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| Real Madrid e o patrocínio bilionário da Fly Emirates, a companhia aérea estatal dos Emirados Árabes Unidos. Reprodução Instagram Real Madrid. |
Craques como embaixadores involuntários: o
peso político da bola dourada
A
contratação de superestrelas do futebol deixou de ser apenas um investimento
esportivo. Hoje, ela representa uma peça estratégica dentro de uma engrenagem
de Soft Power que vem sendo utilizada por regimes autoritários e democracias em
busca de prestígio, legitimação internacional e reconfiguração de imagem.
Jogadores como Cristiano Ronaldo, Neymar, Karim Benzema, Sadio Mané e N’Golo
Kanté, ao aceitarem propostas milionárias de clubes da Saudi Pro League,
automaticamente associam sua reputação, conquistas e alcance midiático a um
projeto geopolítico maior: o da Arábia Saudita se consolidar como potência
cultural global.
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| Neymar assinando contrato com Club Al-Hilal, da Arábia Saudita. Imagem divulgada oficialmente pelo Al Hilal Club Media Officer |
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| Cristiano Ronaldo durante a celebração do dia da fundação da Arábia Saudita Imagem: Divulgação/Al Nassr |
Esse movimento não ocorre
por acaso. Ao contrário: está inserido em uma lógica bem calculada de
“sportswashing”, onde o esporte, e especialmente o futebol, com sua capacidade
de mobilizar emoções e audiências planetárias, é instrumentalizado para maquiar
realidades políticas duras, como restrições de direitos civis, repressão à
dissidência ou desigualdades de gênero. Mas o ponto-chave é que, mesmo sem
declarar apoio explícito ao regime saudita, esses craques tornam-se embaixadores
involuntários. Seus nomes, seus rostos, suas jogadas e suas marcas pessoais
passam a atuar como pontes simbólicas entre o regime e o público internacional.
Essa estratégia não é
exclusividade do Golfo. Quando Lionel Messi optou pelo Inter Miami, nos Estados
Unidos, a sua transferência foi muito além de uma decisão de carreira ou
conforto familiar. Representou, na prática, a tentativa dos EUA de inserção
definitiva no universo simbólico do futebol mundial, um território que
historicamente escapou da hegemonia cultural americana. A presença de Messi
impulsiona a Major League Soccer (MLS), atrai atenção da mídia global, estimula
novos investimentos e ancora o futebol como um ativo estratégico de imagem
nacional.
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| Inter Miami oficializa contratação de Lionel Messi. Fonte: Perfil Oficial Inter Miami. |
O mais impressionante é
que, em muitos casos, esses atletas detêm poder de comunicação e engajamento
maior que líderes políticos. Cristiano Ronaldo, por exemplo, ultrapassam 600
milhões de seguidores no Instagram, mais do que a população da União Europeia.
Isso transforma sua imagem em um instrumento com capacidade diplomática, mesmo
sem pronunciar uma única palavra sobre política. Governos e investidores sabem
disso, e exploram essa influência de maneira sutil, mas eficaz.
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| Cristiano Ronaldo é o primeiro a bater a marca de 600 milhões de seguidores no Instagram — Foto: Reprodução / Instagram |
Portanto, esses craques
transcendem o esporte. Eles se tornam símbolos vivos de agendas nacionais,
veículos de mensagens não ditas e peças-chave em um tabuleiro onde a diplomacia
tradicional é cada vez mais substituída por narrativas emocionais. A bola que
rola nos gramados da Arábia Saudita ou de Miami está longe de ser apenas
entretenimento: ela é política em estado puro.
Brasil: entre o símbolo global e o desafio interno
Se
há um país cuja imagem internacional foi moldada profundamente pelo futebol,
esse país é o Brasil. De Pelé a Marta, passando por Zico, Romário, Ronaldo e
Neymar, o Brasil consolidou uma identidade global ligada ao jogo bonito, à
criatividade, ao improviso e à alegria.
Durante
décadas, essa imagem funcionou como diplomacia informal. O Brasil era
respeitado nos palcos internacionais pela sua excelência técnica e pela leveza
com que tratava o esporte. O futebol operava como um elemento de unidade
simbólica, mesmo diante das profundas desigualdades internas.
Entretanto,
o Soft Power brasileiro entrou em crise durante a Copa do Mundo de 2014. Apesar
do sucesso estrutural do evento, os protestos nas ruas revelaram a fissura
entre a imagem idealizada e a realidade social. A exposição internacional do
Brasil não foi apenas positiva. Foi, em muitos casos, contraproducente, pois
colocou luz sobre problemas internos que contrastavam com a estética vendida ao
mundo.
Soft
Power sem coerência institucional vira ruído, e o caso brasileiro ilustra com
precisão esse paradoxo.
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| Partida entre Brasil e Croácia foi o jogo inaugural do Grupo A e também da Copa do Mundo. Fonte: copa 2014.gov.br - |
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| Torcida do Brasil na Copa do Mundo (Foto: Getty Images) |
China e Arábia Saudita: Futebol como ferramenta de influência estatal
O uso do futebol como
ferramenta estratégica por Estados com regimes autoritários ou projetos de
reposicionamento global revela uma nova dimensão da diplomacia contemporânea.
