Estamos à beira da Terceira Guerra Mundial? As alianças que podem acender o pavio global

 

Para começar, quero destacar uma declaração impactante feita por Jamie Dimon, CEO da JP Morgan: “A Terceira Guerra Mundial já começou; Você já tem batalhas no terreno sendo coordenadas em vários países.”
 
Presidente e CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, testemunha em Washington
O presidente e CEO do JP Morgan Chase, Jamie Dimon,REUTERS/Elizabeth Frantz/File Photo Purchase Direitos de licenciamento
 
 Com essa frase, Dimon não se referia apenas a uma guerra no sentido militar, mas ao conjunto de crises e conflitos regionais que, segundo ele, estão entrelaçados e tendem a uma escalada global. Pensando sobre as palavras de Dimon e a situação atual, decidi explorar como essas batalhas em várias frentes se assemelham a um prelúdio de conflitos ainda maiores, como aconteceu nas décadas que antecederam a Segunda Guerra Mundial.
Assim, neste texto, abordo como os conflitos regionais, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, as tensões entre China e Taiwan, e a disputa no Oriente Médio entre Irã e Israel, ecoam padrões históricos. Ao analisar esses paralelos, busco entender se estamos realmente à beira de um conflito global de grandes proporções.
Rússia, Coreia do Norte e Irã, que Jamie Dimon chama de "eixo maligno", assim como a China, que segundo ele: Estão trabalhando ativamente de maneira coordenada para "desmantelar" os sistemas criados pelos aliados após a Segunda Guerra Mundial, como a OTAN.
Durante suas entrevistas o geopolítico, escritor e analista Internacional Heni Ozi Cukier, o professor HOC, costuma utilizar a seguinte analogia: Há 2º guerra Mundial não iniciou Mundial, mas iniciou com três conflitos regionais, Alemanha na Europa, Itália na África e o Japão na Ásia, eram três ditaduras autocráticas revisionistas que não aceitavam a ordem internacional que estava estabelecida e queriam expandir regionalmente de maneiras separadas, cada um focado em seu projeto particular de poder, mais do que isso, anos atrás estavam em lados opostos, e em algum momento esses três conflitos se tornaram uma guerra mundial, quando o Japão ataca os EUA, em Pearl Harbor então o Japão e a Alemanha declaram guerra aos EUA com receio de que os EUA atrapalhassem o projeto individual de cada um deles. 

 

Foto de Heni Ozi Cukier
Heni Ozi Cukier. geopolítico, escritor e analista Internacional 
 
Há 80 anos, ataque a Pearl Harbor colocou os EUA na Segunda Guerra Mundial
O encouraçado USS Arizona foi um dos navios da Marinha americana destruídos no ataque a Pearl Harbor em 1941 (Foto: Pixabay) 

Três conflitos regionais, quando os EUA declaram guerra, se tornam uma Guerra Mundial. E o que temos hoje? Dois conflitos regionais e o terceiro sendo cada vez mais iminente. O primeiro conflito regional: a Rússia na Ucrânia, o segundo: entre Irã e Israel e o terceiro: a China se movimentando para atacar e anexar Taiwan. Porém, há uma diferença ainda mais preocupante, no período da Segunda Guerra Mundial, Alemanha, Itália e Japão estavam desunidos e não possuíam alianças, diferente de hoje, onde Rússia, China, Irã, Coreia do Norte e Venezuela - o Eixo das Ditaduras -  esses cinco Países estão unidos em diversos segmentos, como: político, militar, tecnológico, econômico, energético e cibernético.

 

Conflitos Regionais e a Possível Escalada Global: Lições da Segunda Guerra Mundial para o Mundo Atual
 
A Segunda Guerra Mundial, o conflito mais devastador do século XX, começou não como uma guerra global, mas como três conflitos regionais distintos, travados por ditaduras que não aceitavam a ordem internacional. A Alemanha na Europa, a Itália na África e o Japão na Ásia eram nações autocráticas que, cada uma à sua maneira, buscava alterar suas fronteiras e expandir sua influência. No entanto, esses conflitos regionais logo convergiram em um conflito global, especialmente após a entrada dos Estados Unidos em 1941. Com os acontecimentos recentes na Ucrânia, as tensões entre Irã e Israel, e a situação de Taiwan, podemos estar diante de uma nova escalada de conflitos regionais com potencial para uma guerra de escala global.
 
