Se Queres a Paz, Prepara-se para a Guerra: Como a Inteligência e o Poder Militar Sustentam a Paz Mundial

A questão que surge com frequência é: o que é necessário para alcançar a verdadeira paz, especialmente em cenários de conflito intenso? Ao pensarmos em paz, é comum imaginarmos acordos diplomáticos e concessões, mas será que isso realmente funciona? Não. A história mostra que, muitas vezes, esses métodos falham, como demonstrado na Segunda Guerra Mundial e em casos recentes, como o desarmamento nuclear da Ucrânia em 1994. Em um cenário de agressões contínuas, será que o desarmamento pode realmente garantir a paz? Também não. A invasão da Ucrânia, mesmo após promessas de segurança, prova que acordos de desarmamento podem ser ineficazes. Então, o que de fato garante a paz?

 A resposta pode ser encontrada em uma lição antiga: na Roma Antiga, a paz era garantida não por concessões, mas pela força. O famoso princípio romano: Si vis pacem, para bellum – "Se você quer paz, prepare-te para a guerra" – tem sido uma verdade duradoura que ainda ressoa em debates sobre segurança e defesa no mundo moderno. Este  continua sendo um conceito essencial, especialmente quando falamos sobre dissuasão nuclear e o equilíbrio de poder entre as nações. Vamos explorar como o uso estratégico da força, e não a ausência dela é o verdadeiro fundamento da paz.
A expressão "Si vis pacem, para bellum", que significa "Se queres a paz, prepara-te para a guerra", é um princípio estratégico clássico que sintetiza a importância da preparação militar como forma de dissuasão. Embora seja frequentemente associada ao pensamento militar romano, sua origem mais direta está no tratado Epitoma Rei Militaris, escrito pelo autor romano Publius Flavius Vegetius Renatus (Vegécio), entre o final do século IV e o início do século V d.C.
Em sua obra, Vegécio analisou as práticas militares do período clássico de Roma, destacando a importância do treinamento contínuo, da disciplina e da prontidão militar. A frase expressa a ideia de que a segurança e a paz são alcançadas através da força e da preparação, pois uma força militar bem preparada e principalmente disposta a responder a uma agressão desencoraja possíveis agressores. Esse conceito, enraizado na tradição estratégica romana, influenciou doutrinas militares ao longo da história, tornando-se um princípio atemporal de defesa e dissuasão.
 Dissuasão, nesse contexto, significa a capacidade de evitar conflitos ao demonstrar força e preparo estratégico. A lógica por trás desse conceito é simples: quando um país ou grupo possui uma capacidade militar robusta e a clara disposição de utilizá-la, os custos de uma agressão se tornam altos demais para um adversário considerar o ataque uma opção viável. Esse princípio tem sido um dos pilares das grandes potências ao longo da história, onde a simples ameaça de uma resposta devastadora atua como um freio para possíveis ofensores. Em essência, a paz não se mantém por concessões ou apelos morais, mas pelo temor das consequências de uma ação hostil.
 No contexto de Si vis pacem, para bellum, os serviços de inteligência e suas operações secretas desempenham um papel crucial para garantir a paz, muitas vezes sem que a força militar seja imediatamente acionada. A inteligência estratégica atua como os olhos e ouvidos de uma nação, monitorando ameaças em potencial e evitando que ações hostis se concretizem. Ao coletar informações cruciais sobre movimentos inimigos, analisar intenções e prevenir ataques, as agências de inteligência não apenas protegem as fronteiras, mas também asseguram um equilíbrio de poder. A dissuasão, nesse caso, vai além da simples capacidade de uma resposta militar direta; ela se reflete na capacidade de prevenir conflitos antes mesmo que estes surjam, mostrando ao adversário que, por meio de inteligência bem articulada e operações sigilosas, a paz é garantida pela força da preparação e da vigilância constante.
No contexto do princípio romano Si vis pacem, para bellum, os serviços de inteligência e suas operações secretas têm um papel absolutamente fundamental na manutenção da paz mundial, muitas vezes operando de maneira discreta e estratégica antes que a força militar precise ser mobilizada. Essas operações de inteligência estratégica funcionam como os olhos e ouvidos de uma nação, atuando em áreas invisíveis, mas essenciais para garantir a segurança e estabilidade. Elas monitoram ameaças iminentes, antecipando movimentos inimigos e prevenindo ações hostis que poderiam desencadear um conflito armado. As agências de inteligência são responsáveis por coletar dados vitais sobre as intenções dos adversários, analisando não apenas os movimentos, mas também os sinais mais sutis que indicam hostilidade. Com isso, elas evitam que uma guerra seja travada, protegendo não apenas as fronteiras físicas de um país, mas garantindo, acima de tudo, um equilíbrio de poder global que minimiza riscos.
A verdadeira dissuasão, nesse cenário, vai muito além da simples capacidade de uma resposta militar direta. Ela está na prevenção, na capacidade de evitar que o conflito se torne inevitável, utilizando uma rede de informações e operações sigilosas que impede que o inimigo avance em seus planos. Por meio de uma inteligência bem articulada, as nações não apenas conseguem proteger seu território, mas também demonstram ao adversário que, se necessário, a força militar será a última instância. No entanto, a verdadeira paz é alcançada com a habilidade de interceptar e neutralizar as ameaças antes que se concretizem, destacando a importância da vigilância constante e da preparação em todos os níveis estratégicos. É nesse contexto que a inteligência e as operações secretas se tornam a linha de frente invisível da defesa, assegurando que, por meio de uma atuação premeditada e meticulosa, a paz é garantida pela força da prevenção e da vigilância contínua.

Epitoma Rei Militaris (Latin Edition)
Epitoma Rei Militaris (Latin Edition). Fonte: Capa do Livro.
  
As Lições da História 
 
Na Segunda Guerra Mundial, um erro estratégico redefiniu os rumos da Europa. Neville Chamberlain, o então primeiro-ministro britânico, tentou evitar o conflito através da política de apaziguamento, fazendo concessões ao regime nazista de Adolf Hitler. O resultado? Longe de pacificar a Alemanha, essas concessões encorajaram Hitler a avançar suas ambições expansionistas, culminando na maior guerra do século XX.
A política de apaziguamento é uma estratégia diplomática que busca evitar conflitos cedendo a certas demandas de um adversário, na esperança de manter a paz e evitar confrontos diretos. Um dos exemplos mais marcantes dessa abordagem foi a postura das potências europeias frente à Alemanha nazista antes da Segunda Guerra Mundial. O Acordo de Munique, assinado em 1938, permitiu que Hitler anexasse a região dos Sudetos, na Tchecoslováquia, sob a justificativa de garantir a paz na Europa. No entanto, essa concessão apenas incentivou a Alemanha a seguir com sua expansão, culminando na invasão da Polônia em 1939 e no início da guerra.
O grande problema do apaziguamento é que ele pode ser interpretado como um sinal de fraqueza, encorajando ainda mais agressões em vez de preveni-las. Quando não há uma linha clara de resistência, o agressor tende a exigir mais, testando os limites até que a guerra se torne inevitável. Esse erro histórico reforça a importância da dissuasão, onde a paz é garantida não por concessões, mas pela certeza de que qualquer ataque terá consequências severas.
 A história é clara: concessões sem força apenas fortalecem o agressor.

Chamberlain (à esquerda) e Hitler deixam a reunião de Bad Godesberg, 23 de setembro de 1938 / Crédito: Wikimedia Commons
 
 O exemplo mais contemporâneo, citado acima, serve como um alerta claro. Em 1994, a Ucrânia decidiu abrir mão de seu arsenal nuclear em troca de garantias de segurança, com o Memorando de Budapeste sendo assinado por Rússia, Estados Unidos e Reino Unido. No entanto, apenas duas décadas depois, a Rússia violou esse acordo ao anexar a Crimeia em 2014 e, em 2022, invadiu a Ucrânia, País que havia sido prometido proteção. Essas garantias, que na época soavam como uma segurança se mostrou apenas palavras vazias diante da realidade implacável: sem uma força militar robusta para dissuasão, promessas diplomáticas não se sustentam.
 
Assinatura do Memorando de Budapeste. Fonte: Funchal.

Roma Antiga: O Legado de "Si vis pacem, para bellum” 
 
 O Império Romano prosperou por séculos, em parte porque compreendia profundamente o conceito de força como garantidora de paz. A Paz Romana, um período de relativa estabilidade e prosperidade, não foi alcançada com desarmamento ou concessões. Pelo contrário, foi garantido através do poder militar inigualável e de uma vigilância constante sobre seus inimigos potenciais. O exército romano não era apenas uma máquina de guerra, mas uma força de dissuasão que transmitia uma mensagem clara: atacar Roma traria consequências devastadoras.
Esse conceito, traduzido em "Se você quer paz, prepare-se para a guerra", ainda ressoa nos debates contemporâneos sobre segurança e defesa. Nações que mantêm suas capacidades militares em alta são menos propensas a sofrer agressões. É uma lição que, infelizmente, muitos países têm negligenciado.
 
Fonte desconhecida.
 
Conquisteo Mundo Como Um General Romano
Fonte desconhecida.
 
  A Bomba Nuclear: A Força Como Garantia de Paz no Mundo Contemporâneo 
 
 A questão da paz sempre levanta o debate sobre o desarmamento e as concessões. No entanto, a história demonstrou que a paz verdadeira não vem com promessas vazias ou acordos fragilizados, mas sim, com força real e capacidade de dissuasão. Um dos exemplos mais claros disso é a existência de arsenais nucleares. Países com armas nucleares, como os Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido, mantêm uma postura de força não apenas por uma necessidade militar, mas também por uma estratégia de dissuasão que impede a agressão externa. Esse conceito de dissuasão nuclear reflete diretamente o pensamento romano de "Si vis pacem, para bellum" — "Se você quer paz, prepare-se para a guerra".
 A bomba nuclear, longe de ser um símbolo de destruição iminente, é, em muitos sentidos, um pilar da estabilidade global. A existência desses arsenais mantém a paz por meio do medo mútuo, onde qualquer ataque nuclear teria consequências catastróficas para todas as partes envolvidas. Esse princípio de dissuasão nuclear já foi comprovado em várias ocasiões, com a Guerra Fria, sendo o exemplo clássico, onde a possibilidade de um confronto nuclear impediu grandes escaladas de guerra entre superpotências.
 No caso da Ucrânia, o desarmamento nuclear, formalizado no Memorando de Budapeste de 1994, deixou o país vulnerável, um alvo fácil para agressões. A lição aqui é clara: o desarmamento não garante paz, mas apenas enfraquece a capacidade de dissuasão de um país. As promessas de segurança feitas por potências como Rússia, Estados Unidos e Reino Unido se mostraram vazias, pois não havia uma força militar real para impedir a invasão da Ucrânia. O que garante a paz em um mundo instável não é a ausência de armas, mas a existência de forças capazes de proteger a soberania nacional, como demonstrado pela manutenção de arsenais nucleares.
A dissuasão nuclear é um dos pilares fundamentais da geopolítica contemporânea, garantindo não apenas a sobrevivência de regimes, mas moldando o equilíbrio de poder entre Estados. A República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) compreendeu essa lógica com precisão cirúrgica: o regime dos Kim consolidou seu domínio interno e blindou-se contra intervenções externas ao desenvolver um arsenal nuclear funcional, tornando qualquer tentativa de mudança de regime um risco inaceitável para potências adversárias. Sua estratégia se baseia no princípio da destruição assegurada, onde a simples existência de suas ogivas torna inviável uma ofensiva contra o país, independentemente do nível de repressão ou do isolamento econômico que enfrenta.
 
Míssil balístico intercontinental Hwasong-18 é lançado de um local não revelado na Coreia do Norte nesta imagem de arquivo divulgada pelo canal norte-coreano Korean Central News. — Foto: TPX IMAGES OF THE DAY/File Photo
Míssil balístico intercontinental Hwasong-18 é lançado de um local não revelado na Coreia do Norte nesta imagem de arquivo divulgada pelo canal norte-coreano Korean Central News. — Foto: TPX IMAGES OF THE DAY/File Photo
 
Esta foto tirada em 18 de novembro de 2022 e divulgada pela Agência Central de Notícias da Coreia do Norte (KCNA) em 19 de novembro de 2022 mostra o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un (R), caminhando com sua filha enquanto inspeciona um novo míssil balístico intercontinental (ICBM ) "Hwasong Gun 17", antes de seu lançamento no Aeroporto Internacional de Pyongyang. - O líder norte-coreano Kim Jong Un disse que responderia às ameaças dos EUA com armas nucleares, disse a mídia estatal em 19 de novembro, depois que Kim supervisionou pessoalmente o último lançamento de um míssil balístico intercontinental de Pyongyang
Kim Jong Un (R), caminhando com sua filha enquanto inspeciona um novo míssil balístico intercontinental (ICBM ) "Hwasong Gun 17", antes de seu lançamento no Aeroporto Internacional de Pyongyang. Fonte: (STR / KCNA VIA KNS / AFP/AFP)

 No Oriente Médio, Israel adota uma postura proativa dentro da doutrina Begin, que estabelece a necessidade de impedir qualquer rival regional de adquirir capacidade nuclear. Essa diretriz se materializou em operações preventivas de alto nível, como a Operação Opera (1981), que destruiu o reator nuclear de Osirak no Iraque, e a Operação Pomar (em inglês, Orchard) (2007), que eliminou um reator sírio em construção. Hoje, essa mesma doutrina se aplica ao Irã: um Irã nuclear não apenas representaria uma ameaça existencial a Israel, mas reconfiguraria toda a balança de poder regional, possibilitando uma política externa mais agressiva por parte de Teerã sob a proteção do conceito de dissuasão estratégica irreversível.
 A Operação Ópera, realizada em 7 de junho de 1981, foi uma ação preventiva de Israel para destruir o reator nuclear de Osirak, no Iraque. Israel, por meio da sua agência de inteligência Mossad, obteve informações críticas que indicavam que o reator poderia ser usado para produzir armas nucleares. A operação foi conduzida com precisão cirúrgica, utilizando aviões F-16 que destruíram o reator sem grandes perdas para os israelenses. A missão foi planejada com base em dados de espiões e imagens de satélite, que permitiram a identificação exata do alvo. O ataque foi uma resposta direta à ameaça percebida, pois o Iraque, sob Saddam Hussein, estava avançando em seu programa nuclear. A operação, apesar de amplamente condenada pela comunidade internacional, foi considerada um sucesso estratégico, evitando que o Iraque se tornasse uma potência nuclear.
 
Operação Ópera. Fonte: GBN Defense
 
Operação Ópera. Fonte: GBN Defense
 
A Operação Pomar ou Orchard, realizada em 6 de setembro de 2007, foi uma missão aérea israelense para destruir um reator nuclear em construção na Síria, localizado em Al-Kibar, no deserto de Deir ez-Zor. Informações obtidas pelo Mossad indicaram que a Síria estava desenvolvendo um reator nuclear com ajuda da Coreia do Norte, com o objetivo de produzir material nuclear para armas. Utilizando imagens de satélite e fontes de inteligência humana, Israel determinou que a instalação representava uma ameaça direta à segurança regional e ao equilíbrio de poder no Oriente Médio.
A operação envolveu uma incursão aérea rápida e silenciosa, com aviões F-15 e F-16 israelenses destruindo o reator antes que ele fosse concluído. A Síria inicialmente negou a existência do reator, mas em 2008, após uma investigação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a evidência de seu caráter nuclear foi confirmada. A operação foi um sucesso em termos de dissuasão e prevenção, pois, além de eliminar o reator, enviou uma mensagem clara de que Israel não hesitaria em agir contra programas nucleares em seus vizinhos.
 
Registro de imagem do Exército israelense divulgado em 21 de março de 2018 indica mira sobre reator nuclear sírio em 2007. Bombas são identificadas com círculos amarelos Foto: HANDOUT / REUTERS
Registro de imagem do Exército israelense divulgado em 21 de março de 2018 indica mira sobre reator nuclear sírio em 2007. Bombas são identificadas com círculos amarelos Foto: HANDOUT / REUTERS

  Em 2007, a Operação Orchard destacou a postura firme de Israel em relação à segurança nacional, especialmente no que diz respeito à proliferação de armas nucleares no Oriente Médio. O então ministro israelense responsável pelos serviços de inteligência, Yisrael Katz, afirmou em seu Twitter (atualmente X) que a operação demonstrou que "Israel nunca permitirá que armas nucleares caiam nas mãos daqueles que ameaçam sua existência: Síria ontem, Irã hoje". O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu também reforçou a importância da operação, elogiando o trabalho do Mossad e do Exército israelense ao impedir que a Síria desenvolvesse armas nucleares, declarando: "A política de Israel sempre foi e continuará sendo impedir nossos inimigos de adquirir armas nucleares". Essas declarações refletem a continuidade da estratégia preventiva de Israel, baseada em ações decisivas para garantir sua segurança em um cenário de crescente ameaça nuclear no Oriente Médio.
 
Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ministro, Yisrael Katz. Fonte: (Yonatan Sindel/Flash90)
 
Portanto, a bomba nuclear, longe de ser apenas uma ameaça, é também um elemento de estabilidade, que garante que a paz seja mantida não pela ausência de conflito, mas pela certeza de que o custo de qualquer agressão será insustentável.

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Bomba Nuclear. Fonte Getty Imagem. 

 

A explosão nuclear submarina no atol de Bikini, nas ilhas Marshall (Oceano Pacífico)
A explosão nuclear submarina no atol de Bikini, no Oceano Pacífico, resultou em um cogumelo de água e resíduos radioativos. Fonte: Getty Images

 A Filosofia de Defesa de Israel: Preparação e Força como Pilar da Segurança Nacional. 

 
O conceito de paz muitas vezes é distorcido em meio a concessões diplomáticas e promessas vazias. No entanto, a história nos ensina que a verdadeira paz não surge da ausência de guerra, mas da preparação para ela. Como demonstra a citação de David Ben-Gurion, ex-primeiro-ministro de Israel: “Se você não estiver preparado para a guerra, você estará preparado para ser derrotado.” Essa visão não é apenas um reflexo das necessidades de um País que enfrenta ameaças constantes, mas uma lição universal que ressoa na geopolítica moderna.
David Ben-Gurion foi primeiro ministro de Israel entre os anos de 1948 a 1954 e depois no segundo mandato de 1955 a 1963. Ele é uma das figuras mais importantes na história de Israel, sendo um dos fundadores do Estado de Israel e desempenhando um papel crucial na Declaração de Independência do País.
 