Nesse cenário, China e Arábia Saudita emergem como exemplos emblemáticos de
como o esporte podem ser instrumentalizados não apenas para fins de
entretenimento ou desenvolvimento social, mas como uma engrenagem essencial da
engenharia de influência estatal.
No caso chinês, o plano é
de longo prazo e institucionalizado. Desde 2015, o governo liderado por Xi
Jinping, entusiasta declarado do futebol, lançou diretrizes para transformar o
país em uma potência global do esporte até 2050. Essa ambição vai muito além do
desempenho em campo: envolve a construção de centros de excelência, o desenvolvimento
de ligas nacionais, a aquisição de clubes europeus, a promoção da modalidade
nas escolas e a profissionalização das categorias de base. A política é
conduzida com precisão tecnocrática e apoio estatal direto, articulando
empresas estatais, redes midiáticas e parcerias internacionais, inclusive com a
FIFA.
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| Presidente Xi
Jinping, Futebol utilizado como soft power” chinês. Foto: Desconhecida. |
A lógica é clara: em um
mundo onde o futebol ainda exerce um imenso capital simbólico, tornar-se
competitivo nesse jogo é uma forma de adquirir legitimidade cultural e
prestígio internacional. Assim como Hollywood moldou a imagem dos Estados
Unidos, a China quer que o futebol seja um vetor de sua narrativa global, uma
narrativa de modernização, competência e sofisticação. O esporte, nesse
contexto, funciona como uma linguagem universal através da qual Pequim busca
suavizar sua imagem autoritária e apresentar-se como uma potência benigna,
moderna e comprometida com valores compartilhados.
Já a Arábia Saudita adota
uma abordagem distinta, porém igualmente estratégica. Sob a liderança de
Mohammed Bin Salman, o reino vem utilizando o futebol como uma alavanca central
do projeto “Vision 2030”, uma ampla iniciativa de diversificação econômica e
transformação nacional. A compra de clubes europeus, a contratação de
superestrelas em fim de carreira, os investimentos bilionários em ligas locais
e a candidatura para sediar a Copa do Mundo de 2034 são partes de um mesmo
movimento: reconfigurar a imagem da monarquia saudita no cenário internacional.
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| Qiddiya: a Arábia Saudita aposta no entretenimento como vetor de poder. A Populous projeta uma arena de eSports e um estádio multiuso no novo mega empreendimento de Riad, parte da estratégia de soft power saudita para diversificar sua imagem global. Fonte: Populous | | |
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| Projeção do Estádio Príncipe Mohammed Bin Salman. Fonte: Qiddiya. |
Por trás dessa política
está a tentativa de criar uma nova identidade nacional e internacional.
Internamente, o futebol serve como ferramenta de coesão social, oferecendo à
juventude saudita um novo tipo de aspiração coletiva, mais alinhada ao consumo
cultural global. Externamente, trata-se de um exercício de “sportswashing”: uma
estratégia de limpeza reputacional, na qual os holofotes do futebol são usados
para suavizar a percepção sobre questões delicadas como repressão política,
direitos humanos e centralização autoritária do poder.
Tanto China quanto Arábia
Saudita demonstram que o futebol não é apenas um jogo, mas uma plataforma de
projeção de poder e reengenharia simbólica. Em contextos onde o Soft Power
tradicional, baseado em valores democráticos, liberdades civis e pluralismo, encontram
limites, o esporte aparece como uma via alternativa, emocional e visual, para
conquistar mentes, corações e, sobretudo, influência.
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| Fonte: Andrey Furmankiewicz |
Megaeventos esportivos: o poder da diplomacia
dos holofotes
Sediar uma Copa do Mundo
ou uma Eurocopa há muito deixou de ser apenas uma celebração esportiva. Nos
bastidores dos estádios modernos, das cerimônias espetaculares e das multidões
vibrando ao redor do mundo, esconde-se um jogo geopolítico silencioso, mas decisivo.
Para muitos Estados, megaeventos esportivos são, na prática, ferramentas
sofisticadas de diplomacia pública, construção de imagem internacional e
consolidação de prestígio no sistema global. E o futebol, mais do que uma
paixão coletiva, tornou-se um instrumento de poder simbólico.
Joseph Nye, cientista
político norte-americano, foi quem cunhou o conceito de soft power. Para ele,
uma nação pode influenciar o comportamento de outras não apenas pela força ou
dinheiro, mas pela capacidade de atrair e moldar preferências através da
cultura, dos valores e das imagens que projeta ao mundo. E nada é mais eficaz,
nesse sentido, do que o esporte. A estética do espetáculo, os estádios
monumentais, a narrativa de superação e patriotismo, tudo isso compõe uma arquitetura
simbólica cuidadosamente planejada. Por trás do jogo, há estratégia; por trás
da festa, há cálculo.