A Segunda Guerra Mundial: Da Escala Regional à Escala Global
 
A Segunda Guerra Mundial começou com conflitos específicos, mas isolados:
 · Alemanha na Europa: A Alemanha nazista, liderada por Adolf Hitler, buscava reverter às limitações do Tratado de Versalhes, ao mesmo tempo em que expandia seu território em busca do “espaço vital” (Lebensraum) para o povo alemão. A política expansionista de Hitler levou à anexação da Áustria, da Tchecoslováquia e, finalmente, à invasão da Polônia em 1939, desencadeando a guerra na Europa.

 

Hitler em 1938
 
· Itália na África: Benito Mussolini, desejoso de criar um “novo Império Romano”, começou a projetar o poder italiano sobre o norte da África. A invasão da Etiópia em 1935 foi um marco dessa campanha de expansão, representando um desejo de grandeza e influência na região.

 

Benito Mussolini - fonte: AH.
 
· Japão na Ásia: O Japão Imperial, motivado pela necessidade de recursos naturais e pela ambição de se tornar a potência dominante no Pacífico, iniciou sua expansão territorial com a ocupação da Manchúria em 1931, seguida pela invasão da China. Sua campanha expansionista visava estabelecer o que chamavam de “Esfera de Co prosperidade da Grande Ásia Oriental”.

 

Império Japonês em 1942. (Fonte: History Place/ Reprodução)
Império Japonês em 1942. (Fonte: History Place/ Reprodução)

 

Apesar de seus interesses iniciais isolados, tinha semelhanças governamentais, regimes totalitários e autocráticos que formaram o Pacto do Eixo e, em resposta à entrada dos EUA no conflito após o ataque a Pearl Harbor, os conflitos regionais se fundiram em uma guerra global. Esse processo ilustra como conflitos regionais, quando somados a alianças e rivalidades globais, podem evoluir para uma guerra de escala mundial.
 
Potências do Eixo
Imagem: Reprodução BLOG -  "Todo estudo"
 
 Conflitos Regionais Atuais: Um Cenário Preocupante
  
Hoje, o mundo assiste a uma situação que apresenta paralelos preocupantes com os antecedentes da Segunda Guerra Mundial. Três conflitos regionais principais emergem no cenário geopolítico, cada um deles com potencial para arrastar outras nações e transformar-se em uma guerra global:
· Rússia e Ucrânia: Desde a anexação da Criméia em 2014, a Rússia tem mostrado um interesse crescente em restabelecer sua influência sobre territórios da antiga União Soviética. A invasão da Ucrânia, iniciada em 2022, representa um desafio direto à ordem internacional e uma tentativa de redesenhar fronteiras em favor dos interesses russos. Com a OTAN e os Estados Unidos apoiando a Ucrânia, esse conflito ameaça escalar, trazendo à tona o risco de um confronto entre potências nucleares. Importante ressaltar a complexidade deste conflito. Análises de instituições como o Council on Foreign Relations e declarações de autoridades de inteligência dos EUA, indicam que Putin anteviu resistência significativa e oposição do Ocidente, com essas informações em mãos, Vladimir Putin se preparou para o conflito na Ucrânia ao longo de aproximadamente 15 anos, realizando um planejamento estratégico que incluiu o fortalecimento militar e econômico da Rússia para suportar sanções ocidentais e a modernização das Forças Armadas russas. Esse planejamento também visava moldar a percepção pública na Rússia, apresentando a OTAN como uma ameaça à segurança nacional, o que apoiou a narrativa doméstica.