David Ben-Gurion
David Ben-Gurion Fonte: Britannica.
 
David Ben Gurion (à esquerda) assina a Declaração de Independência de Israel, enquanto Moshe Sharett segura o documento e Eliezer Kaplan observa, no museu de Arte de Tel Aviv, em 14 de maio de 1948. 
Crédito: Government Press Office (Imprensa oficial do Estado de Israel), CC BY-SA 3. via Wikimedia Commons.
 
A história de Israel é um exemplo claro de como a preparação militar é fundamental para garantir a paz. Rodeado por nações  e grupos hostis, o Estado de Israel é constantemente desafiado por forças externas, Israel construiu sua paz não a partir de acordos frágeis, mas pela força e pela capacidade de dissuadir qualquer ataque. Ao longo dos anos, Israel manteve sua soberania não só com diplomacia, mas com um sistema de defesa robusto, que inclui inteligência de ponta, um exército altamente treinado e a dissuasão nuclear. A ideia de que a paz depende de força não é uma simples teoria, mas uma prática cotidiana que tem se mostrado eficaz.
Israel entendeu o princípio romano "Si vis pacem, para bellum" (Se você quer paz, prepare-se para a guerra) como um fundamento de sua segurança nacional. O preparo constante não é apenas uma necessidade, mas uma escolha estratégica para garantir que qualquer ameaça seja neutralizada antes que se torne um conflito em larga escala.
 Por exemplo, a guerra de Yom Kippur em 1973 demonstrou o quanto a falta de preparação pode ser fatal. A nação, subestimando a capacidade de seus inimigos e sem uma postura ofensiva clara, quase foi derrotada. Após esse conflito, Israel fortaleceu ainda mais sua doutrina de defesa, investindo em tecnologia, forças de elite e principalmente na criação de um sistema de dissuasão que tornasse qualquer agressão insustentável.
 
A Guerra do Yom Kippur teve início com um ataque surpresa. Soldados egípcios cruzaram a fronteira para invadir Israel.
A Guerra do Yom Kippur teve início com um ataque surpresa. Soldados egípcios cruzaram a fronteira para invadir Israel. Fonte: Shutterstock
 
 A Guerra do Yom Kippur, foi um dos momentos mais críticos para Israel. No dia mais sagrado do calendário judaico, Egito e Síria lançaram um ataque surpresa, explorando a confiança excessiva israelense e falhas de inteligência. Nos primeiros dias, as forças israelenses foram duramente golpeadas, recuando no Sinai e nas Colinas de Golã. No entanto, a rápida resposta militar e a mobilização de reservas permitiram uma virada decisiva, resultando no cerco do Terceiro Exército Egípcio e na retomada do controle estratégico. A guerra expôs vulnerabilidades que levaram Israel a reformular sua doutrina de defesa, investindo pesadamente em tecnologia, forças de elite e um sistema de dissuasão que tornasse qualquer agressão um alto risco para seus inimigos.
 A Guerra do Yom Kippur evidenciou que, mesmo após vitórias arrasadoras em situações anteriores como em 1948 e 1967, a paz nunca seria garantida apenas por tratados ou superioridade militar do momento. A complacência e a crença de que os inimigos não ousariam atacar resultaram em um choque brutal para Israel, que nos primeiros dias da guerra esteve à beira do colapso. A partir desse evento, a mentalidade israelense se alinhou ainda mais ao princípio de que a única forma de evitar novos conflitos era estar constantemente preparado para eles.
Após 1973, Israel passou a reforçar ainda mais sua doutrina de dissuasão, investindo pesadamente em tecnologia militar (como o sistema de defesa aérea), aumentando a prontidão de suas forças e adotando uma postura de resposta imediata a qualquer ameaça. A guerra demonstrou que apenas um exército bem treinado, bem equipado e sempre pronto para o combate pode garantir a paz a longo prazo.
Esse entendimento não se limita a Israel, mas se aplica a outras nações que, como o país do Oriente Médio, compreende que a verdadeira paz é mantida por força. Israel, através de sua postura vigilante, aplica a lição de que, em um mundo volátil, a paz não é garantida por palavras, mas por ações e pela capacidade de dissuadir qualquer agressor. E isso exige preparo constante, seja no campo militar, seja na inteligência estratégica. 
 
A Filosofia das Agências de Inteligência: Preparação Como Garantia de Paz 
  
A busca pela paz, em um mundo onde as ameaças são constantes e complexas, exige mais do que simplesmente desejá-la. Ela demanda vigilância estratégica, uma postura preventiva e a capacidade de se antecipar aos adversários. Nesse contexto, diversas agências de inteligência ao redor do mundo seguem a filosofia do famoso lema romano "Si vis pacem, para bellum" — "Se você quer paz, prepare-se para a guerra". No entanto, essa preparação não é um convite ao conflito, mas sim uma garantia de segurança por meio da ação antecipada, da neutralização de ameaças antes que elas se concretizem.
O Mossad, a agência de inteligência de Israel, é um exemplo claro de como essa filosofia é aplicada na prática. Fundado com a missão de proteger a segurança do Estado de Israel, o Mossad opera com uma filosofia implacável de antecipação de ameaças. O lema não oficial da agência, "Onde quer que esteja, o inimigo estará", reflete uma ideia fundamental: a verdadeira segurança não vem da espera passiva, mas da ação estratégica e preventiva e o lema oficial da agência é: "Não havendo conselho, o povo cai; mas na multidão de conselheiros há segurança.” (Provérbios 11:14)". Em uma região geopolítica tão volátil quanto o Oriente Médio, onde ameaças são constantes e os inimigos não hesitam em agir, o Mossad não se permite aguardar a concretização da ameaça — ele antecipa, neutraliza e desmantela essas ameaças antes que elas se materializem. Isso pode ser observado nas ações históricas de grande impacto, como a captura de Adolf Eichmann e a vigilância contínua sobre as atividades nucleares do Irã, que demonstram a eficácia do Mossad em garantir a segurança nacional por meio de uma inteligência proativa.
 O Mossad é o serviço de inteligência externa de Israel, responsável por uma vasta gama de operações, desde a coleta de informações até missões de contraespionagem e eliminação de ameaças. Embora muitos detalhes sobre suas operações sejam mantidos em sigilo, algumas das unidades e subunidades mais conhecidas são amplamente discutidas em fontes abertas.
    Kidon: O Kidon é uma unidade de operações especiais do Mossad, especializada em missões de eliminação/assassinatos seletivos. Embora a maior parte das informações sobre suas atividades permaneçam em segredo, sabe-se que o Kidon tem um histórico de atuar em ações de alta prioridade, como assassinatos de figuras inimigas ou de grande valor estratégico para Israel. Uma das operações mais famosas atribuídas ao Kidon foi a eliminação de altos oficiais do terrorismo internacional, incluindo a operação que resultou na morte de líderes do grupo terrorista palestino Setembro Negro, responsáveis pelo massacre de atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972.
    Metsada: O Metsada é uma unidade de elite dentro do Mossad, responsável principalmente por missões de resgate, segurança de alto nível e proteção de oficiais de governo. Embora as operações do Metsada não sejam amplamente divulgadas, sabe-se que seus membros desempenham um papel vital na segurança de oficiais israelenses em áreas de risco, sendo frequentemente chamados para proteger figuras chave e atuar em situações de crise. Eles também realizam operações de infiltração e coleta de informações de alto nível.
    Baioneta: O Baioneta é uma unidade especializada em operações de campo, com foco em missões de espionagem e coleta de inteligência. A unidade é conhecida por realizar infiltrações discretas e operações de inteligência em territórios inimigos. Embora detalhes específicos sobre suas missões sejam escassos, a unidade está envolvida em coletar informações críticas para a segurança de Israel, frequentemente atuando de forma furtiva em ambientes hostis.
    Sayeret Matkal: O Sayeret Matkal não é uma subunidade do Mossad, mas sim uma unidade de elite do IDF (Forças de Defesa de Israel). Ela é especializada em missões de resgate, infiltração em territórios inimigos e operações antiterroristas. Embora o Sayeret Matkal não tenha a mesma responsabilidade de coleta de inteligência externa como o Mossad, suas operações frequentemente se cruzam com as do Mossad em situações que exigem uma resposta rápida e de alta complexidade.
 
Selo do Mossad
 
Se o Mossad representa a face externa da inteligência israelense, conduzindo operações além das fronteiras nacionais, o Shin Bet (também conhecido como Shabak) é a linha de defesa interna do Estado de Israel. Como agência de segurança interna e contra-inteligência, o Shin Bet tem a missão de proteger Israel de ameaças terroristas, infiltrações estrangeiras e atividades subversivas que possam comprometer a estabilidade do país.
Desde sua criação em 1948, o Shin Bet desempenha um papel crucial na manutenção da segurança interna. Sua atuação se estende por três principais divisões:
Divisão da Segurança Interna – Responsável pelo combate ao terrorismo doméstico, incluindo ameaças de grupos palestinos e extremistas judeus.
Divisão de Contrainteligência – Foca na identificação e neutralização de espiões estrangeiros que tentam operar em Israel. 
Divisão de Proteção – Encarregada da segurança de infraestruturas estratégicas, do Aeroporto Internacional Ben Gurion e de altos funcionários do governo.
 Mesmo possuindo as três principais divisões, assim como o Mossad, O Shin Bet (ou Shabak), a agência de segurança interna de Israel, desempenha um papel crucial na proteção do País contra ameaças internas, como o terrorismo e a espionagem. Esta agência está estruturada em diversas unidades e subunidades especializadas, cada uma com um papel estratégico para garantir a segurança de Israel. Entre as principais unidades do Shin Bet, destaca-se a Unidade 504, focada em inteligência e contraespionagem, cuja função é prevenir atividades de espionagem dentro de Israel, além de desarticular células de espionagem e ações terroristas. A YAMAM (Unidade de Combate ao Terrorismo), por sua vez, é uma unidade de elite especializada em operações de combate ao terrorismo urbano e resgates em situações de sequestro. Além disso, o Shin Bet colabora com outras agências, como o Mossad e a IDF, em operações conjuntas que envolvem segurança nacional, inteligência cibernética e monitoramento de ameaças terroristas. Outras unidades, como as de infiltração e inteligência territorial, também desempenham um papel vital ao realizar investigações de campo e vigilância, ajudando a neutralizar ameaças antes que se concretizem. Essas unidades e subunidades refletem a filosofia do Shin Bet de garantir a segurança e a paz de Israel por meio da vigilância constante e preparação estratégica, princípios fundamentais para a defesa nacional, de acordo com a filosofia do conceito "Si vis pacem, para bellum".
A eficácia do Shin Bet se baseia na antecipação. A agência coleta informações de diversas fontes – desde vigilância cibernética até agentes infiltrados – para detectar ameaças antes que se concretizem. Seu sucesso na prevenção de atentados terroristas é notável, tornando-o um dos serviços de segurança mais respeitados do mundo. Entretanto, sua atuação não está isenta de polêmicas. Métodos de interrogatório rigorosos e operações de vigilância em massa são frequentemente questionados por organizações de direitos humanos.
Um dos casos mais emblemáticos envolvendo o Shin Bet foi a Operação "Caça ao Hamas", na qual desmantelou células terroristas responsáveis por atentados suicidas nos anos 2000. A capacidade da agência de infiltrar-se no Hamas, na Jihad Islâmica e em outros grupos hostis permitiu a neutralização de inúmeros ataques iminentes, demonstrando a eficácia de suas operações de inteligência. Um exemplo marcante dessa habilidade foi a Operação "Príncipe Verde", que se destacou pela infiltração de Mosab Hassan Yousef, filho de um dos fundadores do Hamas. Ao colaborar com o Shin Bet, Yousef forneceu informações vitais que resultaram na desarticulação de diversas células e na prevenção de ataques que poderiam ter custado muitas vidas. A seguir, exploraremos em detalhes como essa operação se desenrolou e o impacto que teve nas ações de inteligência israelenses.

Mosab Hassan Youssef, filho de um dos fundadores do Hamas, Hassan Youssef
Mosab Hassan Youssef, filho de um dos fundadores do Hamas, Hassan Youssef Imagem: Reprodução - 26.nov.2023/TV Globo.
 
Em um ambiente onde a segurança é um fator de sobrevivência, o Shin Bet se mantém como um dos pilares da defesa israelense. Suas operações discretas, mas altamente eficazes, garantem que a ameaça seja eliminada antes mesmo de se tornar real. Em um mundo onde a paz ainda é um ideal frágil, agências como o Shin Bet mostram que a preparação e a vigilância são a chave para garantir a estabilidade e a sobrevivência de um Estado constantemente ameaçado.

Emblem of the Israel Security Agency
Agência de Segurança de Israel. Fonte: Israel Security Agency.svg

Adolf Eichmann
O criminoso nazista Adolf Eichmann (Foto: Wikimedia Commons)
 
Entretanto, o Mossad e o Shin Bet não são as únicas agências a operarem sob essa filosofia. Ao redor do mundo, diversas outras agências de inteligência adotam uma abordagem semelhante, com a intenção de garantir a segurança nacional e proteger seus interesses, tudo através da ação antecipada e da dissuasão de potenciais ameaças.
A CIA dos Estados Unidos, por exemplo, compartilha dessa postura proativa. Sua missão vai além da coleta de informações: ela envolve a antecipação de ameaças antes que elas se concretizem. A CIA atua em diversos cenários globais, incluindo o Oriente Médio, Ásia Central, África, Pacífico, América Latina e diversos locais do globo, utilizando ações secretas para neutralizar adversários antes que se tornem uma ameaça real ou obterem informações estrategicamente favoráveis aos Estados Unidos. Durante a Guerra Fria e em intervenções mais recentes contra o terrorismo, a CIA demonstrou como uma postura preventiva e discreta pode ser decisiva para a manutenção da paz e da estabilidade, proporcionando segurança aos interesses dos Estados Unidos, principalmente no estrangeiro, que é sua principal área de atuação. A filosofia "Si vis pacem, para bellum" se reflete em diversas operações da agência, que, ao invés de esperar a materialização de uma ameaça, age de forma antecipada para neutralizá-la.
Um exemplo clássico foi a Operação AJAX em 1953, quando a CIA, em conjunto com o MI6 britânico, orquestrou um golpe de Estado no Irã para derrubar o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh. O temor era que a nacionalização do petróleo iraniano fortalecesse a influência soviética na região. Embora controversa, essa intervenção demonstrou a aplicação da doutrina da ação preventiva para evitar o avanço de forças adversárias.
 
Golpe de Estado no Irã
Tanques nas ruas de Teerã, em 1953. Fonte: Bruno Leal.
 
Embora a Operação AJAX tenha sido justificada como uma medida para conter a influência soviética no Irã, sua motivação principal era assegurar o controle ocidental sobre o petróleo iraniano. A nacionalização da indústria petrolífera por Mohammad Mossadegh ameaçava os interesses britânicos e americanos na região, levando a CIA e o MI6 a arquitetarem sua derrubada em 1953. O golpe resultou na restauração do Xá Reza Pahlevi ao poder, garantindo a continuidade do fluxo de petróleo para o Ocidente, mas também alimentando o ressentimento iraniano contra os Estados Unidos, fator que contribuiu para a Revolução Islâmica de 1979 e para décadas de tensão entre os dois países.
 
O Xá Reza Pahlevi e o presidente estadunidense Jimmy Carter celebram a chegada de 1978, em jantar servido no palácio Niavaran, no Irã
Xá Reza Pahlevi e o presidente Jimmy Carter celebram a chegada de 1978, em jantar servido no palácio Niavaran, no Irã. Fonte: Governo USA, Wikimedia commons.

Outro caso emblemático foi a Operação CHAOS, um programa de espionagem doméstica e internacional para identificar possíveis ligações entre movimentos antiguerra e governos estrangeiros durante os anos 1960 e 1970. A CIA buscava impedir que a instabilidade social nos Estados Unidos fosse explorada pela União Soviética.
No contexto do combate ao terrorismo, a CIA foi peça-chave na Operação Ciclone, que financiou e treinou grupos mujahidins no Afeganistão durante a década de 1980 para conter a invasão soviética. Essa ação seguiu a lógica da guerra indireta, enfraquecendo um rival estratégico sem envolvimento direto das forças americanas.
 
Reagan, com Mujahedins
Ronald Reagan chegou a receber líderes dos mujahedins, grupo rebelde financiado pelos EUA para combater o governo soviético no Afeganistão. Fonte: Getty Images
 
Mais recentemente, a estratégia de neutralização preventiva se manifestou na caça a Osama Bin Laden, que culminou na Operação Lança de Netuno em 2011. A coleta de inteligência, o uso de drones e operações clandestinas foram fundamentais para o sucesso da missão, reforçando o papel da CIA como uma ferramenta essencial na defesa proativa dos interesses dos EUA.
 
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Comparação do local de operação levantado pela inteligência (a esquerda) com o modelo físico criado para a condução dos ensaios (a direita). Fonte: Marimón, 2022
 
A doutrina de antecipação de ameaças aplicada pela CIA é um reflexo moderno do princípio romano "Si vis pacem, para bellum". A paz, segundo essa perspectiva, não é alcançada pela passividade, mas pela disposição de agir antes que o perigo se torne irreversível. Embora suas operações gerem debates sobre ética e soberania, a atuação da CIA ao longo da história mostra que, na lógica do poder global, segurança e estabilidade muitas vezes dependem de ações invisíveis antes que as ameaças se tornem reais.

Logo da C.I.A - Antigo e o novo. Fonte: Site da CIA.