Exemplos disso não faltam.
Quando a África do Sul sediou a Copa do Mundo de 2010, o objetivo era claro:
mostrar ao mundo que o país havia superado o apartheid e era agora uma
democracia moderna, reconciliada, funcional. Mais que um torneio, era uma
tentativa de reescrever a narrativa nacional, projetar estabilidade e atrair
investimentos. Em 2018, foi a vez da Rússia. Após anos de isolamento diplomático
em razão da anexação da Crimeia e da crescente desconfiança ocidental, o
Kremlin encontrou no futebol a oportunidade perfeita para reconstruir sua
imagem internacional. A mensagem não era sutil: apesar das sanções e das
críticas, a Rússia é estável, eficiente, aberta ao mundo, e capaz de realizar o
maior espetáculo esportivo do planeta com excelência.
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| Nelson Mandela com a taça da copa do mundo de 2010. Fonte: Reuters |
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| Presidente russo, Vladimir Putin festejou sucesso de torneio em casa e fez diversos agradecimentos Imagem: Shaun Botterill/Getty Images |
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| Dilma Rousseff entrega simbólica da Copa do Mundo do Brasil para a Rússia de Vladimir Putin. Fonte: Roberto Stuckert/Presidência da República. |
Mas talvez nenhum exemplo
seja tão emblemático quanto o Qatar, anfitrião da Copa do Mundo de 2022. Um
pequeno Estado do Golfo, sem tradição futebolística, sem liga competitiva, sem
identidade esportiva consolidada, que decidiu investir mais de 220 bilhões de
dólares para sediar o evento. A Copa foi uma plataforma de inserção
estratégica. O país se posicionou como um ator influente no Oriente Médio e tentou
suavizar o peso das acusações internacionais sobre violações de direitos
humanos, sobretudo em relação ao tratamento de trabalhadores migrantes. Segundo
dados do jornal The Guardian, mais de 6.500 trabalhadores morreram
durante a preparação para o torneio, a maioria vinda da Índia, Bangladesh,
Nepal e Filipinas. Ainda assim, o evento foi considerado um sucesso midiático e
diplomático.
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| Fonte: FIFA. |
Esse fenômeno tem nome: sportswashing.
Trata-se do uso deliberado do esporte como ferramenta de limpeza simbólica, de
rebranding internacional. Regimes autoritários ou com histórico de abusos
utilizam megaeventos para maquiar a realidade, ofuscar críticas e construir uma
imagem de modernidade e tolerância. A China fez isso nos Jogos Olímpicos de
2008, ignorando a repressão no Tibete e o controle rígido da imprensa. A Arábia
Saudita segue no mesmo caminho: comprou clubes europeus, atraiu estrelas
internacionais e tenta agora sediar a Copa de 2034. Tudo parte de uma
estratégia clara: reconstruir a imagem do país, mesmo que a guerra no Iêmen ou
o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi ainda ecoem globalmente.
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| Arábia Saudita será sede da Copa do Mundo de 2034. Fonte: Twitter (X). |
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| Iêmen controle por Área. Fonte: BBC. |
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| Desde 2014, o Iêmen enfrenta uma guerra civil entre os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, e o governo iemenita, sustentado por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita. O conflito é marcado por disputas de poder, rivalidades regionais e uma grave crise humanitária que afeta milhões de civis. 14/01/2024 REUTERS/Khaled Abdullah |
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| Última imagem de Jamal Khashoggi, capturada pelas câmeras de segurança ao entrar no consulado saudita em Istambul, em 2 de outubro de 2018. O jornalista nunca mais foi visto com vida. O caso gerou repercussão internacional e expôs as tensões em torno da liberdade de imprensa e dos direitos humanos na Arábia Saudita.Foto: CCTV/Hurriyet via AP |
Mas o custo dessa
diplomacia dos holofotes não é apenas financeiro, é humano, político, social. O
Brasil é um caso exemplar. A Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 custaram
mais de R$ 60 bilhões no total. Estádios que prometiam legados estão hoje
abandonados. Infraestruturas planejadas para durar décadas se deterioraram em
menos de cinco anos. Moradores foram removidos à força, comunidades inteiras
foram militarizadas, e a dívida pública aumentou. As manifestações de 2013, que
tomaram as ruas em pleno ciclo de investimentos para a Copa, já denunciavam
esse descompasso: saúde e educação em colapso, enquanto bilhões eram investidos
em arenas e festas.
Durante esses eventos, há
também um esforço maciço de controle de imagem. Governos contratam agências de
relações públicas, blindam a imprensa, reprimem protestos e filtram o que será
visto por olhos estrangeiros. Os megaeventos se tornam vitrines cuidadosamente
maquiadas, nas quais tudo o que não convém à narrativa oficial é removido,
silenciado ou reinterpretado. A estética da festa é usada como armadura
simbólica. Críticas legítimas são diluídas em vídeos promocionais, slogans de
unidade e imagens turísticas idealizadas.