 

COMEÇO - Mascarados com a bandeira russa na invasão da Crimeia, em 2014: a anexação foi definitiva -
 Mascarados com a bandeira russa na invasão da Crimeia, em 2014: a anexação foi definitiva – (Genya Savilov/AFP)  

 
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· Irã e Israel: No Oriente Médio, o conflito entre Irã e Israel envolve não apenas questões políticas, mas também ideológicas e religiosas. O Irã, apoiado por aliados regionais e grupos como o Hezbollah, tem expandido sua influência na Síria, no Líbano e no Iêmen, enquanto Israel, com o apoio dos Estados Unidos, vê o crescimento do poder iraniano como uma ameaça direta. A disputa pelo programa nuclear iraniano e os frequentes confrontos indiretos entre esses países intensificam as tensões e o risco de uma guerra regional ampliada.

 

Irã vai entrar na guerra do Oriente Médio? Governo iraniano acusa Israel de  'armadilhas' para expandir conflito - Seu Dinheiro
Israel X Irã - Imagem: Dall-E


· China e Taiwan: Na Ásia, o desejo da China de reunificar Taiwan é um ponto de extrema tensão. O governo chinês considera a ilha como uma província rebelde, enquanto Taiwan segue como uma democracia autônoma com forte apoio dos EUA. Com exercícios militares chineses próximos a Taiwan e um aumento na assistência militar dos EUA à ilha, o risco de um confronto direto cresce, potencialmente arrastando aliados asiáticos e ocidentais para o conflito.

 

tensão entre china e taiwan
Tomasz Makowski/Shutterstock
 
Pequim, Moscou e Teerã são as novas potências revisionistas que não aceitam o funcionamento do Mundo e da ordem mundial estabelecida, fazendo com que China, Rússia e Irã estejam trabalhando de maneira ativa para modificar o estado atual das coisas e a situação existente dos Estados Unidos e dos seus aliados, importante esses detalhes, pois esta era a mesma linha de pensamento de Berlim (Alemanha), Roma (Itália) e Tóquio (Japão) nos períodos que antecederam a Segunda Guerra Mundial.

 

 Alianças e a Interdependência Global: A Diferença Crucial
 
Durante a Segunda Guerra Mundial, as potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) não tinham alianças estruturadas antes do início dos conflitos. Hoje, no entanto, uma coalizão de regimes autocráticos formou parcerias estratégicas mais complexas, conectando suas economias, forças militares e apoio político de forma que cria um bloco geopolítico unificado.
· Rússia e China: Estes são os pilares dessa coalizão, compartilhando interesses em resistir à influência ocidental e aumentar seu alcance geopolítico. Ambos colaboram em questões militares, realizam exercícios conjuntos e firmam acordos comerciais, como o fornecimento de energia da Rússia para a China, o que fortalece suas economias e sustentação política.

 

China organiza exercícios militares conjuntos com a Rússia – Mundo –  CartaCapital
Presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin. Foto: Mikhail TERESHCHENKO/S


· Irã e Coreia do Norte: Estes países complementam a aliança com capacidades nucleares e apoio militar regional. O Irã, especialmente, tem forte influência no Oriente Médio, e a Coreia do Norte mantém uma tensão constante com os EUA, adicionando pressão no Pacífico.

· Venezuela: Embora não esteja no epicentro euro-asiático, a Venezuela se posiciona como aliada ideológica e estratégica desses regimes, resistindo à influência dos EUA e recebendo apoio econômico e político de países como Rússia e China.

 

Putin cumprimenta Maduro em agenda bilateral durante reunião do Brics
Putin cumprimenta Maduro em agenda bilateral durante reunião do Brics — Foto: Alexander Nemenov/AFP


Essas alianças atuais são econômicas, militares e ideológicas, proporcionando uma interdependência que não existia entre as potências do Eixo na década de 1930. Esse tipo de coesão cria uma rede de resistência à ordem ocidental, tornando o mundo de hoje ainda mais suscetível a uma escalada global.
 
