A relação entre Irã, Israel e Arábia Saudita transcende disputas geopolíticas, sendo profundamente marcada por
ideologias enraizadas nas esferas religiosas e políticas. A Revolução Islâmica
de 1979 representou um divisor de águas nesse cenário, onde o Irã passou a
assumir um papel central na contestação da influência ocidental no Oriente
Médio. A partir daí, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) se consolidou como
um pilar fundamental não apenas na defesa do regime teocrático iraniano, mas
também na exportação da revolução islâmica, expandindo sua atuação para além
das fronteiras do País. A Guarda se destaca de outras forças armadas
tradicionais por sua missão de proteger o regime, o que inclui o fortalecimento
de movimentos jihadistas aliados ao Irã em diversas partes do mundo.
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| Bandeira da Arábia Saudita - Fonte: Mundo Educação |
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A Expansão da Influência
Iraniana Através das Proxy Wars
A influência iraniana é
especialmente perceptível quando analisamos a atuação das Forças Quds, o braço
externo da IRGC, responsável por liderar operações de apoio a grupos proxy. A
estratégia iraniana de utilizar essas forças aliadas, ao invés de envolver-se
diretamente em confrontos, caracteriza-se pela chamada proxy war, ou guerra por
procuração.
A guerra por procuração é
um tipo de conflito indireto em que uma nação poderosa apoia forças locais,
milícias ou grupos insurgentes para lutar em seu lugar contra um inimigo comum,
em vez de se envolver diretamente com tropas oficiais ou declarar guerra
formal. Em vez de enviar suas próprias forças para a linha de frente, países
como o Irã, através das Forças Quds, fornecem treinamento, financiamento e
armamento para grupos aliados que compartilha objetivos estratégicos, como a
desestabilização de regiões controladas por seus adversários. Essa estratégia
permite que o País influenciador cause impacto significativo, mantendo certo
nível de 'distância' política e evitando as repercussões de um envolvimento
aberto. No caso do Irã, essa abordagem ajuda a proteger seus interesses
regionais sem comprometer suas forças ou sofrer as consequências diretas de uma
guerra convencional.
Esse tipo de conflito
permite ao Irã desestabilizar seus adversários sem arcar diretamente com os custos
políticos e militares de um envolvimento formal.
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Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Irã, Forças Quds. Fonte: Wikipédia.
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Mapa do Oriente Médio — Foto: Reprodução/Jornal Nacional, G1.
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Redes Proxies do Irã
O Irã desenvolveu uma
vasta rede de grupos Proxy no Oriente Médio, que desempenham papéis cruciais em
sua estratégia de projeção de poder. Aqui estão algumas das principais redes
Proxy conhecidas:
Hezbollah
(Líbano) - Um grupo xiita que recebeu treinamento e financiamento do Irã. O
Hezbollah é uma das principais ferramentas de influência do Irã na região.
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Símbolo do Hamas. Fonte: Wikipédia
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| Mapa do Líbano. Fonte: Brasil Escola |
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Hamas
(Gaza) - Embora seja um grupo sunita, o Hamas tem recebido apoio logístico e
financeiro do Irã, especialmente em tempos de conflito com Israel.
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| Símbolo do Hamas. Fonte:
White Banner Template.svg:
Yellow Sword. |
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| Mapa de Localização da Faixa de Gaza. Fonte: Brasil Escola |
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Jihad Islâmica Palestina
(Gaza) - Outro grupo sunita, que também se beneficia do apoio iraniano.
Unidades de Mobilização
Popular (PMU) (Iraque) - Um grupo de milícias
predominantemente xiitas que lutaram contra o ISIS e agora desempenham um papel
político significativo no Iraque.
Asa'ib Ahl al-Haq
(Iraque) - Uma milícia xiita que se originou como parte da resistência contra a
ocupação americana e é fortemente alinhada com o Irã.
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Asaib Ahl al-Haq logo - Fonte: Washington institute
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Banda de Khomeini
(Iêmen) - Os Houthis (Ansar Allah), um grupo rebelde xiita, têm recebido apoio do Irã em sua
luta contra o governo saudita. Sobre a expressão "Banda de Khomeini", no contexto do Iêmen, onde
os Houthis adotam ideais semelhantes aos do regime iraniano e recebe apoio de
Teerã, essa expressão é empregada por críticos, especialmente pela Arábia
Saudita e seus aliados, para retratá-los como “extensões” da política iraniana,
alinhados à “linha de Khomeini.”
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| Houthis "Ansar Allah". Fonte: Wikipédia. |
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Liwa Fatemiyoun
(Síria) - Composto principalmente por combatentes afegãos, este grupo foi
criado para lutar ao lado das forças sírias na guerra civil.