Sediar um evento global
tornou-se, assim, um jogo de poder. Em um mundo multipolar, onde potências
emergentes disputam espaço e legitimidade no sistema internacional, o futebol
oferece uma plataforma alternativa de afirmação geopolítica. Não se trata apenas
de conquistar títulos, mas de projetar status. Os gramados se tornam arenas
diplomáticas onde a luta por prestígio é travada com estádios, seleções e imagens
cuidadosamente construídas, em vez de tanques, tratados ou sanções.
O esporte, nesse contexto,
já não é apenas reflexo da sociedade. Ele é manipulado, instrumentalizado e
convertido em ferramenta de propaganda e diplomacia. Ao final de cada
megaevento, é preciso perguntar: o que foi mostrado, e o que foi ocultado? Quem
lucrou com a imagem projetada, e quem pagou por ela?
Por trás das luzes dos
estádios, dos cantos das torcidas e das transmissões milionárias, opera-se uma
lógica invisível aos olhos distraídos. Megaeventos esportivos são arenas
simbólicas de disputa por influência, onde a geopolítica veste chuteiras. E a
imagem internacional de um país pode ser definida não apenas pela sua
diplomacia formal ou poder militar, mas pela cerimônia de abertura que
transmite ao mundo.
PIF: O braço do Governo Saudita que permitiu
a criação da Copa do Mundo de Clubes de 2025 nos Estados Unidos.
O PIF é o fundo de investimento Público da Arábia Saudita que tem investido bilhões de dólares em esportes ao redor do mundo. Al Hilal, Al Nassar, Al Ahli e Al Ittihad pertencem a PIF desde 2022 e dela originou o alto investimento para levar os melhores jogadores do mundo para a Arábia.
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Anuncio da compra dos quatro maiores clubes da Arábia Saudita por parte do PIF – Reprodução / Twitter PIF
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A compra do Newcastle United em 2021 também foi realizada pelo fundo de investimento Público da Arábia Saudita, onde o PIF pagou cerca de 400 milhões de dólares com o objetivo de colocar um nível de influência na maior liga de clubes do mundo, a Premier League e mudar o patamar de um dos clubes mais tradicionais da Inglaterra. Mas a onde entra a copa do Mundo de Clubes nesse contexto? Em dezembro de 2024, quando o streaming de esportes DAZN comprou os direitos de transmissão da Copa do Mundo de Clubes de 2025 nos Estados Unidos da América por 1 bilhão de dólares, o maior acordo que a FIFA já fechou.
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| PIF se tornou parceiro da Copa do Mundo de Clubes da Fifa - Divulgação |
Em Fevereiro de 2025, a PIF comprou 10% do DAZN pela mesma quantia: 1 Bilhão de dólares. Segundo ela, um investimento para que a atuação do streaming se estendesse para o Oriente Médio e Norte da África, mesmo dito há 4 meses atrás que não iria investir no DAZN.
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| A SURJ Sports Investments Co. do Fundo de Investimento Público (PIF) assinou um acordo de investimento para adquirir uma participação minoritária na plataforma global de streaming esportivo DAZN. Fonte: Argaam | |
Para a FIFA, coletar investimentos altos na competição era primordial, tendo em vista que prometeu premiações maiores do que qualquer outro campeonato no mundo. A atuação da PIF nas últimas décadas tem realizado transformações nos esportes ao redor do mundo, não só no futebol. A PIF é dona do torneio de Golf, chamado de LIV Series.
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| O Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF) é proprietário da LIV Golf e também patrocina torneios femininos da modalidade, ampliando sua presença no cenário esportivo global como parte da estratégia de soft power saudita por meio do esporte. Fonte: Jill Painter Lopez
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| O Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF) é proprietário da LIV Golf, torneio criado como alternativa à tradicional PGA, reforçando a estratégia saudita de expandir sua influência global por meio do esporte. Fonte: Liv Golf. |
A Arábia Saudita será sede da Copa do Mundo de seleções de 2034, com o planejamento da construção de Estádios modernos e projetos arquitetônicos, o objetivo de todos os projetos citados é a realizar o que chamamos de sportswashing, a utilização do esporte para mudar a imagem e a reputação.
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| Dois estádios projetados para serem construído pela Arábia Saudita para a Copa do Mundo de 2034. Fonte: Populous. |
As controversas em relação ao regime Saudita são inúmeras, desde violações aos direitos humanos, até o suposto envolvimento no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018. O príncipe saudita Mohammed Bin Salman é considerado um criminoso de guerra, pelo envolvimento Saudita na Guerra do Iêmen que esta em curso desde 2015.
Importante esclarecer, quando estamos se referindo ao PIF, da compra de um clube ou de um investimento através do PIF, não estamos falando de empresários, donos de empresas, ou pessoas físicas, estamos se referindo ao Governo Oficial da Arábia Saudita.
O conflito do Iêmen: o
preço oculto do soft power saudita
Enquanto a Arábia Saudita
investe bilhões no futebol global para reconstruir sua imagem e projetar poder
simbólico, o conflito no Iêmen permanece uma das crises humanitárias mais
graves do século XXI, amplamente ignorada na narrativa esportiva que o reino
tenta impor.