O MI6 (Military Intelligence, Section 6) o serviço de inteligência Exterior do Reino Unido, também adota uma filosofia similar. Conhecido por suas capacidades de infiltração e coleta de informações vitais, o MI6 opera com a premissa de que é necessário agir antes que a ameaça se materialize, utilizando, frequentemente, inteligência humana (HUMINT) e contra-inteligência para garantir a segurança nacional. Em momentos de grande tensão, como durante a Guerra Fria, o MI6 demonstrou que preparar-se para o pior, antes que o pior aconteça, é crucial para evitar uma escalada de conflito.
 HUMINT (Human Intelligence) refere-se à coleta de informações por meio de interações diretas com pessoas, como agentes infiltrados, informantes ou fontes dentro de organizações ou nações adversárias. Ao contrário de outras formas de inteligência, como SIGINT (inteligência de sinais) ou IMINT (inteligência de imagens), o HUMINT depende da capacidade de um agente ou informante de obter informações confidenciais, muitas vezes de forma clandestina, através de conversas, observações e interações sociais. O MI6, reconhecido por sua competência em operar HUMINT, utiliza sua rede global de agentes e colaboradores para acessar informações estratégicas sobre atividades hostis, especialmente em contextos de guerra e tensões geopolíticas. Durante a Guerra Fria, o MI6 se destacou no uso de HUMINT para monitorar e antecipar movimentos da União Soviética, o que permitiu ao serviço agir de maneira preventiva e garantir a segurança nacional do Reino Unido. O conceito de atuar antes que a ameaça se materialize, fundamental para o MI6, revela a importância dessa abordagem para evitar o pior cenário e proteger a paz em tempos de incerteza.
 Um exemplo da situação citada acima foi a Operação Jericho, a operação foi uma missão secreta conduzida pelo MI6 durante a Guerra Fria, mais especificamente no início da década de 1950, com o objetivo de evitar que as potências hostis, principalmente a União Soviética, obtivessem acesso a armas químicas e biológicas. Em um período de crescente tensão internacional, o Reino Unido, temendo que tais armas caíssem em mãos erradas, iniciou uma série de operações de sabotagem para destruir instalações que estavam desenvolvendo tais armas. A operação tinha um caráter preventivo, alinhado ao princípio de que, para garantir a paz, era necessário agir antes que a ameaça se materializasse.
O nome "Jericho" foi escolhido devido à sua natureza estratégica e confidencial. O MI6, com a colaboração de agências internacionais e o uso de inteligência humana (HUMINT), obteve informações cruciais sobre a localização de laboratórios de armas biológicas em países considerados adversários. A missão envolvia a infiltração de agentes em áreas fortemente vigiadas para sabotar os processos de fabricação e garantir que o desenvolvimento dessas armas fosse interrompido.
O objetivo central da operação era interromper o desenvolvimento de armas biológicas e químicas antes que estas pudessem ser usadas contra o Reino Unido ou seus aliados. Para isso, o MI6 contava com uma combinação de inteligência de campo e contra-inteligência, além de ações rápidas de sabotagem, visando não apenas destruir as instalações, mas também desinformar os adversários sobre as capacidades de espionagem do Reino Unido.
Em termos de resultados, a operação teve um impacto significativo na diminuição da ameaça de armas biológicas e químicas por parte dos inimigos da Guerra Fria. Ela exemplificou a estratégia do MI6 de se antecipar às ameaças, prevenindo um cenário de guerra em potencial ao neutralizar recursos críticos antes que pudessem ser usados. Embora os detalhes completos sobre a operação permaneçam altamente classificados, o sucesso da missão reflete a eficácia das operações secretas e preventivas em garantir a segurança nacional.
Essa operação está intimamente ligada ao conceito de "Si vis pacem, para bellum", pois demonstrou que, para manter a paz, era necessário estar sempre preparado para o pior e agir de maneira decisiva para evitar conflitos em larga escala. O MI6 exemplificou essa filosofia com a Operação Jericho, ao evitar que armas de destruição em massa caíssem em mãos erradas e potencialmente causassem um desastre global.
 
HUMINT - Inteligência Humana nas Operações de Inteligência

🔹 Fontes: Informantes | Desertores | Agentes infiltrados | Prisioneiros de guerra

🔹 Métodos de Coleta: Entrevistas | Vigilância | Debriefings | Interrogatórios | Escutas ambientais

🔹 Desafios: Contrainteligência | Desinformação | Confiabilidade das fontes | Risco de exposição

🔹 Aplicações: Contraterrorismo | Segurança nacional | Operações militares | Monitoramento de ameaças

🔹 Objetivo: Coletar informações estratégicas por meio da interação direta com indivíduos.

HUMINT - Aplicações nas Operações de Inteligência:
 
✔️ Infiltração em governos hostis ou em governos alvos.
 
✔️ Sabotagem de operações adversárias
 
✔️ Identificação e neutralização de ameaças estratégicas
 
✔️ Obtenção de informações sensíveis sobre potências inimigas
 
SIGINT - Inteligência de Sinais nas Operações de Inteligência

🔹 Fontes: Comunicações interceptadas | Transmissões de rádio | Satélites | Redes de telecomunicação

🔹 Métodos de Coleta: Escutas telefônicas | Monitoramento de redes | Quebra de códigos criptografados | Captura de sinais eletromagnéticos

🔹 Desafios: Cifras avançadas | Volume excessivo de dados | Contrainteligência eletrônica | Proteção das próprias comunicações

 SIGITN - Aplicações nas Operações de Inteligência:
 
✔️ Identificação de comunicações entre grupos terroristas
 
✔️ Monitoramento de governos e forças militares adversárias
 
✔️ Descoberta de operações de espionagem
 
✔️ Quebra de códigos e análise criptográfica
 
🔹 Exemplo Histórico: Quebra do Código Enigma (GCHQ/Bletchley Park, Reino Unido) 
 
📌 Agência: GCHQ e serviço de inteligência britânico durante a Segunda Guerra Mundial
 
📌 Objetivo: Interceptar e decifrar as comunicações codificadas da Alemanha nazista
 
📌 Resultados: Acelerou a derrota da Alemanha ao permitir que os Aliados previssem seus movimentos militares
 
📌 Consequências: Mudou a história da guerra e impulsionou o desenvolvimento da computação moderna
 
🔹 Objetivo da SIGINT: Coletar, analisar e decodificar sinais eletrônicos para antecipar ameaças e obter informações estratégicas.
 
 
The History of Secret Intelligence Service (MI6) - MilitaryLeak.COM
Serviço Secreto de Inteligência do Reino Unido (MI6). Fonte: UK MI6
 
 
GCHQ
GCHQ , ou Sede de Comunicações do Governo, é a agência de espionagem e segurança cibernética do Reino Unido, responsável por proteger a segurança nacional através da vigilância e análise de informações de comunicação. Fonte: Espiamos.
 
A GRU, agência de inteligência militar da Rússia e a FSB, o Serviço Federal de Segurança da Rússia, compartilha uma abordagem igualmente proativa. Com foco na proteção dos interesses russos e na manutenção de sua posição no cenário geopolítico global, a GRU e FSB não hesitam em utilizar de operações clandestinas, ataques cibernéticos e outras formas de força para dissuadir potenciais ameaças. A filosofia de "força para garantir a paz" permeia suas operações, especialmente em regiões de alta tensão, como a Ucrânia, até mesmo dentro de países ocidentais ou da OTAN. As preparações constantes para o conflito e a utilização de operações secretas são à base de sua estratégia para prevenir o surgimento de novas ameaças que a liderança da Rússia julgue que afete à segurança do País.
 
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GRU - Glavnoye Razvedyvatel'noye Upravleniye. Fonte: Darz Mol.


FSB - Federal'naya Sluzhba Bezopasnosti. Fonte: Site FSB.
 
A GRU, Direção Principal de Inteligência, a agência de inteligência militar da Rússia, e a FSB, o Serviço Federal de Segurança da Rússia, compartilham uma abordagem igualmente proativa. Com foco na proteção dos interesses russos e na manutenção de sua posição no cenário geopolítico global, a GRU e FSB não hesitam em utilizar operações clandestinas, ataques cibernéticos e outras formas de força para dissuadir potenciais ameaças. A filosofia de 'força para garantir a paz' permeia suas operações, especialmente em regiões de alta tensão, como a Ucrânia, e até mesmo dentro de países ocidentais ou da OTAN. As preparações constantes para o conflito e a utilização de operações secretas são a base de sua estratégia para prevenir o surgimento de novas ameaças que a liderança da Rússia julgue que afete à segurança do País. Nesse contexto, a GRU se destaca como a personificação do conceito 'Para Bellum', sendo responsável pela preparação direta para o conflito, através de operações militares e cibernéticas. Já o FSB, com seu foco na segurança interna, atua para garantir a estabilidade doméstica, criando uma base segura para a Rússia agir no exterior.
 A GRU e a FSB seguem a filosofia de "força para garantir a paz", operando dentro do conceito de "Para Bellum", onde a preparação antecipada para o conflito é vista como essencial para proteger a segurança nacional e a posição geopolítica da Rússia. Em 2014, durante a anexação da Crimeia, a GRU esteve diretamente envolvida nas operações militares e de desinformação, utilizando uma combinação de forças especiais e táticas clandestinas. Outro exemplo marcante foi o ataque cibernético às eleições americanas de 2016, no qual a GRU foi responsabilizada pelos ataques, que visaram manipular informações e influenciar os resultados. Além disso, em operações na Síria, a GRU e a FSB trabalharam para garantir a estabilidade do regime de Bashar al-Assad, utilizando táticas militares e de espionagem. Essas ações demonstram a preparação constante da Rússia para lidar com ameaças, garantindo a paz por meio da vigilância e do uso da força quando necessário.
O SVR, Serviço de Inteligência Estrangeiro da Rússia embora mais discreto, contribui com suas operações de espionagem e manipulação geopolítica para garantir a estabilidade estratégica da Rússia. Juntas, essas agências refletem a filosofia de que a paz é garantida pela vigilância constante e pela preparação para a guerra. O SVR (Serviço de Inteligência Estrangeiro da Rússia), embora mais discreto em suas operações, também adota uma filosofia alinhada ao conceito de "Para Bellum". Atuando em esferas internacionais, o SVR tem se especializado em operações de espionagem e manipulação geopolítica, com o objetivo de proteger os interesses estratégicos da Rússia. Durante a Guerra Fria e nos anos seguintes, o SVR foi responsável por infiltrar agentes e coletar informações vitais sobre adversários políticos e militares, ajudando a antecipar movimentos no cenário global. Em tempos mais recentes, o SVR também esteve envolvido em campanhas de desinformação, como as relacionadas ao ataque cibernético de 2016 às eleições dos Estados Unidos, onde foi associado ao trabalho coordenado com a GRU para influenciar o processo eleitoral. Essas ações refletem a filosofia de que a paz é garantida pela vigilância constante e pela preparação para a guerra, através da coleta de informações sigilosas e do uso de operações secretas.
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Tabela anexada ao relatório secreto da NSA dá um panorama detalhado do ataque de spear-phishing realizado pelo governo russo. The Intercept não teve acesso à segunda página do documento. Imagem: NSA/INTERCEPT.
 
No campo da inteligência russa, algumas unidades operam com um nível de sigilo tão elevado que seus detalhes permanecem desconhecidos para o público. Uma dessas unidades é o Zaslon, que faz parte do SVR (Serviço de Inteligência Estrangeiro da Rússia). Embora informações específicas sobre suas atividades sejam limitadas devido à natureza altamente confidencial de suas operações, sabe-se que o Zaslon é especializado em operações de inteligência no exterior, realizando missões de coleta de informações e proteção de interesses estratégicos da Rússia. Com sua atuação em zonas de risco e em ambientes de alta complexidade, o Zaslon tem como objetivo antecipar ameaças e proteger a segurança nacional russa. Embora a unidade não seja amplamente discutida em fontes abertas, a sua existência reflete a aplicação prática do conceito de que a paz é garantida pela vigilância constante e pela preparação para a guerra. O Zaslon tem um papel vital na garantia da estabilidade geopolítica da Rússia, atuando de forma silenciosa, mas decisiva, em suas operações no exterior.
 A existência do Zaslon e seu vínculo com o SVR são confirmados por fontes especializadas em serviços de inteligência, como o livro The Red Web, de Andrei Soldatov e Irina Borogan, que aborda o funcionamento das agências de inteligência russas, embora detalhes específicos sobre as operações da unidade Zaslon permaneçam confidenciais.
 
 
 
Serviço de Inteligência Estrangeiro (Rússia) – Wikipédia, a enciclopédia  livre
SVR - Sluzhba Vneshney Razvedki. Fonte: Site SVR.
 
Até mesmo o ISI, serviço de inteligência do Paquistão, adota uma filosofia semelhante. Em uma região marcada por tensões constantes, como a fronteira com a Índia e a situação no Afeganistão, o ISI tem se mostrado uma força de vigilância contínua e intervenção estratégica. O uso de inteligência militar e estratégica, a antecipação de movimentos adversários, e a intervenção preventiva são fundamentais para o equilíbrio e a estabilidade da região. O pensamento de que a única maneira de garantir a paz e a segurança é se antecipando às ameaças está claramente integrado nas operações do ISI. Durante os anos 1990, o ISI forneceu apoio direto ao Talibã, tendo em vista que o grupo é um aliado estratégico no Afeganistão para enfraquecer a influência de outros atores, como a Índia, e garantir uma zona de influência no País. Após a invasão americana do Afeganistão em 2001, alegações de que o ISI continuou a fornecer apoio a facções talibãs e outros grupos insurgentes se intensificaram, com o objetivo de minar os interesses ocidentais e proteger a estabilidade do Paquistão.
 
Montagem com o emblema do ISI e a bandeira do Paquistão. Fonte: Blog Velho General.
 
Documentos vazados e investigações apontam que o ISI foi fundamental na criação de redes de apoio logístico e financiamento a esses grupos, prolongando o conflito e desafiando diretamente os esforços dos EUA na região. Esse comportamento de antecipação, apoio estratégico a grupos insurgentes e intervenção direta reflete claramente a aplicação da filosofia de "preparar-se para a guerra" como um meio de garantir a paz e a segurança no contexto paquistanês.
 
Operações de Inteligência: MI6, CIA, MOSSAD, SHIN BET FSB, SVR, GRU e ISI
 
As agências de inteligência desempenham um papel crucial nas intrincadas teias da geopolítica mundial, muitas vezes atuando nas sombras para moldar o curso da história. Entre elas, MI6, CIA, MOSSAD, SHIN BET, FSB, SVR, GRU e ISI se destacam pela execução de operações de grande envergadura, cujos desdobramentos transcendem os limites da espionagem tradicional. A seguir, operações grandiosas realizadas por esses serviços secretos.
 
 MI6: Operação PIMLICO, o plano de Exfiltração  de Gordievsky: Oleg Gordievsky foi um oficial de alta patente do KGB (Comitê de Segurança do Estado da União Soviética), a principal agência de inteligência soviética, e é amplamente reconhecido por sua atuação como espião duplo para o MI6, o serviço de inteligência britânico. Nascido em 1938, Gordievsky ingressou no KGB ainda jovem, sendo rapidamente promovido devido às suas habilidades excepcionais.
Durante sua carreira no KGB, ele ocupou diversos cargos de destaque, incluindo o posto de oficial de inteligência na Embaixada Soviética em Copenhague. Foi nesse período, em 1974, que começou sua colaboração com os britânicos, sendo abordado por um agente do MI6, que lhe ofereceu a chance de escapar do controle do regime soviético em troca de informações vitais.
A operação de exfiltração de Oleg Gordievsky foi, sem dúvida, uma das mais bem-sucedidas operações de inteligência do MI6 e um dos maiores golpes contra a KGB durante a Guerra Fria. Gordievsky, um oficial da KGB com um cargo elevado, começou a colaborar com os britânicos em 1974, quando, então, estava destinado como oficial de inteligência na embaixada soviética em Copenhague. Ele foi recrutado pelo MI6 após ser abordado por um agente britânico, que lhe ofereceu uma oportunidade para escapar do controle de uma máquina repressiva como a KGB, fornecendo informações cruciais sobre a União Soviética.
 
Oleg Gordievsky. Fonte: spyscape
 
Com o tempo, Gordievsky tornou-se uma das fontes mais valiosas de informações para o Ocidente. Entre as informações mais reveladoras estavam detalhes sobre os planos de guerra soviéticos, a paranoia de Moscou em relação à OTAN e os movimentos de espionagem que a KGB tinha em todo o Ocidente. Ele também desvendou a visão distorcida dos líderes soviéticos sobre o Ocidente, revelando como o Kremlin temia uma guerra nuclear com os EUA e como a KGB operava para infiltrar governos ocidentais.
Sua colaboração, no entanto, permaneceu secreta, pois sua posição de alto escalão na KGB o tornava um alvo vulnerável. Por mais de uma década, ele forneceu informações vitais sobre o modus operandi da KGB, incluindo o nome de agentes infiltrados, o modo de operação da inteligência soviética, e os contatos diretos de Moscou com outros serviços secretos no mundo ocidental.
Em 1985, porém, as coisas mudaram. O serviço de contrainteligência soviético começou a perceber que havia um traidor dentro da KGB e intensificou suas investigações. Gordievsky, já ciente do crescente risco, percebeu que sua cobertura estava prestes a ser comprometida. Ele foi convocado de volta a Moscou, mas essa convocação foi, na verdade, uma sentença de morte caso fosse capturado.
A exfiltração foi complexa e exigiu uma precisão cirúrgica. Gordievsky foi orientado pelo MI6 a usar uma série de sinais codificados e comportamentos específicos para alertar os britânicos sobre sua situação. Em um movimento crítico, Gordievsky abandonou sua residência na noite de sua convocação e foi levado a um ponto de encontro pré determinado. Ele foi então escoltado para um apartamento seguro em Moscou, onde aguardaria sua fuga.
O ponto culminante dessa operação ocorreu na fronteira com a Finlândia, onde ele seria retirado do território soviético. Gordievsky foi colocado no porta-malas de um carro diplomático britânico, que atravessaria a fronteira para a Finlândia. Essa travessia foi o momento de maior tensão. A vigilância soviética estava em níveis extremos, e qualquer erro poderia significar a captura do ex-oficial da KGB e sua execução. Durante o percurso, os guardas de fronteira realizaram inspeções de rotina, e a equipe do MI6 temia que Gordievsky fosse descoberto a qualquer momento. Porém, o carro diplomático britânico foi projetado para não levantar suspeitas e foi, finalmente, autorizado a cruzar a fronteira.
Após a fuga bem-sucedida, Gordievsky foi levado para Londres, onde foi acolhido e protegido pelo MI6. Sua fuga foi um golpe devastador para a KGB, que não conseguiu recuperar um de seus oficiais de maior confiança. A operação de exfiltração também expôs falhas significativas na segurança soviética e revelou a crescente vulnerabilidade da KGB à infiltração. Gordievsky, em seus relatos, declarou que sua fuga foi uma das maiores derrotas para o regime soviético e um marco na Guerra Fria.
As informações que ele forneceu continuaram a ser vitais para a inteligência ocidental. Ele revelou planos secretos do governo soviético, incluindo estratégias militares e de espionagem. Além disso, seu testemunho ajudou a desmascarar vários espiões soviéticos no Ocidente e revelou o tamanho da infiltração da KGB em governos e organizações ocidentais.
 
