O Mossad, serviço de
inteligência estrangeira de Israel, é conhecido mundialmente por suas operações
ousadas e eficazes, que frequentemente desafiam a lei e a diplomacia para
proteger o Estado de Israel. Criado alguns meses após a fundação do Estado Israelense em 1948, o
Mossad transformou-se em um dos órgãos de inteligência mais sofisticados e
temidos do mundo, sendo responsável por operações de captura de nazistas
fugitivos, resgates de reféns e eliminação de alvos considerados ameaças
existenciais.
Ao longo das décadas, a
agência acumulou uma reputação de precisão, inovando em tecnologias e táticas
que frequentemente anteciparam outras organizações de inteligência. Conhecido
por sua rede extensa de informantes e operações secretas que abrangem todos os
continentes, o Mossad influencia a geopolítica e atua como uma espécie de braço
invisível de Israel, muitas vezes à margem dos olhares públicos. Vamos
mergulhar na trajetória dessa agência, explorando sua história, divisões
secretas e algumas operações emblemáticas que moldaram sua fama e, ao mesmo
tempo, trouxeram desafios éticos e diplomáticos.
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| Brasão do Mossad. |
A Primeira Unidade Secreta
de Israel: A Seção Árabe e os Primeiros Espiões
A primeira Unidade Secreta
de Israel, conforme contada no livro Spies of No Country, de Matti
Friedman, surgiu em um momento decisivo da história do Oriente Médio. Em
novembro de 1947, as Nações Unidas votaram pela partilha da Palestina em dois Estados: um Judeu e outro para árabe. A decisão acendeu imediatamente os primeiros confrontos: os árabes palestinos iniciaram ofensivas, enquanto os judeus se defenderam. No início da guerra, os
árabes da Palestina realizaram a ofensiva, enquanto os judeus da Palestina se defenderam.
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| Matti Friedman, autor do Livro Espiões Sem País: O Segredo Vive no Nascimento de Israel. |
Grupos judeus radicais responderam com ataques em mercados e teatros, tentando mostrar aos árabes que não seriam expulsos da região. Mas as guerras não são
vencidas apenas com bombas, armas e munições. Há uma frase famosa que norteia
até os dias de hoje: “Conhecimento é
poder”. E o poder decisivo passa por algo mais: inteligência. E é nesse contexto que surgem os primeiros espiões dos judeus na
Palestina, com o objetivo de identificar quem eram judeus e quem era árabe, se
misturarem em ciclos de conversas e amizades em bares e cafés, para descobrirem
novos planos de ataque, para seguirem árabes violentos, para eliminarem ameaças
ao povo judeu. E precisavam de espiões autônomos, que pudessem tomar decisões e
agirem de maneira solitária.
Os dois primeiros espiões
registrados do que hoje conhecemos como o Instituto de Inteligência e Operações Especiais, popularmente
conhecido como Mossad, a agência
de inteligência nacional de Israel, foram: Gamliel Cohen e Isaac Shoshan.
Durante o processo de
votação das Nações Unidas para construção do Estado de Israel, os judeus
estavam em uma condição de não terem exército formal, mas possuíam três grupos
paramilitares: Haganah, Irgun e Lehi.
No futuro, esses três grupos iriam se fundir para se tornarem as IDF, as Forças de Defesa de Israel,
sendo o Palmach a força de
ataque de elite. Porém, sua estrutura era falha, com poucos recursos
financeiros e de materiais. A maior arma desse grupo era a sua determinação pela causa.
Os primeiros espiões,
Gamliel Cohen e Isaac Shoshan, foram os pioneiros e auxiliaram na criação de
uma unidade secreta nomeada de Seção
Árabe. Os membros desse grupo eram chamados de Mistaravim, que literalmente significa "aqueles que se tornam como os árabes".
Os treinamentos para a
unidade recém estabelecida eram primários e até mesmo intuitivos, pois não se
tinha uma ideia concreta do significado de ser como um árabe. Então, por
exemplo, Gamliel Cohen foi enviado para
uma mesquita em Haifa, escutava constantemente um pregador da época,
conhecido como “O Tigre”, fingia
estar orando com sinceridade enquanto o Tigre realizava palestras com homens da
mesquita sobre o seu dever sagrado de lutar contra os judeus. E,
principalmente, ser como árabe significava observar o Tigre cuidadosamente, contar os seus guarda-costas e
observar a sua influência na comunidade árabe.
Ao observar a influência
na comunidade árabe localizada em um ponto estratégico, a região de Haifa, o
grupo chegou à seguinte conclusão: “Os
judeus não poderiam perder a influência sobre aquelas pessoas e regiões.”
E dessa forma foi tomada uma decisão: O
Tigre precisava ser detido, e foi Isaac Shoshan quem ajudou a detê-lo.
O resultado da operação
foi: a maioria dos companheiros do
Tigre foram mortos, entretanto, o Tigre sobreviveu à operação. Mas os
espiões da Seção Árabe triunfaram, pois Haifa
não foi mais influenciada pelo Tigre, que deixou a região. E após uma
batalha caótica, Haifa estava nas mãos
dos judeus.
Após essa situação, Gamliel Cohen se mudou para o Líbano.
Nos primeiros anos permaneceu sozinho e sem apoio na região, mas logo, com a
chegada de alguns parceiros da Seção Árabe, começaram a produzir e enviar relatórios da situação do Líbano para casa.
Os relatórios continham a monitoração do clima político e social no Líbano, a cobertura jornalística da guerra, a simpatia dos cristãos, a raiva
dos muçulmanos, a raiva dos
refugiados, que haviam deixado a Palestina em busca de segurança em
outra terra árabe.
Relataram também que Beirute não tinha como se defender de um
ataque aéreo. Observavam que carros
e armas estavam chegando a Beirute, com o objetivo de os Estados Árabes
apoiarem o Líbano em uma futura guerra com os judeus. Observaram que havia vários alvos para serem bombardeados e
destruídos na cidade. Mapearam
cada rota importante de Beirute.
Entretanto, a guerra não chegou a Beirute. Mas o iate de Hitler chegou. Os homens da
Seção Árabe realizaram vigilância e perceberam que o iate estava a caminho do Egito. Então foi iniciada uma missão arriscada: deter o iate de Hitler sem parecer que fosse
ação dos judeus israelenses e fora de
Beirute.
Nesse contexto, quando o
iate saiu para o mar, os espiões
enviaram um nadador armado com duas minas explosivas dentro da água, sob
o manto da noite e da escuridão. O nadador anexou as minas no casco do barco e,
duas semanas depois, os espiões
ouviram uma forte explosão vinda do porto. A explosão foi intensa, pois o
nadador teria acoplado os explosivos no tanque
de combustível. Durante semanas, os
jornais libaneses especularam sobre a misteriosa explosão, mas ninguém
suspeitou que os judeus tivessem
destruído o iate. E o fator do
sigilo foi fundamental. Teria sido desastroso para a comunidade judaica
se tivessem sido descobertos, principalmente para os judeus em locais árabes.
Os sucessos da Seção Árabe são medidos não por suas operações espetaculares ou estrategicamente fundamentais,
mas sim por suas consequências
psicológicas e de propaganda. Os operadores da Seção Árabe do grupamento
de judeus foram os responsáveis por darem
dignidade novamente aos judeus e por repassarem ao mundo a mensagem:
“Os judeus irão lutar e, se preciso for,
iremos matar. Não seremos mais oprimidos e massacrados.”
Não sabemos ao certo
quantas operações foram realizadas por essa Seção. O que temos certeza é que muitas vidas foram salvas por esse
grupo.
A cada espião que conhecemos os nomes e os feitos, há mais que o dobro de espiões que não sabemos
seus nomes e muito menos seus feitos. Nesse contexto, conhecemos os
nomes de Gamliel Cohen e Isaac Shoshan,
eles representam e são o símbolo do nascimento do Mossad e dos primeiros
espiões judeus, e de todos que vieram posteriormente.
A
Origem e História do Mossad
O Mossad, abreviação de HaMossad leModi'in uleTafkidim Meyuchadim
(Instituto de Inteligência e Missões Especiais), foi oficialmente fundado em 13 de dezembro de 1949 por Reuven Shiloah, sob a orientação
direta do então primeiro-ministro David
Ben-Gurion. O nascimento da agência ocorreu em um cenário de instabilidade total: Israel era um Estado recém-criado, cercado por vizinhos hostis, e já
havia enfrentado sua primeira guerra, o conflito árabe israelense de 1948.
A criação do Mossad não
foi apenas uma estratégia de defesa: foi uma questão de sobrevivência existencial. Desde o
início, ficou claro que Israel precisaria de algo além de tropas regulares, necessitava
de uma estrutura de inteligência
altamente funcional, eficiente, ágil, internacional e com liberdade para agir preventivamente.
O modelo inicial foi
influenciado pelo MI6 britânico,
com quem os líderes sionistas já haviam tido contato nos tempos do Mandato
Britânico. Contudo, logo se percebeu que a natureza das ameaças contra Israel
exigia profundas adaptações operacionais e doutrinárias. O Mossad foi então estruturado de maneira compartimentalizada, com autonomia
operacional e capacidades de conduzir ações rápidas e de alto risco, sem
necessidade e dependência de autorizações políticas em cada missão.
Essa reestruturação não
foi meramente técnica, mas uma ruptura calculada com os modelos ocidentais
tradicionais. Durante o Mandato Britânico, líderes como Reuven Shiloah, primeiro diretor do Mossad, e Isser Harel, que o sucederia em 1952,
estudaram de perto o funcionamento do MI6
britânico, incorporando dele elementos como o uso de fontes humanas
(HUMINT) e a atuação fora das fronteiras do Estado. Mas a própria realidade
estratégica de Israel, pequeno, isolado e cercado por potências hostis, então, exigia
um modelo adaptado a uma guerra
permanente de sobrevivência.
Sob a liderança de Isser Harel, o Mossad passou a
funcionar com uma estrutura de células
altamente compartimentalizada e independentes, onde cada equipe conhecia apenas sua
função específica, e não o plano completo da operação. Essa configuração reduzia
drasticamente o risco de vazamentos e aumentava a eficácia. Harel, que também
chefiava simultaneamente o Shin Bet, concentrou poderes sem precedentes na
história da inteligência israelense, respondendo diretamente ao
primeiro-ministro David Ben-Gurion
e evitando interferências políticas externas. A operação de captura de Adolf Eichmann em 1960, executada com
absoluto sigilo na Argentina, foi um símbolo dessa capacidade autônoma e
precisa.
A autonomia operacional se tornou, então, uma doutrina. Muitas
missões de sabotagem, assassinato seletivo ou subversão psicológica passaram a
ser conduzidas sem necessidade de
autorização prévia para cada uma, especialmente quando classificadas
como de “risco estratégico iminente”. Essa abordagem conferiu ao Mossad a
reputação de agir com agilidade incomum entre os serviços de inteligência
ocidentais, algo que, embora eficiente, também levantou críticas quanto à legalidade internacional e à prestação de
contas democrática.
Segundo relatos do próprio
Isser Harel em sua obra "The House on Garibaldi Street"
(1975), sobre a missão Eichmann, a prioridade não era apenas capturar alvos,
mas provar que Israel tinha braços
longos e memória longa, uma mensagem que ressoaria em todas as
operações futuras. Essa lógica ajudou a moldar a identidade do Mossad como uma
agência ofensiva, secreta e muitas vezes decisiva nas escolhas estratégicas do
Estado israelense.
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| Fonte: Amazon |
Já nos anos 1950, o Mossad
passou a ocupar um papel central na política de segurança israelense. Suas
missões incluíam coleta de informações
sobre países árabes hostis, intervenções
silenciosas contra movimentos nacionalistas árabes, e ações de contraespionagem. O Mossad
foi vital, por exemplo, no monitoramento dos programas nucleares egípcios e sírios, nas campanhas de
desinformação contra ameaças emergentes e, principalmente, na infiltração profunda em países árabes,
utilizando agentes com perfis árabes, os mistaravim, tradição herdada das primeiras unidades clandestinas
ainda antes da criação do Estado.
Os Mistaravim são agentes secretos israelenses treinados para se disfarçarem como árabes, dominando não apenas a língua, mas também os dialetos, os costumes, as roupas, a religião e o comportamento local.Essa prática não foi criada pelo Mossad, mas tem raízes nas primeiras unidades clandestinas judaicas do período do Mandato Britânico, ainda antes da criação de Israel, quando judeus oriundos de países árabes eram recrutados por sua capacidade de se misturar à população palestina ou dos países vizinhos. A tradição foi posteriormente institucionalizada e refinada pelo Mossad, pelo Shin Bet (serviço de segurança interna) e por unidades militares como a Yamam, Mista´arvim e a Duvdevan, que operam em áreas palestinas com agentes disfarçados em missões de vigilância, captura e até eliminação de alvos.
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Membros do Mista’arvim com suspeito palestino detido. Fonte: Desconhecida. |
O uso dos mistaravim reflete a prioridade estratégica dada por Israel à infiltração humana (HUMINT) em ambientes hostis, onde operações convencionais ou tecnologias de vigilância não alcançam. Essa doutrina de disfarce extremo e integração ao ambiente inimigo transformou os mistaravim em um dos pilares mais secretos e eficazes do aparato de segurança israelense, e também dos mais controversos, devido ao uso frequente em operações extrajudiciais.
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| Imagens transmitidas por um vídeo de vigilância mostram israelenses
disfarçados de palestinos durante a operação no hospital Jenin em 30 de
janeiro de 2024.
- / AFP |
Durante esse período dos anos 50, uma
das ações que consolidou o Mossad no cenário internacional foi a operação de captura de Adolf Eichmann,
um dos principais arquitetos do Holocausto, escondido na Argentina. A operação,
liderada por Isser Harel, chefe
do Mossad à época, não apenas vingou os milhões de judeus mortos durante a
Segunda Guerra, como também demonstrou ao mundo que o braço da inteligência israelense era longo, preciso e implacável.
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| Comando do Mossad em 1968. Fonte: IDF. |
Levante-se e Mate
Primeiro: A Simbologia e os Lemas do Mossad — Entre a Tradição e a Estratégia
Secreta
O Mossad, a agência de
inteligência nacional de Israel, é envolto em um misto singular de fascínio,
temor e mistério. Essa aura não nasce apenas das ousadas operações que executa
no silêncio das sombras, mas também das frases, símbolos e lemas que permeiam
sua cultura interna, revelando muito sobre a mentalidade, os valores e os
métodos que moldam seu modus operandi. Para entender o Mossad, é imprescindível
compreender essas expressões, verdadeiros pilares que sustentam a lógica e a
ética estratégica de uma organização que impacta o cenário global de forma
invisível, porém contundente.
A expressão “Levante-se e mate primeiro” (em
inglês, Rise Up and Kill First) ganhou notoriedade internacional com a
publicação do livro Rise and Kill First: The Secret History of Israel’s
Targeted Assassinations, do jornalista investigativo Ronen Bergman. A obra, fruto de quase
uma década de pesquisa, baseia-se em mais de mil entrevistas com membros da
comunidade de inteligência israelense e em documentos confidenciais que, até
então, permaneciam fora do alcance do público. O que Bergman revela é um
retrato inquietante da espinha dorsal da política de segurança de Israel: a doutrina do assassinato seletivo como
ferramenta institucionalizada de autodefesa e dissuasão.
Mas o que exatamente
significa essa frase? Mais do que um slogan, “Levante-se e mate primeiro” resume uma doutrina preventiva profundamente enraizada na mentalidade de segurança
israelense: neutralizar a ameaça
antes que ela tenha tempo de se concretizar. É uma estratégia direta,
crua e, para muitos, moralmente desconcertante. Porém, para os formuladores de
política em Israel, ela representa uma necessidade
operacional diante de um ambiente hostil, onde o inimigo frequentemente
se oculta entre civis, cruza fronteiras sem uniforme e ataca alvos indefesos.
Trata-se de um cálculo frio, uma
antecipação violenta de eventos futuros, onde o imperativo de proteger
vidas inocentes justifica ações letais antes mesmo que o primeiro tiro seja
disparado.
Esse conceito de “matar primeiro”
desafia os parâmetros éticos tradicionais das democracias liberais ocidentais, especialmente aquelas que
valorizam o devido processo legal, o julgamento justo e os direitos humanos
como princípios inegociáveis. Para muitos fora do contexto regional, a simples
ideia de eliminar alguém sem um julgamento formal soa como uma violação grave
do direito internacional e da moralidade. No entanto, no cenário geopolítico
instável do Oriente Médio, marcado por guerras
assimétricas, ataques terroristas constantes e ameaças existenciais à soberania
nacional, esse entendimento é radicalmente diferente. Em Israel, não se trata de agressão gratuita, mas de uma
guerra silenciosa e contínua pela sobrevivência.
