crítica da posição remanescente dos Fuzileiros fez com que seu comandante o
coronel Baraniuk comandasse uma tentativa de ruptura do cerco rumo ao Norte na
noite de 11 de abril de 2022, a tentativa, contudo, foi rapidamente avistada
pelos Russos, ocasionando na fragmentação da força principal em grupos menores
e os Fuzileiros Ucranianos sofreram múltiplas baixas, alguns grupos conseguiram
atingir Azovstal e unir-se ao Regimento Azov, mas Baraniuk acabou capturado
pelos Russos enquanto tentava escapar ao norte da cidade, sendo duramente
criticado por Prakopenka por ter agido unilateralmente, sem qualquer
coordenação com o restante das tropas Ucranianas. Naquela mesma noite um batalhão da 17ª
brigada de tanques, sob comando do Tenente Coronel Oleg Grudzevych, que operava
junto aos fuzileiros, também tentou quebrar o cerco, mas usando um caminhão
diferente do ordenado por Baraniuk, em uma ação, os soldados usaram dois
tanques blindados antiaéreos e veículos civis em uma coluna que quebrou as
linhas defensivas russas na cidade, uma vez no campo, os homens seguiram a pé
até encontrar as linhas ucranianas, em um total de 175 km em 10 dias, o combustível
e a munição haviam acabado, segundo Grudzevych: "Foi quando dividi o pessoal em grupos de 15 a 20
pessoas, tentamos evitar áreas populosas, buscamos alguns vilarejos tentando
conseguir comida, mas muitas pessoas tinham medo de nos ajudar. Finalmente uma
senhora bem idosa nos deu um pouco de leite e biscoitos nos dizendo para dar o
fora dali o quanto antes". Após chegar as linhas ucranianas Grudzevych foi
agraciado pela presidência com a Estrela Dourada de Herói da Ucrânia.
Presidente ucraniano Zelensky concede título de Herói da Ucrânia ao comandante Oleg Grudzevych. Fonte: Espreso
Soldados ucranianos supostamente se rendem ao Exército russo em Mariupol, segundo imagens divulgadas pela TV estatal russa. Fonte: AFP Português.
De volta
a Mariupol, o regimento Azov se encontrava acuado dentro da Azovstal,
utilizando a vasta rede de túneis subterrâneos da Usina para montar uma última
fortaleza na cidade, as forças russas assumiram o controle operacional do porto de Mariupol entre 10 e 13 de abril de 2022. No dia 20 de abril, os russos declararam que a maioria das forças ucranianas na cidade haviam sido eliminadas, restando apenas os combatentes dentro da Azovstal, durante a batalha, pequenos grupos de soldados ucranianos, incluindo membros do 36º Batalhão de Fuzileiros Navais, conseguiram romper cercos russos e se unir ao Regimento Azov dentro da Azovstal. Estima-se que cerca de 500 a 1.000 soldados ucranianos tenham conseguido chegar à siderúrgica entre os dias 12 e 20 de abril. No dia seguinte, 21 de Abril, Vladimir Putin ordenou a paralisação do
ataque direto contra a Usina, que deveria ser apenas bloqueada até que os
Ucranianos ficassem sem suprimentos e essa decisão permitiu que diversas
unidades Russas pudessem ser transferidas de lá, reforçando os eixos de ataque
em Mykolaiv e Donetsk, contudo, ataques aéreos e terrestres foram reiniciados
contra a Usina, alguns dias depois, com fontes Ucranianas atestando que Putin
tinha pressa para celebrar a conquista de Mariupol dentro das comemorações do
dia da vitória no próximo 9 de maio de 2022 . Em 30 de Abril de 2022, civis
refugiados na Azovstal começaram a ser evacuados, e em 3 de maio de 2022 os
Russos recomeçaram os ataques a Usina, dessa vez com mais sucesso, aparentemente
por agora terem informações da distribuição de tuneis repassadas por um ex
funcionário da Siderúrgica, no dia 9 de maio de 2022 os separatistas pró Rússia realizaram
um desfile da vitória pelas ruas de Mariúpol, mas no dia seguinte foi reportado
que cerca de 1000 combatentes ucranianos ainda permaneciam ativos dentro da
Azovstal, finalmente no dia 16 de maio um grupo de soldados Ucranianos saiu da
Usina com uma bandeira branca para negociar a rendição da guarnição.
Comemoração do "Dia da Vitória" em Mariupol, na Ucrânia, em 9 de maio de 2022 — Foto: Alexander Ermochenko/Reuters
Forças ocupantes em Mariupol, na Ucrânia, comemoram o Dia da Vitória. Fonte G1/ O Globo.