Desde 2015, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita combate
forças rebeldes Houthis, provocando uma guerra devastadora que já causou
centenas de milhares de mortes diretas e indiretas, segundo dados da ONU, além
de um colapso econômico e social que levou milhões à fome e ao deslocamento.
O conflito no Iêmen é uma das guerras mais complexas e devastadoras do século XXI, resultado de uma sobreposição de crises políticas, religiosas, tribais e geopolíticas. Embora suas raízes estejam em problemas estruturais de longa data, como desigualdade social, centralização do poder e tensões sectárias, o estopim do conflito atual ocorreu em 2014, com a insurreição do movimento Houthis.
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| Áreas no Iêmen controladas pelos houthis. Foto: Arte O Globo |
Os Houthis, oficialmente chamados de Ansar Allah, são um grupo rebelde de maioria xiita zaidita originário do norte do Iêmen, que há décadas se sente marginalizado pelo governo central de Saná. Em setembro de 2014, os Houthis, movimento armado de origem zaidita xiita com base no norte do Iêmen, aproveitaram o vácuo de poder criado pela instabilidade política que se intensificou após a Primavera Árabe, bem como pela crescente fragilidade do então presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi, para tomar a capital Saná. A Primavera Árabe, iniciada em 2010 na Tunísia, foi uma onda de protestos populares que se espalhou por diversos países árabes, exigindo o fim de regimes autoritários, mais liberdades civis e melhores condições socioeconômicas.
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| Abdrabbuh Mansur Hadi. Fonte: U.S Defense Department. |
No caso do Iêmen, as manifestações de 2011 culminaram na renúncia do presidente Ali Abdullah Saleh após mais de três décadas no poder. No entanto, em vez de estabilizar o país, a transição para o governo de Hadi revelou-se frágil e incapaz de conter o colapso institucional iminente. Foi nesse ambiente de incerteza, marcado por descontentamento popular, fragmentação política e enfraquecimento das estruturas do Estado, que os Houthis avançaram militarmente, abrindo caminho para o prolongado conflito que devastaria o Iêmen nos anos seguintes. Com apoio tácito de setores descontentes do Exército e da população, os Houthis forçaram a renúncia do governo e assumiram o controle de importantes regiões do País.
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| O ex-presidente iemenita Ali Abdullah Saleh. Foto: PATRICK KOVARIK / AFP |
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| Manifestação em Sanaa contra Saleh, em Agosto de 2011. Fonte: Jumana El Heloueh/REUTERS |
A tomada da capital por um grupo armado xiita foi vista como uma ameaça direta pela Arábia Saudita e seus aliados do Golfo, que acusaram o Irã de armar e financiar os Houthis como parte de uma estratégia de expansão regional da influência xiita. Em março de 2015, a Arábia Saudita formou uma coalizão militar, com apoio logístico e de inteligência de potências como os Estados Unidos, Reino Unido e França, e iniciou uma campanha aérea massiva contra as posições dos Houthis, com o objetivo declarado de restaurar o governo de Hadi e conter a influência iraniana no território iemenita.
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| Coalizão internacional liderada pelos sauditas interveio no Iêmen em 2015. Fonte: AFP
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Desde então, o Iêmen mergulhou em uma guerra civil prolongada, que se tornou palco de uma guerra por procuração entre Arábia Saudita e Irã, em uma dinâmica semelhante à de outros conflitos regionais, como na Síria e no Líbano. Mas, diferentemente de outros teatros, a população civil iemenita tem arcado com um custo humanitário brutal. Bombardeios indiscriminados, bloqueios econômicos, colapso das instituições de saúde, escassez de alimentos, surtos de cólera e deslocamento forçado criaram o que a ONU classifica como a pior crise humanitária do mundo.
Estima-se que, desde 2015, mais de 370 mil pessoas tenham morrido direta ou indiretamente como resultado do conflito, sendo a maioria por causas evitáveis, como fome e doenças. Mais de 4 milhões foram deslocadas internamente. Escolas e hospitais foram destruídos. E, embora o conflito tenha perdido intensidade nos últimos anos, ainda persiste a instabilidade, a presença de grupos extremistas como a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP), e uma situação política fragmentada.
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| A Al-Qaeda na Península Arábica é a afiliada mais ativa da rede jihadista. Fonte: YouTube |
Além disso, o conflito expôs a omissão e, em alguns casos, a conivência da comunidade internacional frente a crimes de guerra cometidos por todas as partes envolvidas, incluindo o uso de armamento proibido, ataques a alvos civis e bloqueios que agravam a fome em massa. O caso do Iêmen se tornou um exemplo paradigmático de como interesses geopolíticos e estratégicos se sobrepõem à proteção de populações vulneráveis.