Além disso, vale destacar
que, embora Israel tenha sistematizado e aperfeiçoado esse método com um nível
de transparência rara entre democracias, a prática de assassinatos seletivos e neutralização de alvos de alto
valor é amplamente utilizada por outras nações.
Nos bastidores da
segurança internacional, a eliminação silenciosa de ameaças é uma prática
constante, conduzida por agências com mandatos claros e históricos comprovado.
A CIA, agência americana criada em 1947, consolidou seu papel ao longo
da Guerra Fria e além, com operações que vão desde golpes políticos até ações
paramilitares clandestinas, especialmente por meio de sua unidade Special
Activities Center. Quando a diplomacia se
mostra insuficiente e a guerra se torna um risco irresponsável, a
responsabilidade recai sobre a Agência Central de Inteligência. No âmago
da CIA, forças especiais de operações negras assumem as missões mais
arriscadas, envoltas em um véu de segredo tão intenso que praticamente
nenhuma imagem ou dado sobre elas chega ao público. Essas unidades atuam
na sombra, onde a invisibilidade é a maior proteção dos interesses
estratégicos do País.
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| Unidade Special
Activities Center da CIA. Fonte: General discharge. |
O MI6, serviço de inteligência externo britânico
fundado em 1909, tem tradição em infiltração, espionagem e manipulação
política, sendo referência para a formação de outras agências modernas. Já o FSB,
sucessor do temido KGB, mantém o controle da segurança interna da Rússia desde
1995, operando tanto em contraespionagem quanto em ações secretas, como ficou
evidente no caso real do assassinato do ex-agente Aleksander Litvinenko em 2006.
Por fim, o JSOC reúne as forças especiais americanas mais capacitadas, como
a Delta Force e os SEALs Team Six (Devgru), e é responsável por operações de
altíssimo risco, incluindo a missão certeira que eliminou Osama Bin Laden em
2011.
Essas organizações
representam o lado oculto da política global, onde a linha entre a legalidade e
o segredo é constantemente ultrapassada para garantir interesses estratégicos
nacionais. A diferença é que,
enquanto outros países preferem negar ou esconder essas ações, Israel assume, racionaliza e até codifica
essa lógica como parte estruturante da sua política de defesa nacional.
Essa
doutrina, no entanto, não é uma construção exclusivamente moderna. A
frase “Levante-se e mate primeiro” tem raízes profundas na tradição judaica,
mais especificamente no Talmude
Babilônico, onde aparece no Tratado
Sanhedrin 72a sob a forma original: “Im ba le-horgecha, hashkem
le-horgo” “Se alguém vier te matar, levante-se e mate-o primeiro”. Trata-se
de um preceito milenar de autodefesa,
interpretado pelos sábios do judaísmo como uma obrigação moral diante de uma
ameaça iminente e letal.
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Talmud Babilônico - Guadalajara 1482
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Com o passar do tempo,
esse ensinamento foi ressignificado
pela inteligência israelense, sendo incorporado como um fundamento filosófico e operacional. O
jornalista Ronen Bergman observa
que essa máxima se transformou quase em um mantra tácito dentro do Mossad e das
Forças de Defesa de Israel (IDF), moldando o comportamento estratégico de uma
nação que vive sob permanente estado de alerta. Como ele afirma em sua obra: “a
doutrina judaica antiga se tornou uma filosofia operacional para o Estado de
Israel”.
Assim,
compreender essa frase é compreender o ponto de intersecção entre tradição
religiosa, realpolitik e contraterrorismo moderno.
Ela simboliza como, para Israel, a
sobrevivência justifica a ação antecipada, e como, nas sombras do mundo
da espionagem, antigas ideias continuam a ser recicladas, agora com drones,
alvos digitais e execuções cirúrgicas.
Realpolitik: Quando a sobrevivência supera os princípios
Realpolitik
é a expressão que define com precisão esse tipo de abordagem: fazer o que é
necessário para proteger os interesses do Estado, mesmo que isso signifique
contrariar valores democráticos, normas internacionais ou compromissos morais.
O termo surgiu na Alemanha do século XIX, cunhado pelo escritor e político Ludwig Von Rochau em sua obra Grundsätze der Realpolitik (Princípios da
Política Realista), de 1853. No entanto, foi com Otto Von Bismarck, o
"Chanceler de Ferro", que o conceito ganhou força e aplicação
prática. Bismarck utilizou a diplomacia e a guerra como ferramentas de
engenharia estatal, promovendo alianças oportunistas, manipulações e rupturas
estratégicas para alcançar a unificação alemã, não com base em princípios, mas
em resultados.
![[object Object]](https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/4d/Bundesarchiv_Bild_146-1990-023-06A%2C_Otto_von_Bismarck.jpg/486px-Bundesarchiv_Bild_146-1990-023-06A%2C_Otto_von_Bismarck.jpg) |
| Chanceler Otto Von Bismarck em 1880. Imagem: Wiki Wand. |
As
características centrais da Realpolitik são inconfundíveis: pragmatismo absoluto,
foco no que funciona, e não no que é certo; amoralidade estratégica, onde a
ética é instrumentalizada; nacionalismo realista, no qual a segurança nacional
prevalece sobre qualquer outro valor; e a disposição para adotar meios duros,
como força militar, espionagem, alianças com regimes autoritários ou operações
clandestinas.
No
contexto israelense, quando o Estado opta por assassinatos seletivos com base
na lógica de “matar antes de ser morto”, está aplicando Realpolitik em sua
forma mais pura: uma escolha estratégica, calculada e insensível sob a ótica
liberal, mas justificada por um imperativo de sobrevivência. O mesmo princípio
rege ações clandestinas da CIA, do MI6 britânico, do FSB russo e de diversas
agências de inteligência pelo mundo, que, mesmo atuando em democracias,
frequentemente sacrificam princípios em nome da razão de Estado.
Em última análise, a frase
“levante-se e mate primeiro” é o retrato brutal de uma realidade onde a prevenção assume uma forma letal. Não
se trata de justiça, mas de sobrevivência. E nesse cenário, a linha entre ética
e pragmatismo torna-se tênue, quase imperceptível.
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| Fonte: Amazon. |
O Lema Oficial: Sabedoria
Coletiva e Segurança
O lema oficial do Mossad,
retirado do livro bíblico de Provérbios (11:14), é a essência da sua abordagem
operacional e estratégica:
“Where no counsel is, the
people fall, but in the multitude of counselors there is safety.” Tradução: (“Onde não há conselho, o povo cai; mas na multidão de conselheiros há
segurança.”)
Essa passagem enfatiza a
importância do trabalho em equipe, do planejamento cuidadoso e da análise
conjunta. Em termos práticos, significa que nenhuma missão, seja para coletar
informações, sabotar um inimigo ou executar um assassinato seletivo, é feita por
um único agente ou de forma improvisada. O Mossad opera como uma rede
integrada, na qual a precisão e a segurança dependem do cruzamento de dados,
opiniões e estratégias elaboradas por vários especialistas.
Para compreender o peso
desse lema, imagine uma operação complexa: infiltrar agentes, reunir
inteligência, evitar vazamentos, neutralizar ameaças. Cada passo exige o máximo
de coordenação e inteligência compartilhada para minimizar riscos e maximizar o
impacto. A sabedoria coletiva não é apenas um valor ético, mas uma necessidade
existencial para uma agência que atua em um ambiente geopolítico volátil como o
Oriente Médio.
O Lema Extraoficial e a
Arte do Engano: Embora o lema oficial
promova o trabalho coletivo, o Mossad também é conhecido por sua capacidade de
enganar, um princípio estratégico essencial para qualquer serviço de
inteligência. Uma frase não oficial, mas amplamente associada a ele é: “By way of deception, thou
shalt do war.” (“Pela via do engano, farás a guerra.”)
Esse conceito, que não aparece
em documentos oficiais, reflete a prática constante do Mossad de usar a
dissimulação para alcançar seus objetivos. Engano, nesse contexto, significa
criar cenários falsos, espalhar desinformação e manipular percepções para
confundir inimigos e proteger suas operações.
Esta estratégia é tão
antiga quanto a própria arte da guerra, lembrando os ensinamentos do general
chinês Sun Tzu, que afirmava: “Toda guerra é baseada no engano.” O Mossad
aplica esse ensinamento com rigor, utilizando recursos tecnológicos,
operacionais e humanos para criar uma camada invisível de proteção e ataque,
onde o inimigo dificilmente consegue discernir a realidade da mentira.
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| Fonte: Amazon. |
A Simbologia do Nome e dos
Ícones
O nome “Mossad” significa
literalmente “Instituto” ou “Fundação” em hebraico, mas seu significado vai
além da simples tradução. Criado em 1949, o Mossad simboliza a fundação da inteligência
israelense moderna, uma estrutura essencial para garantir a sobrevivência do
jovem Estado de Israel em meio a inimigos poderosos.
Seu emblema oficial é
carregado de simbolismos profundos: uma estrela de Davi, que representa o povo
judeu e sua história milenar, entrelaçada com uma chama. Esta chama simboliza a
vigilância constante, a luz da verdade que guia as operações na escuridão da
clandestinidade e o compromisso incansável com a proteção do povo judeu.
Entender esses símbolos é
fundamental para perceber que o Mossad não é apenas uma agência de espionagem.
É um guardião da memória, da identidade e da segurança de uma nação que
sobreviveu a perseguições, guerras e genocídios.
O Braço Longo da Justiça
de Israel
O Mossad é frequentemente
chamado de “braço longo da justiça de Israel”. Essa expressão revela sua capacidade
de atuar globalmente para punir inimigos, proteger cidadãos e preservar a
memória histórica. O termo “braço longo” sugere um alcance além das fronteiras
geográficas e legais, com a autoridade, real ou autoimpostas, de realizar
missões extraterritoriais.
A operação mais
emblemática desse papel foi a captura de Adolf Eichmann, em 1960, responsável
pela logística do Holocausto. Eichmann foi sequestrado na Argentina e levado a
julgamento em Israel, demonstrando que o Mossad está disposto a romper convenções
internacionais para buscar justiça.
Esta postura radical,
embora controversa, reflete a percepção israelense de que a justiça para crimes
contra o povo judeu deve ser incansável, independente do tempo, lugar ou
obstáculos. Essa filosofia também é evidente em operações recentes contra
líderes terroristas, onde a ação rápida e decisiva é preferida a longos
processos jurídicos que podem permitir a continuação das ameaças.
Os lemas e símbolos do
Mossad revelam uma mentalidade complexa, que une tradição milenar, pragmatismo
brutal e inovação tecnológica. Eles explicam por que essa agência, apesar de
atuar às sombras, tem um impacto visível e duradouro no equilíbrio geopolítico
mundial.
Para Israel, a
inteligência não é um luxo, é a linha tênue entre a existência e a aniquilação.
E é essa tensão, essa urgência, que dá ao Mossad sua força, sua audácia e sua
filosofia de agir primeiro para garantir a sobrevivência.
Estrutura e Unidades
Secretas do Mossad
O Mossad é formado por
diferentes divisões, cada uma especializada em um aspecto da inteligência e da
guerra invisível. Essas unidades operam de forma descentralizada, mas com
coordenação direta com a chefia da agência, mantendo o princípio de compartimentalização total, onde cada
célula conhece apenas o necessário para sua função. A seguir, as principais:
Kidon:
A
unidade mais temida e envolta em sigilo. A Kidon, que significa "baioneta" em hebraico, é
responsável por eliminações seletivas,
operações de sabotagem, sequestros e execuções cirúrgicas de
alvos considerados ameaças diretas à segurança nacional de Israel. Seus agentes
são treinados para atuar em qualquer lugar do mundo, utilizando múltiplas
identidades e dominando técnicas de combate, vigilância e evasão.
A unidade ganhou
visibilidade internacional após a Operação
Cólera de Deus (Wrath of God), deflagrada como retaliação ao
massacre dos atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, pelo
grupo Setembro Negro. Os agentes da Kidon passaram anos rastreando e
neutralizando os envolvidos, em uma campanha global que combinou espionagem,
execução e disfarce, uma demonstração clara de que os inimigos de Israel jamais dormiriam tranquilos.
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| Uma obra de espionagem e aventuras, que reúne dezesseis operações
encobertas de assassinato e sequestro realizadas pelo Mossad e sua
subunidade da Metsada, o temível Kidon, ao longo de 44 anos de história.
Enquanto os especialistas se indagam em relação ao benefício dessas
operações do Kidon, organizações como o Hamas ou o Hezbollah não parecem
perder força. Aparentemente, a recente troca de liderança dentro do
Mossad não pareceu mudar seus objetivos. Entretanto, o então governo de
Israel silencia enquanto o Mossad vigia. |
Tsomet:
A
Tsomet é a unidade encarregada
do recrutamento e gestão de informantes
estrangeiros. É o coração do trabalho de inteligência humana (HUMINT) do
Mossad. Seus agentes são especialistas em persuasão, manipulação e negociação,
muitas vezes operando sob cobertura diplomática em embaixadas, consulados ou
organizações internacionais.
Graças ao trabalho da
Tsomet, o Mossad mantém fontes ativas
em zonas críticas, como governos do Oriente Médio, laboratórios
nucleares, organizações terroristas e empresas estratégicas. Muitos dos maiores
sucessos do Mossad só foram possíveis por causa das relações criadas e mantidas por essa divisão com colaboradores ao redor
do mundo.
Metsada (anteriormente conhecida como Caesarea): A Metsada é a divisão de operações especiais do Mossad, responsável por ações ofensivas de alto risco, como sabotagens, assassinatos seletivos, infiltrações profundas e interdições clandestinas. Por muitos anos, foi conhecida pelo codinome Caesarea, nome ainda utilizado em algumas fontes e círculos de inteligência.
Dentro da Metsada está inserida a unidade Kidon, responsável por execuções cirúrgicas, sequestros e eliminações de alvos considerados ameaças diretas à segurança de Israel. Enquanto o Kidon atua com foco total em assassinatos seletivos, a Metsada/Caesarea executa missões mais amplas, como a destruição de instalações estratégicas, infiltração em redes de inteligência hostis e vigilância de longo prazo.
Suas missões são classificadas como operações cinzentas, aquelas que não são oficialmente reivindicadas, mas cujos impactos são estrategicamente devastadores. Entre as mais notórias estão as infiltrações em instalações nucleares iranianas, o roubo do Arquivo Nuclear de Teerã (2018), e ataques clandestinos que visaram paralisar o avanço tecnológico militar de adversários regionais.
Para compreender o real alcance das ações da Metsada, é essencial diferenciar dois conceitos frequentemente confundidos: operação clandestina e operação cinzenta. Embora ambos os tipos se mantenham fora dos canais formais e negáveis pelas autoridades, eles operam com propósitos e exposições distintas.As operações clandestinas são, por definição, invisíveis e negáveis. Seu êxito depende da completa ausência de rastros. É o caso do roubo do Arquivo Nuclear de Teerã, em 2018, uma infiltração cirúrgica, sem testemunhas, sem barulho, e que só foi revelada ao mundo posteriormente, por decisão estratégica do governo israelense. Até aquele momento, o mundo sequer sabia que ela havia ocorrido.
Já as chamadas operações cinzentas, onde atua a Metsada, seguem outra lógica: são ações não oficialmente assumidas, mas cuidadosamente desenhadas para deixar impressões estratégicas, recados geopolíticos e sinais calculados. Israel não admite, mas também não nega de forma convincente. A sabotagem em Natanz, tanto em 2020 quanto em 2021, é exemplo emblemático: as explosões paralisaram o avanço nuclear iraniano por meses, senão anos. Não houve reivindicação, mas os alvos, o modus operandi e o contexto político deixaram clara a origem para qualquer analista que acompanha a disputa entre Israel e Irã.
Esse é o território onde a Metsada se move com precisão. Suas operações não precisam de assinatura oficial, o resultado fala por si. O que está em jogo não é apenas destruir uma instalação ou eliminar um cientista: é enviar uma mensagem sem palavras, criar incertezas no comando adversário, desestabilizar o moral e impor um custo real ao avanço tecnológico militar do inimigo, tudo isso sem ultrapassar a linha vermelha que deflagraria uma guerra direta.
Em tempos onde a negação plausível vale tanto quanto um míssil bem lançado, a Metsada domina a arte de transformar o silêncio em arma estratégica, operando nas sombras, mas projetando impacto com a força de um estrondo audível em todas as capitais do Oriente Médio e do Mundo, pois suas operações não se limitam a geografia do Oriente Médio.
O Mossad não é apenas uma
agência de inteligência. É um instrumento
de sobrevivência nacional, um vetor de dissuasão silenciosa e um pilar da
política externa israelense. Suas operações são moldadas por uma
premissa vital:
Israel
não pode se dar ao luxo de perder uma única guerra, e para isso, é necessário
vencer as batalhas invisíveis.
Desde sua origem, o Mossad
atua para garantir que as ameaças sejam
neutralizadas antes mesmo de se concretizarem, e que a informação, quando corretamente usada, seja
mais poderosa que qualquer exército.