Azovstal durante o conflito Ucrânia e Rússia na cidade portuária de
Mariupol, no sul da Ucrânia, em 21 de abril de 2022 Foto: ALEXANDER
ERMOCHENKO / REUTERS
Inicialmente, 264 soldados feridos foram evacuados de lá e enviados para
hospitais no leste e Putin assegurou o tratamento justo para todos os
resistentes que se rendessem, e no dia 18 de maio os bombardeios foram retomados,
devido a lentidão ucraniana em concluir a rendição e em 20 de maio, o auto
comando do Regimento Azov finalmente saiu da Siderúrgica e se entregou as
tropas Russas, encerrando mais de 80 dias de batalha pela cidade. Mariupol
estava destruída com 95% de sua infraestrutura inutilizada pelo maciço
bombardeio, o litoral do mar de Azov encontrava-se agora inteiramente sob
controle de Moscou que com a queda da cidade conclui sua conquista do Corredor
terrestre até a Crimeia. Milhares de mortos entre militares e civis foram
o resultado da batalha, como uma quantidade de mais de 3.500 prisioneiros de
guerra Ucranianos havia caído em cativeiro Russo.
A guerra continuava a rugir
em outras frentes e concluir a captura do Oblast de Donetsk era agora maior
prioridade do Kremlin. Apesar de membros do Parlamento da Rússia sugerirem que
soldados do regimento Azov ficassem de fora do processo de troca de
prisioneiros, já no mês de Agosto, os primeiros militares do regimento começaram
a voltar para a Ucrânia e em 21 de setembro comandantes da unidade, incluindo
Denis Prakopenka foram trocados pelos Russos na Turquia com o compromisso que
deveriam permanecer naquele País enquanto durasse a guerra.
Divulgado pelo Ministério da Defesa da Rússia em 18 de maio de 2022, militares ucranianos se alinham em uma estrada
em frente a militares pró russos depois de deixar Azovstal na cidade
portuária de Mariupol, na Ucrânia Foto: HANDOUT / Handout / Russian
Defence Ministry / AFP)
Zelensky vai a Turquia e retorna com comandantes da guarnição de Mariupol em troca de prisioneiros. Fonte: The Guardian.
Fonte: Maxar/BBC
Líderes e Figuras-chave do Governo Russo.
Vladimir Putin – O
presidente russo é, sem dúvida, a figura central nesse conflito. Sua liderança
é marcada pela crença em uma Rússia poderosa, que deve proteger suas fronteiras
e preservar seu status de grande potência. Para Putin, a perda da Ucrânia para
o Ocidente representaria um golpe fatal para a soberania russa e para sua
própria liderança. Seu discurso nacionalista e sua ênfase na história
compartilhada entre Rússia e Ucrânia têm sido fundamentais para justificar as
ações da Rússia no conflito. Putin começou sua carreira na KGB (Comitê de Segurança do Estado), o serviço de inteligência soviético, onde foi treinado para atuar de forma estratégica e discreta em contextos internacionais. Ele trabalhou como oficial de inteligência na Alemanha Oriental durante a década de 1980, experiência que moldou sua visão pragmática da política global e seu desconforto com o Ocidente. A queda da União Soviética em 1991 o afetou profundamente, e sua crença em restaurar a grandeza da Rússia foi reforçada. Ao voltar para São Petersburgo após a dissolução da URSS, Putin iniciou sua carreira política, tornando-se rapidamente uma figura chave nas administrações de Boris Yeltsin, o primeiro presidente da Federação Russa. Quando Yeltsin renunciou em 1999, Putin, então primeiro-ministro, foi nomeado presidente interino e, em seguida, eleito presidente. Sua experiência na KGB e sua ascensão no aparato de poder russo o ajudaram a consolidar um governo autoritário, caracterizado pelo controle sobre a mídia, a repressão à oposição e a centralização do poder. Ele acredita que a expansão da OTAN e a aproximação da Ucrânia com o Ocidente são ameaças diretas à soberania russa, o que o motivou a ações decisivas no cenário geopolítico.
Vladimir Putin — Foto: Getty Images via BBC
Sergey Lavrov – Ministro
das Relações Exteriores, Lavrov tem sido o principal articulador da política
externa russa, especialmente no que diz respeito à Ucrânia. Sua visão é marcada
pela crença de que a Rússia deve resistir a qualquer tentativa de dominação do
Ocidente. Lavrov frequentemente denuncia a OTAN como uma ameaça à segurança
global e defende a ação russa como uma resposta legítima às ameaças à sua
integridade.Lavrov ingressou no Ministério das Relações Exteriores da União Soviética em 1972, onde se destacou rapidamente pela sua habilidade diplomática e conhecimento profundo das questões internacionais. Durante a Guerra Fria, foi responsável por diversas negociações complexas, sempre com uma postura firme em defesa dos interesses soviéticos e, posteriormente, russos. Com o colapso da União Soviética, Lavrov continuou sua carreira, mantendo uma visão crítica sobre a expansão do Ocidente, especialmente a OTAN, que ele considera uma ameaça à segurança da Rússia. Sua ascensão ao cargo de Ministro das Relações Exteriores em 2004 consolidou sua posição como um defensor incansável da soberania russa. Desde então, ele tem sido uma figura chave na articulação da resposta russa aos desafios globais, incluindo a crise na Ucrânia, sempre defendendo a narrativa russa de que o Ocidente, especialmente os EUA e a UE, estão tentando minar a influência da Rússia e suas fronteiras de segurança. Sua postura inflexível, sua habilidade em lidar com crises diplomáticas e sua defesa do multilateralismo o tornaram uma das figuras mais respeitadas no cenário internacional.