A guerra também revelou a hipocrisia de discursos internacionais sobre direitos humanos: enquanto condena-se a repressão de certos regimes, outros, como a Arábia Saudita, continuam recebendo apoio militar e político, mesmo estando envolvidos em campanhas bélicas com graves impactos humanitários. Este paradoxo é central para compreender como estratégias como o sportswashing se tornaram ferramentas de manipulação da imagem internacional de Estados autoritários envolvidos em guerras como a do Iêmen.
O silêncio sobre essa
tragédia nas esferas esportivas não é por acaso. A estratégia saudita de
“sportswashing” busca justamente ofuscar esse histórico de violações de
direitos humanos, abusos e crimes de guerra através do brilho das estrelas do
futebol e do glamour dos megaeventos. No entanto, poucos dos atletas que
aceitam os contratos milionários da Saudi Pro League ou dos clubes sob o
guarda-chuva do Fundo de Investimentos Públicos (PIF) parecem cientes ou,
quando cientes, não manifestam qualquer posicionamento público sobre essa
realidade brutal.
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| Veiga, de 21 anos, foi considerado uma das revelações da última temporada do Campeonato Espanhol. Ele tinha tudo encaminhado para acertar com o Napoli, da Itália, mas, de última hora, decidiu aceitar a proposta do Al-Ahli. Toni Kros, meia do Real Madrid se mostrou contrário à contratação do meia Gabri Veiga, do Celta, para o Al-Ahli, comentando "Vergonhoso". |
Essa dissociação ética, ou
omissão, expõe um dilema central: enquanto a Arábia Saudita oferece salários
astronômicos, que ultrapassam em muito qualquer proposta em ligas tradicionais,
os jogadores enfrentam uma escolha moral complexa. A decisão de aceitar esses
valores imensos torna-se quase inevitável, especialmente diante da curta janela
de oportunidade na carreira esportiva e da pressão econômica individual e
familiar.
Assim, o futebol se
transforma num palco de tensões profundas entre lucro, prestígio e
responsabilidade ética. A narrativa esportiva cuidadosamente construída pelo
regime saudita esconde uma realidade violenta que poucos se atrevem a questionar
abertamente, alimentando um debate urgente sobre o papel dos atletas e das
instituições esportivas diante de regimes autoritários envolvidos em conflitos
devastadores.
Esse contraste brutal
revela que, por trás do glamour dos contratos milionários e das transmissões
globais, o futebol também pode ser um instrumento de silêncio, distração e
legitimação, uma faceta obscura do soft Power que merece reflexão crítica e
vigilância constante.
Clubes como braços simbólicos de Estados
Na era da globalização, o futebol ultrapassou as quatro linhas e passou a operar como uma ferramenta sofisticada de diplomacia não estatal. Grandes clubes europeus, impulsionados por aportes financeiros vultosos vindos do Golfo Pérsico e de potências emergentes, tornaram-se instrumentos estratégicos de soft power, uma forma de exercer influência sem o uso direto da força. Como citado anteriormente, o Manchester City, por exemplo, foi adquirido em 2008 pelo City Football Group, conglomerado controlado pela família real de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Já em 2011, o Paris Saint-Germain foi comprado pelo Qatar Sports Investments, braço financeiro do governo catari, alinhado à estratégia nacional de projeção global do emirado. Esses clubes não representam apenas marcas esportivas de sucesso: são extensões da política externa de seus patrocinadores, com forte atuação nos bastidores da geopolítica.
Ao vencer campeonatos continentais, dominar narrativas em redes sociais e transformar jogadores em ícones globais, esses projetos esportivos ganham capital simbólico que reverbera além do futebol. Eles seduzem torcedores, influenciam jornalistas, atraem investidores e, principalmente, alcançam o campo diplomático com um apelo emocional que nenhuma embaixada tradicional poderia reproduzir.
O caso do Qatar é paradigmático: além do PSG, o país investiu maciçamente na compra de direitos esportivos, em patrocínios e em infraestrutura global, culminando na realização da Copa do Mundo de 2022. O evento foi, acima de tudo, um exercício de visibilidade internacional, calculado, estratégico e politicamente ambicioso. Em paralelo, os Emirados Árabes aprofundaram sua rede de influência ao utilizar o Manchester City como peça central de um conglomerado esportivo com clubes espalhados por diversos continentes, o que permite à monarquia de Abu Dhabi se inserir em múltiplas culturas por meio do entretenimento.
Mais recentemente, a Arábia Saudita tem acelerado seu projeto de transformação geopolítica por meio do futebol. Em 2021, o fundo soberano saudita, o Public Investment Fund (PIF), adquiriu 80% do Newcastle United, tradicional clube inglês. A operação foi cercada de polêmicas, sobretudo por denúncias de "sportswashing", já que o reino saudita tenta suavizar sua imagem internacional por meio do esporte, em meio a acusações de violações de direitos humanos. Desde então, o clube tem recebido aportes milionários, reforçado seu elenco e expandido sua presença global, não apenas como projeto esportivo, mas como vitrine internacional de um novo projeto saudita de poder.