Gordievsky em 200. Fonte: Сергей Кристо, Sergei66 at Russian
 
No entanto, a exfiltração de Gordievsky não foi o fim da história. Em 1996, um agente duplo da CIA, Aldrich Ames, foi preso por passar informações para a KGB. Gordievsky mais tarde apontou Ames como uma das razões pelas quais sua operação de espionagem foi desmantelada. Ao longo dos anos, Gordievsky se tornou uma figura fundamental na compreensão da dinâmica interna da KGB e foi considerado uma das figuras mais significativas da Guerra Fria.
 
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Aldrich Ames; que é um ex-oficial americano da contraespionagem da CIA que foi condenado por espionagem em nome da União Soviética e da Rússia em 1994.No momento está cumprindo pena de prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional. Fonte: FBI.
 
Sua história não apenas expôs as falhas do sistema soviético, mas também revelou o valor de informações estratégicas de dentro do próprio sistema inimigo. Gordievsky, com sua coragem e inteligência, se tornou uma lenda da espionagem, sendo amplamente reconhecido como um dos mais importantes espiões duplos da história.
 
MI6
Serviço Secreto de Inteligência (SIS) ou MI6. Fonte: ESP.
 
CIA: A Operação 'Neptune Spear': A Operação Neptune Spear, realizada em 2 de maio de 2011, foi a missão que resultou na morte de Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda, e responsável pelos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. A operação foi coordenada pela CIA, com a execução sendo feita pela SEAL Team 6 (também conhecida como DEVGRU, unidade de elite da Marinha dos EUA). O planejamento começou após anos de intensa vigilância sobre um mensageiro de Bin Laden, identificado como Ahmed AL-Kuwaiti, cuja identidade levou a CIA a uma casa em Abbottabad, no Paquistão.
 
Foto do complexo de Bin Laden (Reuters)
 SEALs da Marinha. Fonte: Reuters
 
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 Abu Ahmed Al-Kuwaiti, mensageiro de Bin Laden. Fonte: Express tribune.
 
O líder da operação foi o então Presidente Barack Obama, que autorizou a missão após semanas de discussões em reuniões de alto nível no Salão Oval da Casa Branca. O diretor da CIA, Leon Panetta, foi uma das figuras chave por trás da operação. Os helicópteros Black Hawk modificados foram usados para infiltrar os SEALs, que conseguiram invadir a casa onde Bin Laden estava escondido. Durante o ataque, Bin Laden tentou resistir, se protegendo atrás de uma mulher, mas foi abatido por Rob O'Neill, um dos membros da SEAL Team 6, que foi posteriormente identificado como o soldado que disparou o tiro fatal.
 
Fotos liberadas pela Casa Branca no momento da Operação Neptuno Spear, Sala de Crise.
 
 
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Fotos liberadas pela Casa Branca no momento da Operação Neptuno Spear, Sala de Crise.
 
Foto oficial de Leon Panetta, 2011. Fonte: Site Gov USA.
 
SEAL da Marinha dos EUA (DEVGRU) Rob O’Neill. Fonte: SEALgrinder
 
O corpo de Bin Laden foi retirado do local e transportado para um navio de guerra dos EUA, onde foi enterrado no mar, conforme os procedimentos islâmicos. O sucesso da missão foi confirmado pelo Departamento de Defesa dos EUA, que também relatou a recuperação de materiais significativos, como computadores e discos rígidos, que contêm informações valiosas sobre a Al-Qaeda e seus planos futuros. A operação gerou controvérsias e discussões sobre o conhecimento do Paquistão sobre a presença de Bin Laden em seu território, considerando que sua residência estava localizada perto de uma base militar paquistanesa. A missão representou um marco significativo na Guerra ao Terror e destacou a eficácia das operações de contraterrorismo dos EUA.
 
Logo da CIA, agência de inteligência americana, na sede da instituição em Langley, no estado da Virgínia — Foto: Jason Reed/Reuters
Logo da CIA, agência de inteligência americana, na sede da instituição em Langley, no estado da Virgínia. Foto: Jason Reed/Reuters
 
 
Ilustração. New York Times. 
 
Maquete do esconderijo de Osama bin Laden no Paquistão
Maquete do esconderijo de Osama bin Laden no Paquistão (Anthony Boone / AFP/VEJA)

Quarto da mansão onde Osama bin Laden foi morto, em Abbottabad
Quarto do complexo onde Osama bin Laden foi morto, em Abbottabad. (AFP/VEJA)

 
MOSSAD: A Captura de Adolf Eichmann: A Operação Eichmann, executada pelo MOSSAD em 1960, é uma das missões mais célebres e bem-sucedidas da história dos serviços de inteligência, simbolizando a busca implacável de Israel por justiça para as vítimas do Holocausto. Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela logística da "Solução Final" nazista, após a Segunda Guerra Mundial, fugiu para a Argentina e passou a viver sob a identidade falsa de Ricardo Klement. Ele foi localizado na cidade de Buenos Aires pelo MOSSAD, após uma série de investigações feitas com a ajuda de sobreviventes do Holocausto e de fontes de inteligência alemãs.
 
"Ricardo Klement" o Adolf Eichmann. Fonte: Xadrez Verbal.
 
A operação foi conduzida por Peter Malkin, um agente experiente do MOSSAD, e sua equipe, composta por outros operativos do serviço de inteligência israelense, incluindo Rafi Eitan, que era responsável pela coordenação geral da missão. A missão foi meticulosamente planejada, e os agentes do MOSSAD passaram meses vigiando Eichmann, confirmando sua identidade e garantindo que ele fosse realmente o responsável pelos horrores do Holocausto.
 
Peter Malkin Photo: Flickr

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Peter Malkin (1927-2005. Fonte: Find a Grav.
 
 
Rafi Eitan tenía 92 años
Rafi Eitan tinha 92 anos e nasceu no Mandato Britânico da Palestina.(AFP)
 
Em 11 de maio de 1960, Eichmann foi capturado enquanto caminhava para sua casa, sendo sequestrado em plena luz do dia, em uma operação silenciosa e rápida, sem violência desnecessária. O MOSSAD conseguiu abduzi-lo sem disparar tiros, e ele foi levado rapidamente para uma casa segura em Buenos Aires, onde foi mantido em cativeiro até que o momento para a exfiltração fosse ideal.
A operação de exfiltração foi complexa. Eichmann foi escondido e transportado de maneira secreta para Israel em um voo que envolveu uma série de etapas bem coordenadas. O serviço de inteligência israelense usou vários disfarces e estratégias de camuflagem para evitar que Eichmann fosse identificado ou liberado pelas autoridades argentinas. Todo o processo de captura e exfiltração foi mantido em segredo para evitar possíveis repercussões diplomáticas com a Argentina, que na época estava sob a presidência de Arturo Frondizi.
 
Arturo Frondizi. Fonte: Pink House Museum
 
Uma vez em Israel, Eichmann foi julgado publicamente em Jerusalém em 1961. O julgamento foi presidido pelo juiz Moshe Landau e foi amplamente coberto pela mídia internacional, chamando a atenção do mundo para os crimes de guerra cometidos pelo regime nazista. Durante o julgamento, Eichmann defendeu-se, alegando que estava apenas cumprindo ordens e não tinha responsabilidade direta pelos assassinatos, mas sua defesa foi amplamente desacreditada. Ele foi condenado por crimes contra a humanidade, assassinato e outros crimes de guerra.
 
Julgamento de Adolf Eichmann. fonte: Israeli GPO  

Eichmann preso em Israel, 1961 / Crédito: Wikimedia Commons
 
A sentença foi a de morte, e Eichmann foi executado por enforcamento em julho de 1962. Sua execução foi um símbolo da justiça de Israel, não só para as vítimas do Holocausto, mas também para o mundo, mostrando que os responsáveis pelos crimes nazistas seriam levados à justiça, independentemente de onde se escondessem.
 
Courtroom Photographs
Reação de Eichmann no momento da Sentença. Fonte:
 
A Operação Eichmann também teve um impacto profundo na política internacional, sendo uma das primeiras vezes que uma operação de captura de criminosos de guerra foi realizada fora de um tribunal internacional. A missão demonstrou a habilidade do MOSSAD em rastrear e capturar indivíduos que se acreditava estarem fora do alcance da justiça. Ela também serviu como um lembrete global da responsabilidade de levar à justiça aqueles que cometeram atrocidades em grande escala.
 
Fonte: O CRUZEIRO, 29 abr. 1961, n. 0028, p. 126-7
 
Adolph Eichmann durante julgamento em Jerusalém
Adolf Eichmann, conhecido como 'arquiteto do Holocausto', foi capturado pelo Mossad e julgado em Jerusalém por crimes de guerra. Fonte: Central Press/Getty Images
 
SHIN BET: A Operação "Príncipe Verde": A Operação "Príncipe Verde" foi uma das mais impactantes missões conduzidas pelo Shin Bet, a agência de segurança interna de Israel, durante a década de 1990. O nome da operação está diretamente ligado a Mosab Hassan Yousef, filho de Sheikh Hassan Yousef, um dos fundadores e principais líderes do Hamas, organização militante palestina. O jovem palestino, criado dentro da ideologia e da estrutura do grupo, acabou se tornando uma das maiores fontes de inteligência para o serviço secreto israelense, fornecendo informações vitais sobre a estrutura, os planos e as operações do Hamas.
 
Sheikh Hassan Yousef, a Hamas founder, speaks during a rally in the West Bank city of Ramallah in 2006.
Sheikh Hassan Yousef, um fundador do Hamas, fala durante um comício na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, em 2006. ABBAS MOMANI/AFP-Getty Images
 
Mosab Hassan Yousef, filho de um dos fundadores do Hamas

Mosab Hassan Yousef foi recrutado pelo Shin Bet após ser preso por autoridades israelenses no final da década de 1980. Inicialmente, ele era apenas mais um detido entre os muitos palestinos capturados durante operações contra células terroristas. No entanto, os agentes do Shin Bet perceberam que seu valor estratégico ia muito além de um simples combatente: ele era filho de um dos homens mais influentes dentro do Hamas e tinha acesso direto a discussões de alto nível sobre ataques e estratégias do grupo.
A abordagem para recrutá-lo foi feita com extrema cautela. Durante seu período na prisão, o Shin Bet utilizou métodos sofisticados de persuasão psicológica para convencê-lo a colaborar, destacando as contradições dentro do Hamas, a brutalidade do grupo contra seu próprio povo e a corrupção interna de seus líderes. Aos poucos, Yousef começou a questionar sua lealdade e, eventualmente, aceitou trabalhar como informante.
Uma vez recrutado, recebeu o codinome "Príncipe Verde"—"Príncipe" por ser filho de uma figura de alto escalão no Hamas e "Verde" em referência à cor da bandeira do grupo. Seu papel dentro da organização se tornou ainda mais crucial, pois ele conseguiu se infiltrar profundamente no movimento, participando de reuniões estratégicas e obtendo informações em tempo real sobre ataques planejados contra Israel.
O trabalho de Mosab Hassan Yousef permitiu ao Shin Bet frustrar uma série de atentados suicidas e capturar diversos membros chave do Hamas. Graças às informações fornecidas por ele, autoridades israelenses conseguiram interceptar operações antes que fossem executadas, desarticular células terroristas e identificar rotas de financiamento e abastecimento de armas usadas pelo grupo.
Entre as ações mais notáveis que foram evitadas devido às informações do "Príncipe Verde", destacam-se:
A prevenção de múltiplos atentados suicidas que estavam prestes a ser realizados em áreas civis israelenses.
A captura de líderes importantes do Hamas, responsáveis por planejar ataques contra civis e forças de segurança israelenses.
O monitoramento das táticas de recrutamento e doutrinação do Hamas, permitindo que Israel ajustasse sua estratégia de segurança para conter o crescimento do grupo. 
Apesar do sucesso da operação, a vida de Yousef foi irreversivelmente transformada. Ele passou anos vivendo como um agente duplo, traindo a confiança de seu pai e de seus companheiros dentro do Hamas. Quando seu papel foi finalmente descoberto, ele se tornou um alvo de execução sumária, sendo forçado a fugir para os Estados Unidos, onde buscou asilo político.
Sua decisão de colaborar com Israel e abandonar sua fé islâmica fez com que ele fosse renegado por sua própria família e condenado por ex-companheiros do Hamas, que o consideram um traidor. Em 2010, publicou um livro autobiográfico intitulado "Filho do Hamas", no qual revelou detalhes sobre sua trajetória, seu recrutamento pelo Shin Bet e as operações secretas que ajudou a impedir.
 
Capa do livro "Filho do Hamas", de Mosab Hassan Yousef
Capa do livro "Filho do Hamas", de Mosab Hassan Yousef (Sextante/Reprodução)

A Operação "Príncipe Verde" exemplifica a eficácia do uso da inteligência humana (HUMINT) na guerra contra o terrorismo. A infiltração de Yousef dentro do Hamas não apenas salvou inúmeras vidas, mas também permitiu ao Shin Bet entender melhor a estrutura e os métodos do grupo.
Para Israel, esse tipo de operação é essencial para manter sua segurança interna e antecipar ameaças. Para Mosab Hassan Yousef, no entanto, a colaboração com o Shin Bet teve um custo altíssimo: a perda de sua identidade, o rompimento com sua família e a necessidade de viver permanentemente sob ameaça de morte.  

FSB e o Grupo Alpha: A Elite do Contraterrorismo Russo: O FSB, sucessor da KGB é a principal agência de segurança da Rússia, tem desempenhado um papel central na luta contra o terrorismo dentro do território russo e em regiões de conflito estratégico. Ao longo das últimas décadas, a agência coordenou operações complexas para desmantelar redes extremistas, combinando inteligência tradicional, infiltração e guerra cibernética para antecipar e neutralizar ameaças. Uma de suas unidades mais notórias nesse esforço é o Grupo Alpha, uma força de elite especializada em missões de contraterrorismo e resgate de reféns.
 O Grupo Alpha (Spetsgruppa "A") é uma unidade de elite do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), especializada em operações antiterroristas, resgates de reféns e missões de alto risco dentro e fora do território russo. Criado em 1974 durante a era soviética como parte da KGB, o Alpha foi projetado para lidar com ameaças terroristas e sabotagens, ganhando notoriedade em crises como o Cerco de Beslan (2004) e a Crise dos Reféns no Teatro Dubrovka (2002), onde foi mobilizado para neutralizar terroristas chechenos. Após a dissolução da União Soviética, o grupo foi transferido para o FSB, tornando-se parte do Centro de Propósitos Especiais (CSN FSB), ao lado de outras unidades de elite, como o Grupo Vympel. Atualmente, o Alpha continua desempenhando um papel crucial na segurança nacional da Rússia, sendo frequentemente mobilizado em operações no Cáucaso Norte e em missões sigilosas de contraterrorismo.
 
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Militares do Spetsgruppa A (Grupo Alpha) em treinamento (2009). Fonte: Spetsnaz Alpha
 
Soldados russos com civis do lado de fora da escola durante o cerco
Soldados russos com civis do lado de fora da escola durante o cerco de Beslan, que durou três dias. Fonte: Getty Images
 
Cerco da escola de Beslan. Fonte: Reuters
 
Crise dos reféns do teatro Dubrovka, em Moscou (Rússia). Fonte: Fiodor Savintsev/TASS
 
SVR: Uma operação comprovadamente realizada pelo SVR foi o ataque cibernético à SolarWinds, descoberto em 2020. Esse ataque foi uma das maiores operações de espionagem digital já registradas e comprometeu redes do governo dos EUA, incluindo o Departamento do Tesouro, o Departamento de Estado e a Administração Nacional de Telecomunicações e Informação (NTIA), além de diversas empresas privadas.
O ataque foi conduzido pelo grupo de hackers APT29 (Cozy Bear), vinculado ao SVR, e envolveu a infiltração no software de gerenciamento de redes Orion, da empresa SolarWinds. Ao comprometer as atualizações desse software, os hackers conseguiram acessar informações sensíveis de milhares de organizações sem serem detectados por meses. O governo dos Estados Unidos oficialmente atribuiu essa operação à inteligência russa, especificamente ao SVR (Office of the Director of National Intelligence, 2021).
 
 
  
O ataque cibernético à SolarWinds foi uma invasão sofisticada realizada pelo grupo russo APT29 (Cozy Bear), vinculado à SVR. O ataque, descoberto em dezembro de 2020, comprometeu o software Orion da SolarWinds, usado por mais de 18.000 organizações, incluindo agências governamentais dos EUA e grandes empresas.
Os hackers inseriram código malicioso nas atualizações do software, permitindo o acesso a redes e sistemas sem serem detectados. O ataque permitiu monitorar e roubar dados sensíveis. Ele evidenciou a vulnerabilidade em infraestruturas críticas e foi um dos maiores exemplos de ciberespionagem envolvendo um serviço de inteligência estatal.
O incidente foi investigado por várias agências, como a CISA, FBI e NSA, que confirmaram a autoria russa e alertaram sobre os riscos de segurança cibernética.
A CISA (Cybersecurity and Infrastructure Security Agency), responsável pela proteção das redes nos EUA, emitiu um alerta afirmando ter evidências de que hackers conseguiram invadir sistemas utilizando outras vulnerabilidades além do software SolarWinds. No comunicado, a agência classificou o ataque como uma “ameaça grave”, destacando que entre os alvos comprometidos estão diversas agências governamentais, infraestruturas críticas e empresas do setor privado.
NSA – National Security Agency – emitiu um alerta mais amplo às agências de defesa sobre vulnerabilidades como as expostas pelo ataque SolarWinds. Segundo o The Wall Street Journal, a NS disse que “Hackers estão encontrando maneiras de forjar credenciais de computador para obter acesso mais amplo às redes e roubar dados protegidos armazenados em servidores internos e centros de dados em nuvem.” A abordagem pode ter sido usada em um ataque ao software VMware Inc. usado nos círculos de segurança nacional sobre o qual a agência de espionagem alertou no início deste mês.