Algumas Operações Selecionadas que Marcaram a História do Mossad.
Operação Garibaldi: A Caça
a Adolf Eichmann (1960) — Justiça e Memória:
Um dos episódios mais emblemáticos, e definidores da história do Mossad foi a captura de Adolf Eichmann, o arquiteto logístico da Solução Final nazista. Responsável pela deportação sistemática de milhões de judeus para campos de extermínio durante o Holocausto, Eichmann desapareceu após o colapso do Terceiro Reich, refugiando-se na Argentina sob a falsa identidade de Ricardo Klement.
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| Detalhe do Passaporte que Eichmann usou como Ricardo Klement. Fonte: André Almeida |
Durante anos, seu paradeiro foi cercado de incertezas, até que, em 1960, após uma longa investigação conduzida por agentes israelenses infiltrados na América do Sul, o Mossad obteve a confirmação: Eichmann vivia em Buenos Aires, sob proteção e anonimato.
A operação que se seguiu foi uma demonstração de paciência, precisão e coragem operativa. Sem apoio oficial do governo argentino, que desconhecia e nunca autorizou a ação, agentes do Mossad montaram uma vigilância rigorosa, confirmaram sua identidade por meio de cruzamentos fotográficos e comportamentais, e aguardaram o momento exato para agir.
Na noite de 11 de maio de 1960, Eichmann foi capturado enquanto caminhava para casa. Foi imobilizado, drogado e mantido em cativeiro por nove dias, até ser disfarçado como um funcionário da companhia aérea El Al com problemas neurológicos e embarcado clandestinamente em um voo rumo a Israel.
Seu julgamento, televisionado ao vivo em 1961, foi um marco na história do direito internacional, da memória coletiva do Holocausto e da reafirmação da soberania israelense. Pela primeira vez, o Estado de Israel mostrou ao mundo que não havia limites geográficos ou temporais para a busca por justiça.
A operação Eichmann ultrapassou barreiras jurídicas e diplomáticas, provocando críticas internacionais, mas também estabelecendo uma nova doutrina moral: para os crimes do Holocausto, não há prescrição, nem abrigo seguro. Para o Mossad, essa missão foi mais do que vingança, foi uma mensagem histórica de que a justiça pode ser silenciosa, mas jamais será esquecida.
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| Adolf Eichmann
(no centro da imagem, ao microfone) foi capturado em Buenos Aires em
maio de 1960 e depois condenado à morte em julgamento em Jerusalém |
Operação Diamond (1966) — A Deserção Estratégica que Redefiniu o Poder Aéreo no Oriente Médio
No contexto tenso da Guerra Fria e das crescentes rivalidades no Oriente Médio, o Mossad executou uma das suas operações mais emblemáticas e decisivas: a deserção do piloto sírio Munir Redfa, que trouxe para Israel um caça MiG-21, uma das aeronaves soviéticas mais avançadas da época e símbolo da superioridade militar árabe.
Munir Redfa, piloto experiente da Força Aérea Síria, foi identificado pelo Mossad como um ativo estratégico capaz de fornecer informações cruciais. A operação exigiu planejamento detalhado e uma abordagem cuidadosa de persuasão e infiltração para garantir que o piloto e o avião chegassem a Israel sem serem interceptados.
A deserção em 1966 não foi um ato isolado, mas parte de uma ação coordenada que proporcionou a Israel acesso privilegiado à tecnologia militar soviética. O MiG-21 foi submetido a uma análise minuciosa pelos engenheiros israelenses, resultando em um profundo conhecimento das capacidades e vulnerabilidades dessa aeronave, que equipava as forças aéreas dos países árabes.
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| Mig - 21 Soviético em posse dos Israelenses após uma operação do Mossad. Fonte: Defesa Aérea Naval. |
Esse conhecimento se tornou fundamental na preparação e execução da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando a Força Aérea israelense obteve vantagem estratégica decisiva no combate aéreo, contribuindo para a rápida e contundente vitória sobre os países árabes.
Mais do que uma simples deserção, a Operação Diamond evidencia a complexidade do trabalho de inteligência israelense, que une espionagem, avaliação técnica e ação psicológica para transformar informações em poder real sobre o campo de batalha.
Essa missão revela como a inteligência estratégica molda a geopolítica regional e como operações sigilosas, muitas vezes pouco conhecidas do grande público, podem alterar o equilíbrio entre nações, configurando um novo patamar de segurança para Israel e seus interesses.
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| Em 1967, o texto que o acompanhava, dizia: “Connery visitou Israel e
tirou esta foto histórica com o então comandante da IAF Maj. Gen. Moti
Hod com o pano de fundo de um MiG-21 iraquiano, numerado "007". X (Antigo Twitter) da Força Aérea de Israel. |
Operação Entebbe (1976) —
Resgate Inédito em Solo Estrangeiro:
Em 27 de junho de 1976, o
voo 139 da Air France, com 248 passageiros a bordo, foi sequestrado por
terroristas da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), com apoio
do grupo alemão Baader-Meinhof. O avião foi desviado para o Aeroporto
Internacional de Entebbe, em Uganda, país governado pelo regime ditatorial de
Idi Amin Dada, que forneceu abrigo e proteção aos sequestradores.
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| Idi Amin Dada. Fonte: Foto: Getty Images/Liaison |
Os terroristas separaram
os passageiros judeus e israelenses do restante dos reféns, ameaçando executar
esses primeiros caso suas exigências não fossem atendidas. O cenário tornou-se
um campo de reféns sob alta tensão, enquanto o mundo acompanhava com apreensão.
O Mossad desempenhou papel
fundamental nos bastidores dessa crise, realizando uma coleta de inteligência
sofisticada e minuciosa. Agentes infiltrados e informantes conseguiram mapear a
configuração do aeroporto, os posicionamentos dos terroristas, as rotas de
patrulha dos soldados ugandeses e os protocolos de segurança. Essa inteligência
detalhada foi vital para o planejamento da operação, dando aos comandantes
israelenses informações precisas para garantir o sucesso da missão.
Com base nesses dados, a
unidade de elite do Exército Israelense, a Sayeret Matkal, foi escolhida para
executar a ação de resgate. A Sayeret Matkal é uma força de operações especiais
altamente treinada, especializada em missões de reconhecimento, contraterrorismo e resgate em ambientes hostis e de alta complexidade.
Reconhecida mundialmente por sua precisão cirúrgica e discrição, essa unidade
opera frequentemente em situações de risco extremo, em solo estrangeiro, e foi
decisiva para a reputação de Israel em operações especiais.
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| Sayeret Matkal Unidade de elite da inteligência militar israelense, especializada em reconhecimento profundo, resgate de reféns e operações cirúrgicas além das linhas inimigas. Fonte: IDF. |
Na noite de 3 de julho de
1976, cerca de uma semana após o sequestro, a Sayeret Matkal lançou uma
operação militar surpresa no aeroporto de Entebbe. O plano envolveu o
transporte de comandos em aviões militares até Uganda, seguido de um ataque
relâmpago contra os terroristas e as forças que os protegiam.
A operação durou menos de
uma hora, e apesar do cenário adverso, conseguiu libertar cerca de 102 reféns
vivos. Contudo, a missão teve perdas significativas:
Yonatan Netanyahu,
comandante da Sayeret Matkal e irmão do futuro primeiro-ministro de Israel
Benjamin Netanyahu, foi morto durante o tiroteio, tornando-se um símbolo de sacrifício
e liderança militar em Israel.
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| Foto conhecida de Yonatan Netanyahu, tirada pouco antes de sua morte na Operação Entebbe. Fonte: Desconhecida. |
· Os quatro sequestradores foram mortos
durante o confronto.
· Três soldados ugandeses, que protegiam o
local, também morreram.
· Relatos apontam para a morte de civis
ugandeses durante a operação, devido à troca de tiros.
Apesar dessas perdas, a
operação é considerada um marco na história militar e de inteligência global,
mostrando a capacidade de Israel de projetar força, executar operações de alta
complexidade em solo estrangeiro e garantir a sobrevivência da maioria dos reféns.
A Operação Entebbe
reforçou a imagem do Mossad como uma agência capaz de articular inteligência
detalhada e coordenar ações conjuntas com forças militares para proteger a
segurança do Estado de Israel e de seus cidadãos em situações extremas.
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| Resgate dos reféns. Fonte: IDF |
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| Comandos de Sayeret Matkal com a Mercedes que usaram para enganar os ugandenses (Foto do porta-voz da IDF). |
Operação Êxodo (1984–1991)
— Resgate Humanitário dos Beta Israel:
Durante os anos 1980 e
início da década de 1990, a comunidade judaica etíope Beta Israel enfrentava
uma crise humanitária gravíssima. Marcados pela fome, guerra civil e
perseguição religiosa, esses judeus viviam em um contexto de vulnerabilidade
extrema na Etiópia, e muitos haviam migrado para países vizinhos em busca de
refúgio.
Para Israel, considerado
seu dever histórico e espiritual, a missão era resgatar essas vidas e trazê-las
para segurança no Estado judeu. Sob total sigilo e risco elevado, o Mossad
orquestrou uma das maiores operações humanitárias clandestinas da história.
A operação consistiu em
estabelecer uma base temporária no Sudão, país árabe sem relações diplomáticas
com Israel, onde agentes israelenses criaram uma fachada de resort turístico
para mascarar as atividades de transporte. Utilizando aviões militares, foram
realizadas diversas evacuações aéreas noturnas, com rotas perigosas e
constantes ameaças.
Ao longo de sete anos,
entre 1984 e 1991, mais de 20 mil judeus etíopes foram transportados para
Israel. Esta operação provou que a inteligência, muitas vezes associada a ações
de guerra, também pode salvar vidas em grande escala, reafirmando a dimensão
humanitária do Mossad.
Guerra Silenciosa: A
Campanha do Mossad contra o Programa Nuclear Iraniano (2007 – Atualidade)
O programa nuclear iraniano é, para Israel, a ameaça mais grave e existencial desde sua criação. Não se trata apenas de um desafio militar tradicional, mas de uma potencial revolução no equilíbrio estratégico do Oriente Médio, uma mudança capaz de desestabilizar toda a segurança regional e global. Como impedir que um inimigo declarado alcance esse poder? Essa é a questão que molda a estratégia israelense há quase duas décadas.
Desde os anos 2000, o Mossad conduz uma campanha clandestina, multifacetada e implacável para atrasar ou bloquear o avanço iraniano rumo à arma nuclear. Essa não é uma guerra convencional. Trata-se de uma operação complexa, onde inteligência, sabotagem tecnológica e assassinatos seletivos se unem a métodos inovadores e um profundo conhecimento do inimigo. Aqui, o silêncio não é falta de ação, é a arma mais letal.
Agentes altamente treinados infiltram-se nas estruturas iranianas, enquanto ataques cibernéticos, como o Stuxnet, que danificou centenas de centrífugas, minam a capacidade técnica do programa. Paralelamente, cientistas e engenheiros cruciais são caçados e eliminados em operações cirúrgicas que buscam não apenas destruir, mas desestabilizar, sem disparar um único tiro convencional. O efeito psicológico é devastador: medo, desconfiança e paranoia corroem as bases do projeto nuclear iraniano.
No entanto, o que antes era uma “guerra invisível” está mudando. Israel vem intensificando as ações e já não se limita a sombras e dissimulações. Operações militares diretas, incluindo ataques a instalações de mísseis e usinas de enriquecimento de urânio no Irã, evidenciam que o conflito está se tornando cada vez mais aberto e explícito. A escalada é clara e perigosa.
Ao longo de quase duas décadas, essa dinâmica moldou a relação Israel e Irã. Mas agora, o silêncio e a precisão dividem espaço com confrontos diretos. Até a data mais recente, 19 de junho de 2025, os fatos mostram um cenário explosivo: Israel intensifica suas operações militares e ataques cirúrgicos contra alvos estratégicos iranianos, enquanto o Irã responde com lançamentos de mísseis e movimentações que aumentam o risco de um conflito aberto e de larga escala no Oriente Médio.
Essa é uma disputa que ultrapassa a clandestinidade e desafia os limites tradicionais da guerra, combinando tecnologia avançada, inteligência afiada e poder militar em uma mistura que pode redefinir o equilíbrio geopolítico global. Você está prestes a entender como essa complexa e perigosa guerra silenciosa evolui para uma crise com consequências imprevisíveis, e porque ela jamais pode ser ignorada.
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| Israel X Irã. Fonte: Foto: Stanislav Vdovin/Sina Drakhshani/Unsplash |
Assassinatos Seletivos de
Cientistas
Entre
2007 e 2025, o Mossad protagonizou uma campanha silenciosa, mas devastadora,
contra o programa nuclear do Irã, um programa que Israel considera uma ameaça
existencial. Esta campanha não se limitou à coleta de informações; tratou-se de
uma guerra de precisão cirúrgica, marcada por assassinatos seletivos, técnicas
inovadoras e um profundo impacto psicológico sobre o regime iraniano.
O
conceito de assassinato seletivo aqui ganho sentido literal e
estratégico: eliminar alvos pontuais, especificamente cientistas e engenheiros
ligados ao desenvolvimento de armas nucleares, sem provocar um conflito aberto.
Essa guerra invisível se deu no território iraniano, sob um manto de sigilo
absoluto e com o uso de tecnologias e métodos cada vez mais sofisticados.
Ardeshir
Hosseinpour (2007) – O Envenenamento que Passou Despercebido: O caso do físico nuclear
iraniano Ardeshir Hosseinpour é
um dos primeiros indícios concretos da guerra silenciosa que Israel travaria
nos bastidores contra o programa atômico do Irã. Em janeiro de 2007,
Hosseinpour, professor da Universidade de Shiraz e especialista em
eletromagnetismo aplicado ao enriquecimento de urânio, foi encontrado morto em
circunstâncias oficialmente atribuídas a uma intoxicação por gases tóxicos em
seu laboratório. No entanto, essa explicação foi amplamente contestada por
fontes ocidentais de inteligência.
Relatórios extra oficiais,
publicados por veículos como The Sunday Times e por analistas ligados à
comunidade de segurança israelense e americana, sugerem que ele foi alvo de uma
operação de envenenamento radioativo, método letal que consiste na introdução
de material radioativo em pequenas quantidades, suficiente para causar morte
lenta, com sintomas clínicos difíceis de identificar em curto prazo. A
letalidade do método reside justamente na sua discrição: ele provoca falência
sistêmica sem deixar traços óbvios de intervenção externa.
Hosseinpour estava
envolvido em pesquisas sensíveis nas instalações de Isfahan, uma das principais
usinas de conversão de urânio do Irã. Sua morte precoce, envolta em sigilo e
ambiguidades, levantaram sérias suspeitas sobre uma possível intervenção
estrangeira e, com o passar dos anos, passou a ser interpretada por diversos
analistas como o ponto inaugural de uma
campanha sistemática do Mossad para desestabilizar o programa nuclear iraniano
por dentro.
Essa ação não buscava
apenas interromper avanços científicos: visava criar um ambiente psicológico
devastador, onde a desconfiança, o medo e a sensação de vulnerabilidade
corroessem a confiança entre os próprios quadros técnicos do regime. O
assassinato silencioso de Hosseinpour marcou, assim, o início de uma nova fase:
a da guerra invisível, onde o inimigo não é visto, mas seus efeitos são
sentidos de forma brutal.
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O físico nuclear iraniano Ardeshir Hosseinpour. Imagem: Israel Hayom. |
Massoud
Ali-Mohammadi (2010) – O Cientista e a Bomba Magnética na Motocicleta: A morte de Massoud Ali-Mohammadi, em 12 de janeiro de 2010, marcou uma nova
escalada na guerra clandestina contra o programa nuclear iraniano. Professor da
Universidade de Teerã e físico nuclear de destaque, Ali-Mohammadi era
especialista em partículas elementares, e seu nome aparecia entre os acadêmicos
envolvidos em pesquisas estratégicas com potencial aplicação militar. Embora o
regime iraniano tenha tentado, inicialmente, desvincular sua figura do programa
nuclear, fontes do Ocidente e documentos da oposição sugerem que ele estava, de
fato, ligado a estudos sensíveis dentro da estrutura científica do Estado.
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| Professor da Universidade de Teerã, Massoud Ali-Mohammadi, que foi morto por uma bomba em frente à sua casa. Fonte: Reuters. |
Na manhã do atentado,
enquanto saía de casa no bairro de Gheytarieh, em Teerã, um artefato explosivo
foi acionado por controle remoto. A bomba magnética havia sido previamente
fixada em sua motocicleta, uma técnica característica de operações de
assassinato seletivo, que se tornou marca registrada do Kidon, a unidade operacional do Mossad especializada em execuções cirúrgicas.