Sergey Lavrov. Fonte: RIAC
Dmitry Peskov –
Porta-voz do Presidente da Federação Russa, Putin, Peskov tem sido a face da narrativa russa no ocidente. Ele
defende vigorosamente as justificativas russas para a intervenção na Ucrânia e
frequentemente aparece em entrevistas e declarações para refutar acusações de
crimes de guerra ou violações dos direitos humanos, reforçando a ideia de que a
operação militar é uma defesa legítima da Rússia. Peskov começou sua carreira no Ministério das Relações Exteriores da União Soviética, onde trabalhou com questões internacionais antes de se aproximar de Vladimir Putin. Ele se tornou uma figura chave na equipe de comunicação de Putin, inicialmente como diretor do Departamento de Informações e Imprensa da Presidência da Rússia, e logo se tornou o principal porta-voz do Kremlin. Sua habilidade em lidar com a mídia e em manter uma postura firme, mesmo diante de críticas ocidentais, o consolidou como um defensor inflexível das políticas de Putin. Ao longo dos anos, Peskov se tornou um dos principais responsáveis por moldar a percepção internacional da Rússia, utilizando sua experiência para gerir as narrativas e responder a desafios políticos e de imagem. Com sua postura calma e profissional, ele frequentemente apresenta a visão russa como uma contraposição direta à narrativa ocidental, defendendo a política externa russa como uma reação legítima às ameaças externas, especialmente à expansão da OTAN e à interferência do Ocidente nos assuntos internos da Rússia e de seus aliados.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. REUTERS/Evgenia Novozhenina/
O papel dos líderes ocidentais também foi crucial para intensificar o conflito. As sanções econômicas impostas à Rússia após a anexação da Crimeia não apenas afetaram severamente a economia russa, mas também reforçaram a narrativa de Moscou de que o Ocidente estava conduzindo uma política hostil. Em resposta, Putin utilizou essa narrativa para mobilizar apoio doméstico, consolidando ainda mais seu controle sobre a política interna e sua posição no cenário internacional
A Influência Ocidental nas Revoluções Ucranianas: A Perspectiva da Rússia
Desde o colapso da União Soviética, a Ucrânia tem sido um dos principais campos de disputa geopolítica entre a Rússia e o Ocidente. Do ponto de vista russo, as mudanças políticas ocorridas no País ao longo das últimas décadas foram impulsionadas por uma intervenção ocidental disfarçada de apoio à democracia. Essa visão se manifesta particularmente em três momentos-chave: a Revolução Laranja (2004), a Revolução Maidan (2013-2014) e o conflito no Donbass, culminando na guerra de 2022.
A Revolução Laranja, segundo narrativas russas, foi amplamente financiada por organizações ocidentais, como a National Endowment for Democracy (NED) e a Open Society Foundations de George Soros. Os protestos que levaram à anulação da eleição de Viktor Yanukovych e à ascensão de Viktor Yushchenko são considerados, sob essa perspectiva, um exemplo de revolução colorida promovida pelos Estados Unidos e pela União Europeia. John McCain e George W. Bush também foram citados como apoiadores das manifestações.
John McCain, senador republicano dos Estados Unidos, foi um defensor firme da Ucrânia em sua situação com a Rússia. Durante as manifestações do Euromaidan (Revolução Maidan) em 2013, ele expressou apoio ao povo ucraniano, denunciando a repressão do governo de Viktor Yanukovych e defendendo a integração da Ucrânia com o Ocidente. McCain também foi um crítico da anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, pressionando por sanções mais duras contra Moscou e apoio militar à Ucrânia, alinhando-se com a defesa de valores democráticos e contra as tentativas de Moscou de minar a soberania ucraniana.
George W. Bush, presidente dos Estados Unidos de 2001 a 2009, teve uma relação de apoio à Ucrânia, especialmente após a Revolução Laranja de 2004. Bush foi um dos primeiros líderes ocidentais a apoiar as aspirações da Ucrânia por uma maior integração com o Ocidente, incluindo a adesão à OTAN. Durante seu mandato, Bush pressionou por uma maior aproximação entre a Ucrânia e as instituições europeias, defendendo a soberania ucraniana e apoiando suas reformas democráticas. Sua administração também criticou a Rússia por tentar exercer influência sobre os assuntos internos da Ucrânia, especialmente em relação à pressão para que o País não se aproximasse da OTAN e da União Europeia.
National Endowment for Democracy (NED). Fonte: Ned.org
George Soros, fundador da Open Society Foundatiom (OSF). Fonte: Openindia.
McCain fala aos manifestantes da Ucrânia: "a América está com você". Fonte: /Dmitry Lovetsky/AP Photo)
George W. Bush e Viktor Yushchenko, após entrevista coletiva conjunta,
em Kiev, em 4 jan. 2008 (Fonte: Casa Branca/Wikimedia Commons/National Archives Catalog)
Em 2013-2014, a Revolução Maidan foi vista pelo Kremlin como um golpe de Estado apoiado pelo Ocidente para substituir um governo pró Rússia por um regime alinhado com os interesses da OTAN. Discursos oficiais russos e reportagens de meios de comunicação estatais destacam a presença de políticos ocidentais, como Victoria Nuland, assistente do Departamento de Estado dos EUA, que foi flagrada no meio das manifestações e posteriormente discutindo a formação do novo governo ucraniano em um telefonema vazado com Geoffrey Pyatt, o então embaixador dos EUA na Ucrânia, também esteve envolvido na articulação do novo governo.