Os Riscos de uma Escalada Global
 
Os paralelos entre os conflitos regionais dos anos 1930 e a situação atual são inegáveis. A Segunda Guerra Mundial mostrou como rivalidades locais podem rapidamente evoluir para uma guerra global, especialmente quando envolvem grandes potências e alianças estratégicas.
Hoje, com alianças mais robustas e interdependentes, qualquer escalada em um dos três principais conflitos regionais – Rússia e Ucrânia, Irã e Israel, China e Taiwan – pode facilmente envolver outras nações. Essas situações geopolíticas não apenas ameaçam a estabilidade de suas respectivas regiões, mas também têm o potencial de arrastar o mundo inteiro para uma nova guerra.
Para os analistas e estudiosos de geopolítica, entender as lições da Segunda Guerra Mundial é essencial para prever e, com sorte, evitar uma escalada de proporções globais. O mundo de hoje, com suas alianças econômicas e militares bem definidas, está mais interconectado do que nunca, e o risco de um novo conflito global depende, em grande parte, das escolhas e alianças feitas pelas nações nos próximos anos.
O eixo das ditaduras é composto por Rússia, China, Irã, Coreia do Norte e Venezuela, esses cinco Países estão unidos desde o primeiro dia da Invasão da Rússia na Ucrânia em Fevereiro de 2022, Vladimir Putin, presidente da Rússia, não teria tomado essa decisão e iniciado a invasão sem a reunião e autorização que obteve de Xi Jinping, Presidente da China, semanas antes. Exemplo prático desta coordenação entre os Países citados acima: Quem compra petróleo do Irã? A China. Quem entrega drones para a Rússia atacar a Ucrânia? O Irã. Quem fornece munição para a Rússia na guerra? A Coreia do Norte. Quem assinou um acordo de defesa mútua para se defenderem em caso de Guerra? Coreia do Norte e Rússia. Quem defende e protege o Regime de Nicolás Maduro na Venezuela para que o mesmo não seja derrubado e protege fisicamente o Nicolás Maduro? O grupo WAGNER de mercenários Russos e a Guarda Revolucionária Iraniana. Quem esta ajudando a Rússia a burlar as sanções econômicas impostas pelo Ocidente ? A China. E uma das mais graves informações, soldados da Coreia do Norte estão no campo de batalha da Europa lutando contra a Ucrânia ao lado da Rússia, informação confirmada por Mark Rutte, atual secretário-geral da OTAN: “A presença de tropas norte-coreanas em solo europeu é, sem dúvida, histórica por todas as razões erradas. É a primeira vez num século que a Rússia convida tropas estrangeiras a entrar no País”, afirmou Rutte, num artigo de opinião publicado quarta-feira (06/11/2024) pelo ‘Político’. A última afirmação é muito grave, é sem precedentes na história recente do Mundo, significa que estão dispostos a enviar soldados e a morrer por um projeto comum. E qual seria o objetivo? Talvez possamos analisar que a expansão territorial física é uma parte do jogo de Xadrez que teria como objetivo final reorganizar a ordem internacional e principalmente as dinâmicas de poder entre os Estados. Porém, para alcançar as posições de destaque é necessário conquistar territórios estratégicos.
Um dos principais conceitos da Geopolítica e das relações internacionais é o conceito de precedência global, ou seja, a atitude tomada por um País em uma determinada região acaba fortalecendo a legitimidade e encorajando outros Países a realizarem ações semelhantes que favoreçam seus interesses em outra região, ocasionando em uma escalada constante em conflitos regionais.
 

Escrito e produzido por: Gabriel Chagas.

 Entusiasta por Geopolítica, Espionagem, Relações Internacionais e Autor do Blog Mundo em Conflito.

 

 
  • REFERÊNCIAS:

    DIMON, Jamie. “World War III has already begun; you already have battles on the ground being coordinated in multiple countries.” Discurso no Institute of International Finance, Washington, D.C., 24 out. 2024. Citado por MarketWatch, 24 out. 2024. Disponível em: MarketWatch. 


    ECONOMIC TIMES. The boss of the planet's biggest bank Jamie Dimon warns World War 3 has already begun and poses more of a risk to humanity than climate change. The Economic Times, 1 fev. 2025. Disponível em: Economic Times. 


    RUTTE, Mark. North Korean troops in Europe marks turning point. Politico, 6 nov. 2024. Disponível em: Politico. 


    NATO. Opinions: North Korean troops in Europe marks turning point. NATO.int, 6 nov. 2024. Disponível em: NATO. 

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