O ataque foi executado com
precisão milimétrica. O dispositivo, pequeno e de difícil detecção, provocou
uma explosão direcionada de alta intensidade, matando Ali-Mohammadi
instantaneamente e evitando danos colaterais, um padrão típico das operações
israelenses que buscam neutralizar o alvo sem comprometer civis ou expor seus
agentes.
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| Um agente de segurança iraniano fala em seu celular no local da explosão que matou o professor Mohammadi. Fonte: AFP/Getty. |
Segundo reportagens do The
Guardian e da BBC Persian, a investigação iraniana apontou como
autor do ataque um iraniano chamado Majid Jamali Fashi, posteriormente
executado pelo regime. Durante seu julgamento, ele confessou ter sido recrutado
e treinado pelo Mossad em vários países estrangeiros, incluindo Turquia, onde
teria recebido instrução tática e inteligência operacional. Embora muitos
analistas questionem a veracidade de confissões obtidas sob custódia iraniana,
os métodos empregados na execução, assim como o perfil do alvo, seguem padrões
historicamente associados às operações israelenses.
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| Majid Jamali Fashi, à esquerda, aparece em seu julgamento no tribunal revolucionário em Teerã em 23 de agosto de 2011.Raheb Homavandi / Reuters, arquivo. |
A eliminação de
Ali-Mohammadi foi mais do que a neutralização de um cientista: tratou-se de um recado estratégico. Ao eliminar um
nome importante em plena capital iraniana, com uma operação limpa e sem
vestígios, o Mossad demonstrava
capacidade de infiltração profunda, acesso à rotina dos alvos e domínio
total do tempo e do espaço, elementos essenciais para gerar um clima de paranoia e vulnerabilidade dentro
das elites científicas e militares do Irã.
Esse ataque marcou também
o início de uma nova sequência de
assassinatos seletivos que ocorreriam nos anos seguintes, colocando os
cientistas iranianos no centro de uma guerra invisível onde a ciência e a
segurança nacional passaram a ser alvos simultâneos.
Majid
Shahriari (2010) – O Ataque Explosivo no Carro do Especialista em Centrífugas: No dia 29 de novembro de 2010, Majid Shahriari, um dos físicos mais
influentes do programa nuclear iraniano, foi morto em uma operação
cuidadosamente planejada em Teerã. Responsável pelo desenvolvimento das
centrífugas de enriquecimento de urânio, tecnologia chave para elevar o nível
de pureza do urânio a fins potencialmente militares, Shahriari representava um
elo vital entre a ciência teórica e sua aplicação prática nas instalações
subterrâneas do Irã, como Natanz
e Fordow.
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| Shahriari foi um cientista nuclear que cooperou com a Organização de Energia Atômica do Irã. Imagem: Public Domain |
A ação foi rápida e
meticulosa: enquanto Shahriari se deslocava em seu veículo, um motoqueiro se
aproximou e fixou uma bomba magnética
na lateral do carro. O artefato, detonado remotamente, causou uma
explosão precisa e letal, matando o cientista instantaneamente. A esposa que o
acompanhava sobreviveu, ferida. A escolha do método: uma bomba pequena, silenciosa
e de ativação à distância, ilustra o modus operandi refinado de operações
atribuídas à unidade Kidon,
divisão de execuções seletivas da divisão Metsada do Mossad.
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| O veículo de Shahriari depois
que ele foi morto em uma explosão em Teerã em novembro de 2010. O
cientista foi morto por uma bomba presa à sua porta por
motociclistas. Fonte: MEHR. |
No mesmo dia, uma operação
paralela tentou assassinar o físico Fereydoon
Abbasi-Davani, que escapou da explosão e posteriormente foi nomeado
chefe da Organização de Energia Atômica do Irã. Sua sobrevivência não encerrou sua
posição como alvo. Em 13 de junho de
2025, durante a Operação Leão
Ascendente, ofensiva militar israelense coordenada contra infraestruturas
estratégicas iranianas, Abbasi foi morto
em um ataque aéreo de alta precisão que visou um centro de pesquisa
vinculado ao programa nuclear nas proximidades de Isfahan. Sua morte, 15 anos após escapar do primeiro atentado,
representa a continuidade de uma campanha de longo prazo do Mossad contra
figuras-chave do programa atômico iraniano.
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| Fereydoon Abbasi Davani era um dos elementos-chave do IRGC na produção de armas nucleares. Estava atuando no parlamento do regime e presidente da Comissão de Energia. Fonte: NCRI
Conselho Nacional de Resistência do Irã. |
Daryoush
Rezaeinejad (2011) – A Execução Precisa do Atirador de Elite: Em 23 de julho de 2011, o
engenheiro iraniano Daryoush Rezaeinejad foi assassinado em plena luz do dia em
Teerã, em uma das operações mais ousadas e simbólicas da campanha contra o
programa nuclear iraniano. Rezaeinejad, de 35 anos, era pesquisador vinculado
ao Ministério da Defesa do Irã, com especialização em sistemas de ignição e
componentes aplicados a mísseis de longo alcance. Informações da inteligência
ocidental apontam que ele integrava o círculo técnico responsável pelo
desenvolvimento militar do programa nuclear iraniano, o que o colocou na mira
da inteligência israelense.
O ataque foi executado com
precisão e frieza. Dois indivíduos armados, em uma motocicleta, se aproximaram
do veículo em que ele estava com sua esposa. Cinco disparos foram efetuados à
queima-roupa, atingindo Rezaeinejad no pescoço e no tórax. A esposa também foi
baleada, mas sobreviveu. A ação durou segundos e os atiradores fugiram
rapidamente. A arma utilizada era de calibre leve, equipada com silenciador, o
que reduziu a detecção sonora no momento da execução.
O crime ocorreu diante da
filha do casal, uma criança pequena, enquanto Rezaeinejad se dirigia à entrada
de sua residência. A brutalidade da operação e a escolha do momento revelam não
apenas o objetivo de neutralizar o alvo, mas também de gerar terror psicológico
entre os cientistas iranianos. A mensagem era clara: qualquer um que atuasse no
coração do projeto nuclear poderia ser eliminado, mesmo no centro da capital
iraniana.
O governo do Irã
responsabilizou Israel e os Estados Unidos, acusando diretamente o Mossad pela
operação. Como de praxe, nenhuma confirmação oficial foi dada, mas reportagens
do New York Times, Haaretz e The Guardian, com base em
fontes da inteligência ocidental, indicam que a unidade Kidon, divisão
operacional especializada da Metsada, teria conduzido o ataque. O sucesso da
missão reforçou a capacidade do Mossad de agir dentro do território iraniano,
desafiando a segurança da Guarda Revolucionária e expondo vulnerabilidades
profundas na proteção de seu pessoal científico.
A morte de Rezaeinejad
intensificou a paranoia dentro do programa nuclear do Irã. A partir desse
episódio, diversos cientistas começaram a recusar cargos sensíveis, exigir
segurança armada permanente ou até abandonar projetos estratégicos. A campanha
de assassinatos seletivos assumia, ali, um novo contorno: além da eliminação
física, visava desestabilizar emocionalmente e psicologicamente toda a cadeia
de comando técnico do programa nuclear.
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| Daryoush
Rezaeinejad. Fonte: ynet news |
Mostafa
Ahmadi Roshan (2012) – O Golpe em Natanz: Em 11 de janeiro de 2012, Mostafa Ahmadi Roshan, químico de formação e diretor operacional da instalação de enriquecimento de urânio em Natanz, foi assassinado em Teerã em mais um ataque cirúrgico atribuído ao Mossad. Roshan era uma peça-chave no funcionamento logístico e técnico do complexo de Natanz, considerado o núcleo estratégico do programa nuclear iraniano.O ataque seguiu um padrão já utilizado em operações anteriores. Um motoqueiro se aproximou do carro onde Roshan estava e anexou ao veículo uma bomba magnética de pequena dimensão, mas alta precisão. Segundos depois, o artefato foi detonado remotamente, provocando uma explosão localizada e fatal. O atentado ocorreu em plena hora do rush, no centro da capital iraniana, diante de testemunhas, reforçando o caráter psicológico da operação.
Natanz é um dos complexos mais protegidos do Irã, com instalações subterrâneas projetadas para resistir a ataques aéreos e com sistemas de segurança reforçados. Roshan supervisionava operações técnicas e rotinas de enriquecimento de urânio com centrífugas de alta performance, o que o tornava um alvo de altíssimo valor estratégico. Sua eliminação representou um duro golpe para o avanço do programa nuclear iraniano, retardando processos críticos e gerando insegurança entre os cientistas e engenheiros envolvidos.
O governo iraniano acusou formalmente Israel pelo ataque, afirmando que se tratava de uma continuação da campanha de assassinatos seletivos conduzida por serviços de inteligência estrangeiros. Embora o governo israelense, como de costume, não tenha comentado oficialmente, analistas de defesa e reportagens do Haaretz, The Guardian e New York Times apontaram o envolvimento da unidade Kidon, sob coordenação da Metsada, no planejamento e execução do atentado.
O assassinato de Mostafa Ahmadi Roshan reafirmou uma estratégia de guerra invisível que, ao longo dos anos, deixou claro para o regime iraniano que nenhuma estrutura, por mais protegida, estaria fora do alcance da inteligência israelense. A operação também fortaleceu a lógica de que, para Israel, impedir o Irã de obter capacidade nuclear não é apenas uma prioridade diplomática, mas uma missão de segurança existencial, executada com precisão, silêncio e letalidade.
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| Mostafa Ahmadi-Roshan que foi morto em Teerã quando dois motociclistas prenderam uma bomba magnética presa a um carro. Fonte: AFP/GETTY IMAGES. |
Assassinato de Mohsen
Fakhrizadeh (2020): O uso de inteligência artificial como arma letal: A
campanha do Mossad contra o programa nuclear iraniano atingiu um novo nível de
sofisticação tecnológica em 27 de novembro de 2020, quando o cientista Mohsen
Fakhrizadeh, considerado o cérebro por trás das ambições nucleares do Irã, foi
executado nos arredores de Teerã por meio de uma metralhadora controlada por
inteligência artificial.
Esse
foi mais do que um assassinato. Foi uma mensagem: Israel não apenas sabe onde
estão seus inimigos, mas também é capaz de atingi-los com precisão cirúrgica e
mínima exposição humana.
Fakhrizadeh
era um nome conhecido na comunidade de inteligência israelense desde os anos
2000. De acordo com documentos obtidos pelo Mossad em 2018, na famosa operação
de roubo do Arquivo Nuclear de Teerã, ele era o diretor do “Projeto Amad”, um
esforço militar ultrassecreto para construir uma bomba atômica, disfarçado sob
programas civis e acadêmicos. Em
30 de abril de 2018 o Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu chegou a mencioná-lo
publicamente em uma apresentação televisionada ao mundo: “Lembrem-se desse
nome: Fakhrizadeh.”
Era
um recado claro, e público, à liderança iraniana e à comunidade internacional:
Israel conhecia os bastidores do “Projeto Amad” e sabia quem o comandava. Mais
do que um aviso, a frase foi o prenúncio de um destino selado.
A
operação que resultou em sua morte desafiou os padrões tradicionais da guerra
clandestina. De acordo com reportagens investigativas do New York Times,
The Guardian, Reuters e de fontes de inteligência ocidentais, a
execução foi orquestrada com precisão milimétrica e dependência quase total da
tecnologia:
· Uma caminhonete Nissan
foi estacionada na beira de uma estrada em Absard, cidade próxima a Teerã.
Dentro dela, uma metralhadora automatizada de última geração, equipada com
sensores ópticos, câmeras, reconhecimento facial, inteligência artificial e
sistemas de disparo remoto.
· O equipamento foi
controlado a partir de Israel, com apoio de comunicação via satélite, em tempo
real. Não havia nenhum agente humano presente na cena do ataque.
· A arma foi
programada para reconhecer apenas Fakhrizadeh e evitou atingir sua esposa, que
estava ao seu lado no veículo. Os disparos foram tão precisos que ele foi morto
com tiros no pescoço e na coluna, incapacitando-o instantaneamente.
· Após o ataque, a
própria metralhadora explodiu, como mecanismo de autodestruição, eliminando
rastros e dificultando qualquer tipo de análise forense aprofundada.
O
Irã responsabilizou diretamente Israel. Embora o governo israelense não tenha
assumido a autoria, como de praxe, fontes do Mossad confirmaram extra
oficialmente a participação da agência na operação. Fakhrizadeh era mais do que
um alvo simbólico: ele representava a convergência entre ciência, ideologia e
ameaça militar direta ao Estado de Israel.
Mais
do que eliminar um homem, a operação provocou um efeito psicológico devastador
dentro das estruturas iranianas. Ela mostrou que, mesmo com todo aparato de
segurança e vigilância, ninguém está realmente seguro. Mostrou que o Mossad não
apenas coleta informações, ele age, elimina, inova, e o faz com total autonomia
tecnológica.
Esse
evento representou um divisor de águas na guerra secreta entre Israel e Irã.
Foi a primeira operação letal de alta precisão realizada com inteligência
artificial armada, sem um único agente humano presente no local. E mais uma
vez, a mensagem foi clara: Israel fará o que for necessário, por qualquer meio,
para impedir que seus inimigos mais radicais adquiram capacidade nuclear.
 |
| A cena em que Mohsen Fakhrizadeh foi morto em Absard, uma pequena cidade
a leste da capital, em Teerã, Irã, em 27 de novembro de 2020. (Fars
News Agency via AP); Inset: Mohsen Fakhrizadeh em uma foto sem data.
(Cortesia) |
Vírus Stuxnet: A Revolução da Guerra
Cibernética contra o Programa Nuclear Iraniano
No vasto cenário das
guerras contemporâneas, onde o conflito já ultrapassou as trincheiras físicas e
entrou no terreno invisível das redes digitais, nenhuma operação simboliza tão
claramente essa transformação quanto, segundo o New York Times, a Operação Jogos Olímpicos (codinome escolhido para o ataque cibernético com o vírus Stuxnet). Fruto de uma
colaboração clandestina entre o Mossad israelense e a Agência de Segurança
Nacional dos Estados Unidos (NSA), esse ataque cibernético representa uma
virada histórica na forma como Estados nação travam batalhas decisivas.
 |
| Fonte: Nord VPN. |
O programa nuclear
iraniano era, e ainda é, uma das maiores preocupações de segurança para Israel
e seus aliados. No centro dessa ameaça estavam as instalações subterrâneas de
Natanz, onde milhares de centrífugas industriais eram utilizadas para
enriquecer urânio, processo vital para a fabricação tanto de combustível
nuclear quanto, potencialmente, de armas nucleares.
Mas o que torna esse
desafio único é que essas instalações são altamente protegidas, com perímetros
rigorosos, redundâncias de segurança e operações isoladas da internet. Penetrar
fisicamente nesses complexos era uma missão quase impossível, exigindo uma
abordagem não convencional.
Devido
ao rigoroso isolamento digital das instalações de Natanz, que operam
completamente desconectadas da internet e são protegidas por perímetros físicos
altamente seguros, a introdução do Stuxnet exigiu mais do que apenas sofisticados
códigos maliciosos. Foi necessário o envolvimento direto da inteligência
humana: agentes/espiões ou colaboradores especializados precisaram acessar fisicamente essas instalações
para inserir o malware por meio de dispositivos USB, os conhecidos pen drives.
Essa etapa evidencia um ponto crucial muitas vezes negligenciado nas análises
da Operação Stuxnet: não basta a inovação tecnológica quando o ambiente
operacional está protegido contra ataques digitais remotos. A execução precisa,
o planejamento detalhado e a coragem dos agentes no campo foram imprescindíveis
para superar as barreiras físicas e digitais. Essa integração entre
inteligência humana e tecnologia de ponta fez do Stuxnet uma arma híbrida,
atuando no limiar entre o mundo físico e o digital, estabelecendo um novo
paradigma na guerra contemporânea e na espionagem estratégica.
Neste contexto, é fundamental entender o papel dos colaboradores nas operações de inteligência. Diferentemente dos agentes ou espiões formalmente vinculados às agências, como o Mossad, CIA, MI6, SVR, FSB, BND ou NSA, os colaboradores são indivíduos que, frequentemente, não possuem vínculos oficiais, mas oferecem suporte crucial. Eles fornecem acesso, conhecimento local, habilidades técnicas específicas ou apoio logístico, viabilizando infiltrações em ambientes altamente protegidos onde a presença oficial seria arriscada ou inviável. Agindo nos bastidores, esses colaboradores ampliam o alcance das operações e garantem que missões complexas, como a inserção física do malware Stuxnet via pen drives nas instalações iranianas, sejam realizadas com sucesso, sem comprometer diretamente as estruturas oficiais das agências.
Com o caminho físico abordados nos parágrafos anteriores, entramos no núcleo mais complexo, e inédito da operação: o desenvolvimento técnico do Stuxnet, a primeira arma digital da história capaz de causar danos físicos em uma infraestrutura estratégica sem disparar um único tiro.