Victoria Nuland era assistente do Secretário de Estado dos Estados Unidos para Assuntos Europeus e Euro-Asiáticos (Assistant Secretary of State for European and Eurasian Affairs). Ela ocupava esse cargo no Departamento de Estado dos EUA e foi uma figura chave na formulação da política externa dos EUA em relação à Ucrânia, especialmente após a crise política e a anexação da Crimeia pela Rússia.
O Geoffrey Pyatt era o Embaixador dos Estados Unidos na Ucrânia. Ele assumiu o cargo em 2013 e foi um dos principais diplomatas dos EUA envolvidos na resposta à crise política e à anexação da Crimeia pela Rússia em 2014.
Pyatt desempenhou um papel central nas interações dos EUA com o governo ucraniano durante o Euromaidan (revolução Maidan) e a subsequente mudança de governo, além de se envolver nas negociações sobre a situação na Crimeia e no leste da Ucrânia. Ele foi uma figura importante no apoio à Ucrânia e na coordenação das sanções internacionais contra a Rússia.
Além disso, destaca-se o papel de ONGs e treinadores militares ocidentais que teriam preparado manifestantes e grupos paramilitares (organizações armadas que operam fora do controle do exército regular, muitas vezes com objetivos políticos ou ideológicos).
Victoria Nuland, na praça Maidan, as vésperas da revolução de 2014 na Ucrânia. (reprodução)
Gravação de um telefonema postado no YouTube
parece fornecer detalhes de uma conversa diplomaticamente sensível entre
os EUA. Secretária de Estado adjunta Victoria Nuland e o Embaixador EUA na Ucrânia Geoffrey Pyat. Fonte: AFP/Reuters (RFE/RL)
O conflito no Donbass, iniciado em 2014, e a guerra de 2022, são interpretados pela Rússia como consequências diretas dessa interferência. Moscou alega que mercenários e instrutores ocidentais atuaram ao lado do exército ucraniano e que os EUA e seus aliados forneceram apoio logístico e militar ao governo de Kiev. O presidente Joe Biden, ainda como vice-presidente dos EUA, foi apontado por autoridades russas como uma figura central no apoio ao governo pós Maidan. A Rússia também acusou figuras como Jens Stoltenberg, na época secretário-geral da OTAN, e Boris Johnson, ex-primeiro-ministro do Reino Unido, de intensificarem o apoio militar e diplomático à Ucrânia.
Assim, sob a perspectiva russa, a Ucrânia tornou-se um peão em uma guerra híbrida travada pelo Ocidente contra a Rússia, onde as mudanças políticas e os conflitos armados foram instrumentalizados para enfraquecer a influência russa na região.
Joe Biden e Jens Stoltenberg. Fonte: OTAN(NATO)
Boris Johnson. Fonte: Estadão/GP1
A guerra híbrida é uma estratégia que combina diferentes formas de conflito — militares, políticas, informacionais e econômicas — para enfraquecer um adversário sem recorrer a uma guerra convencional direta. Frank Hoffman (2007) define esse tipo de guerra como a fusão de táticas convencionais, guerra irregular, terrorismo, operações psicológicas e desinformação, criando um campo de batalha complexo e dinâmico. Para Valery Gerasimov (2013), essa abordagem reduz a distinção entre guerra e paz, pois as operações começam antes mesmo dos combates diretos, desestabilizando governos e sociedades de dentro para fora.
Além disso, McCuen (2008) destaca que a manipulação da informação e da percepção pública é um dos pilares da guerra híbrida, pois influencia governos, instituições e até populações inteiras sem a necessidade de ocupação territorial. Isso se aplica especialmente ao cenário ucraniano, onde as narrativas e as ações no campo político e midiático foram tão determinantes quanto os combates físicos.
Abaixo, há um diagrama mais completo explicando o conceito e seus elementos principais:
Guerra Híbrida, História Militar em Debate. Fonte: Reis Friede.
Cúpula do "Formato Normandia": O Último Diálogo oficial e Confirmado entre Putin e Zelensky.
A última reunião confirmada entre Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky ocorreu em 9 de dezembro de 2019, durante a Cúpula do Formato Normandia em Paris. O objetivo principal do encontro foi buscar uma solução diplomática para o conflito no leste da Ucrânia, que já se arrastava por mais de cinco anos. Juntamente com os líderes da França e da Alemanha, Emmanuel Macron e Angela Merkel, os presidentes discutiram questões como cessar-fogo e troca de prisioneiros. No entanto, apesar das negociações, a reunião não gerou avanços concretos. Zelensky pressionou pela retirada das forças russas e pela restauração da soberania ucraniana, enquanto Putin insistiu na autonomia das regiões separatistas deDonetsk e Luhansk, no leste da Ucrânia, que são controladas por forças pró Rússia desde 2014.