 
Fonte: Solar Winds  

 
GRU: A GRU (Diretoria Principal de Inteligência da Rússia) tem sido responsável por uma série de operações militares e cibernéticas amplamente documentadas. Entre os casos mais conhecidos está a interferência nas eleições dos EUA em 2016, quando a unidade de hackers Fancy Bear (APT-28) invadiu os sistemas de e-mail do Partido Democrata, roubando e vazando documentos com o objetivo de desestabilizar a campanha de Hillary Clinton e favorecer Donald Trump, conforme relatado no relatório do procurador especial Robert Mueller em 2018. Os hackers do GRU, conhecidos como Fancy Bear, ou APT-28, foram acusados de não apenas hackear sistemas de computadores, mas também roubar e divulgar informações, com o objetivo de desacreditar um alvo. Agências de inteligência dos EUA acusam hackers da GRU de roubar documentos dos EUA Funcionários do Partido Democrata em 2016, e também de vazar para o público no período que antecede a eleição presidencial de novembro. 
“O GRU tinha várias unidades, incluindo as Unidades 26165 e 74455, envolvidas em operações cibernéticas que envolviam as liberações encenadas de documentos roubados por invasões de computador”, escreveu o procurador especial Robert Mueller em uma acusação de julho de 2018 que acusou 12 oficiais do GRU. “Essas unidades realizaram operações cibernéticas em larga escala para interferir na eleição presidencial dos EUA em 2016”.
Além disso, a GRU foi diretamente responsável pelo envenenamento do ex-espião Sergei Skripal e sua filha, Yulia, no Reino Unido, com o agente neurotóxico Novichok, uma operação atribuída aos agentes Alexander Petrov e Ruslan Boshirov.
 
Alexander Petrov e Ruslan Boshirov
Alexander Petrov e Ruslan Boshirov são suspeitos de ter usado o agente nervoso Novichok para envenenar ex-espião Sergei Skripal e a filha, Yulia.
 
A GRU também esteve envolvida em ciberataques ao sistema elétrico ucraniano em 2015 e 2016, resultando em apagões em diversas áreas da Ucrânia, como parte de uma campanha mais ampla para desestabilizar o país durante o conflito no Leste da Ucrânia. Outro exemplo relevante foi a tentativa de ciberataque à eleição presidencial francesa de 2017, onde a GRU tentou invadir os sistemas de e-mail da campanha de Emmanuel Macron. Tais ações refletem a utilização da GRU em operações de espionagem, ciberataques e interferência política em nível global. 
 
ISI: A Operação 'Cobra' e operação de apoio ao Talibã: A Inter-Services Intelligence (ISI) do Paquistão é uma das agências de inteligência mais poderosas da região, com uma histórica atuação na Ásia Central. Em 1988, a ISI executou a operação 'Cobra', um esforço conjunto com os EUA e outros aliados, para apoiar os mujahideen no combate ao regime soviético no Afeganistão. A operação envolveu o fornecimento de armas, treinamento e apoio logístico, e acabou por resultar na retirada soviética do país. O sucesso da operação consolidou a ISI como um ator estratégico importante na região, cujas repercussões reverberam até os dias de hoje.
 A relação entre o Talibã e a inteligência paquistanesa (ISI) tem sido amplamente documentada como um fator crucial na dinâmica do conflito no Afeganistão. Desde a década de 1990, a ISI foi acusada de apoiar o Talibã, proporcionando treinamento militar, fornecimento de armas e apoio logístico, visando garantir um regime aliado em Cabul que pudesse atuar como uma zona de influência do Paquistão no Afeganistão. Esse apoio foi intensificado no período pós-1979, quando o Paquistão, juntamente com os EUA, começou a apoiar os mujahidins afegãos contra a ocupação soviética. No entanto, após a retirada soviética e a ascensão do Talibã, o Paquistão continuou a apoiar a organização para proteger seus próprios interesses estratégicos na região. A ISI facilitou a comunicação e coordenação entre o Talibã e outros grupos militantes, oferecendo abrigo a líderes talibãs em cidades como Quetta, onde a presença de figuras chave do movimento foi bem documentada, como revelou o New York Times em 2011. A relação entre o Talibã e a ISI se manteve mesmo após a queda do regime talibã em 2001, com evidências de que a ISI continuou a fornecer apoio logístico e treinamento, permitindo ao Talibã recuperar força ao longo dos anos. A denúncia de que a ISI era uma "mãe" do Talibã foi reafirmada por diversas fontes, incluindo a ONU e jornalistas investigativos, que indicaram que, embora o Paquistão negasse envolvimento direto, a ISI ainda facilitava as operações do Talibã, especialmente no contexto da insurgência de 2010 e das subsequentes ofensivas no Afeganistão.
 O apoio do Paquistão ao Taleban tem sido uma questão controversa e amplamente documentada, com indícios substanciais sobre a colaboração entre o governo paquistanês e o grupo extremista. Um dos casos mais recentes que reforçam essa conexão aconteceu quando documentos pessoais de Abdul Ghani Baradar, cofundador do Taleban, foram encontrados. Baradar, que agora lidera o Afeganistão, estava portando um passaporte e um documento nacional de identificação paquistanês, ambos sob o nome falso de Muhammad Arif Agha. Esses documentos foram emitidos no Paquistão em 10 de julho de 2014, o que levanta suspeitas de que o governo paquistanês, através do ISI (Inter-Services Intelligence), tenha fornecido apoio direto ao Taleban. A validade vitalícia do passaporte e a emissão simultânea dos documentos indicam que a conexão com o Paquistão não era acidental, mas uma parte estratégica de apoio ao grupo. Além disso, em 2016, a morte do ex-líder do Taleban, mulá Akhtar Mansoor, em um ataque de drone, trouxe mais evidências dessa colaboração, pois foi encontrado um passaporte paquistanês com ele, o que fortaleceu a alegação de envolvimento do Paquistão com o Taleban, sendo um apoio que inclui assistência militar, financeira e de inteligência. Esses eventos revelam uma relação de longo prazo e profundamente enraizada entre o Paquistão e o Taleban, frequentemente mediada pela atuação do ISI, que desempenha um papel crucial na dinâmica da política regional e no cenário de segurança do Afeganistão. As informações são do jornal indiano Hindustan Times.
 
Abdul Ghani Baradar, cofundador do Taleban (Foto: reprodução/facebook.com/foreignofficepk)
 
Os mujahidin receberam apoio do Paquistão para enfrentar o governo comunista e o Exército Soviético.
 
Foto sem data mostra Akhtar Mansour, líder talibã (Foto: Handout/Reuters)
Foto sem data mostra Akhtar Mansour, Ex - líder talibã (Foto: Handout/Reuters).

Fotografia feita no sábado mostra moradores paquistaneses  em volta de um veículo destruído por um drone, no qual o líder Akhtar Mansour estaria. (Foto: AFP)
Fotografia feita no sábado mostra moradores paquistaneses em volta de um veículo destruído por um drone, no qual o líder Akhtar Mansour estaria. (Foto: AFP)
 
Assassinatos Seletivos: A Guerra Oculta dos Serviços de Inteligência.
 
Mossad: A agência de inteligência israelense é uma das mais conhecidas no uso de assassinatos seletivos como ferramenta de contraterrorismo e dissuasão estratégica. Desde a caça aos criminosos nazistas após a Segunda Guerra Mundial até as operações contra cientistas nucleares iranianos, o Mossad construiu uma reputação de precisão e sigilo absoluto. Entre seus casos mais notórios está a Operação Ira de Deus, uma retaliação contra os membros do grupo palestino Setembro Negro envolvidos no massacre dos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. Outra ação emblemática foi a eliminação de Mohsen Fakhrizadeh, principal cientista do programa nuclear iraniano, em uma operação sofisticada envolvendo armamento controlado remotamente. As agências de inteligência ocidentais afirmavam que Mohsen Fakhrizadeh era o mentor do programa secreto de armas nucleares do Irã e segundo os relatórios, o cientista foi: "o criador da bomba Iraniana".
 
Operação Ira de Deus do Mossad
Operação Ira de Deus ou Cólera de Deus, alvos acima: Ali Hassan Salameh.
 
iran nuclear scientist assassination
Cientista nuclear do Irã Mohsen Fakhrizadeh é assassinado perto de Teerã
  
CIA: Os assassinatos seletivos, uma tática clandestina, têm sido uma prática recorrente nas operações da CIA desde a Guerra Fria e continuam a ser uma ferramenta crucial na chamada "Guerra ao Terror" no século XXI. Durante as décadas de 1950 e 1960, a CIA se envolveu em várias tentativas de eliminar líderes estrangeiros considerados uma ameaça aos interesses americanos. O caso de Fidel Castro é um dos mais conhecidos, com a agência realizando uma série de tentativas para assassiná-lo, incluindo planos inusitados como charutos explosivos, substâncias venenosas e dispositivos de contágio. Essas operações, muitas vezes apoiadas por golpes de Estado, faziam parte de uma estratégia mais ampla de interferência nas questões internas de países que se alinhavam ao bloco soviético, como parte da Guerra Fria. A CIA usava uma combinação de espionagem, manipulação política e ações diretas para alterar regimes ou neutralizar líderes que representassem uma ameaça geopolítica.
No entanto, foi no século XXI que a CIA implementou uma abordagem mais sofisticada e tecnológica para realizar operações de assassinatos seletivos. O uso de drones armados tornou-se um dos métodos principais para eliminar alvos de alto valor, especialmente após os ataques de 11 de setembro de 2001. Um exemplo notável foi a morte de Anwar AL-Awlaki, um clérigo de origem iemenita ligado à Al-Qaeda, em 2011, que foi abatido por um drone enquanto estava no Iêmen. AL-Awlaki foi considerado um alvo prioritário devido à sua incitação ao terrorismo e suas conexões com células da Al-Qaeda. A operação foi realizada em conjunto com outras agências de inteligência e forças locais, sendo amplamente debatida por questões de legalidade e direitos humanos, uma vez que al-Awlaki era um cidadão dos Estados Unidos.
 
Anwar al-Awlaki was killed Friday when an airstrike hit his motorcade in Yemen.
 
Esses assassinatos seletivos, que podem ser descritos como uma combinação de operações de inteligência e ações militares, são coordenados principalmente pelo Special Activities Center (SAC), uma divisão da CIA que lida com operações clandestinas de alto risco. O SAC, que anteriormente era conhecido como Special Activities Division (SAD), é composto por várias unidades especializadas, entre elas o Special Operations Group (SOG), que executa missões de natureza paramilitar. Dentro do SOG, há uma divisão que se concentra em assassinatos direcionados, sendo esse um dos aspectos mais sensíveis das operações da CIA. Além do uso de drones, que são operados em estreita colaboração com o Joint Special Operations Command (JSOC), uma organização militar conjunta dos Estados Unidos, essas operações também envolvem forças especiais, como os Navy SEALs, que realizam incursões diretas para capturar ou eliminar indivíduos considerados ameaças estratégicas.
Essas operações letais, que envolvem uma mistura de tecnologia avançada e execução militar, continuam a levantar questões jurídicas e éticas. A utilização de drones armados para eliminar alvos sem julgamento prévio, muitas vezes em países soberanos como o Paquistão, Somália e Iêmen, gera debates sobre a violação da soberania e a legalidade sob o direito internacional. Além disso, a efetividade dessas missões na redução de ameaças à segurança global ainda é um tema controverso, dado que algumas dessas operações podem gerar retaliações, recrutar novos militantes e aumentar a radicalização. Em meio a esses debates, a CIA continua a usar assassinatos seletivos como uma das principais ferramentas em sua guerra contra o terrorismo, embora os impactos dessas operações ainda sejam analisados criticamente por governos e especialistas em segurança internacional.
Ayman AL-Zawahiri e Qasem Soleimani são dois exemplos de alvos de assassinatos seletivos realizados pelos Estados Unidos, refletindo a estratégia de neutralizar figuras-chave consideradas ameaças à segurança global. Ayman AL-Zawahiri, sucessor de Osama Bin Laden e líder da Al-Qaeda, foi um dos responsáveis pelos ataques de 11 de setembro de 2001. Após anos de perseguição, sua morte foi confirmada em 2022, por um ataque de drone em Cabul, Afeganistão, executado pelos EUA. Zawahiri estava em um refúgio seguro fornecido pelo Taleban, o que também levantou questões sobre a relação entre o grupo talibã e a Al-Qaeda (Hirsch, 2022).
 Saif al-Adel assumiu a liderança da Al-Qaeda após a morte de Ayman al-Zawahiri, como indicado por várias fontes internacionais. De acordo com a ONU e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, ele foi reconhecido como o sucessor de Zawahiri, consolidando-se como uma figura chave dentro da organização terrorista. Saif al-Adel, ex-membro das forças especiais do exército egípcio, tem uma longa trajetória dentro do jihadismo e sua ascensão foi vista como um movimento estratégico devido à sua expertise militar e capacidade de liderança. A sua presença no Irã, onde permaneceu sob prisão domiciliar, tem sido um ponto central para suas operações clandestinas.
Com relação ao cenário de inteligência, serviços de segurança ocidentais, particularmente a CIA e o MI6, têm intensificado esforços para localizar Saif al-Adel. As agências de inteligência, cientes de sua relevância estratégica para a Al-Qaeda, estão coordenando esforços para reunir informações detalhadas sobre sua localização. Com o perfil de Saif al-Adel como ex-oficial militar altamente treinado e o histórico de sua liderança em operações de alto nível, é plausível que estejam sendo realizados esforços para monitorar suas atividades e identificar pontos de vulnerabilidade.
A possibilidade de operações de assassinato seletivo ou captura por parte de agências de inteligência parece cada vez mais provável, uma vez que sua eliminação ou neutralização poderia resultar em um golpe significativo para a Al-Qaeda. Esse tipo de operação, baseado em uma combinação de inteligência de sinais, inteligência humana (HUMINT) e inteligência geoespacial, poderia ser orquestrado em um esforço para minar a liderança da organização. Esse tipo de ação seria uma tentativa de reduzir a eficácia operacional da Al-Qaeda, comprometendo a continuidade de suas atividades terroristas e, ao mesmo tempo, sinalizando um fortalecimento das capacidades de rastreamento e neutralização de alvos de alto valor, com foco em figuras-chave dentro de redes terroristas internacionais.
 
Drone remotamente controlado tem câmeras sofisticadas e seis lâminas que se abrem após o disparo
 
 
Imagem mostra local que foi atingido por disparo e drone que pode ter sido usado no ataque — Foto: Reprodução
Imagem mostra local que foi atingido por disparo e drone que pode ter sido usado no ataque — Foto: Reprodução/O Globo.
 
 
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Fonte: Reuters e FBI. Infografia: Gazeta do Povo
 
Um detalhe do cartaz do FBI oferecendo uma recompensa de US $ 10 milhões por informações que levem à captura ou condenação de Saif al-Adel. Um novo relatório da ONU diz que al-Adel é o "novo líder de fato" da Al-Qaeda.
Um detalhe do cartaz do FBI oferecendo uma recompensa de US $ 10 milhões por informações que levem à captura ou condenação de Saif al-Adel. Um novo relatório da ONU diz que al-Adel é o "novo líder de fato" da Al-Qaeda.
 
Já Qasem Soleimani foi um dos líderes mais importantes do Irã, comandando a Força Quds da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) desde 1998 até sua morte. Sua principal missão era coordenar operações militares e de inteligência fora do Irã, com foco em expandir a influência do país no Oriente Médio. Soleimani foi responsável por operações no Iraque, Síria, Líbano e Iêmen, trabalhando estreitamente com grupos militantes aliados ao regime iraniano, como o Hezbollah no Líbano, as milícias xiitas no Iraque, e apoiando o governo de Bashar al-Assad na Síria. Sua estratégia envolvia não apenas ações militares diretas, mas também o fortalecimento de uma rede de aliados no campo político e paramilitar, permitindo ao Irã projetar poder na região.
 
بشار الأسد وقاسم سليماني
Soleimani e Bashar Al - Assad. Fonte: mena-research center
 
Soleimani era considerado um arquétipo do poder militar do Irã e foi fundamental na concepção da "estratégia de resistência", que visa confrontar inimigos regionais e globais do Irã, como os Estados Unidos e Israel, através de proxies. Sua importância era tão grande que ele foi considerado o segundo homem mais poderoso do Irã, após o Supremo Líder, Ali Khamenei.
Em janeiro de 2020, Soleimani foi morto em um ataque aéreo realizado por drones dos Estados Unidos, especificamente de um ataque ordenado pelo presidente Donald Trump. O ataque aconteceu em Bagdá, no Iraque, e foi um golpe direto ao poder iraniano na região. A morte de Soleimani gerou uma escalada de tensões entre os Estados Unidos e o Irã, com o governo iraniano prometendo vingança. O ataque foi amplamente discutido e analisado, sendo que a administração dos EUA justificou a ação como uma medida preventiva contra planos iminentes de ataque orquestrados por Soleimani. Já o Irã considerou o ataque uma violação da soberania iraquiana e uma agressão direta ao país. A morte de Soleimani também levou a um aumento significativo nas hostilidades entre os dois países e em outras partes da região.
 
Donald Trump and Qassem Soleimani.
Ataque de drone dos EUA ordenado por Donald Trump matou o general iraniano. Qassem Soleimani em janeiro de 2020. fonte: Bulletin Ilustração . Foto de Khamenei.ir (Creative Commons)
 
 Ambas as mortes evidenciam a continuação de uma política dos EUA de assassinatos seletivos, realizada principalmente pelo Special Activities Center (SAC) da CIA, com o uso de drones, forças especiais e inteligência de aliados. Essas operações fazem parte de uma estratégia para combater ameaças terroristas e têm implicações profundas para a segurança global e a geopolítica da região.

Na época o governo americano diz que matou Soleimani porque ele "estava desenvolvendo ativamente planos para atacar diplomatas americanos e membros do serviço no Iraque e em toda a região". Fonte: JD 1 Noticiais.
 
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Emblema do JSOC. Fonte: Seal of the Joint Special Operations Command.
 
SVR/FSB/GRU: As agências russas de inteligência e segurança do Estado, herdeiras diretas da KGB, mantêm um histórico documentado de eliminação de dissidentes e oponentes políticos, utilizando métodos sofisticados, incluindo envenenamentos. Entre essas agências, destacam-se o Serviço Federal de Segurança (FSB), que atua internamente na Rússia, o Serviço de Inteligência Estrangeiro (SVR), responsável por operações no exterior, e a Diretoria Principal do Estado-Maior das Forças Armadas (GRU), conhecida por realizar operações clandestinas, incluindo assassinatos seletivos.
O Caso de Alexander Litvinenko, ex-agente do FSB, desertou para o Reino Unido após denunciar esquemas de corrupção e operações ilegais dentro da inteligência russa. Em novembro de 2006, ele foi envenenado com polônio-210, uma substância radioativa extremamente letal, em Londres. As investigações conduzidas pelo Reino Unido identificaram dois ex-agentes russos, Andrey Lugovoy e Dmitry Kovtun, como os responsáveis pelo envenenamento. A Justiça britânica e uma investigação do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, concluíram que a operação teve envolvimento direto do Estado russo e que Vladimir Putin provavelmente aprovou a execução. 
 