Nesse contexto, a partir de 2005, longe do
conhecimento público e sob o mais absoluto sigilo, uma colaboração técnico-militar sem precedentes foi iniciada entre os Estados Unidos e Israel.
Em laboratórios subterrâneos e centros de pesquisa de cibersegurança avançada,
engenheiros, programadores e criptógrafos das agências de inteligência, com
forte participação da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) e do Mossad, deram
início ao desenvolvimento de uma arma digital totalmente inovadora.
Não se tratava de um vírus
comum, como os que atacam redes pessoais ou corporativas. O objetivo era muito
mais ambicioso e cirúrgico: construir um malware capaz de penetrar o sistema de
automação industrial iraniano, operado por controladores Siemens S7-300, dispositivos
que comandavam o funcionamento das centrífugas de enriquecimento de urânio nas
instalações subterrâneas de Natanz.
 |
| Controladores Siemens S7-300 |
Esse nível de
especificidade exigiu engenharia reversa de software, testes laboratoriais
exaustivos com réplicas exatas do ambiente iraniano e o desenvolvimento de
técnicas inéditas de sabotagem digital. O resultado foi o Stuxnet: um
ciberarmamento sofisticado que não apenas identificava se estava no ambiente alvo antes de agir, mas também manipulava fisicamente o funcionamento
das centrífugas, acelerando e desacelerando seus rotores com precisão
milimétrica, até causar falhas estruturais
Como detalhado em
investigações do The New York Times (2010) e no trabalho da pesquisadora
Kim Zetter (Countdown to Zero Day, 2014), o malware possuía múltiplos
níveis de sofisticação: auto propagação via pendrives, exploração de
vulnerabilidades desconhecidas (zero days) e uma capacidade quase “inteligente”
de detectar se estava em um sistema alvo antes de agir.
 |
| Livro da Pesquisadora Kim Zetter. Editora Brasport. |
As chamadas vulnerabilidades “zero day” referem-se a falhas de segurança desconhecidas pelos fabricantes de software e pelos próprios usuários, o que significa que não há defesas disponíveis no momento em que são exploradas. Essa característica fez do Stuxnet uma arma especialmente perigosa, pois podia se infiltrar silenciosamente sem ser detectado pelos sistemas de proteção tradicionais. Além disso, o vírus agia diretamente nos controladores lógicos programáveis (PLCs) da Siemens, dispositivos eletrônicos que automatizam e controlam o funcionamento das centrífugas, sabotando a parte física da infraestrutura nuclear iraniana sem intervenção humana direta. Essa combinação de engenharia digital e impacto físico representou uma ruptura inédita na história dos conflitos armados.
Stuxnet não buscava
destruir arquivos ou roubar informações, sua missão era muito mais letal e
cirúrgica. Ao infectar os controladores das centrífugas, o malware manipulava
suas rotações, acelerando e desacelerando as máquinas além dos limites seguros,
provocando desgaste mecânico e falhas catastróficas.
Ao mesmo tempo, enviava
sinais falsos para os operadores, que acreditavam que tudo estava funcionando
normalmente. Essa engenharia maliciosa prolongou o tempo até a detecção,
maximizando o dano.
Estima-se que cerca de
1.000 centrífugas foram destruídas ou danificadas, um impacto que atrasou o
programa nuclear iraniano em anos, conforme relatórios da Agência Internacional
de Energia Atômica (IAEA).
 |
| Fonte: Organização das Nações Unidas |
Um
dos aspectos mais surpreendentes e pouco explorados da Operação Stuxnet é sua
capacidade de se espalhar além do alvo pretendido. Embora o vírus tenha sido
meticulosamente projetado para atacar exclusivamente as centrífugas do programa
nuclear iraniano em Natanz, ele acabou infectando milhares de computadores em
pelo menos 100 países, incluindo grandes potências como Rússia, Índia, Estados
Unidos e várias nações europeias.
Essa
disseminação ocorreu principalmente por meio de dispositivos USB contaminados e
da exploração de vulnerabilidades desconhecidas, as chamadas “zero days”, no
sistema operacional Windows. Como resultado, diversas infraestruturas
industriais e empresas sem qualquer ligação com o programa iraniano foram
afetadas involuntariamente. Essa propagação global expõe um dos maiores
desafios e riscos inerentes às armas cibernéticas: a dificuldade de limitar
seus efeitos apenas ao alvo estratégico.
Contudo,
apesar dessa ampla dispersão, o impacto letal do Stuxnet permaneceu restrito a
Natanz. Isso porque o malware foi programado para agir de forma muito
específica, operando apenas quando detectava os controladores industriais
Siemens das centrífugas iranianas. Nos demais computadores infectados, o vírus
permanecia inativo, sem causar danos, evitando chamar atenção e gerar estragos
desnecessários.
 |
| Unidade nuclear de Natanz, a 300 km ao sul de Teerã. Foto: REUTERS |
Essa
característica revela o elevado nível de sofisticação e precisão da operação,
que buscava maximizar o dano no programa nuclear iraniano, enquanto minimizava
os efeitos colaterais que poderiam expor a missão ou provocar crises
diplomáticas mais amplas. Mesmo assim, essa propagação involuntária levanta
questões éticas importantes e reforça os desafios da guerra cibernética, onde o
controle total sobre um malware é praticamente impossível, e danos colaterais
acabam acontecendo.
No
fim das contas, a Operação Stuxnet foi um marco estratégico sem precedentes.
Conseguiu atrasar significativamente o avanço do programa nuclear iraniano,
inaugurando uma nova era na guerra cibernética e na utilização da inteligência
tecnológica como instrumento geopolítico, com impactos que reverberam até os
dias atuais.
Mais do que um ataque
físico, Stuxnet instaurou um clima de insegurança e desconfiança no interior do
programa iraniano. A sensação de que um inimigo invisível havia invadido seu
sistema vital gerou medo e paranoia, forçando o regime dos aiatolás (Aiatolás são líderes religiosos de alto escalão no islamismo xiita, especialmente no Irã, com grande autoridade teológica e influência política, sendo figuras centrais no regime teocrático iraniano) a revisar rigorosamente
protocolos de segurança, limitar o acesso e aumentar gastos bilionários em
contrainteligência.
Esse impacto psicológico,
embora intangível, talvez seja o maior legado da operação, pois mina a
confiança dos próprios operadores no funcionamento de suas máquinas, um efeito
que reduz a eficiência e aumenta erros.
Stuxnet inaugurou uma nova
era: a guerra cibernética como instrumento estratégico capaz de causar danos
físicos reais, sem disparar um único tiro. Essa operação redefiniu conceitos
tradicionais de segurança, espionagem e defesa nacional.
Especialistas em segurança
digital e geopolítica reconhecem a operação como um divisor de águas,
destacando a inteligência israelense e americana como pioneiras na utilização
do ciberespaço para atingir objetivos militares e políticos. Kim Zetter, uma
das maiores referências no tema, aponta que Stuxnet “estabeleceu o padrão para
armas cibernéticas que podem alterar o equilíbrio geopolítico” (Zetter, 2014).
 |
| Zetter na Conferência de Computadores, Liberdade e Privacidade de 2006. Fonte: Joe Hall. |
Durante muito tempo, tanto
Israel quanto os Estados Unidos negaram qualquer envolvimento oficial, mantendo
o máximo sigilo para preservar a operação e evitar retaliações diretas. Somente
a partir de vazamentos e investigações jornalísticas, como as reportagens do The
Guardian e do Wired, a autoria da operação foi confirmada por fontes
ligadas aos governos.
Esse silêncio oficial
reforça a complexidade moral e legal da guerra cibernética, que opera em zonas
cinzentas internacionais, onde ações agressivas são realizadas sob a cobertura
da clandestinidade.
Até hoje, em 2025, o
legado do Stuxnet reverbera no campo da segurança internacional. Israel
continua investindo pesadamente em capacidades cibernéticas, sabendo que o
futuro dos conflitos será cada vez mais virtual.
Além disso, a operação
serviu de modelo para outras nações desenvolverem seus arsenais digitais,
tornando a guerra cibernética uma realidade cotidiana, onde o ataque silencioso
pode paralisar infraestruturas críticas, minar economias e influenciar decisões
políticas.
Sabotagem de
Infraestruturas e Roubo de Documentos: O Mossad na Guerra Contra o Programa
Nuclear Iraniano
Além das conhecidas
operações de assassinato seletivo de cientistas iranianos ligados ao programa
nuclear, o Mossad implementou uma estratégia multifacetada e tecnologicamente
sofisticada para desarticular as capacidades nucleares do Irã. Essa estratégia
vai muito além do uso de drones ou ataques aéreos convencionais, combinando
infiltrações clandestinas, sabotagem física e ciberataques para desestabilizar
o programa iraniano em múltiplas frentes.
Explosões em Natanz (2020
e 2021): Ataques Precisos e Infiltração Clandestina
Natanz, reconhecido como o
epicentro do enriquecimento de urânio iraniano, sofreu severos ataques em 2020
e 2021 que alteraram drasticamente o ritmo do programa nuclear do regime de
Teerã. De acordo com reportagens do The New York Times e da Reuters,
explosões de origem misteriosa causaram danos irreparáveis a dezenas de
centrífugas de última geração, instaladas em um complexo subterrâneo fortemente
protegido pela Guarda Revolucionária Iraniana.
A autoria dessas ações foi
atribuída a uma complexa operação do Mossad, que teria conseguido infiltrar
agentes no interior do local para instalar explosivos controlados remotamente.
A operação exigiu não apenas precisão técnica, mas um grau excepcional de sigilo
e planejamento para evitar a detecção dos sistemas de segurança altamente
avançados do Irã. Tal ação demonstra o papel do Mossad não apenas como uma
agência de coleta de inteligência, mas como um ator capaz de executar ataques
físicos cirúrgicos dentro do território inimigo.
Essas sabotagens não podem
ser vistas isoladamente, mas dentro do contexto de uma guerra híbrida na qual o
espaço físico e o virtual convergem. A habilidade de interromper processos
críticos em instalações sensíveis revela o nível de sofisticação tecnológica e
operacional do Mossad, que integra inteligência humana (HUMINT), sinais
(SIGINT) e capacidades cibernéticas para maximizar o impacto das suas ações.
 |
| Ataque de Julho de 2020 - Instalação Nuclear de Natanz. Fonte: Reuters. |
Roubo do Arquivo Nuclear
de Teerã (2018): Uma Operação de Espionagem Sem Precedentes
Em
2018, o Mossad orquestrou uma das operações de inteligência mais audaciosas da
história recente: a penetração e extração clandestina de um acervo secreto e
volumoso de documentos e mídias digitais no coração do programa nuclear
iraniano. Essa operação não foi apenas um golpe contra um adversário, mas uma
manobra estratégica destinada a minar a narrativa oficial do Irã, alterar o
equilíbrio geopolítico do Oriente Médio e reforçar a posição de Israel no
tabuleiro global.
O
local visado, um depósito subterrâneo em Teerã, jamais confirmado oficialmente
pelo regime iraniano, continha evidências cruciais que expunham a verdadeira
natureza militar do programa nuclear iraniano, dados detalhados sobre
desenvolvimento de armas atômicas, planos de testes e engenharia, além de
esquemas de ocultação destinados a enganar inspetores internacionais da Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA). O volume do material exfiltrado,
segundo reportagens do The Wall Street Journal e do The Washington
Post, é estimado em milhares de documentos físicos e digitais, configurando
uma base documental capaz de reescrever a avaliação global sobre as intenções
de Teerã.
A
operação demandou uma logística excepcionalmente complexa: agentes do Mossad
foram inseridos em território inimigo com disfarces precisos, utilizando
tecnologias de vigilância avançada para mapear a estrutura de segurança do
depósito. A infiltração incluiu a neutralização de sistemas de alarme, câmeras
e patrulhas internas, além da manipulação de dispositivos eletrônicos para
evitar a detecção de comunicação durante a extração. A operação teve de ser
rápida e silenciosa, para garantir a saída segura com o material.
Essa
ação revelou a sofisticada capacidade operacional do Mossad, que alia
inteligência humana (HUMINT), inteligência de sinais (SIGINT) e guerra
cibernética, evidenciando um modelo de guerra híbrida no qual o campo de
batalha transcende o espaço físico e adentra a esfera da informação e da
narrativa global. Não se tratou apenas de um roubo de dados, mas de um ataque
estratégico à credibilidade e legitimidade do regime iraniano.
A
divulgação pública do material, feita em abril de 2018 pelo então
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, foi uma jogada magistral no plano
diplomático. A apresentação, transmitida ao vivo mundialmente, expôs imagens de
documentos confidenciais, esquemas técnicos e até detalhes dos esforços
iranianos para burlar inspeções internacionais, desmontando a retórica oficial
do programa nuclear “pacífico”. O impacto foi imediato: a comunidade
internacional, já desconfiada, ganhou provas concretas que fundamentaram
sanções econômicas mais severas e aumentaram o isolamento político de Teerã.
Essa
operação do Mossad não apenas enfraqueceu o programa nuclear iraniano, mas
redefiniu os parâmetros do confronto entre Israel e Irã, elevando a guerra de
inteligência ao centro do embate geopolítico. Ao expor as intenções ocultas do
regime, o Mossad mudou a narrativa global, influenciou negociações
multilaterais e pressionou aliados do Irã a reverem suas estratégias. Além
disso, mostrou ao mundo o alcance tecnológico e estratégico do serviço secreto
israelense, um ator capaz de penetrar profundamente em territórios hostis e
operar com extrema precisão.
No
plano regional, a operação acirrou ainda mais as tensões, provocando respostas
indiretas do Irã e seus aliados, que passaram a intensificar ataques
cibernéticos e ações de desinformação contra Israel e seus aliados ocidentais.
O episódio tornou-se uma peça-chave para compreender a dinâmica atual do
Oriente Médio, marcada por conflitos que se dão simultaneamente no terreno
militar, na diplomacia internacional e no campo da informação.
Por
fim, o roubo do arquivo nuclear iraniano é um marco da guerra híbrida
contemporânea, onde a inteligência se transforma em arma política e
estratégica, e o controle da informação pode ser mais decisivo do que o poderio
militar convencional. Essa operação reafirma a importância da espionagem como
elemento central na proteção da segurança nacional de Israel e no enfrentamento
das ameaças que desafiam a estabilidade global.
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| Autoridade iraniana admite que Israel roubou arquivo nuclear de Teerã na operação Mossad 2018. REUTERS / Escritório da Presidência do Irã |
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| A
divulgação pública do material, feita em abril de 2018 pelo então
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Fonte: New York Times. |
O Impacto Geopolítico e as
Consequências para a Segurança Regional
As ações do Mossad contra
o programa nuclear iraniano não se limitam a um conflito bilateral, mas têm
reflexos diretos na dinâmica de poder do Oriente Médio e na segurança global.
Ao enfraquecer o programa atômico iraniano, Israel busca neutralizar a ameaça
existencial que o regime representa, especialmente considerando o envolvimento
do Irã com grupos proxy como o Hezbollah, que opera com autonomia estratégica
no Líbano.
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| Combatentes do Hezbollah em funeral de membros mortos durante ataque a dispositivos eletrônicos no Líbano — Foto: Mahmoud ZAYYAT / AFP |
A constante sabotagem
física e cibernética, somada à divulgação de documentos estratégicos, compõe
uma guerra híbrida que evita confrontos diretos em larga escala, mas que mantém
a tensão elevada e o risco de escaladas imprevisíveis. O Mossad atua assim como
um protagonista silencioso, moldando o equilíbrio regional por meio de
operações clandestinas que raramente chegam ao conhecimento público, mas cujos
efeitos reverberam em decisões políticas e militares internacionais.
Em paralelo, essa guerra
silenciosa desafia o sistema internacional e o direito internacional, colocando
em questão limites éticos e legais, especialmente quando civis e
infraestruturas críticas podem ser afetados indiretamente por essas ações.
O modus operandi do Mossad
no combate ao programa nuclear iraniano expõe uma nova face da guerra
contemporânea, uma guerra que se desenrola simultaneamente nos domínios físico,
cibernético e diplomático. O uso combinado de sabotagem de infraestrutura,
roubo de documentos e manipulação da narrativa internacional mostra que a
inteligência não é apenas um instrumento de informação, mas uma arma
estratégica capaz de redesenhar o mapa geopolítico.
Para o Brasil, compreender
essas operações é vital, pois indica o tipo de conflito e desafios que o mundo
contemporâneo enfrenta conflitos cada vez mais sutis, tecnológicos e globais,
nos quais até países distantes podem ser impactados direta ou indiretamente.