Esse impasse se refletiu diretamente no resultado da cúpula, como apontado pela BBC News, que descreveu o encontro como uma tentativa de reiniciar as negociações, mas sem grandes progressos. A Reuters também destacou que, embora a reunião tenha sido um fórum para o diálogo, as partes mantiveram posições opostas sobre o futuro da Ucrânia, sem chegar a um consenso. Além disso, a Al Jazeera observou que, apesar das intenções de buscar uma resolução pacífica, as questões fundamentais sobre a soberania ucraniana e as regiões separatistas permaneciam sem solução.
Esse cenário de estagnação nas negociações foi um reflexo direto do crescente impasse entre os dois líderes, preparando o terreno para a escalada que culminaria na invasão russa da Ucrânia em 2022, um evento que alteraria drasticamente a dinâmica geopolítica e de segurança mundial.
Putin e Zelensky no "Formato Normandia", em dezembro de 2019, com o
Presidente francês, Emmanuel Macron, e a antiga chanceler alemã, Angela
Merkel. Fonte: Alexei Nikolsky/TASS/picture alliance
Emmanuel Macron dá as boas-vindas a Volodymyr Zelensky e a Vladimir Putin no chamado Formato da Normandia. Fonte: Financial Times
Base
Ideológica: A Luta pelo "Mundo Russo"
A ideologia por trás da narrativa
russa sobre a Ucrânia está profundamente enraizada no conceito de Russkij
Mir, ou "Mundo Russo", uma teoria que defende a ideia de que
todos os russos e russófonos, incluindo aqueles na Ucrânia, pertencem a uma
comunidade cultural, histórica e linguística única. Este pensamento é vital
para entender a posição do Kremlin, que vê a perda de qualquer território com
uma significativa população russa como uma ameaça direta à identidade nacional
e à continuidade do Estado russo. A noção de "Russkij Mir" transcende uma
simples política territorial; é uma declaração de soberania cultural que
permeia a própria estrutura ideológica do governo de Vladimir Putin.
O presidente russo, ao
longo de sua liderança, recorre com frequência à história como um pilar fundamental
para justificar a anexação da Crimeia e a intervenção no leste da Ucrânia. Para
Putin e seus aliados, regiões como a Crimeia sempre foram parte da Rússia, um
elo histórico que justifica as ações do Kremlin, muitas vezes contrastando com
a visão ocidental que defende a independência da Ucrânia. No entanto, para
Moscou, a independência ucraniana — particularmente no contexto de uma
reaproximação com o Ocidente — é vista como uma ameaça à integridade e ao
“destino comum” da região.
Esse princípio ideológico
foi um motor decisivo durante o processo de anexação da Crimeia em 2014 e,
subsequente, ao justificar as intervenções militares nas áreas de Donetsk e
Lugansk, no Leste ucraniano e a guerra de 2022 na Ucrânia, ou nas palavras da Rússia,a "Operação Militar Especial". Na ótica russa, essas regiões são vistas não
apenas como partes historicamente ligadas à Rússia, mas como bastiões de uma
identidade que deve ser protegida contra um Ocidente considerado invasor e que
desrespeita essas raízes históricas. De fato, Putin frequentemente utiliza as
narrativas históricas, como as alegações de que a Crimeia e o leste da Ucrânia
sempre foram parte integral da Rússia, argumentando que a questão da Ucrânia é
uma questão de sobrevivência para o Estado russo.
O que o Kremlin entende
como uma "questão territorial" vai muito além dos limites
geográficos. A ideologia do Russkij Mir postula que a separação de um
território considerado russo não é apenas uma perda política, mas uma
desintegração da unidade cultural e histórica de um "povo" unido, que
se estende da Rússia à Ucrânia, às vezes até mesmo à Bielorrússia. Essa
ideologia revela uma tentativa de Moscou de reconquistar uma esfera de
influência que ela perdeu com o colapso da União Soviética, ao mesmo tempo em
que tenta preservar uma espécie de "poder global" capaz de
contrabalançar a hegemonia ocidental.
A Revolução Maidan não foi apenas um evento político ou um levante popular contra um governo pró russo. Para Moscou, foi uma afronta direta à sua influência histórica sobre a Ucrânia e um exemplo claro da estratégia ocidental de minar sua segurança regional. O Kremlin sempre enxergou a Ucrânia como parte essencial do Russkiy Mir – o “Mundo Russo” –, um conceito que mistura identidade cultural, histórica e política, justificando sua postura agressiva sempre que Kiev se distancia de sua órbita.
A retórica russa sobre Maidan se encaixa perfeitamente nesse contexto. Para Putin, a deposição de Yanukovych foi resultado de uma intervenção ocidental disfarçada de revolução popular, semelhante às chamadas Revoluções Coloridas que atingiram outros países pós-soviéticos. A ideia central é que os EUA e a União Europeia não apenas incentivaram, mas diretamente influenciaram os protestos, fornecendo suporte político, midiático e até operacional para grupos opositores.
Após Maidan, essa visão se consolidou e passou a justificar as ações da Rússia na Ucrânia. A anexação da Crimeia em 2014 foi apresentada como uma resposta legítima ao "golpe" em Kiev, com Moscou argumentando que estava protegendo os russos étnicos e garantindo sua segurança contra um governo que, segundo o Kremlin, era controlado por forças ocidentais hostis. O mesmo discurso foi amplificado na guerra do Donbass e, anos depois, na invasão em larga escala da Ucrânia em 2022.