Lugovoi, que apresentará série na TV russa, é o principal suspeito da morte de Litvinenko (Foto: BBC)
Andrei Lugovoi é suspeito da morte de Litvinenko, mas alega ser inocente. (Foto: BBC)

FILE - Russian businessman Dmitry Kovtun arrives for a news conference at Interfax headquarters in Moscow, Russia, Wednesday, April 8, 2015. Russian agent Kovtun, who was accused by the U.K. authorities in the poisoning death of former spy Alexander Litvinenko in London in 2006, died Saturday, June 4, 2022, at age 57. (AP Photo/Pavel Golovkin, File)


Alexander Litvinenko antes (esquerda) e depois do envenenamento. Fonte: Nuclear W. Archive.
 
Em 2018, a cidade de Salisbury, no Reino Unido, foi palco de uma tentativa de assassinato contra Sergei Skripal, ex-agente do GRU que desertou para o Ocidente. Skripal e sua filha, Yulia, foram envenenados com Novichok, um agente neurotóxico de uso militar desenvolvido na União Soviética. Ambos sobreviveram após tratamento intensivo. O Reino Unido identificou dois agentes do GRU, conhecidos pelos nomes falsos Ruslan Boshirov e Alexander Petrov, como responsáveis pelo ataque. Como resposta, países ocidentais impuseram sanções contra a Rússia e expulsaram dezenas de diplomatas russos. 
 
Sergei Skripal e a filha, Yulia, estão internados em estado grave. — Foto: BBC
Sergei Skripal e a filha, Yulia. Foto: BBC
 
Uma tenda forense cobre o banco onde Sergei e Yulia Skripal caíram inconsciente. Fonte: Forensic tent at The Maltings, Salisbury (cropped).jpg
 
Alexander Petrov (esquerda) e Ruslan Boshirov são suspeitos de envenenar ex-espião russo Serguei Skripal no Reino Unido, em março  — Foto: Metropolitan Police via AP
Alexander Petrov (esquerda) e Ruslan Boshirov são suspeitos de envenenar ex-espião russo Serguei Skripal no Reino Unido, em março — Foto: Metropolitan Police via AP
 
Enquanto o GRU é a principal unidade russa conhecida por executar operações de eliminação no exterior, o Serviço de Inteligência Estrangeiro (SVR) atua de forma mais discreta. O SVR, sucessor da Primeira Diretoria Principal da KGB, tem como foco principal a espionagem, a influência política e a desinformação. Embora o SVR tenha capacidade operacional para realizar assassinatos seletivos, não há evidências diretas e confirmadas de que participe ativamente desse tipo de operação, diferentemente do GRU.
Nas implicações geopolíticas, os casos de Litvinenko e Skripal reforçam a narrativa de que Moscou continua empregando métodos de liquidação seletiva para intimidar desertores e opositores. O uso de substâncias rastreáveis, como polônio-210 e Novichok, sugere uma intenção deliberada de enviar uma mensagem: trair o Estado russo tem consequências fatais, independentemente das fronteiras.
Além das repercussões diplomáticas, essas operações geram um alerta global sobre os limites da guerra híbrida e da influência da inteligência russa no cenário internacional. Com um histórico consolidado de eliminação de alvos considerados ameaças ao Kremlin, a Rússia mantém sua política de retaliação e dissuasão de forma calculada e estratégica.
 
Ex-espião russo foi envenenado com agente nervoso – DW – 07/03/2018
Polícia analisa local onde ex-espião Sergei Skripal foi encontrado. Foto: picture-alliance/empics/S. Parsons.
 
https://super.abril.com.br/wp-content/uploads/2021/03/SI_425_novichok_comomata.png
Fonte: Ilustração Amanda Miranda, Design Juliana Krauss
 
MI6: O Secret Intelligence Service (SIS), mais conhecido como MI6, é o serviço secreto britânico responsável por operações de inteligência no exterior. Tradicionalmente mais discreto que suas contrapartes, como a CIA e o Mossad, o MI6 possui um histórico documentado de envolvimento em assassinatos seletivos, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Embora o Reino Unido tenha adotado uma postura mais legalista nas últimas décadas, indícios sugerem que operações clandestinas continuam a ocorrer, especialmente no combate ao terrorismo e em missões coordenadas com aliados estratégicos.
Um dos casos mais notórios de envolvimento britânico em assassinatos seletivos ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, com a Operação Anthropoid. O plano, conduzido pelo MI6 em parceria com o governo tchecoslovaco no exílio e a resistência local, tinha como objetivo eliminar Reinhard Heydrich, chefe do Reichssicherheitshauptamt (RSHA) e um dos principais arquitetos do Holocausto. Heydrich era o responsável pela repressão brutal na Tchecoslováquia ocupada e pela implementação da Solução Final.
Em 27 de maio de 1942, dois agentes treinados pelo MI6, Jozef Gabčík e Jan Kubiš, emboscaram o carro de Heydrich em Praga e o atingiram com uma bomba. O oficial nazista morreu dias depois devido a complicações médicas. Como represália, os alemães massacraram civis e destruíram vilarejos inteiros, como Lidice. Apesar do alto custo humano, o assassinato de Heydrich enfraqueceu a liderança nazista na região e marcou uma das poucas ocasiões em que um alto escalão do Terceiro Reich foi eliminado em combate. 
 
Reinhard Heydrich, o oficial nazista que concebeu a operação Reinhard, de extermínio sistemático dos judeus.
Reinhard Heydrich realizou a maior campanha de assassinato em massa do Holocausto.
 
Carro de Reinhard Heydrich's (Mercedes-Benz 320) depois de uma tentativa de asssassinato em Praga
Heydrich foi morto após um atentado executado pela então resistência tchecoslovaca; seu carro foi alvo de uma emboscada. Fonte: Arquivos Federais da Alemanha.
 
Durante a Guerra Fria, o MI6 foi acusado de envolvimento em diversas operações clandestinas contra alvos soviéticos e inimigos do Ocidente. Uma das operações mais controversas envolve a suposta participação britânica no envenenamento de Georgi Markov, um dissidente búlgaro que trabalhava para a BBC em Londres. Em 1978, Markov foi assassinado com uma injeção de ricina, aplicada através de um guarda-chuva modificado. Embora o atentado tenha sido atribuído ao serviço secreto búlgaro (DS), há indícios de cooperação com a KGB, e especula-se que o MI6 pode ter tido conhecimento prévio da tentativa de assassinato.
 
Georgi Markov
Jornalista da BBC, Georgi Markov estava indo trabalhar quando foi vítima de envenenamento. Fonte: BBC.
 
 
Georgi Markov
 Pequeno objeto metálico, provavelmente com Ricina com a substância tóxica usada para matar Markov foi encontrado em tecido retirado de coxa direita de Markov durante autópsia. Fonte: BBC.
 
Outro exemplo ocorreu em 1956, quando o MI6 colaborou com a CIA no plano fracassado de assassinar o líder egípcio Gamal Abdel Nasser após a nacionalização do Canal de Suez. O Reino Unido e os EUA consideravam Nasser uma ameaça estratégica devido à sua aliança com a União Soviética. Embora as tentativas de envenenamento e sabotagem tenham falhado, documentos desclassificados confirmam a existência da operação.
 
Abdel Nasser. Fonte:Wikimedia Commons
 
Nas últimas décadas, o Reino Unido tem adotado uma abordagem mais legalista, evitando execuções extrajudiciais diretas. No entanto, há indícios de que o MI6 continua envolvido em operações de neutralização de alvos estratégicos, especialmente no combate ao terrorismo. O serviço de inteligência britânico tem sido um parceiro próximo da CIA e do Mossad na execução de ataques direcionados contra líderes jihadistas e agentes hostis.
Um caso emblemático ocorreu em 2005, quando o MI6 auxiliou a CIA no rastreamento e eliminação de Abu Musab al-Zarqawi, líder da Al-Qaeda no Iraque. A inteligência britânica forneceu informações cruciais sobre sua localização, permitindo que um ataque aéreo dos EUA o eliminasse. 
 
Abu Bakr al-Baghdad, líder do Isis
 Abu Bakr al-Baghdad, fundador do autodenominado Estado Islâmico. Fonte: BBC.
 
Em 2020, relatos sugeriram que o Reino Unido participou da operação que levou à morte de Qasem Soleimani, comandante da Força Quds do Irã, assassinado em um ataque aéreo dos EUA. Embora o MI6 não tenha sido oficialmente creditado, analistas apontam que a inteligência britânica pode ter auxiliado na coleta de dados sobre os movimentos de Soleimani.
 
Iranian General Qasem Soleimani
O general iraniano Qasem Soleimani foi assassinado pelas forças dos EUA na sexta-feira, 3 de janeiro de 2020.
 
O MI6 mantém uma postura discreta em relação a assassinatos seletivos, mas evidências históricas demonstram seu envolvimento em operações clandestinas de eliminação de alvos estratégicos. Desde o assassinato de Heydrich na Segunda Guerra Mundial até a cooperação com a CIA na "Guerra ao Terror", o serviço secreto britânico continua a desempenhar um papel crucial na defesa dos interesses do Reino Unido por meio de operações de inteligência ofensivas. Embora o governo britânico insista em seguir princípios legais, sua participação indireta em execuções direcionadas demonstra que, quando necessário, o MI6 ainda atua nas sombras do conflito global.
 
ISI (Inter-Services Intelligence): A agência de inteligência militar do Paquistão, conhecida como ISI, tem sido frequentemente associada a operações de assassinato seletivo e outras atividades clandestinas. Estabelecida em 1948 para fortalecer a troca de informações entre os ramos das Forças Armadas paquistanesas , o ISI tem sido acusado de envolvimento em uma variedade de operações controversas. De acordo com o analista Javid Ahmad, do Modern War Institute de West Point, o ISI não hesita em formar alianças com grupos extremistas religiosos ou partidos políticos para alcançar seus objetivos, que incluem o controle interno do Paquistão. As táticas empregadas pela agência incluem intimidação, sequestros, detenções arbitrárias, tortura e assassinatos.
A colaboração entre o ISI e a CIA em operações de drones também é documentada. Desde 2004, ambas as agências cooperaram em ataques com veículos aéreos não tripulados contra líderes terroristas no oeste do Paquistão. Essa cooperação envolveu o fornecimento de descrições detalhadas dos alvos por parte do ISI e a avaliação dos danos após os ataques.
Contudo, o ISI tem sido alvo de críticas e acusações de envolvimento em atividades terroristas. Autoridades dos EUA alegaram que o ISI patrocinou o atentado à embaixada indiana em Cabul em 2008, realizado pela rede Haqqani. Além disso, a agência foi acusada de apoiar grupos militantes em operações contra interesses estrangeiros e de realizar assassinatos seletivos de dissidentes e opositores políticos.
 A Rede Haqqani é um grupo militante islâmico fundado na década de 1970 por Jalaluddin Haqqani, que mais tarde se tornou um dos principais aliados do Talibã. Conhecida por sua estrutura quase familiar e sua autonomia dentro do Talibã, a rede tem forte presença no Afeganistão e no Paquistão, sendo acusada de realizar ataques sofisticados contra forças dos EUA, da OTAN e do governo afegão. Além de seu braço militar, mantém uma complexa rede de financiamento e recrutamento, com apoio de setores do serviço de inteligência paquistanês (ISI). Seu atual líder, Sirajuddin Haqqani, ocupa um cargo de destaque no governo talibã, consolidando a influência do grupo na política afegã.
 
Prédio destruído após explosão em Cabul - Foto: AP
Prédio destruído após explosão em Cabul - Foto: AP 
 
 
The 'Seeking Information' poster issued by the U.S. Federal Bureau of Investigation for Sirajuddin Haqqani, who is Afghanistan's newly appointed acting interior minister. FBI/Handout via REUTERS    THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY
O cartaz de "Buscando Informações" emitido pelo FBI para Sirajuddin Haqqani. FBI/Handout via REUTERS.
 
Em 2022, o ISI foi mencionado no contexto da morte do jornalista paquistanês Arshad Sharif no Quênia. O diretor do ISI, Nadeem Anjum, afirmou que era necessário esclarecer se a morte resultou de um caso de identidade equivocada ou de um assassinato seletivo, destacando a necessidade de uma investigação transparente.
 
Kenyan authorities said Pakistani journalist Arshad Sharif was "fatally wounded" by police on Sunday night, just months after he fled his home country to avoid arrest over sedition charges.
 
Ataques Preventivos: Em um cenário onde a segurança nacional é constantemente ameaçada por grupos terroristas, Estados hostis e organizações criminosas transnacionais, os ataques preventivos tornaram-se um instrumento amplamente utilizado por serviços de inteligência e forças militares ao redor do mundo. Esses ataques são justificados como medidas de autopreservação, destinadas a neutralizar ameaças antes que elas possam se materializar em atentados ou ações hostis. Para isso, as agências utilizam uma ampla gama de técnicas que vão desde operações furtivas até o uso de tecnologia avançada, como drones de ataque, venenos de ação rápida, armas de precisão e sabotagens planejadas para desestabilizar alvos estratégicos.
O advento dos drones armados, especialmente os operados pela CIA e pelo exército dos EUA, tornou-se um dos meios mais eficazes de eliminação de alvos de alto valor. Um dos casos mais emblemáticos foi a morte de Anwar al-Awlaki, líder da Al-Qaeda na Península Arábica, em 2011, no Iêmen. O ataque foi conduzido por um drone Predator, marcando a primeira vez que os Estados Unidos eliminaram um cidadão americano sem julgamento sob a justificativa de envolvimento em terrorismo.Da mesma forma, em 2020, um ataque com drone realizado pelos EUA eliminou Qasem Soleimani, comandante da Força Quds do Irã, em Bagdá, gerando tensões diplomáticas e colocando o Oriente Médio à beira de um conflito de maiores proporções.
Além dos drones, envenenamentos seletivos são frequentemente atribuídos a serviços de inteligência como a GRU e o SVR da Rússia. O caso de Sergei Skripal, ex-agente russo envenenado com Novichok no Reino Unido, em 2018, é um exemplo da aplicação dessa tática para neutralizar ex-espiões considerados traidores. Da mesma forma, o assassinato de Kim Jong-nam, meio-irmão do líder norte-coreano Kim Jong-un, em 2017, com o agente nervoso VX, reforça o uso contínuo de substâncias letais como ferramenta de eliminação política.
 
Foto de 4 de maio de 2001 mostra Kim Jong Nam, meio-irmão do líder norte-coreano Kim Jong-um, que teria sido morto na Malásia  — Foto: Toshifumi Kitamura / AFP
Foto de 4 de maio de 2001 mostra Kim Jong Nam, meio-irmão do líder norte-coreano Kim Jong-um, que teria sido morto na Malásia — Foto: Toshifumi Kitamura / AFP.
 
Vídeo mostra mulher que acabou presa por ataque a Kim Foto: Reprodução
Vídeo mostra mulher que acabou presa por ataque a Kim Foto: Reprodução
 
A vietnamita Doan Thi Huong, acusada do assassinato de Kim Jong-Nam, é escoltada pela poíícia malaia até o tribunal
A vietnamita Doan Thi Huong, uma das acusadas do assassinato de Kim Jong-Nam, é escoltada pela poíícia malaia até o tribunal. EFE/ Fazry Ismail e Agência Brasil.

As operações conduzidas por Israel também são notórias por seu caráter preventivo, especialmente no combate a cientistas e militares envolvidos em programas nucleares de países adversários. A morte de Mohsen Fakhrizadeh, chefe do programa nuclear iraniano, em 2020, atribuída ao Mossad, é um exemplo claro. Fakhrizadeh foi alvejado em uma emboscada sofisticada que incluiu metralhadoras operadas remotamente, eliminando um dos principais responsáveis pelo avanço nuclear do Irã. De maneira semelhante, durante a década de 2010, uma série de assassinatos de cientistas iranianos ligados ao programa nuclear foi registrada, sendo amplamente atribuída aos serviços israelenses.
 
O cientista Mohsen Fakhrizadeh, um homem iraniano de cabelos brancos e 62 anos
Fakhrizadeh era o chefe da Organização de Pesquisa e Inovação do Ministério da Defesa iraniano. Fonte: Reuters
 
Mohsen Fakhrizadeh, o cientista nuclear mais importante do Irã foi assassinado em 27 de novembro - Reuters
Mohsen Fakhrizadeh, o cientista nuclear mais importante do Irã foi assassinado em 27 de novembro. Fonte: Reuters.
 
O Reino Unido, embora tenha adotado uma abordagem mais legalista nas últimas décadas, também esteve envolvido em ações preventivas no passado. Durante a Guerra Fria, o MI6 teria participado da conspiração para eliminar Patrice Lumumba, primeiro-ministro do recém-independente Congo, visto como um risco de alinhamento com a União Soviética. Além disso, registros indicam que o serviço secreto britânico colaborou com a CIA em operações clandestinas para desestabilizar governos considerados ameaçadores aos interesses ocidentais.
 
Fotograf Horst Faas - Patrice Lumumba
Fotografia de Lumumba após a sua detenção, em dezembro de 1960 - esta é uma das últimas fotos do político. Foto: AP
 
Embora esses ataques sejam promovidos como medidas de contenção contra ameaças emergentes, sua legitimidade é frequentemente questionada. Do ponto de vista jurídico, execuções extrajudiciais violam princípios do direito internacional e soberania de Estados onde essas ações ocorrem. Além disso, a eliminação de determinados indivíduos nem sempre impede a continuidade das atividades terroristas ou militares, podendo, ao contrário, estimular represálias e radicalizar facções insurgentes. O assassinato de líderes jihadistas, por exemplo, levou à ascensão de grupos ainda mais violentos, como o Estado Islâmico após a morte de Osama bin Laden.
Por fim, os ataques preventivos levantam questionamentos sobre os riscos de desestabilização regional. A eliminação de Soleimani, por exemplo, gerou uma escalada de tensões entre Irã e Estados Unidos, com ataques retaliatórios contra bases americanas no Iraque.
 