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| Escudo do Newcastle United.Foto: Reprodução Valor Econômico. |
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| Torcedores vão à porta do Newcastle comemorar aquisição Foto: LEE SMITH / Action Images via Reuters | |
Além disso, em 2023, o governo saudita iniciou uma campanha agressiva para atrair estrelas do futebol europeu à liga nacional. O caso de Karim Benzema é emblemático: o jogador assinou com o Al-Ittihad por valores estimados em 100 milhões de euros por temporada, além de bônus adicionais por atuar como embaixador da candidatura saudita à Copa do Mundo de 2034, candidatura esta que foi aceita oficialmente pela FIFA, evidenciando o sucesso da ofensiva diplomática saudita.
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| Benzema posa com a camisa do clube saudita (Foto: Jorge Ferrari / Saudi Pro League / AFP) |
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| Torcedores da Arábia Saudita com números alusivos à Copa do Mundo de 2034 — Foto: Divulgação / SAFF |
Ainda em solo espanhol, a companhia Riyadh Air, recém-fundada em 2023 e com seus primeiros voos previstos para 2025, tornou-se patrocinadora master do Atlético de Madrid, em um acordo estimado em 40 milhões de euros por ano. O curioso é que a empresa, apesar de novata, já foi integrada à elite do futebol europeu como parte de uma estratégia de visibilidade e influência geopolítica.
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| O Atlético de Madrid e a Riyadh Air chegaram a um acordo de nove anos para a nomeação do icônico estádio. Fonte: RIYADH AIR. |
Fora do eixo árabe, há outros exemplos contundentes. A China, por volta de 2015, lançou uma ambiciosa iniciativa estatal para transformar sua liga doméstica na maior do mundo, com envolvimento direto de empresas estatais e bilionários aliados ao Partido Comunista. Contratações de impacto como Oscar, Hulk, Paulinho e Carlos Tévez foram usadas não apenas para elevar o nível técnico da liga, mas como expressão de um "renascimento nacional" promovido pelo presidente Xi Jinping, que declarou o futebol como prioridade política e educativa do país. Apesar de a estratégia ter recuado recentemente, ela deixa claro o potencial do esporte como ferramenta de prestígio nacional e inserção cultural global.
O Qatar, além do PSG, estabeleceu a Aspire Academy, uma das maiores academias esportivas do mundo, que funciona como base de soft power esportivo. Localizada em Doha, a academia forma atletas do mundo inteiro, especialmente africanos, muitos dos quais acabam naturalizados e integrados às seleções nacionais catari. Mais do que formar jogadores, a Aspire é um laboratório geopolítico de influência prolongada, com acordos com clubes e federações de diversos continentes.
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| Durante visita oficial ao Catar, o elenco do Paris Saint-Germain, com estrelas como Mbappé, Neymar, Donnarumma e Marquinhos, esteve na Aspire Academy, centro estratégico da diplomacia esportiva catari. A presença do clube ilustra como o Qatar integra esporte, imagem internacional e política externa em um único projeto de influência global. Fonte: Aspire Academy |
Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, têm buscado parcerias estratégicas com clubes africanos por meio de times como o Al-Ain FC, criando uma rede de influência esportiva que fortalece os laços diplomáticos e comerciais com países do Norte e Oeste da África, majoritariamente muçulmanos. Trata-se de uma diplomacia silenciosa, baseada em trocas técnicas e formação de jovens atletas, que atua onde as ferramentas diplomáticas tradicionais têm alcance limitado.
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| Aladdin Football Club, conhecido popularmente como Al-Ain Football Club. Fonte: Media Wiki. |
A rivalidade entre Galatasaray e Fenerbahçe vai muito além dos gramados e é, na verdade, um reflexo das profundas divisões culturais, sociais e políticas que atravessam a sociedade turca. Fundado em 1905, o Galatasaray nasceu das elites urbanas e do ambiente cosmopolita do lado europeu de Istambul, tendo raízes no colégio Galatasaray, instituição de influência europeia e marcada pelo secularismo e pela modernização ocidental. Por outro lado, o Fenerbahçe, criado em 1907 na parte asiática da cidade, conquistou sua base entre as camadas populares e médias, simbolizando um sentimento mais nacionalista e conservador, além de representar o orgulho da região asiática da metrópole.
Essa rivalidade carrega, portanto, um peso simbólico que extrapola o esporte: ela espelha o embate entre orientações políticas e culturais que marcam a Turquia, o confronto entre ocidente e oriente, secularismo e conservadorismo, cosmopolitismo e tradições locais. Nesse cenário, o futebol deixa de ser apenas um jogo para se transformar em palco de disputas identitárias.
O presidente Recep Tayyip Erdoğan, figura central na política turca contemporânea, reconhece o valor político dessa rivalidade. Embora torcedor declarado do Fenerbahçe, Erdoğan busca manter influência sobre ambos os clubes, compreendendo que eles são veículos poderosos para a construção de uma identidade nacional coesa e para a mobilização política das massas. O governo turco tem se envolvido diretamente na esfera esportiva, seja por meio de financiamento público a grandes estádios, apoio à federação de futebol ou até interferência nas eleições dos clubes, sempre visando ampliar sua presença simbólica e material junto à população.