Dentro dessa narrativa, a luta da Rússia não é apenas contra Kiev, mas contra um projeto maior de dominação ocidental. Para Moscou, os eventos de 2014 foram um ponto de virada que confirmou a necessidade de uma resposta mais agressiva. Desde então, Putin reforça a retórica de que a Ucrânia não é um Estado soberano, mas uma extensão artificial da Rússia, e que seu realinhamento com o Ocidente representa uma ameaça existencial que justifica qualquer medida necessária para restaurar a ordem dentro do “Mundo Russo”.
Ilustração de Olga Kuzmina que simboliza o "Mundo Russo".
A
Influência da Mídia Ocidental nos Rumos da Guerra da Ucrânia
Exposição Excessiva de
Estratégias e Movimentações: Desde o
início do conflito entre a Ucrânia e a Rússia, a atuação da mídia ocidental tem
sido um fator relevante para os desdobramentos estratégicos. A cobertura
intensiva frequentemente revelou informações estratégicas e táticas cruciais da
Ucrânia. Por exemplo, ao relatar movimentações de tropas, fornecimento de
armamentos ou locais de combate, a mídia acabou fornecendo dados valiosos a Rússia. Essa exposição pode ter comprometido operações militares que
dependiam de sigilo e surpresa, reduzindo a eficácia dos esforços de guerra
ucranianos.
Um exemplo aconteceu em julho de 2023, quando a CNN divulgou detalhes sobre um plano da Ucrânia para atacar a ponte da Crimeia com drones marítimos explosivos. A matéria, baseada em fontes anônimas do governo ucraniano, explicava como os drones foram desenvolvidos para atingir essa infraestrutura, que é essencial para a logística russa na guerra.
Pouco depois da publicação, a Rússia reforçou a segurança da ponte, aumentando as defesas e a vigilância contra ataques marítimos. Com isso, as forças russas conseguiram se preparar melhor, dificultando futuras operações ucranianas.
Julho de 2023, CNN.
Narrativas Polarizadoras e
Simplificadas: A mídia ocidental frequentemente reduziu o conflito
a uma luta "entre o bem e o mal", ignorando as complexidades
históricas e culturais da região. Essa abordagem contribuiu para estigmatizar
parte da população ucraniana, especialmente nas regiões do leste com maior
ligação à Rússia, dificultando os esforços de unificação nacional que eram
fundamentais durante o estado de guerra. Ao reforçar dicotomias simplistas,
essas narrativas criaram divisões internas que foram exploradas pela Rússia
para fortalecer sua posição estratégica.
Exploração Sensacionalista do
Sofrimento Humano: A
exploração sensacionalista de tragédias humanitárias também teve seus efeitos
adversos. Enquanto imagens e relatos de vítimas civis ajudaram a sensibilizar o
público global, a ênfase incessante nas dificuldades da Ucrânia pode ter desmoralizado
a população local e inflado a percepção de invencibilidade da Rússia. Essa
abordagem, embora eficaz para mobilizar atenção inicial, acabou por enfraquecer
o ânimo ucraniano em momentos críticos.
Divisão de Opiniões no Ocidente:A intensa cobertura do conflito também fragmentou
opiniões entre governos e populações dos países aliados à Ucrânia. Relatos
sobre corrupção na utilização de ajuda internacional ou críticas à gestão
militar ucraniana enfraqueceram o apoio político em algumas nações. Essas
dúvidas geraram hesitações quanto à continuidade de sanções e ao envio de
recursos, beneficiando diretamente a Rússia, que aproveitou essas divisões para
prolongar o conflito.
Foco Desproporcional no Conflito
Inicial: A atenção
da mídia foi massiva no início da guerra, mas gradualmente diminuiu à medida
que outros eventos globais surgiram. Essa perda de visibilidade prejudicou os
esforços da Ucrânia em manter o apoio internacional e a solidariedade em níveis
anteriores. A chamada "fadiga da guerra" tornou mais difícil
mobilizar recursos e atenção suficientes em uma fase prolongada do conflito,
reduzindo o impacto de campanhas posteriores.
Impacto nas Operações de
Mercenários e Forças Especiais: A mídia também influenciou as
narrativas relacionadas ao uso de forças estrangeiras.
No caso da Ucrânia, reportagens
que descredibilizaram combatentes estrangeiros voluntários, tratando-os muitas
vezes como mercenários desorganizados, minaram os esforços para reforçar as
tropas com aliados experientes. Já a Rússia, por outro lado, utilizou grupos
como o Wagner para complementar suas operações militares. A abordagem midiática
ocidental focou exclusivamente em expor os crimes dessas unidades, mas deixou
de contextualizar seu papel estratégico para equilibrar as limitações do
exército regular russo.
Lições para Futuros Conflitos: A superexposição de estratégias,
a criação de narrativas polarizadoras e o tratamento sensacionalista de eventos
destaca como a gestão da informação pode influenciar significativamente os
rumos de uma guerra. A análise da interação entre mídia e guerra no caso do
conflito ucraniano evidencia a importância de reportagens estratégicas e
responsáveis, que consigam sensibilizar a opinião pública globalsem comprometer os esforços em campo.