Soldado americano na base de Al-Asad  — Foto: Associated Press/Ali Abdul Hassan
Alvos americanos no Iraque foram bombardeados para vingar morte do iraniano general Qassem Soleimani. Bases são estratégicas para operação de combate ao grupo Estado Islâmico. Fonte: Associated Press/Ali Abdul Hassan
 
Da mesma forma, execuções seletivas realizadas por Israel contra comandantes do Hamas e do Hezbollah frequentemente resultam em novos conflitos e no aumento da violência na região. Em 2022, um ataque israelense contra Tayseer al-Jabari, um dos principais comandantes da Jihad Islâmica Palestina, resultou em uma onda de retaliações e uma escalada de bombardeios em Gaza. Assim, embora sejam consideradas ferramentas estratégicas no combate a ameaças, os ataques preventivos muitas vezes acabam por intensificar crises internacionais e tornar o cenário geopolítico ainda mais instável.
 
Em uma operação direcionada de assinato seletivo, as Forças de Defesa de Israel (IDF) atingiram um prédio na Faixa de Gaza matando o comandante do norte da Jihad Islâmica Palestina (PIJ), Taysir al-Jabari. Fonte: long war journal.
 
 Dissuasão e Sobrevivência: Como o Poder Militar Garante a Segurança em Tempos de Conflito"
 
Vivemos em um mundo onde democracias enfrentam desafios de coesão interna e ameaças externas, incluindo o terrorismo e regimes autoritários com ambições expansionistas. Nessas circunstâncias, o princípio romano permanece válido: a paz depende da força. Considere Israel, que investe pesadamente em defesa e mantém uma posição de prontidão constante. Seu serviço militar obrigatório, a modernização contínua de suas Forças de Defesa e sua avançada capacidade de inteligência são pilares dessa estratégia. Essa abordagem não é apenas uma resposta às ameaças persistentes do Oriente Médio, mas um elemento central de sua política de sobrevivência. A história mostra que a segurança do Estado de Israel não é resultado de concessões, mas da manutenção de uma postura firme, baseada na dissuasão e na capacidade de resposta imediata a qualquer agressão.
A Guerra da Independência (1948-1949): Começou logo após a criação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, quando uma coalizão de países árabes—Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque—lançaram um ataque para impedir o estabelecimento do novo Estado judeu. O conflito foi desencadeado pela rejeição árabe ao Plano de Partilha da ONU de 1947, que previa a criação de um Estado judeu e um Estado árabe na Palestina. Israel, apesar da inferioridade numérica e de recursos limitados, conseguiu vencer a guerra e consolidar sua independência, expandindo seu território além das fronteiras estabelecidas pela ONU. Como resultado, centenas de milhares de palestinos fugiram ou foram expulsos, dando início ao que ficou conhecido como o êxodo palestino (Nakba).
A Guerra dos Seis Dias (1967): Foi um dos conflitos mais decisivos da história militar israelense. Em junho de 1967, diante do aumento das tensões regionais e da mobilização de tropas egípcias no Sinai, Israel lançou um ataque preventivo contra Egito, Jordânia e Síria. Em apenas seis dias, Israel destruiu a força aérea egípcia no solo, derrotou os exércitos adversários e ocupou vastos territórios: a Península do Sinai e a Faixa de Gaza (Egito), a Cisjordânia e Jerusalém Oriental (Jordânia) e as Colinas de Golã (Síria). Essa vitória transformou Israel em uma potência militar regional, mas também intensificou a questão palestina, pois milhares de palestinos passaram a viver sob ocupação israelense.
 
Guerra dos Seis Dias (1967). Fonte: SixDaysWar Montage.png
 
Um tanque isralense nas colinas de Golã
 Durante a guerra, Israel tomou da Síria o controle das colinas de Golã. Fonte: Getty Images
 
A Guerra do Yom Kippur (1973): Foi um dos momentos mais críticos para Israel. Em 6 de outubro de 1973, durante o feriado judaico do Yom Kippur, Egito e Síria lançaram um ataque surpresa para recuperar os territórios perdidos em 1967. No início, as forças israelenses foram sobrecarregadas e sofreram pesadas baixas, especialmente no Sinai e nas Colinas de Golã. No entanto, com apoio militar dos Estados Unidos e mobilização total da reserva, Israel conseguiu virar o jogo, atravessando o Canal de Suez e cercando o Terceiro Exército egípcio. Apesar da vitória militar, a guerra teve um impacto psicológico profundo em Israel, demonstrando que sua segurança nunca poderia ser tomada como garantida e levando a esforços diplomáticos que resultaram nos Acordos de Paz de Camp David entre Egito e Israel, em 1978.
 
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Guerra do Yom Kippur. Fonte: Artigo para a Guerra do Yom Kippur.
 
Esses conflitos reforçaram a doutrina militar israelense baseada em dissuasão, resposta rápida e superioridade tecnológica, consolidando a percepção de que, para garantir sua existência, Israel precisa manter uma capacidade militar robusta e sempre estar preparado para a guerra.
 
Na primeira guerra árabe israelense, as populações árabe e judaica lutaram pelo território da Palestina. Fonte: Enciclopédia Humanidades
 
Imagem que mostra um dos conflitos da Guerra dos Seis Dias - Wikimedia Commons
Imagem que mostra um dos conflitos da Guerra dos Seis Dias. Fonte: Wikimedia Commons.
 
Nos últimos anos, novos desafios reforçaram a lógica da dissuasão militar em Israel. Em 7 de outubro de 2023, o País foi alvo de um ataque sem precedentes, orquestrado pelo Hamas. Militantes do grupo terrorista lançaram uma ofensiva que combinava o disparo de milhares de foguetes a partir da Faixa de Gaza com incursões terrestres, rompendo a barreira de segurança e invadindo comunidades no sul de Israel. O ataque resultou em mais de 1.200 mortes, a maioria de civis, e mais de 240 reféns foram levados para Gaza. Esse foi o maior massacre de Judeus desde o Holocausto, um choque histórico que reverberou não apenas em Israel, mas em todo o mundo, e marcou uma nova fase no conflito entre Israel e grupos extremistas, o que alimentou ainda mais o debate envolvendo Israel e Palestina.
A resposta de Israel foi imediata e implacável. As Forças de Defesa de Israel (IDF) iniciaram uma série de bombardeios aéreos, destruindo infraestruturas estratégicas do Hamas, como centros de comando, arsenais de armas e os túneis subterrâneos usados para esconder armas e soldados. A operação também envolveu uma ofensiva terrestre em Gaza, com o objetivo de erradicar as capacidades militares do Hamas e garantir a libertação dos reféns. Essa resposta sublinhou a estratégia de dissuasão militar de Israel, que desde sua fundação em 1948 sempre pautou sua segurança pela força militar e a pronta reação a qualquer ameaça existencial.
 
Explosão registrada em Gaza após bombardeio de Israel. Fonte: Aris Messinis / AFP.
  
O ataque do Hamas e de outros grupos radicais e a resposta de Israel ressaltam a realidade brutal da geopolítica no Oriente Médio. O ataque de outubro de 2023 não só foi o maior massacre de judeus desde o Holocausto, mas também o ataque mais letal contra Israel em termos de vítimas civis. Esse episódio expôs a vulnerabilidade de Israel frente a um inimigo determinado, mas também reafirmou a determinação do Estado judeu em proteger seu povo a qualquer custo. A ofensiva foi um lembrete de que a sobrevivência de Israel depende não apenas de sua força militar, mas também da sua capacidade de manter uma postura implacável diante das ameaças, por mais desumanas que sejam.
 
Militares palestinos durante treinamento
 
 
A importância da resposta israelense vai além do número de vítimas. Ele representa um ponto de inflexão no conflito com o Hamas e outros grupos radicais, como o Hezbollah no Líbano e facções apoiadas pelo Irã, que continuam a desafiar a segurança e a estabilidade de Israel. Além disso, o massacre de 7 de outubro revelou a complexidade das relações internacionais e a pressão constante sobre Israel para encontrar uma solução que, ao mesmo tempo, assegure a segurança de seu povo e minimize os danos civis a uma população palestina já devastada por décadas de conflito.
O peso da situação é inegável. Em apenas um dia, o Hamas causou mais mortes de judeus do que qualquer outro evento desde o Holocausto, afetando profundamente a memória coletiva do povo israelense. Esse ataque não só colocou em questão a segurança interna de Israel, mas também teve repercussões geopolíticas globais, com implicações que vão além do Oriente Médio. A resposta de Israel, além de ser uma demonstração de sua capacidade militar, também se reflete na sua estratégia de sobrevivência: nunca ceder às ameaças e manter uma postura de dissuasão constante, independentemente das adversidades.

 
A escalada de tensões no Oriente Médio tem levado Israel a enfrentar desafios crescentes, não apenas contra o Hamas, mas também diante da ameaça representada pelo Hezbollah e por grupos aliados ao Irã na Síria e no Iêmen. Os desdobramentos recentes reforçam o risco de um conflito de larga escala, envolvendo múltiplas frentes e atores regionais.
Em outubro de 2024, após a morte do líder do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, durante um bombardeio israelense no sul do Líbano, o Irã retaliou com o lançamento de aproximadamente 200 mísseis balísticos contra Israel. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, respondeu classificando a ação como um "grande erro" e prometendo que os iranianos "pagariam" pela ofensiva. Esse episódio marcou um dos momentos mais críticos das tensões recentes, demonstrando como o Hezbollah continua sendo um braço estratégico da política de Teerã na região.
 
Israel faz bombardeio em área no sul do Líbano — Foto: AP Photo/Leo Correa

Israel faz bombardeio em área no sul do Líbano — Foto: AP Photo/Leo Correa

 
Fotos mostram projéteis lançados pelo Irã sendo interceptados sobre o céu Tel Aviv, em Israel — Foto: Jack Guez/AFP
Fotos mostram projéteis lançados pelo Irã sendo interceptados sobre o céu Tel Aviv, em Israel — Foto: Jack Guez/AFP
 
 Hezbollah anuncia martírio do secretário-geral Sayyed Hassan Nasrallah. Fonte: Ticker
 
Além do Líbano, a Síria tem sido palco de uma guerra silenciosa entre Israel e o Irã. Nos últimos anos, a Força Quds — unidade de elite da Guarda Revolucionária Iraniana — tem consolidado sua presença militar no território sírio, utilizando bases para transferir armas ao Hezbollah e a outros grupos aliados. Em resposta, Israel tem conduzido ataques cirúrgicos contra posições estratégicas iranianas. Recentemente, as Forças de Defesa de Israel (IDF) confirmaram a realização de bombardeios contra alvos militares iranianos na Síria, justificando as operações como medidas defensivas para neutralizar ameaças iminentes.
 
 
Mapa dos alvos atacados por Israel no Irã e na Síria — Foto: Arte/O GLOBO
Mapa dos alvos atacados por Israel no Irã e na Síria — Foto: Arte/O GLOBO
 
Fumaça perto de edifícios diplomáticos do Irã em Damasco, na Síria, em 1º de abril de 2024 — Foto: Firas Makdesi/Reuters
Fumaça perto de edifícios diplomáticos do Irã em Damasco, na Síria, em 1º de abril de 2024. Inteligência e as FDI alegam que o local era uma base de operações das Forças Quds — Foto: Firas Makdesi/Reuters
 
O Irã, por sua vez, tem buscado manter uma postura estratégica diante da escalada militar. O líder supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei, declarou que os ataques israelenses "não devem ser ampliados nem minimizados", sugerindo uma abordagem calculada por parte de Teerã para evitar um conflito direto de grandes proporções. No entanto, o regime iraniano continua reforçando seu apoio ao Hezbollah no Líbano e aos rebeldes houthis no Iêmen, que intensificaram ataques contra Israel e interesses ocidentais no Mar Vermelho após ofensivas iranianas.
 
Aiatolá Ali Khamenei conduz orações em mesquita de Teerã nesta sexta-feira
 
A estratégia de Israel para lidar com as ameaças de grupos como o Hezbollah, Hamas e outras milícias apoiadas pelo Irã na região é baseada no conceito da "guerra entre guerras". Esse princípio envolve uma série de operações encobertas, ataques preventivos e ações de inteligência com o objetivo de neutralizar ameaças antes que se transformem em um risco maior para o Estado de Israel. A filosofia é clara: agir de forma antecipada para garantir a segurança e evitar que as capacidades militares de seus inimigos sejam utilizadas em uma ofensiva em larga escala. Israel, por exemplo, realiza frequentes ataques aéreos e operações secretas em territórios como a Síria, visando instalações militares iranianas e grupos aliados, com a intenção de desarmá-los antes que possam representar uma ameaça real.
Esse tipo de abordagem está diretamente ligado à célebre frase do Talmude: "Se alguém vier para matá-lo, levante-se e mate-o primeiro". O Talmude é uma coleção de escritos rabínicos que, juntamente com a Torá, forma a base do direito e dos ensinamentos judaicos. O Talmude contém interpretações, discussões e análises da Torá, oferecendo um guia moral e ético para a vida diária. A frase do Talmude, que reflete uma postura de autodefesa, enfatiza a necessidade de agir para proteger a vida, especialmente em situações de ameaça iminente. Ela tem sido interpretada como um princípio de defesa própria em que a pessoa tem o direito de se defender ativamente quando sua vida está em perigo.
Essa filosofia reflete a doutrina militar israelense, que prioriza a antecipação da ameaça, agindo antes que o inimigo tenha a chance de atacar. Em tempos modernos, essa filosofia foi adotada por líderes israelenses como Benjamin Netanyahu, que reafirma a ideia de que a defesa de Israel exige uma postura de iniciativa e não de reação. Em sua abordagem, não há espaço para esperar que o inimigo aja primeiro; é necessário eliminar a ameaça antes que ela tenha a chance de se materializar.
Um exemplo claro dessa filosofia ocorreu em 2018, quando Israel executou uma série de ataques aéreos contra instalações militares iranianas na Síria. O objetivo era impedir que o Irã estabelecesse uma base permanente na região e fornecesse armamentos para grupos como o Hezbollah. Os ataques visaram depósitos de armas, locais de treinamento e até mesmo infraestruturas de mísseis, com a intenção de neutralizar o inimigo antes que pudesse atacar de forma mais destrutiva.
A estratégia de "matar primeiro" ou de neutralizar antecipadamente o inimigo também se manifestou em ações contra o Hezbollah, como o assassinato de Imad Mughniyeh, comandante militar do grupo, em 2008, uma operação coordenada entre os serviços de inteligência de Israel e dos Estados Unidos. Mughniyeh foi considerado responsável por diversos ataques contra alvos israelenses, e sua eliminação foi vista como crucial para evitar uma escalada maior de violência na região.
 
Militant Leader Imad Mughniyeh
Imad Mughniyeh. Fonte: JCFA
 
Além dos ataques preventivos, a estratégia israelense também inclui uma forte ênfase em operações de inteligência, lideradas pelo Mossad e pelas forças de defesa de Israel. Essas operações não se limitam apenas a coletar informações sobre os inimigos, mas também incluem ações mais diretas, como o assassinato de líderes terroristas e a desativação de células de grupos hostis. Em muitas situações, Israel tem optado por eliminar essas ameaças antes que se tornem mais graves ou possam resultar em um conflito total.
As operações de assassinato seletivo também foram aplicadas em relação ao Irã, especialmente no que diz respeito ao programa nuclear do país. A eliminação de cientistas nucleares iranianos e os ataques a instalações de enriquecimento de urânio são exemplos de ações preventivas destinadas a retardar o avanço de um programa nuclear que poderia ameaçar Israel. Essas operações refletem a mesma lógica de "matar primeiro", antecipando-se a uma ameaça que, se deixada sem ação, poderia resultar em uma ofensiva em larga escala contra Israel.
Essa abordagem estratégica e filosófica é discutida no livro Levante-se e Mate Primeiro, de Ronen Bergman, que analisa as operações de assassinato seletivo realizadas pelo Mossad e outras agências de inteligência de Israel. O livro fornece uma visão detalhada de como essas operações são conduzidas e justifica o uso dessa tática em nome da proteção do Estado de Israel. A frase do Talmude, refletida na prática militar de Israel, é vista como uma justificativa moral para eliminar ameaças de maneira antecipada, garantindo a sobrevivência do país frente aos desafios constantes no Oriente Médio.
 
Levante-se e mate primeiro: A história do serviço secreto e dos assassinatos seletivos de Israel, de Bergman, Ronan. Editorial Editora Record Ltda., capa mole em português, 2020
Em Levante-se e Mate Primeiro, Ronen Bergman mergulha no mundo secreto do Mossad, revelando a intrigante história das operações de assassinato comandadas pela agência de inteligência israelense. Uma narrativa intensa e reveladora sobre espionagem, estratégia e os dilemas morais por trás das decisões de segurança nacional.
 
Com essa abordagem, Israel tem sido capaz de enfrentar ameaças de diversos fronts, desde grupos terroristas no Líbano e Gaza até o crescente poder militar iraniano na Síria. A filosofia de "matar primeiro" e de agir preventivamente para proteger o Estado de Israel tem sido um pilar essencial de sua estratégia de defesa e tem ajudado o país a se manter seguro em um ambiente onde a incerteza e o risco de conflito são permanentes.
O risco de um conflito generalizado permanece elevado, com múltiplas frentes de combate e interesses geopolíticos em jogo. Enquanto o Hezbollah fortalece seu arsenal, o Irã mantém sua estratégia de guerra por procuração, e Israel intensifica suas operações preventivas, o Oriente Médio continua em um estado de tensão permanente, onde qualquer incidente pode desencadear uma escalada incontrolável.
 
Ataque aéreo destruiu consulado iraniano na Síria nesta segunda-feira (1º)
Ataque aéreo Israelense destruiu consulado iraniano na Síria. Foto: LOUAI BESHARA / AFP

Esses episódios, passados e recentes, ilustram que, para Israel, a diplomacia sempre foi sustentada por poder militar e prontidão estratégica. Sua sobrevivência, em meio a inimigos históricos e novos desafios, validam a máxima de que a paz se assegura por meio da força dissuasória.
 No entanto, as ações de Israel também geraram críticas internacionais devido a excessos. Relatórios de organismos internacionais destacaram o alto número de vítimas civis em Gaza, incluindo mulheres e crianças, além da destruição de infraestruturas essenciais, como hospitais e escolas. Esses episódios alimentaram debates sobre os limites da legítima defesa e os impactos humanitários de uma estratégia baseada na força.
Entretanto, é importante destacar que o Hamas, organização designada como terrorista por diversos países e organizações não-governamentais, utiliza táticas que colocam em risco a população palestina. O grupo frequentemente constrói bases de comando e controle, além de plataformas de lançamento de mísseis, em áreas residenciais, escolas e até mesmo próximas a hospitais ou nos subsolos dos locais citados. Além disso, o Hamas utiliza civis palestinos como escudos humanos, violando o direito internacional humanitário e contribuindo diretamente para o aumento do número de vítimas em zonas de conflito.
 