O Mossad no Brasil: a
guerra invisível que atravessa nossas fronteiras
O
Mossad mantém presença ativa em território brasileiro, utilizando estruturas
diplomáticas como instrumento de coleta de informações, treinamento e apoio
logístico. Essa atuação, embora raramente admitida oficialmente, é sustentada
por registros históricos e ações recentes. Um relatório publicado pelo The
Washington Post em 1982 afirmou que “o consulado israelense no Rio de
Janeiro serve de cobertura para uma estação regional do Mossad responsável por
Brasil, Chile, Uruguai e Argentina”. Esse tipo de atuação se baseia em redes de
contatos que envolvem diplomatas, membros da comunidade judaica, agentes de
segurança e empresários com acesso a informações estratégicas.
Essa
presença se dá em um cenário marcado por fragilidade no sistema brasileiro de
contrainteligência.
Além
das capitais, há registros de cooperação entre agentes israelenses e
instituições brasileira na região da Tríplice Fronteira, considerada uma zona
de interesse estratégico por conta da atuação de grupos como o Hezbollah. Em
2023, essa cooperação foi formalmente reconhecida após uma operação conjunta
entre a Polícia Federal e o Mossad que resultou na prisão de suspeitos de
planejar atentados contra alvos judaicos no Brasil. O gabinete do
primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, confirmou a atuação do
serviço secreto israelense, e agências como Reuters e Al Jazeera
destacaram o papel de Israel na identificação da célula.
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| Foto ilustrativa de Combatentes do Hezbollah participam de treinamento em área próxima à fronteira entre Líbano e Israel, a recompensa ainda esta em vigor, colocada em Maio de 2025. — Foto: ANWAR AMRO / AFP |
Esses
episódios evidenciam que a atuação do Mossad no Brasil não é esporádica ou
improvisada. Ela se sustenta em décadas de presença regional, alianças
estratégicas com setores locais e uso de tecnologia avançada. Em um país onde
as estruturas de segurança ainda carecem de integração e capacidade de resposta
a ameaças híbridas, essa presença se desenvolve com relativa liberdade.
A
Tríplice Fronteira: território estratégico e vulnerável
A região conhecida como
Tríplice Fronteira, onde se encontram Brasil, Paraguai e Argentina, representa,
há décadas, um ponto de intenso interesse geopolítico e de segurança
internacional. Composta por cidades como Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del
Este (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina), essa zona é caracterizada por
fronteiras altamente permeáveis, circulação constante de mercadorias e capitais,
e uma expressiva presença de comunidades de origem árabe, em especial libaneses
e sírios.
Esse cenário complexo
transformou a região em um foco central para as operações do Mossad, o
serviço secreto israelense. A preocupação de Israel com a Tríplice Fronteira
aumentou significativamente após dois atentados de grande impacto em Buenos
Aires: o ataque à Embaixada de Israel, em 1992, que matou 29 pessoas, e o
atentado à AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), em 1994, que
deixou 85 mortos. Ambas as ações foram atribuídas ao grupo libanês Hezbollah,
com respaldo logístico e financeiro do Irã, segundo autoridades argentinas,
americanas e israelenses.
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| Uma foto de arquivo datada de 17 de março de 1992, em Buenos Aires, mostra a destruição da embaixada israelense na Argentina após um enorme ataque a bomba. Foto: DANIEL GARCIA / AFP . |
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Ruínas do prédio da Amia após explosão de atentado em julho de 1994 Foto: Enrique Marcarian / Reuters
|
A partir de então, o
Mossad intensificou sua atuação na região. Relatórios de inteligência, como os
do Departamento de Estado dos EUA e de organismos de segurança da Argentina,
indicam que agentes israelenses passaram a operar com maior frequência na
coleta de informações, infiltração em redes de comércio informal (muitas vezes
usadas para lavagem de dinheiro) e monitoramento de instituições religiosas
ligadas à comunidade muçulmana. Foz do Iguaçu, dada sua estrutura urbana, redes
comerciais e diversidade étnica, passaram a funcionar como um núcleo
operacional importante dessas ações.
Segundo o jornalista
norte-americano Ronen Bergman, autor do livro Rise and Kill First (Levante-se e mate primeiro), que
analisa operações secretas de Israel, a atuação do Mossad em áreas como a
Tríplice Fronteira é considerada "de longo prazo e de alta
prioridade", especialmente para conter possíveis fontes de financiamento
do Hezbollah. A cooperação com agências locais, como a Polícia Federal
brasileira e a SIDE (agora AFI) na Argentina, também fez parte das estratégias
discretas de contra insurgência.
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| Fonte: ICCSI |
Um exemplo concreto da
complexidade e vulnerabilidade da região foi revelado em 2023, com a deflagração da Operação Trapiche pela Polícia Federal
do Brasil. A investigação identificou um esquema milionário de lavagem de dinheiro com vínculos suspeitos
com organizações extremistas, incluindo o Hezbollah. Segundo o relatório oficial da PF, o grupo criminoso
movimentava recursos provenientes do comércio informal e da remessa ilegal de
valores para o exterior, utilizando empresas de fachada, casas de câmbio e
redes de doleiros. A operação visou 23
mandados de busca e apreensão em cidades como Foz do Iguaçu, Curitiba e
São Paulo, além de ordens de prisão preventiva.
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| O passo a passo da operação que deteve atentados contra alvos judeus no Brasil — Foto: Editoria de arte |
O mais significativo, no
entanto, foi a inclusão do Hezbollah
nos relatórios da investigação, apontando que o grupo poderia estar se
beneficiando dos recursos gerados por esse esquema para financiar suas
atividades no Oriente Médio. Embora não tenha havido imputação penal direta por
terrorismo, uma limitação da legislação brasileira, a menção ao grupo foi
inédita e provocou grande repercussão internacional.
Embora os governos da
região frequentemente minimizem ou neguem a presença de células ativas do
Hezbollah, os relatórios de Washington e Tel Aviv continuam a apontar a
Tríplice Fronteira como uma zona cinzenta, onde o tráfico, o contrabando e o
financiamento do terrorismo se entrelaçam com redes lícitas de comércio e
atividades comunitárias.
São Paulo e o caso
Barakat: um alvo de alta relevância
A cidade de São Paulo, maior metrópole da América
do Sul e um dos principais centros financeiros do continente, também figura no
radar das operações de inteligência voltadas ao combate ao financiamento de
grupos extremistas. Um dos nomes mais emblemáticos nesse contexto é o do
libanês Asaad Ahmad Barakat,
acusado de atuar como operador
financeiro do Hezbollah na América Latina.
De acordo com o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos,
que o incluiu em sua lista de indivíduos sancionados por terrorismo, Barakat
desempenhou um papel central na arrecadação e transferência de fundos para o
Hezbollah, utilizando uma complexa rede de empresas de fachada, principalmente
na Tríplice Fronteira. No entanto, poucos sabem que, após pressões e
investigações na região, Barakat se
refugiou em São Paulo, onde viveu sob identidades falsas e manteve sua atuação financeira clandestina.
Segundo documentos
revelados pela consultoria de inteligência americana Stratfor e investigações jornalísticas do Clarín e da Veja,
a permanência de Barakat em São Paulo não passou despercebida aos olhos do Mossad. O serviço secreto israelense
teria conduzido operações de vigilância
física e digital, acompanhando discretamente seus deslocamentos na zona
norte da capital paulista. Relatos apontam ainda o uso de informantes infiltrados na comunidade
libanesa local, especialmente em centros culturais e mesquitas
frequentadas por indivíduos com possíveis vínculos ideológicos com o Hezbollah.
A presença de Barakat no
Brasil e sua posterior prisão em 2018, no Paraguai, após deixar o território
nacional, evidenciam tanto a capacidade
de mobilidade dessas figuras-chave do financiamento ao terrorismo,
quanto as limitações legais do Brasil
em tratá-los como ameaças à segurança nacional. Isso se deve, principalmente, à
ausência de tipificação penal específica para o terrorismo internacional fora
de contexto doméstico, o que dificulta ações preventivas mais agressivas.
Fontes do setor de
inteligência ressaltam que, durante o período em que Barakat viveu em São
Paulo, ele manteve contato com redes
comerciais e financeiras utilizadas para lavar dinheiro proveniente de
atividades ilícitas. Essas estruturas envolviam casas de câmbio, importadoras e
empresas registradas em nome de laranjas. Mesmo após sua saída, suspeita-se que
parte dessas redes continuou ativa,
sendo utilizadas por outros operadores vinculados a atividades similares.
O caso Barakat tornou-se
um alerta silencioso: o
terrorismo não atua apenas com armas, mas com fluxos financeiros ocultos, transitando entre legalidade e
clandestinidade, muitas vezes sob a fachada de negócios aparentemente
inofensivos. Para o Mossad e outras agências internacionais, São Paulo
tornou-se, a partir desse episódio, um ponto estratégico de monitoramento ampliado, não apenas
pelo fluxo financeiro, mas pelo potencial de redes transnacionais que ali se
estruturam.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2018/u/R/NgDu8gRZ6Gl26VmGotaw/barakat.jpg) |
Em 2002, Assad Barakat foi
preso em Foz do Iguaçu após autorização do STF e no ano seguinte expulso
para o Paraguai — Foto: ABC Color/Arquivo/Reprodução. |
Brasília e Rio de Janeiro:
inteligência sob disfarce diplomático
Nos bastidores da
diplomacia em Brasília e sob a
movimentação discreta das ruas do Rio
de Janeiro, o Mossad mantém uma
presença indireta, mas estratégica, operando dentro de um modelo
globalmente conhecido: a cobertura
diplomática como fachada para ações de inteligência.
A presença de agentes
israelenses com passaportes diplomáticos, lotados em embaixadas e consulados, é
uma prática amplamente documentada em diferentes partes do mundo. Nesses contextos, os oficiais designados
não apenas cumprem funções diplomáticas, mas também realizam atividades paralelas de coleta de
informações, vigilância, apoio logístico e, em alguns casos, até repasse de
treinamentos a forças locais.
Essa
é uma prática real, recorrente e reconhecida
nas doutrinas operacionais dos principais serviços secretos do mundo.
No Brasil, embora não haja confirmação oficial de atividades
clandestinas específicas conduzidas pelo Mossad sob cobertura diplomática,
especialistas em segurança e fontes do setor de inteligência apontam que esse padrão se reproduz silenciosamente.
Em Brasília, a embaixada
israelense atua como interface institucional, mas também como ponto de contato informal com setores
estratégicos do Estado brasileiro, como forças de segurança,
inteligência militar e diplomacia de defesa.
No Rio de Janeiro, o consulado desempenha função complementar, operando como base logística e estrutura de
apoio para movimentações pontuais. Historicamente, consulados são utilizados
por serviços secretos para dar suporte a ações externas, abrigar equipamentos, proteger
identidades e manter canais informais de comunicação.
Embora não existam documentos públicos confirmando o uso direto dessas
estruturas pelo Mossad no Brasil, esse
é um padrão operacional típico documentado em múltiplas operações de
inteligência ao redor do mundo.
O que torna esse cenário
ainda mais delicado é o contexto brasileiro: a estrutura de contrainteligência do país é frágil e desarticulada,
como apontam documentos oficiais do Gabinete
de Segurança Institucional (GSI) e análises independentes como as do
pesquisador Paulo Ribeiro Lima. O Brasil não possui uma doutrina sólida para
fiscalização de operações de inteligência estrangeira, tampouco mecanismos
eficazes de rastreamento de agentes disfarçados sob imunidade diplomática.
Essa vulnerabilidade
é real e documentada, e facilita o trânsito de agentes
estrangeiros com ampla margem de atuação.
Na prática, o que se
observa é uma presença discreta,
tolerada e, em certos momentos, até funcional para interesses comuns,
como o combate ao financiamento do terrorismo ou ao tráfico transnacional.
Israel, nesse cenário, opera com
inteligência, discrição e estratégia, sabendo que o ambiente
institucional brasileiro oferece pouca
resistência e amplo espaço de manobra.
Esse tipo de atuação não
se dá com alarde. Ela acontece nos
bastidores dos eventos diplomáticos, nos encontros fechados entre adidos
militares, nas trocas de informações que não são publicadas em boletins
oficiais. E, principalmente, na
ausência de controle efetivo por parte do Estado brasileiro sobre o que, de
fato, ocorre dentro de suas próprias embaixadas e consulados estrangeiros.
A nova fronteira, a
ciber inteligência e o interior paulista
A inteligência no século
XXI não se limita mais às operações tradicionais, às ruas ou fronteiras
físicas. A guerra se deslocou para o ambiente digital, um território invisível,
mas decisivo para a segurança de qualquer país.
No interior paulista, polos tecnológicos como São José dos Campos e Campinas tornaram-se
centros estratégicos de inovação, atraindo empresas israelenses de tecnologia e
cibersegurança com contratos firmados junto a órgãos públicos e empresas
privadas brasileiras. Esse dado, confirmado por registros oficiais e relatórios
do setor, revela uma aproximação que vai além do simples comércio: trata-se do
acesso privilegiado a dados sensíveis, redes de comunicação e infraestrutura
crítica do país.
É preciso destacar que,
apesar de não existirem evidências públicas que comprovem operações diretas de
espionagem via essas empresas, sabemos, pelo padrão global de atuação dos
serviços de inteligência, que esse tipo de vínculo costuma ser explorado para
coleta e vigilância de informações estratégicas. Portanto, o Brasil se encontra
exposto a uma vulnerabilidade silenciosa, onde o legal e o estratégico se confundem,
tornando um terreno fértil para operações que dificilmente serão reconhecidas
oficialmente.
O desafio brasileiro:
soberania e vulnerabilidade
O aspecto mais perturbador
dessa realidade não é apenas a presença de serviços de inteligência estrangeiros atuando em solo
brasileiro, mas sim a quase total ausência de controle ou reação por parte do
Estado. O Mossad, agência de inteligência de Israel opera dentro do Brasil com
uma liberdade que beira a autonomia, muitas vezes sem qualquer tipo de
coordenação ou sequer conhecimento por parte das autoridades nacionais.
Em
2023, foi à inteligência israelense, e não os nossos próprios órgãos, quem
alertou o governo brasileiro sobre a presença de células simpatizantes do
Hezbollah no país. O alerta, feito de fora para dentro, expôs uma ferida
profunda: a fragilidade estrutural da nossa contrainteligência.
Essa
vulnerabilidade é resultado de uma combinação perigosa. O Brasil possui
fronteiras continentais de difícil fiscalização, uma legislação permissiva no
tocante à atuação de agentes estrangeiros, e talvez o mais grave, uma cultura
política e institucional que subestima a importância da guerra invisível travada
no campo da inteligência.
Diferente
de países que exigem coordenação, protocolos ou acordos diplomáticos, o Mossad
não pede licença. Ele age conforme seus interesses estratégicos e operacionais.
Seja na região da Tríplice Fronteira conhecida por ser um polo de contrabando,
lavagem de dinheiro e possível abrigo para extremistas, seja nas ruas de
grandes centros urbanos como São Paulo, nas instalações de embaixadas, ou mesmo
em polos tecnológicos do interior paulista, como São José dos Campos e
Campinas, agentes israelenses já estiveram e possivelmente continuam atuando no
país.
Relatórios
sigilosos, entrevistas com ex-agentes e investigações da imprensa internacional
indicam que essas operações variam de monitoramento de suspeitos a infiltração
em redes consideradas hostis aos interesses de Israel. A prioridade:
neutralizar ameaças antes que se materializem, mesmo que isso ocorra em
território estrangeiro, e mesmo sem aviso prévio às autoridades locais.
É
uma realidade incômoda, mas urgente: o Brasil não está à margem das disputas do
mundo. A guerra silenciosa da inteligência já acontece em solo nacional, e o
mais alarmante é que grande parte da sociedade e da própria estrutura estatal
sequer percebe.
é
importante frisar: essa situação não é
uma exclusividade do Mossad. Historicamente, o Brasil sempre foi um país
vulnerável à atuação de serviços de inteligência estrangeiros. Durante a Guerra
Fria, agentes da KGB e da CIA disputavam influência nos bastidores do poder e
em setores estratégicos. Nos anos 2000, operações de vigilância digital
reveladas por Edward Snowden mostraram que a NSA americana monitorava inclusive
comunicações da Presidência da República. Mais recentemente, há indícios de
atuação de agências como a FSB russa, a DGSE francesa e a própria CIA,
especialmente em temas sensíveis como energia, mineração e cibersegurança.
 |
| O ex-analista Edward Snowden, em foto de junho.The Guardian (AFP) |
Escalada dos Ataques em 2025
— Operações Leão Ascendente e Retaliações
Em junho de 2025, Israel
iniciou a Operação Leão Ascendente, uma ofensiva aérea em larga escala contra
alvos estratégicos iranianos. Com mais de 200 aeronaves envolvidas, Israel
atacou cerca de 100 pontos, incluindo instalações nucleares, bases militares e
centros de comando nas cidades de Teerã, Isfahan e Natanz.