A cobertura da mídia ocidental, ao enfatizar que a Rússia estava ficando sem munição, criou um erro estratégico ao ignorar a complexidade da situação no campo de batalha e subestimar a resiliência do Kremlin. Ao divulgar constantemente essas previsões de um colapso iminente das forças russas, a narrativa jornalística gerou uma falsa sensação de segurança no Ocidente. Em vez de fornecer uma análise detalhada e realista sobre os desafios enfrentados pela Ucrânia, muitas reportagens apresentaram o conflito como uma questão de tempo até que a Rússia se enfraquecesse, desconsiderando os obstáculos logísticos e estratégicos que a Ucrânia enfrentava. A falta de uma visão equilibrada e profunda sobre a resistência ucraniana alimentou um erro de percepção, fazendo com que tanto a população quanto os formuladores de políticas ocidentais subestimassem a duração e a intensidade do confronto.
As consequências desse erro de análise estratégica foram evidentes. Primeiro, gerou uma expectativa irrealista sobre a rápida vitória ucraniana, o que pressionou os líderes ocidentais a adotarem uma postura mais apressada e sem uma visão clara do longo prazo. A desinformação também causou divisões internas nos países aliados, com grupos questionando a eficácia do apoio contínuo à Ucrânia, o que enfraqueceu a unidade da coalizão ocidental. Mais importante ainda, a mídia não conseguiu antecipar a capacidade da Rússia de se reestruturar e resistir, levando a uma escalada do conflito sem que o Ocidente estivesse devidamente preparado para enfrentar uma guerra prolongada, o que impactou diretamente as negociações e a resposta diplomática.
Da Reuters , em Londres
Kiev 6 de Fevereiro 2022. Civis treinam táticas de guerrilha duas semanas antes do inicio da guerra. Fonte: Oksana Parafeniuk
Conclusão:
A Visão Russa do Conflito
Desde 2004, a Rússia tem
visto a Ucrânia não apenas como um País vizinho, mas como uma parte fundamental
de seu espaço geopolítico, estratégico e cultural. A partir desse momento, as tensões
começaram a crescer, especialmente após a Revolução Laranja, quando a Ucrânia
buscou se afastar da influência russa e se aproximar do Ocidente, gerando uma
série de intervenções por parte de Moscou. Essas ações, incluindo a anexação da
Crimeia em 2014 e os conflitos no Donbass, prepararam o terreno para a guerra na Ucrânia ou para a Rússia, a Operação
Militar Especial de 2022, um movimento considerado por Moscou como uma defesa
de sua soberania, segurança e identidade nacional.
Para a Rússia, o conflito
com a Ucrânia é visto como mais do que uma simples disputa territorial. É uma
luta existencial contra o Ocidente, que, segundo Moscou, busca expandir sua
influência na região, ameaçando os interesses russos e desestabilizando a ordem
geopolítica desejada pelo Kremlin. Essa visão, contudo, raramente é explorada
nas análises da mídia ocidental, que tendem a se concentrar na questão
territorial, muitas vezes tratando o conflito de forma simplificada e sem levar
em consideração as motivações mais profundas por trás das ações de Moscou.
Em grande parte da
cobertura ocidental, a narrativa parece inclinar-se para uma perspectiva única,
sem considerar a complexidade das decisões russas. Este texto, por outro lado,
busca apresentar a perspectiva russa de maneira imparcial, analisando os
desafios enfrentados pelo Kremlin e oferecendo uma visão mais completa das
motivações e objetivos por trás das ações da Rússia no conflito.
Assim, a Rússia, ao longo
dos últimos anos, tem reforçado sua posição por meio de uma combinação de força
militar e uma diplomacia agressiva, buscando não apenas preservar sua
integridade territorial, mas também consolidar sua soberania e resistir ao
avanço da influência ocidental. A retórica nacionalista e as declarações de
líderes como Vladimir Putin, Sergey Lavrov e Dmitry Peskov reforçam essa narrativa,
enquanto o Kremlin tenta mobilizar a opinião pública interna e garantir o apoio
da comunidade internacional para sua causa.
Vale destacar que este texto não reflete minha opinião pessoal sobre o conflito, mas sim uma análise das motivações e ações da Rússia com base nas perspectivas geopolíticas e estratégicas do Kremlin. A intenção foi apresentar uma visão diferente do conflito, levando em consideração os múltiplos fatores que influenciam as decisões de Moscou, sem simplificações ou julgamentos unilaterais.
Se quiser aprofundar ainda mais o conhecimento sobre o conflito na Ucrânia, tenho outros textos abordando diferentes perspectivas e linhas de análise:
📌 "A Origem da Ucrânia e o Conflito com a Rússia" ( postado emmarço de 2024) – um panorama sobre a formação da Ucrânia e suas tensões históricas com a Rússia.
📌 "O Envolvimento dos EUA na Ucrânia (2004 – até o Presente momento) – Partes 1 e 2" ( postado emdezembro de 2024) – uma análise detalhada do papel dos EUA no cenário ucraniano ao longo das últimas décadas.