Sistema de túneis
 
 
Imagem mostra, em vermelho, locais subterrâneos no hospital usados pelo grupo terrorista
Imagem mostra, em vermelho, locais subterrâneos no hospital usados pelo grupo terrorista. Fonte: FDI.

A anatomia da rede de túneis na Cidade de Gaza — Foto: Arte O GLOBO
A anatomia da rede de túneis na Cidade de Gaza — Foto: Arte O GLOBO
 
Como os túneis são utilizados em Gaza — Foto: Arte O GLOBO
Como os túneis são utilizados em Gaza — Foto: Arte O GLOBO
 
Os túneis no subterrâneo de Gaza também são usados para o contrabando — Foto: Arte O GLOBO
Os túneis no subterrâneo de Gaza também são usados para o contrabando — Foto: Arte O GLOBO
 
Os combatentes do Hamas escavam mais túneis rapidamente — Foto: Arte O GLOBO
Os combatentes do Hamas escavam mais túneis rapidamente — Foto: Arte O GLOBO
 
Os desafio das forças israelenses para desabilitar os túneis em Gaza — Foto: Arte O GLOBO
Os desafio das forças israelenses para desabilitar os túneis em Gaza — Foto: Arte O GLOBO
 
Esses fatores intensificam o dilema moral e estratégico da dissuasão militar, evidenciando como grupos armados exploram populações civis para proteger suas operações e provocar condenações internacionais. Além disso, utilizam a situação para construir propaganda e narrativas adversas contra seus adversários, empregando táticas de guerra psicológica para desestabilizar a moral do adversário e de guerra de informações para moldar a percepção pública global, manipulando fatos e criando uma imagem de vítima. 
 
Combatentes do Hamas escoltam os reféns israelenses Or Levy (segundo à esquerda) e Eli Sharabi (segundo à direita) em um palco antes de entregá-los a uma equipe da Cruz Vermelha em Deir el-Balah, em Gaza
Combatentes do Hamas escoltam os reféns israelenses Or Levy (segundo à esquerda) e Eli Sharabi (segundo à direita) em um palco antes de entregá-los a uma equipe da Cruz Vermelha em Deir el-Balah, em Gaza — Foto: Bashar TALEB / AFP

A liberação de reféns pelo Hamas, como visto em episódios recentes envolvendo os israelenses Eli Sharabi, Or Levy e Ohad Ben Ami, não se limita apenas a uma ação humanitária. Ela é, em grande medida, parte de uma estratégia de guerra psicológica e de propaganda. O Hamas utiliza essa prática com o objetivo de moldar percepções, tanto dentro da Palestina quanto globalmente, sobre suas ações e seus objetivos, criando uma narrativa de resistência que busca conquistar simpatia e apoio. Essa estratégia é essencial para entender a complexidade das operações do grupo, que vão além das ações militares convencionais.
 
The three hostages released today
Os reféns israelenses Eli Sharabi, Or Levy e Ohad Ben Ami, libertados pelo Hamas após 491 dias de cativeiro, mostram a dura realidade da guerra psicológica. A liberação é mais uma peça da propaganda do grupo, que busca reforçar a narrativa de resistência e invencibilidade, explorando a fragilidade física dos reféns para manipular a percepção pública. Foto: Ministério dos negócios estrangeiros de Israel.

A guerra psicológica, conceito amplamente discutido por estudiosos como David C. Rapoport, visa influenciar a opinião pública através da manipulação de informações e imagens, gerando um impacto psicológico profundo que afeta não apenas os envolvidos diretamente no conflito, mas também a percepção externa. Ao liberar reféns em um cenário altamente controlado, com imagens cuidadosamente orquestradas da entrega dos reféns à Cruz Vermelha, o Hamas busca criar uma dualidade: de um lado, posiciona-se como um ator "racional", disposto a negociar pela vida humana; de outro, promove uma imagem de resistência à ocupação israelense. Essa ação se insere em uma narrativa de propaganda que visa mostrar ao mundo uma faceta "humanizada" da organização, distorcendo sua imagem de grupo militante envolvido em atividades terroristas.
Esse tipo de manobra tem um impacto direto na opinião pública internacional. A exibição das imagens dos reféns sendo libertados, frequentemente amplamente divulgadas pela mídia global, se torna um instrumento de pressão. De acordo com os conceitos de guerra de informação discutidos por Joseph Nye, o controle da narrativa e das imagens é uma das arenas mais poderosas da guerra moderna. O Hamas não apenas quer enfraquecer a moral das forças israelenses, mas também minar o apoio da comunidade internacional a Israel, criando uma crescente pressão sobre governos e organizações internacionais para que modifiquem sua postura. Essa guerra de informações é uma das formas mais eficazes de manipulação psicológica, buscando reverter a opinião pública a seu favor.
A guerra psicológica do Hamas, ao focar nas imagens de reféns sendo libertados e na sensação de "vitória moral" que essas imagens transmitem, faz com que a organização consiga influenciar a narrativa de forma substancial. O que inicialmente pode parecer um simples ato de liberação humanitária é, na verdade, uma estratégia calculada, onde a imagem tem um poder muito maior que a ação militar por si só. A cada liberação, a imagem do Hamas como resistência, mais "humana", se fortalece, criando um ciclo que pressiona tanto Israel quanto os atores globais a repensarem suas estratégias e posturas em relação ao grupo.
Essa dinâmica pode ser observada também na constante intervenção de organismos como a ONU, que, diante das imagens de reféns sendo liberados, é compelida a realizar a mediação. O ciclo contínuo de liberação de reféns se torna, assim, uma parte central da estratégia do Hamas para não apenas causar impacto no campo de batalha, mas também para manipular a percepção global sobre o conflito, tornando-se um ator relevante no cenário internacional. Esse jogo de imagens e percepções reafirma como a guerra de propaganda e psicológica tem se tornado um campo de batalha tão importante quanto o militar, com consequências que reverberam em decisões políticas ao redor do mundo.
O Hamas, ao usar a liberação de reféns como uma peça central de sua guerra de propaganda, demonstra como a guerra psicológica não é apenas um conceito abstrato, mas uma realidade pragmática e eficaz. As imagens de reféns sendo escoltados por combatentes do Hamas, com a intervenção de organizações humanitárias, são cuidadosamente manipuladas para construir uma narrativa de resistência que atravessa fronteiras e influencia governos e organizações internacionais. Esse fenômeno ilustra a complexidade das dinâmicas modernas de guerra, onde a percepção pública se torna uma arma crucial tanto quanto as forças armadas tradicionais.
 
Homens do Hamas se posicionam em palco montado para entrega de reféns à Cruz Vermelha
 
Ao entender esse fenômeno, podemos concluir que a liberação de reféns pelo Hamas, longe de ser apenas um gesto humanitário, é um exemplo claro de como as estratégias psicológicas e de propaganda estão entrelaçadas com as operações militares em conflitos contemporâneos, transformando o campo de batalha em um cenário multifacetado e dinâmico.
O Hamas utiliza a propaganda de maneira estratégica para reforçar a imagem de sua resistência frente ao poderio militar de Israel, apresentando-se como um grupo que, apesar das adversidades, continua firme e forte dentro de Gaza. Esse tipo de manipulação psicológica busca não apenas a vitória militar, mas também a vitória narrativa, tentando convencer tanto a população palestina quanto o público global de que o grupo permanece invicto e resiliente. Após os ataques intensivos e constantes contra Gaza, a propaganda do Hamas foca em imagens de sua "força" e capacidade de resistência, o que alimenta a narrativa de que, mesmo diante da violência do adversário, o grupo persiste.
Essa abordagem é uma tática clara dentro da guerra psicológica, onde o objetivo é sustentar o moral dos seus seguidores e criar uma percepção de invencibilidade. Ao mostrar que, apesar dos ataques de Israel, o Hamas continua ativo e operacional, a organização propaga a ideia de que sua luta está longe de ser concluída e que suas forças permanecem robustas. Isso não só fortalece a imagem do grupo perante os palestinos, que podem sentir um senso de orgulho e lealdade ao ver que sua resistência está "viva", mas também tenta gerar uma percepção de fraqueza em Israel e em seus aliados.
Em termos de guerra de propaganda, o Hamas também busca dividir a opinião pública internacional. Através da constante divulgação de imagens de combate e da apresentação de sua "resiliência", o grupo tenta pintar Israel como um agressor impiedoso, enquanto se posiciona como um defensor das aspirações palestinas. Ao gerar esse contraste, o Hamas manipula a percepção global, fortalecendo seu apoio em certos setores e criando um desgaste político sobre as potências que apoiam Israel.
Portanto, o uso da propaganda para demonstrar a continuidade da resistência e a força do Hamas não é apenas uma questão de posicionamento militar, mas uma estratégia meticulosamente projetada para afetar a moral tanto de seus adversários quanto de seus aliados. Essa guerra de narrativa, somada à manipulação psicológica, se tornou uma peça central no conflito, onde a imagem e a percepção têm um poder igual, ou até maior, que a força militar.
Esse tipo de conflito reflete as complexidades da guerra assimétrica, um conceito amplamente discutido por autores como Martin van Creveld, que destaca a dificuldade de uma parte mais poderosa enfrentar um inimigo que adota táticas irregulares, como esconder-se entre a população civil (Creveld, 2006). A assimetria de poder entre Israel e o Hamas torna ainda mais difícil a resposta militar eficaz, já que qualquer ação contra alvos militares pode resultar em altos danos colaterais, afetando civis inocentes e gerando condenações internacionais. David Kilcullen, por exemplo, enfatiza que a eficácia de forças militares convencionais é reduzida quando enfrenta inimigos que utilizam a população local como escudo humano, um cenário que diminui a margem de manobra do lado mais forte (Kilcullen, 2009). A guerra assimétrica, portanto, exige que o lado mais forte, como Israel, não apenas enfrente um inimigo irregular, mas também lide com os desafios de evitar os efeitos devastadores sobre civis, mantendo o equilíbrio entre a defesa legítima e a moralidade das operações militares.
Por outro lado, há exemplos de fracasso. Países que desmantelaram suas forças armadas em nome de ideais pacifistas frequentemente enfrentaram consequências desastrosas quando confrontados com realidades hostis. O ideal de paz deve ser sustentado por força, pois é apenas através da preparação que podemos dissuadir aqueles que preferem o conflito.
Como, por exemplo, a Geórgia. Em 2008, o País enfrentou a Rússia em uma breve, porém devastadora guerra. Apesar de buscar apoio diplomático e cooperar com o Ocidente, sua limitada capacidade militar resultou na perda das regiões da Ossétia do Sul e da Abecásia. A Geórgia serve como um exemplo de como a falta de poder dissuasório torna as garantias externas insuficientes diante de uma agressão.
 
A column of Russian armored vehicles is seen on its way to the South Ossetian capital of Tskhinvali on August 9, 2008.
Coluna de veículos blindados com tropas Russas a caminho da capital da Ossétia do Sul , Tskhinvali em 9 de agosto de 2008. Fonte: Musa Sadulayev (AP).
 
 Democracias modernas enfrentam ainda um dilema: enquanto as ameaças se multiplicam, crises internas, como radicalização política e declínio institucional, minam sua capacidade de reação e questionam investimentos em defesa.
O paradoxo emerge: mais risco, menos preparo. Portanto, a eficácia da diplomacia reside em sua ancoragem na força. O equilíbrio entre defesa e valores democráticos é fundamental para a sobrevivência. Em um cenário global marcado pela dissuasão, a verdadeira garantia da paz é a preparação para defendê-la.
 Esses exemplos evidenciam que a diplomacia, sem força para respaldá-la, é frágil diante da realidade de um mundo moldado pelo poder e pela dissuasão.
 
Conclusão 

A verdadeira paz, como revela a história, não é conquistada através de concessões diplomáticas ou promessas vazias, mas sim por meio da preparação e da força. O princípio romano "Si vis pacem, para bellum" – "Se você quer paz, prepare-se para a guerra" – nos mostra que a paz genuína é construída pela capacidade de dissuadir qualquer agressor, e não por simples acordos ou declarações vazias. Exemplos históricos como a Segunda Guerra Mundial demonstram que a paz não vem do conformismo, mas da força militar e da habilidade de se defender com eficácia. O desarmamento nuclear na Ucrânia, por exemplo, expôs como a fragilidade da defesa, gerada por decisões equivocadas, pode ser um convite para a agressão.
A lição aqui é clara: a dissuasão nuclear é fundamental para manter a paz. O caso da Ucrânia, após seu desarmamento, ilustra como a falta de uma defesa robusta não impede um ataque, mas enfraquece a capacidade de resistir. De maneira similar, Israel mantém sua paz não por acordos frágeis, mas pela sua preparação militar constante e sua estratégia de dissuasão. A força militar, como no caso de Israel, não é uma opção, mas uma necessidade para garantir a segurança e a estabilidade nacional.
Essa filosofia de preparação é igualmente adotada por agências de inteligência e serviços antiterroristas, que buscam antecipar e neutralizar ameaças antes que se concretizem. Em última análise, a paz global não depende da ausência de guerra, mas da força real e da capacidade de antecipação e dissuasão, que garantem a segurança nacional. Em um mundo instável e imprevisível, a verdadeira paz só pode ser alcançada por meio da força estratégica, que é o alicerce fundamental para a proteção de qualquer nação, afastando qualquer ameaça antes que ela tenha chance de se concretizar.
 A filosofia das agências de inteligência, revela que a busca pela paz em um mundo repleto de ameaças exige mais do que uma postura reativa. Ela exige antecipação, preparação e ações preventivas. Ao aplicar o lema romano "Si vis pacem, para bellum" ("Se você quer paz, prepare-se para a guerra"), essas agências demonstram que a verdadeira segurança não vem da inação, mas da capacidade de neutralizar ameaças antes que se concretizem. Seja no Oriente Médio, nas Américas ou em outras regiões, a vigilância constante, a infiltração em células terroristas e a desarticulação de operações adversárias são essenciais para garantir a estabilidade e a sobrevivência de nações. Embora essas abordagens preventivas muitas vezes envolvam métodos controversos, elas são vistas como fundamentais para preservar a paz e a ordem internacional, permitindo que os estados se protejam e, ao mesmo tempo, minimizem o impacto de conflitos diretos. No fim, a lição que se extrai dessas agências é clara: a paz não é um estado passivo, mas um objetivo alcançado por meio de uma preparação constante e estratégica para o imprevisto.
 A conclusão do conceito "Si vis pacem, para bellum" se entrelaça diretamente com a realidade vivida por Israel, onde a paz não é apenas um desejo, mas uma condição que exige uma preparação constante para a guerra. A história do país, marcada por guerras e ataques constantes, demonstrou que, sem a manutenção de uma força militar robusta e eficaz, a segurança e a sobrevivência de uma nação podem ser comprometidas. Israel investe incessantemente em sua defesa não apenas como uma estratégia de resposta, mas como um mecanismo preventivo de dissuasão, refletindo claramente a ideia de que, em um cenário global imprevisível e hostil, a paz é alcançada através da preparação para o conflito.
Portanto, a contínua evolução da estratégia de defesa de Israel, com foco em modernização, inteligência avançada e uma postura de prontidão, reforça a validade do princípio romano. A realidade geopolítica do Oriente Médio, marcada por tensões com grupos terroristas e regimes autoritários, só confirma que a paz verdadeira é aquela sustentada pela força — uma força que, no caso de Israel, é a linha de frente na proteção de sua população e na preservação de sua soberania.
 A comparação entre Israel e a Geórgia no contexto de segurança e defesa revela como a preparação militar e a postura de dissuasão desempenham um papel crucial na manutenção da soberania de um Estado. Israel, constantemente ameaçado por inimigos regionais e enfrentando conflitos militares desde sua fundação, adotou uma filosofia de segurança que integra força militar, inteligência avançada e prontidão constante. O conceito romano Si vis pacem, para bellum (se você quer a paz, prepare-se para a guerra) é central em sua estratégia, refletido na sua moderna força militar, seu serviço militar obrigatório e suas políticas de dissuasão. A resposta imediata e implacável de Israel ao ataque do Hamas em outubro de 2023 demonstra como o país mantém sua segurança com uma postura firme e uma capacidade de resposta rápida a qualquer ameaça. Sua história de guerras e confrontos, como a Guerra da Independência, a Guerra dos Seis Dias e a Guerra do Yom Kippur, consolidou a ideia de que, para garantir a paz e a sobrevivência, é necessário estar constantemente preparado para a guerra.
Por outro lado, a Geórgia, apesar de sua localização estratégica e das ameaças externas, tem sido uma nação que ainda não desenvolveu uma postura de defesa igualmente robusta. A geopolítica do Cáucaso, especialmente a relação com a Rússia e a ocupação de territórios como a Ossétia do Sul e a Abkházia, deveria ter impulsionado a Geórgia a adotar uma estratégia de segurança similar à de Israel. Contudo, durante a guerra de 2008 com a Rússia, a Geórgia mostrou uma clara falta de preparação e coordenação, o que resultou na perda de territórios e na fragilidade de sua posição geopolítica. A resposta georgiana à agressão foi limitada, em parte, devido à falta de uma força militar moderna e de uma estratégia de dissuasão efetiva.
A Geórgia, portanto, representa um exemplo de um Estado que não conseguiu aplicar o conceito romano da preparação para a guerra como condição essencial para a paz. Em vez de investir o necessário em sua defesa e em uma postura de prontidão constante, a Geórgia foi pega de surpresa e sofreu as consequências de uma preparação inadequada diante de uma ameaça externa. Esse contraste com Israel serve como um alerta sobre a importância da força militar na preservação da paz e na proteção da soberania nacional, destacando as falhas da Geórgia em seguir esse princípio fundamental.


Escrito e produzido por: Gabriel Chagas.
 
Entusiasta por Geopolítica, Espionagem, Relações Internacionais e Autor do Blog Mundo em Conflito.
 
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