O Mossad teve papel
crucial no sucesso da operação, sabotando sistemas de defesa aérea iranianos e
garantindo superioridade aérea por meio de inteligência precisa e vigilância
avançada, incluindo o uso de drones e agentes infiltrados, além de terem utilizado drones suicidas lançados de dentro do território iraniano para neutralizar sistemas de defesa e plataformas de mísseis antes de uma ofensiva aérea da Força Aérea de Israel. A operação demonstrou uma integração inédita entre inteligência clandestina, sabotagem tecnológica e poder aéreo.
Em retaliação, o Irã
lançou aproximadamente 280 mísseis balísticos contra o território israelense,
provocando danos limitados graças ao sistema de defesa "Domo de
Ferro". A escalada gerou tensões regionais e internacionais, com discursos
agressivos do então presidente dos EUA, além de apelos globais por contenção e
diálogo.
Esses ataques causaram
mais de 220 mortes no Irã, principalmente civis, além de danos a
infraestruturas essenciais, o que levantou debates sobre o respeito ao direito
internacional humanitário. O risco de escalada regional permanece,
especialmente pela possibilidade de envolvimento de aliados do Irã como o
Hezbollah.
As operações do Mossad
demonstram um equilíbrio delicado entre a necessidade de defesa e o respeito
aos princípios históricos e humanitários. Combinando inteligência técnica,
coragem operacional e estratégias inovadoras, o Mossad permanece como um dos principais
agentes globais na proteção do Estado de Israel e na manutenção do equilíbrio
geopolítico do Oriente Médio.
Sua história é marcada
tanto por missões que salvaram vidas quanto por ações que marcaram o curso da
justiça internacional, e suas campanhas continuam a influenciar decisivamente
os rumos da segurança global, especialmente diante das ameaças atuais e
dinâmicas de 2025.
Entre as baixas registradas nos ataques israelenses, estavam cientistas nucleares e figuras de alto escalão do programa atômico iraniano, além de generais da Guarda Revolucionária. De acordo com fontes internacionais, pelo menos 11 cientistas foram mortos.
Perdas Estratégicas: Cientistas e Oficiais chave no Programa Nuclear Iraniano
Seyed Amirhossein Faghihi - Engenheiro nuclear e ex vice-diretor da Organização de Energia Atômica do Irã.
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| Seyed Amirhossein Faghihi era o vice da Organização de Energia Atômica
do Irã e membro do corpo docente da Universidade Shahid Beheshti. Redes
Sociais / Agência de Notícias da WANA |
Saeed Borji - Físico e especialista em engenharia nuclear ligado a pesquisas de centrífugas.
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| Saeed Izadi, um dos fundadores do plano do regime iraniano de destruir Israel, foi eliminado em um ataque preciso das IDF na área de Qom. Fonte: Israel Defense Force (X). |
Ahmadreza Zolfaghari Daryani - Professor de física nuclear e ex-diretor da Faculdade de Ciências da Universidade Shahid Beheshti.
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| Ahmadreza Zolfaghari Daryani. Fonte: Desconhecida. |
Mohammad Mehdi Tehranchi - Físico teórico e ex-presidente da Universidade Islâmica Azad.
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| Mohammad Mehdi Tehranchi (em inglês). Imagem: Tasnim News Agency/Wiki Common. |
O impacto dessas mortes foi tão significativo que, no dia 28 de junho, o governo iraniano realizou funerais coletivos em Teerã para ao menos 60 mortos ilustres, entre eles também generais de brigada e cientistas ligados diretamente à infraestrutura estratégica do regime. A cerimônia, que mobilizou centenas de milhares de pessoas nas ruas da capital, foi marcada por apelos à vingança e reforçou a narrativa oficial de resistência frente à ofensiva israelense.
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| Eliminações de Oficiais e Cientistas Seniores no Irã (13 a 24 de junho de 2025). Research and Education Center |
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| Fumaça sobe após um ataque israelense em Teerã, Irã, 16 de junho
de 2025. Majid Asgaripour/WANA (Agência de Notícias da Ásia Ocidental)
via REUTERS/Foto de arquivo |
Operation Midnight Hammer (Martelo da Meia Noite):
Retaliação Cirúrgica e a Coordenação com Israel
Na madrugada de 22 de junho de 2025, os Estados Unidos
lançaram a Operation Midnight Hammer (Martelo da meia noite),
uma das mais devastadoras ações militares contra o programa nuclear iraniano
desde 2018. A ofensiva envolveu o uso de bombardeiros furtivos B‑2 Spirit, armados com bombas penetradoras GBU‑57 “bunker‑buster”, além de mísseis Tomahawk disparados por
submarinos e destróieres no Golfo Pérsico.
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| Um gráfico do Pentágono detalhando a Operação Midnight Hammer,
apresentado em uma conferência de imprensa em 22 de junho de 2025. (DoD) |
Os principais alvos: as
instalações nucleares subterrâneas de Natanz,
Fordow e Isfahan, além de centros de comando e depósitos logísticos do
Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana. O Departamento de Defesa dos EUA
classificou a operação como um sucesso tático, resultando na destruição de
áreas sensíveis da infraestrutura nuclear iraniana.
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| Infográfico detalhando todos os ativos militares dos EUA implantados
durante a Operação Midnight Hammer, incluindo bombardeiros furtivos B-2,
bombas de ônibus de bunker GBU-57, mísseis de cruzeiro Tomahawk, caças
F-35 e F/A-18, caças EA-18G Growlers, KC-46 e KC-135 plataformas de
submarinos da classe Ohio usadas no ataque de precisão contra a
infraestrutura nuclear do Irã. (Fonte da imagem: X conta Ian Ellis) |
Embora a execução da
missão tenha sido conduzida por forças norte-americanas, Israel desempenhou um papel de bastidor
determinante. Informações apuradas por veículos como Reuters e Politico
confirmam que o Mossad e as Forças de Defesa de Israel haviam
realizado, nos dias anteriores, operações de neutralização de radares, bloqueio
de sistemas antiaéreos e coleta
de inteligência em solo iraniano. Essas ações criaram uma abertura
estratégica para o avanço norte-americano.
/https://thumbor.globoi.com/unsafe/fit-in/1280x720/s03.video.glbimg.com/deo/vi/78/79/13677978) |
| Serviço secreto de Israel faz ataque infiltrado de drones no Irã antes
de bombardeio contra instalações nucleares em 13 de junho de 2025. A
operação secreta não teve data divulgada. — Foto: Mossad via Reuters |
A aliança entre Washington
e Jerusalém, longe de ser apenas retórica, se traduziu em ação coordenada. Em
sua rede Truth Social, o ex-presidente Donald
Trump fez declarações claras sobre o papel israelense: “Quero
agradecer e parabenizar o primeiro-ministro Bibi Netanyahu. Trabalhamos como
uma equipe como talvez nenhuma outra jamais trabalhou antes. As bombas foram
lançadas com grande habilidade, e somos gratos pela incrível coordenação com
nossos amigos israelenses.”
 |
| Aplicativo Truth Social com uma foto de Donald Trump.CHRIS DELMAS (AFP) |
Logo após, o
primeiro-ministro israelense Benjamin
Netanyahu respondeu em vídeo oficial, transmitido pela televisão
israelense e compartilhado por veículos internacionais: “Primeiro vem à
força, depois vem a paz. Hoje, o presidente Trump e os Estados Unidos agiram com
muita força. O povo de Israel, e as forças da civilização, agradecem. Este foi
um ataque audacioso, justo e histórico.”
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| Netanyahu agradeceu a Trump e disse que os Estados Unidos “agiram com muita força” ao atacar as instalações nucleares do Irã. (Foto: EFE/EPA/Ronen Zvulun /Pool) |
Essas declarações não
apenas endossam a parceria, mas revelam o grau de integração operacional e diplomática entre os dois países. A
Operation Midnight Hammer se insere num tabuleiro geopolítico onde a guerra
deixa de ser apenas convencional para se tornar híbrida, envolvendo sabotagem, inteligência, ciberataques e
operações aéreas coordenadas.
O Irã, por sua vez,
prometeu retaliação. Especialistas do Conselho de Segurança da ONU alertaram
para o risco de escalada regional,
especialmente com a possibilidade de ativação de milícias alinhadas ao regime
iraniano, como o Hezbollah no
Líbano e o Hashd al-Shaabi no
Iraque.
 |
Um bombardeiro B-2 visto soltando um MOP GBU-5 / B durante um teste. USAF |
Estratégias
e Tecnologias Inovadoras
O
Mossad, serviço de inteligência israelense, tem como marca registrada o
investimento contínuo em tecnologias de ponta para garantir a eficácia e
discrição de suas operações. Conhecido por aliar inovação tecnológica a
estratégias operacionais altamente sofisticadas, o órgão se destaca pela
capacidade de adaptação frente a novos desafios do cenário global de segurança
e espionagem.
Entre
os recursos mais emblemáticos utilizados pelo Mossad, destacam-se os drones de vigilância de alto desempenho,
capazes de operar silenciosamente em áreas urbanas e remotas, fornecendo
imagens em tempo real com alta resolução, ferramenta crucial para operações de
reconhecimento, eliminação de alvos ou apoio logístico.
Outro
aspecto vital é a criptografia avançada
empregada nos sistemas de comunicação interna da agência. A troca de
informações entre agentes e centros de comando é realizada por canais
hermeticamente seguros, muitas vezes utilizando protocolos personalizados,
imunes aos métodos tradicionais de interceptação. O objetivo não é apenas
impedir vazamentos, mas também garantir que mesmo agentes operando em países
hostis possam comunicar-se sem comprometer sua localização.
O
Mossad também é conhecido por utilizar dispositivos
de escuta e espionagem altamente miniaturizados, alguns deles embutidos
em objetos cotidianos, como relógios, canetas ou até em componentes de
infraestrutura predial, técnicas que foram detalhadas por ex-agentes em obras
como Gideon’s Spies (Thomas Gordon) e The Secret History of the
Mossad (Yvgeny Primakov).
Entre as obras mais
instigantes sobre os bastidores do serviço secreto israelense, destacam-se Gideon’s
Spies, de Gordon Thomas, e The Secret History of the Mossad,
atribuída a Yvgeny Primakov. O primeiro, escrito por um jornalista
investigativo com acesso a ex-agentes e fontes confidenciais, revela em
detalhes operações clandestinas do Mossad, como assassinatos seletivos,
sabotagens cibernéticas, espionagem diplomática e manipulações políticas em
diversos continentes. A segunda supostamente seria uma obra atribuída a Yvgeny Primakov, ex-diretor da inteligência russa, que supostamente ofereceria uma visão crítica geopolítica das ações do Mossad no Oriente Médio, embora sua existência e autoria sejam controversas e pouco documentadas. Embora com
abordagens diferentes, uma mais narrativa e ocidental, a outra analítica e
estratégica, ambas contribuem para compreender a amplitude, a complexidade e a
controvérsia que envolve uma das agências de inteligência mais eficientes e
temidas do mundo contemporâneo.
 |
| Livro Gideon Spies. Fonte: Amazon. |
Adicionalmente,
merece destaque o uso de disfarces
ultrarrealistas, incluindo máscaras de silicone e próteses faciais que
permitem a mudança completa da fisionomia dos agentes em campo. Esses recursos,
segundo relatos de ex operativos, foram fundamentais em operações clandestinas
de sequestro e exfiltração, como no caso da captura do criminoso nazista Adolf
Eichmann em Buenos Aires, em 1960.
A
agência ainda mantém parcerias com o setor privado israelense de tecnologia,
notadamente com empresas da chamada Startup Nation, o que alimenta um
ciclo de inovação constante em áreas como reconhecimento facial, monitoramento
de dados em redes sociais, e inteligência
artificial aplicada à análise de padrões comportamentais e predição de ameaças.
Essas
estratégias e tecnologias conferem ao Mossad uma vantagem operacional
significativa, especialmente em missões executadas além das fronteiras
israelenses, nas quais o risco de detecção pode comprometer não apenas a
missão, mas também a política externa do país.
Mossad: O Braço Invisível que Redesenha a Geopolítica do Oriente Médio
O
Mossad não é apenas uma agência de inteligência, é a lâmina silenciosa da política
externa israelense. Muito além da coleta de informações, sua atuação molda
decisões diplomáticas, redesenha equilíbrios estratégicos e impõe limites
letais a quem ousa desafiar os interesses de Tel Aviv. Com operações que
combinam precisão cirúrgica e ambiguidade operacional, o Mossad se consolidou
como um dos instrumentos mais eficazes da projeção de poder israelense, especialmente
no tabuleiro volátil do Oriente Médio.
Desde
sua criação em 1949, a agência tem sido protagonista em ações de neutralização
de ameaças transnacionais. Mais do que responder a ataques, o Mossad antecipa
movimentos, interrompe atentados antes que se concretizem e desmantela
estruturas inimigas de dentro para fora. Operações desse tipo já impactaram
diretamente organizações como Hamas, Hezbollah, Jihad Islâmica Palestina e até
células afiliadas à Al-Qaeda. A doutrina é simples, porém contundente: nenhuma
ameaça passa impune, esteja ela em Gaza, Beirute, Damasco ou Teerã.
A
eliminação seletiva de lideranças insurgentes é uma das marcas registradas da
agência. Esses ataques não são meramente táticos; são estratégicos e
simbólicos.
Um
dos exemplos mais emblemáticos da eficácia operacional do Mossad, com apoio da
CIA, foi a eliminação de Imad Mughniyeh, o cérebro militar do Hezbollah,
em fevereiro de 2008, em pleno território sírio. Considerado o arquiteto de
ataques como o bombardeio à embaixada dos EUA em Beirute (1983) e a explosão da
AMIA em Buenos Aires (1994), Mughniyeh era um dos homens mais procurados do
planeta. Após meses de vigilância clandestina no bairro de Kfar Sousa, em
Damasco, uma operação cirúrgica foi executada: uma bomba instalada dentro do
encosto de cabeça do banco do carro explodiu no momento exato em que o alvo se
aproximava, matando-o instantaneamente, sem causar danos colaterais ou ferir
civis.
Nascido em 1962, no vilarejo de Tayr Dibba, ao sul do Líbano, Imad Fayez Mughniyeh, também conhecido como Hajj Radwan, trilhou sua formação militar nas fileiras da Force 17, uma unidade de elite ligada à Organização para a Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat.
 |
| Yasser Arafat, líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Fonte: Britannica. |
Ainda adolescente, atuou como atirador de elite durante a guerra civil libanesa. Sua trajetória, porém, seguiu um caminho ainda mais radical após a expulsão da OLP do Líbano em 1982, quando se aproximou dos Guardiões da Revolução do Irã, consolidando-se como peça-chave na fundação e estruturação do Hezbollah.
Com um domínio notável das técnicas de guerra irregular e contrainteligência, Mughniyeh foi responsável por redefinir a atuação do Hezbollah além das fronteiras do Líbano, criando redes de apoio logístico e operacional em regiões como América Latina, Europa e África. Os atentados atribuídos à sua coordenação revelam o alcance e a sofisticação de sua estratégia: o bombardeio à embaixada dos EUA em Beirute (1983), que matou 63 pessoas; os ataques coordenados aos quartéis dos fuzileiros navais norte-americanos e das forças francesas naquele mesmo ano, com mais de 300 mortos; o sequestro do voo 847 da TWA em 1985; e a explosão do edifício da AMIA em Buenos Aires (1994), com 85 mortos e mais de 300 feridos.
Mughniyeh não era apenas um operacional. Era um estrategista, e, para o Hezbollah, uma lenda viva. Sua obsessão com o anonimato tornou-se parte do mito: nenhuma foto atualizada, nenhum rastro digital, nenhuma presença pública. Ainda assim, seu nome pairava sobre praticamente toda grande operação terrorista com assinatura iraniana nas décadas de 1980 e 1990. Para Israel, os Estados Unidos e várias agências europeias, ele era mais que um inimigo, era uma ameaça estratégica de longo alcance.
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| Atentados terroristas no Líbano em 1983 | Acervo Globo. |
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Caixão de Mughniyeh é carregado por militantes do Hezbollah em Beirute Foto: Bilal Hussein / AP
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A
sofisticação do ataque, acionado remotamente, com precisão milimétrica, não só
demonstrou a capacidade técnica e tática do Mossad, como também enviou uma
mensagem clara ao Hezbollah, ao Irã e à própria Síria: nenhuma liderança hostil
está fora do alcance israelense. Nos bastidores da diplomacia internacional, a
operação provocou alvoroço: fontes reveladas anos depois indicaram que a ação
contou com o aval direto do presidente George W. Bush, marcando uma das raras
colaborações letais entre o Mossad e a CIA.
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| O presidente israelense Shimon Peres, o presidente dos EUA, George W. Bush, e o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, inspecionam a guarda de honra durante uma cerimônia de boas-vindas a Bush em Tel Aviv. (Mandel Ngan : AFP) |
O impacto foi imediato: o Hezbollah
mergulhou em reestruturações internas, suspendeu operações externas e adotou
posturas defensivas diante do trauma gerado pela perda de sua figura mais estratégica.