Caso queira ampliar ainda mais a visão sobre o tema, vale a pena conferir esses textos.
Escrito e produzido por: Gabriel Chagas.
Entusiasta por Geopolítica, Espionagem, Relações Internacionais e Autor do Blog Mundo em Conflito.
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Assim você fortalece este espaço de análises profundas sobre geopolítica, espionagem e relações internacionais.
Referências:
AL JAZEERA. Putin e Zelensky em diálogo sem resultados concretos durante a cúpula de Paris. 9 dez. 2019.
AGÊNCIA REUTERS. Cúpula do formato Normandia termina sem consenso entre líderes russos e ucranianos. 9 dez. 2019.
AGÊNCIA REUTERS. Rússia reivindica controle total de Bakhmut após meses de batalha. Reuters.
BBC NEWS. A importância da Crimeia para a Rússia e para a Ucrânia. BBC News, .
BBC NEWS. Como Wagner tomou Bakhmut e o impacto da batalha para Rússia e Ucrânia. BBC News.
BBC News. Cúpula de Paris não gera avanços significativos entre Putin e Zelensky. 9 dez. 2019.
BEZUBLAIA, Mariana. Conflitos contemporâneos e a crise no Donbass.
CANAL SALA DE GUERRA. Como a Rússia venceu a sangrenta batalha de Mariupol. Produção: Júlio César Guedes.
DEUTSCHE WELLE (DW). Prigozhin: PMC "Wagner" vai transferir posições em Bakhmut para "Akhmat". DW.
DUUGIN, Alexander. A geopolítica russa e a nova ordem mundial. Moscou: Eurasia, 2018.
KIEV INDEPENDENT. Deserções nas forças ucranianas: impacto no conflito. Kyiv Independent, 2024.
LARUELLE, Marlene. Is ‘Russkiy Mir’ the Russian Soft Power? Post-Soviet Affairs, v. 35, n. 3, p. 181-195, 2019.
LÚNIN, Serguéi. Como a língua nos ajuda a entender a guerra na Ucrânia. Certas Palavras, 2022.
MEARSHEIMER, John J. Why the Ukraine Crisis Is the West's Fault: The Liberal Delusions That Provoked Putin. Foreign Affairs, v. 93, n. 5, p. 77-89, 2014.
NOLAN, Cathal J. The Allure of Battle: A History of How Wars Have Been Won and Lost. Oxford University Press, 2017.
PUTIN,
Vladimir. Address by President of the Russian Federation. Kremlin, 18
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http://en.kremlin.ru/events/president/news/20603.
PUTIN, Vladimir. Discurso sobre a Revolução Laranja e as tensões com o Ocidente. 2014.
RT - RUSSIA TODAY. Forças russas avançam em Mariupol e consolidam controle sobre Bakhmut.
RUSSIA TODAY. Russia’s ammunition stocks: Myths vs. reality. RT News, 14 jun. 2022.
SNYDER, Timothy. The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America. New York: Tim Duggan Books, 2018
SNYDER, Timothy. The war in Ukraine: A history of miscalculations. Foreign Affairs, 24 mar. 2022.
SUSLOV, Mikhail. Russian Conservatism and the Ideology of Putinism. Slavic Review, v. 78, n. 3, p. 600-620, 2019.
O Mossad, serviço de inteligência estrangeira de Israel, é conhecido mundialmente por suas operações ousadas e eficazes, que frequentemente desafiam a lei e a diplomacia para proteger o Estado de Israel. Criado alguns meses após a fundação do Estado Israelense em 1948, o Mossad transformou-se em um dos órgãos de inteligência mais sofisticados e temidos do mundo, sendo responsável por operações de captura de nazistas fugitivos, resgates de reféns e eliminação de alvos considerados ameaças existenciais. Ao longo das décadas, a agência acumulou uma reputação de precisão, inovando em tecnologias e táticas que frequentemente anteciparam outras organizações de inteligência. Conhecido por sua rede extensa de informantes e operações secretas que abrangem todos os continentes, o Mossad influencia a geopolítica e atua como uma espécie de braço invisível de Israel, muitas vezes à margem dos olhares públicos. Vamos mergulhar na trajetória dessa agência, explorando sua história, divisões secret...
A palavra “inteligência” costuma ser associada a agentes secretos atravessando fronteiras, operações clandestinas ousadas e tramas sofisticadas dignas de grandes produções cinematográficas. Esse imaginário popular moldado por filmes e séries cria fascínio, mas está muito distante da realidade. No mundo real, inteligência é um campo técnico, metódico, burocrático e profundamente analítico, um campo cujo objetivo não é ação espetacular, mas a redução de incertezas para que governantes tomem decisões estratégicas mais seguras. O primeiro conceito essencial é compreender que “inteligência” não é sinônimo de espionagem. Espionagem é apenas uma ferramenta possível, utilizada dentro de um processo muito mais amplo. Inteligência, em sua definição precisa, é a atividade sistemática de coletar, processar, analisar e interpretar informações relevantes para a segurança de um Estado. Consiste em transformar dados fragmentados, muitas vezes contraditórios, incompletos ou dispersos, em conhecimento...
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