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| Bandeira do Liwa Fatemiyoun - Fonte Blog: Almanaque dos Conflitos |
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Liwa Zainebiyoun
(Síria) - Composto principalmente por combatentes paquistaneses, também luta ao
lado das forças sírias.
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Liwa Zainebiyoun - Fonte: Wikipédia. لواء زينبیون |
Exemplo Recente: Hezbollah
e o Porto de Beirute (2020).
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Momento da explosão em Beirute | Foto: GABY SALEM/ESN/AFP| Foto: Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/nitrato-amonio-explosao-beirute/ Copyright © 2024, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados. |
Um exemplo claro dessa
dinâmica pode ser observado na explosão do porto de Beirute em agosto de 2020.
Embora a causa oficial tenha sido o armazenamento inadequado de nitrato de
amônio, a influência do Hezbollah sobre as operações portuárias foi amplamente
questionada. O grupo, que exerce considerável controle político e militar no
Líbano, é um dos principais atores no jogo de poder iraniano na região. Sua
capacidade de manter uma postura beligerante em relação a Israel, mesmo em meio
a uma crise econômica e social no Líbano, exemplifica a eficácia da estratégia
de Proxy do Irã.
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Representação de alguns grupos que recebem suporte Iraniano e travam Guerras por Procuração no Oriente Médio. Fonte:
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Conflito Israel x Hamas
(2021)
Outro episódio recente de
relevância é a guerra entre Israel e o Hamas, em maio de 2021. O Hamas,
organização sunita, mas apoiada logisticamente pelo Irã, lançou milhares de
foguetes contra o território israelense. O conflito durou 11 dias e trouxe à
tona a complexidade da relação entre esses atores. O Irã, por meio de seu apoio
militar ao Hamas, tem consolidado uma frente contínua contra Israel,
utilizando-se de movimentos radicais como ferramentas para desestabilizar a
região.
Ataques Houthis contra a
Arábia Saudita (2019-2021)
Além disso, a atuação dos
rebeldes Houthi no Iêmen, amplamente apoiados pelo Irã, exemplifica como Teerã
tem usado suas proxy wars para enfraquecer seus adversários regionais. Os
ataques com drones e mísseis balísticos contra alvos sauditas, como o ataque às
instalações da Aramco em 2019, demonstram a eficácia dessa tática. Através do
apoio indireto, o Irã tem sido capaz de infligir danos significativos à
infraestrutura de seus rivais sem desencadear uma retaliação direta contra seu
território.
A Rede de Proxies
Iranianos no Oriente Médio
Ao longo dos últimos anos,
o Irã construiu uma vasta rede de aliados e grupos proxies no Oriente Médio, que
são cruciais para a expansão de sua influência. Através do Hezbollah, Hamas e
outras milícias, o Irã tem sido capaz de manter uma presença geopolítica dominante,
ao mesmo tempo em que minimiza os riscos de retaliação direta.
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Lista de Proxies Iranianas Sancionadas pelos Estados Unidos. Fonte: Wilson center
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Conclusão
As tensões envolvendo Irã,
Israel e Arábia Saudita compõem um dos tabuleiros mais complexos da geopolítica
mundial, onde ideologias religiosas, interesses regionais e estratégias de
poder se entrelaçam. A estratégia iraniana de apoio a grupos aliados através de
guerras por procuração exemplifica sua habilidade em exercer influência
indireta, ao mesmo tempo em que desafia Israel e Arábia Saudita sem um
confronto direto. As Forças Quds e uma vasta rede de aliados regionais reforçam
a posição de Teerã como um agente indispensável e inquietante no Oriente Médio,
onde o equilíbrio de forças permanece sempre à beira de uma escalada. No
entanto, o impacto dessas ações vai além das fronteiras e leva à pergunta: até
onde essas rivalidades e alianças podem remodelar o futuro do Oriente Médio e a
ordem global? A política de guerra por procuração iraniana, impulsionada por
alianças estratégicas e pelo enfrentamento indireto, se impõe como uma
ferramenta que desafia não só seus adversários regionais, mas a estabilidade de
toda a região.
Escrito por: Gabriel Chagas.
Entusiasta por Geopolítica,
Espionagem, Relações Internacionais e Autor do Blog Mundo em Conflito.
Siga - me no Instagram: https://www.instagram.com/gabriel.schagas
. Gibbons-Neff,
Thomas. "What Is Iran’s Quds Force?" The New York Times, 2020.
. "Hezbollah
and Iran’s Regional Proxy Warfare." Washington Institute for Near East
Policy, 2021.
. "Iran’s
Influence in the Middle East: The Proxy Network." Brookings Institution,
2019.
. Al-Monitor.
"How Iran's Military Tactics Have Evolved." 2021.
. "The Role of
Iranian Proxies in the Middle East: Understanding the Dynamics." Middle
East Institute, 2022.
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