Em termos geopolíticos, foi mais que um assassinato, foi uma dissuasão
exemplar, fria, calculada e letal.
O impacto foi devastador: além de desarticular parte da
cadeia de comando da milícia, a ação sinalizou que nenhuma figura, por mais
protegida que estivesse, estaria a salvo da mira israelense.
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| Mughniyeh era um dos homens mais procurados do mundo. Fonte: AP. |
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| Imad Mughniyeh Commander of Qods Force Operations Overseas. Fonte: Amazon. |
O
Mossad também tem atuado como fonte vital de inteligência para aliados
ocidentais, especialmente os Estados Unidos. Em 2018, a agência executou uma
das mais audaciosas operações de espionagem da história recente: invadiu um
armazém em Teerã e extraiu mais de 50 mil documentos e arquivos digitais
secretos do programa nuclear iraniano.
“Hoje, estou revelando pela primeira vez que o Irã tem outra instalação secreta em Teerã, um armazém atômico secreto para estocar quantidades enormes de equipamento e material do programa de armas secreto do Irã. Desde que vasculhamos o arquivo atômico, eles estão ocupados em limpar o armazém atômico. Ainda no mês passado eles removeram 15 quilos de material radioativo. Vocês sabem o que fizeram com isso? Levaram e espalharam por Teerã na tentativa de esconder as provas.” — Benjamin Netanyahu, Assembleia Geral da ONU, 27 set. 2018
Esse discurso foi parte de uma estratégia coordenada por Tel Aviv para pressionar os EUA a se retirarem do Acordo Nuclear com o Irã (JCPOA). A fala de Netanyahu na ONU foi precedida pela operação do Mossad em janeiro de 2018, quando agentes israelenses invadiram um armazém em Teerã e roubaram cerca de 55 mil páginas de documentos e 183 CDs com provas de atividades nucleares clandestinas.
Esse material foi analisado por serviços de inteligência ocidentais e apresentado ao então presidente Donald Trump, que meses depois abandonaria oficialmente o acordo nuclear, alegando má-fé iraniana.
O material não apenas expôs a
duplicidade do regime dos aiatolás, como também ofereceu ao governo de Donald
Trump uma justificativa técnica e política para se retirar do Acordo Nuclear
(JCPOA). A ação redefiniu a percepção internacional sobre o Irã e reafirmou
Israel como fonte confiável de inteligência estratégica.
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| Benjamin Netanyahu mostra o que seria a instalação secreta nuclear do Irã — Foto: Carlo Allegri/Reuters |
Mas
a influência do Mossad não se limita ao campo da guerra silenciosa. A agência
desempenhou um papel crucial nos bastidores diplomáticos que antecederam os
Acordos de Abraão, assinados em 2020. Muito antes da formalização desses
pactos, o Mossad já conduzia negociações discretas com os Emirados Árabes
Unidos, Bahrein e até mesmo a Arábia Saudita. Esses canais paralelos permitiram
trocas de informações sobre segurança cibernética, grupos jihadistas e ameaças
regionais comuns, aproximando antigos rivais em torno de interesses
geoestratégicos convergentes.
 |
| Assinatura histórica dos Acordos de Abraão na Casa Branca (15/09/2020). Na imagem: o presidente Donald Trump, o chanceler do Bahrein Abdullatif Al-Zayani, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ministro dos Emirados Árabes Abdullah bin Zayed. Um marco na reconfiguração diplomática do Oriente Médio. Foto oficial da Casa Branca | Joyce N. Boghosian |
Essa
capacidade de atuar tanto na sombra quanto na diplomacia informal redefine o
conceito de soberania defensiva. Ao invés de adotar uma postura reativa, o
Mossad projeta poder ofensivo além das fronteiras, desestabilizando ameaças
ainda em fase embrionária. O efeito cascata é inevitável: milícias e Estados
hostis são forçados a recalibrar suas estratégias, descentralizar comandos,
ocultar lideranças e investir pesadamente em contrainteligência, muitas vezes,
sem sucesso.
Mais
do que combater o terrorismo, o Mossad molda o ecossistema em que esse combate
ocorre. Suas ações alteram cálculos estratégicos, impõem barreiras psicológicas
e operacionais aos adversários e fortalecem a dissuasão israelense. Trata-se de
um modelo de poder que não depende da ostentação militar visível, mas da
letalidade silenciosa de ações negáveis, precisas e cirurgicamente calculadas.
No
fim das contas, o impacto do Mossad na geopolítica não se mede apenas pelo
número de operações executadas, mas pela transformação profunda que provoca na
forma como o inimigo pensa, age e sobrevive. Onde há silêncio, há medo. Onde há
medo, há dissuasão. E onde há dissuasão, há controle, o que, para Israel, pode
valer mais que qualquer tratado ou aliança.
Controvérsias
e Desafios Éticos
Apesar de sua eficiência
operacional e reconhecimento como uma das agências de inteligência mais
competentes do mundo, o Mossad é frequentemente alvo de críticas relacionadas à
legalidade e à ética de suas ações. A doutrina de eliminação seletiva, embora
eficaz do ponto de vista estratégico, levanta sérias questões morais e
diplomáticas, principalmente quando envolve assassinatos extrajudiciais em
território estrangeiro.
Um dos casos mais
emblemáticos foi a operação conduzida em Dubai, no dia 19 de janeiro de 2010, que resultou na eliminação de Mahmoud al-Mabhouh, alto comandante militar do Hamas e figura central na logística de aquisição de armamentos entre o Irã e a Faixa de Gaza. Embora Israel jamais tenha confirmado formalmente a autoria, todas as evidências coletadas pelas autoridades locais apontaram diretamente para o Mossad. Mabhouh foi localizado em um hotel de luxo no bairro de Al-Garhoud, após desembarcar com um passaporte sírio falso. A operação envolveu ao menos 26 agentes, divididos em células de vigilância, execução e apoio logístico, todos utilizando passaportes europeus falsificados, em sua maioria de cidadãos reais com dupla nacionalidade israelense.
 |
| Israel assassinou Mahmoud al-Mabhouh, um comandante militar sênior do Hamas, em Dubai, em 20 de janeiro, de acordo com o Hamas.Ho / Reuters (em inglês) |
A execução foi meticulosa: os agentes entraram no quarto de Mabhouh durante sua ausência, manipularam a fechadura eletrônica e o aguardaram. Assim que ele retornou, foi imobilizado com um dispositivo de eletrochoque e posteriormente sufocado, de forma silenciosa e precisa, para simular uma morte por causas naturais. Em termos operacionais, a missão foi bem-sucedida. No entanto, a exposição sem precedentes das identidades operacionais causou um abalo internacional.
Imagens de câmeras de segurança do hotel captaram todos os movimentos da equipe, desde o aeroporto até o corredor do quarto. As autoridades de Dubai divulgaram os vídeos e cruzaram os dados com embaixadas europeias, revelando que os passaportes utilizados pertenciam a cidadãos britânicos, australianos, franceses, alemães e irlandeses, cujas identidades foram falsificadas.
 |
| Câmeras que capturaram os movimentos da equipe do Mossad em Dubai. Fonte: New York Times. |
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Revelações em Dubai sobre um assassinato bem planejado de um homem do Hamas. Fonte: The Economist. |
A repercussão diplomática foi imediata: embaixadores israelenses foram convocados em diversas capitais, e países como Reino Unido e Austrália classificaram a ação como uma violação inaceitável de soberania, expulsando diplomatas israelenses. O caso reacendeu o debate ético sobre o uso de identidades de terceiros inocentes em operações clandestinas, além de colocar em xeque a linha tênue entre o sucesso operacional e o desgaste estratégico. Para o Mossad, a missão cumpriu seu objetivo tático, mas expôs uma vulnerabilidade crítica em sua doutrina de invisibilidade. Para os aliados europeus, o episódio foi um lembrete incômodo de que, na guerra secreta, as fronteiras legais e morais são frequentemente ultrapassadas, e que até mesmo os parceiros mais próximos podem se tornar instrumentos sem consentimento. Essa operação permanece como um dos casos mais simbólicos das tensões entre eficiência letal e legitimidade internacional no uso da força clandestina.
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Fotos de passaporte mostrando 11 suspeitos procurados pelo assassinato do oficial do Hamas Mahmoud Al-Mabhouh. CNN em 23 de Fevereiro de 2010. |
Pelo menos sete israelenses nascidos no exterior, acusados como suspeitos do assassinato de Mahmoud al-Mabhouh, alto comandante do Hamas em Dubai, afirmaram publicamente que suas identidades foram roubadas e usadas sem consentimento. Esse episódio expõe uma das táticas mais controversas do Mossad: a apropriação clandestina de identidades de terceiros, que, além de violar a soberania internacional, levanta graves questões éticas sobre os limites da espionagem moderna. Embora essa prática tenha causado forte repercussão contra o Mossad, é importante destacar que a apropriação clandestina de identidades de terceiros não é exclusividade de Israel ou de qualquer serviço específico. Trata-se, na verdade, de uma tática inseparável do universo da espionagem e das operações clandestinas, onde a linha entre eficácia operacional e questões éticas se mostra sempre tênue.
Além disso, o programa de assassinatos seletivos de cientistas
iranianos ligados ao programa nuclear da República Islâmica, entre 2010
e 2012, também é apontado como obra do Mossad, embora nunca confirmado
oficialmente. Nomes como Mostafa Ahmadi
Roshan, Majid Shahriari e
Masoud Alimohammadi foram
eliminados em ações cirúrgicas com uso de motocicletas bomba e equipes
clandestinas. Tais operações são vistas por críticos como execuções ilegais,
que violam princípios do direito internacional, ainda que Israel as justifique
como medidas de autodefesa preventiva.
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| Mostafa Ahmadi Roshan, o cientista iraniano que foi morto em 11 de janeiro no norte de Teerã em um ataque a bomba. Fonte: Fars. |
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| Shahriari foi um cientista nuclear que cooperou com a Organização de Energia Atômica do Irã. Fonte: Public Domain. |
A atuação do Mossad também
entra em tensão com valores democráticos quando envolve sequestros, detenções extraterritoriais e vigilância sem mandado judicial,
mesmo em países aliados. O caso de Mordechai
Vanunu, ex-técnico da usina nuclear de Dimona, que revelou detalhes do
programa nuclear israelense à imprensa britânica, é outro exemplo: ele foi
atraído para Roma por uma agente do Mossad em 1986, sequestrado, sedado e
transportado clandestinamente para Israel, onde foi julgado à portas fechadas
por traição e passou 18 anos preso, incluindo 11 em regime de isolamento.
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| Mordechai Vanunu, visto aqui na prisão, trabalhou como técnico em uma instalação nuclear no deserto israelense. Fonte: AFP. |
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| Vanunu passou 18 anos na prisão por traição e espionagem. Fonte: Reuters. |
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O reator
nuclear perto de Dimona, no deserto de Negev. Fonte: Getty Imagem.
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Lillehammer: Quando o Mossad errou o alvo e expôs ao mundo o custo humano da guerra invisível.
Nem mesmo a mais temida agência de inteligência está imune ao erro. Em 21 de julho de 1973, a reputação quase mítica do Mossad sofreu um dos seus mais constrangedores abalos. Em Lillehammer, na Noruega, agentes israelenses executaram uma operação que, à primeira vista, parecia mais uma das tantas ações cirúrgicas da unidade Kidon, especializada em assassinatos seletivos. O alvo seria Ali Hassan Salameh, um dos principais mentores do massacre de atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972. Mas o que deveria ser um acerto de contas estratégico rapidamente se transformou em um desastre diplomático e ético.
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| Reconstrução do assassinato de Ahmed Bouchiki em Lillehammer em 1973. Fonte: Alamy. |
A vítima não era Salameh. Era Ahmed Bouchiki, um garçom marroquino que vivia na cidade norueguesa. Sem qualquer ligação com o terrorismo, com o conflito israel-palestino ou com qualquer célula militante. Um civil. Um inocente. Morto com tiros pelas costas na frente da esposa grávida, confundido por erro de identificação e por informações de inteligência mal verificadas. A operação, autorizada diretamente por Golda Meir, primeira-ministra de Israel na época, não só foi um erro técnico, mas expôs o lado obscuro da guerra invisível: o preço do engano em operações de eliminação extrajudicial.
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| Ahmed Bouchiki, de 30 anos, foi assassinado por funcionários da inteligência israelense. FOTO: NTB SCANPIX (em inglês). |
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| Ali Hassan Salameh - um dos líderes da organização terrorista Setembro Negro. Fonte: NZ Herald. |
A falha foi exposta rapidamente. Vários agentes foram presos pela polícia norueguesa, julgados e condenados. Israel, pressionado, tentou controlar os danos, mas o incidente abalou profundamente a credibilidade do Mossad, não apenas por ter errado o alvo, mas por ter demonstrado que até mesmo a máquina de matar mais precisa do Ocidente é vulnerável à arrogância operacional, ao excesso de confiança e à falta de supervisão ética.
Esse episódio permanece como um dos momentos mais embaraçosos da história do serviço secreto israelense. Um lembrete brutal de que a lógica do “matar para proteger” pode se virar contra o executor, quando a linha entre justiça e vingança se torna borrada. O erro de Lillehammer não foi apenas uma falha de inteligência, foi uma violação moral que ecoa até hoje no debate sobre os limites da guerra encoberta.
Esses exemplos expõem o
delicado equilíbrio entre segurança
nacional e direitos humanos, entre eficácia operacional e responsabilidade ética. Para seus
defensores, o Mossad age em um mundo onde as ameaças são assimétricas, difusas
e muitas vezes protegidas por sistemas jurídicos inoperantes ou cúmplices, portanto,
exige-se da agência medidas extraordinárias. Para seus críticos, essas ações
representam uma erosão das normas do direito internacional e da soberania dos
Estados.
A tensão entre necessidade
e moralidade é uma constante. O Mossad, ao atuar nas sombras, transita em uma
zona cinzenta do sistema internacional, onde eficácia e legitimidade nem sempre
caminham juntas. O desafio ético está justamente em definir os limites de uma
guerra que raramente é declarada, mas cujos efeitos moldam a geopolítica
global.
Conclusão
O Mossad permanece como
uma das organizações de inteligência mais influentes, enigmáticas e
controversas da era contemporânea. Sua atuação ultrapassa os limites
tradicionais da espionagem e se insere diretamente nos domínios da guerra
assimétrica, da diplomacia paralela e da projeção de poder nacional através de
meios não convencionais.
Ao longo das décadas, a
agência não apenas respondeu a ameaças, mas anteciparam cenários, moldou
realidades geopolíticas e reconfigurou o próprio conceito de segurança nacional
em um Estado permanentemente cercado por hostilidades. Combinando inovação
tecnológica, ações cirúrgicas de alta letalidade e uma doutrina operacional sem
hesitação moral evidente, o Mossad se consolidou como uma ferramenta de
dissuasão silenciosa, porém profundamente eficaz.
Entretanto, seu sucesso
operacional impõe dilemas permanentes: até que ponto a eficácia justifica a
violação do direito internacional? Qual o custo diplomático e ético de atuar em
países soberanos sem consentimento? Como manter a legitimidade de um Estado democrático
quando seus instrumentos de inteligência operam em zonas cinzentas, onde a
moral é frequentemente subordinada à necessidade?
O futuro do Mossad será
testado em um ambiente operacional cada vez mais exposto à vigilância digital,
onde dados são armas, redes sociais funcionam como campos de batalha
informacional, e onde a interdependência global torna as operações clandestinas
mais suscetíveis à revelação e condenação pública. A era da inteligência
artificial, da guerra cibernética e da transparência forçada impõe à agência um
novo paradigma: manter-se eficaz, sem perder a capacidade de se esconder.
Mesmo diante desse novo cenário, o Mossad segue se reposicionando. Amplia sua presença no ciberespaço, investe em startups de vigilância algorítmica, recruta especialistas em criptografia e inteligência artificial, e fortalece parcerias informais com setores privados de tecnologia. Em paralelo, adapta sua doutrina para atuar contra ameaças híbridas, como campanhas de desinformação, ataques a infraestruturas críticas e operações de influência estrangeira.
Mais do que uma agência de espionagem, o Mossad torna-se, gradualmente, uma plataforma invisível de inteligência estratégica e tecnológica, projetando poder num ambiente onde os inimigos raramente usam uniforme e onde as guerras raramente são declaradas.
Mas se há algo que a
história do Mossad nos ensina, é que a sua principal força está na capacidade
de adaptação. Em um mundo em constante mutação, a agência provavelmente
continuará inovando, redefinindo suas estratégias e atuando, muitas vezes sem
reconhecimento oficial, na linha de frente da defesa dos interesses do Estado
de Israel.
Escrito e produzido por Gabriel Chagas
Autor do blog Mundo em Conflito, com análises profundas sobre Geopolítica, Espionagem e Relações Internacionais.
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