Além disso, a politização do futebol se manifesta em discursos oficiais que vinculam conquistas esportivas ao orgulho nacional e à força da “nova Turquia” projetada pelo governo. Assim, o embate entre Galatasaray e Fenerbahçe passa a funcionar como uma narrativa que reforça o projeto político vigente, onde o esporte se transforma numa ferramenta estratégica para o soft power interno.
Em suma, a rivalidade entre esses dois gigantes do futebol turco traduz as tensões sociais e políticas do país, ilustrando como o esporte pode ser instrumentalizado como um poderoso instrumento de identidade nacional e de poder político.
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| Rivalidade Galatasaray e Fenerbahçe. Fonte: Minerva Team. |
Em Israel, o Beitar Jerusalém simboliza a confluência entre futebol e ideologia política. Associado historicamente à direita nacionalista israelense, o clube é palco de manifestações políticas internas e reflexo das tensões étnicas e religiosas do país. Nesse contexto, o futebol não apenas espelha, mas também molda discursos políticos e identitários.
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| Torcida do Beitar Jerusalém, time de Israel — Foto: Getty Images |
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| Beitar Jerusalém Football Club. fonte: The Sports DB |
Nos Estados Unidos, a Major League Soccer (MLS) se tornou um instrumento sofisticado de soft power cultural, refletindo uma estratégia deliberada de inserção global por meio do esporte. A presença de ícones internacionais como David Beckham, Zlatan Ibrahimović, Lionel Messi e Rodrigo De Paul não é meramente uma questão esportiva: trata-se de um projeto de construção simbólica do prestígio nacional no cenário do futebol mundial.
David Beckham, ao assinar com o LA Galaxy em 2007, foi a peça inaugural de uma estratégia mais ampla. Sua chegada não apenas elevou o perfil da liga, mas também funcionou como catalisador para novas audiências, acordos televisivos e investimentos privados. Beckham, com sua imagem globalmente reconhecida e seu papel como "embaixador da elegância britânica", ajudou a vincular a MLS a um imaginário de modernidade, luxo e cosmopolitismo.
Zlatan Ibrahimović, ao chegar ao mesmo clube em 2018, levou consigo uma persona carismática e provocadora, símbolo de uma masculinidade poderosa e de um talento autêntico que não se molda a convenções. Sua presença reforçou a narrativa de que os Estados Unidos podiam não apenas receber grandes jogadores, mas também competir com as maiores ligas do mundo por atenção midiática e prestígio simbólico.
Lionel Messi, considerado por muitos o maior jogador de futebol da história, ao escolher o Inter Miami em 2023, consolidou o papel da MLS como vetor de influência cultural e diplomática. Sua contratação envolveu uma articulação que ultrapassou os limites do campo, envolvendo acordos com a Apple (direitos de transmissão), a Adidas (patrocínios globais) e participação societária no clube. Messi não apenas impulsionou a audiência internacional da liga, como posicionou Miami como novo polo simbólico do futebol ocidental, um território onde convivem o capital latino-americano, o soft power estadunidense e o turismo de elite.
Rodrigo De Paul, campeão do mundo com a Argentina, representa o elo entre conquistas recentes no futebol global e a ambição norte-americana de transformar a MLS em um hub para talentos campeões. Ele simboliza a continuidade da presença sul-americana de alto nível na liga e reforça o caráter multicultural que os Estados Unidos projetam como parte de sua identidade nacional.
Por fim, cidades como Miami, Nova York e Los Angeles não disputam apenas campeonatos: competem entre si por visibilidade internacional, influência simbólica e fluxos de turismo e investimento. A MLS, nesse contexto, atua como vitrine de uma diplomacia pública articulada com interesses econômicos, identitários e de poder cultural. O futebol, em solo norte-americano, deixou de ser um mero espetáculo e se converteu em ferramenta de reposicionamento global, em um campo até então dominado por potências europeias e sul-americanas.
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| Messi, Rodrigo De Paul e David Beckam, Inter Miami. Fonte: Ryan Tolmich, GOAL. |
Em síntese, o futebol do século XXI tornou-se um campo de disputa simbólica entre Estados e grupos de poder que desejam moldar sua imagem global, consolidar alianças estratégicas e redesenhar sua posição no sistema internacional. Mais do que um esporte, o futebol moderno é hoje uma plataforma de influência global, e os gramados, os novos palcos da diplomacia contemporânea.
Streaming, redes sociais e formação de base: o Soft Power digital no futebol global
No cenário contemporâneo, o futebol deixou de ser apenas uma prática esportiva ou um espetáculo midiático, ele se tornou um vetor de influência digital global. Plataformas de streaming, redes sociais e canais institucionais de clubes e ligas passaram a exercer um papel central na internacionalização de marcas esportivas e na construção simbólica de poder. O futebol moderno, cada vez mais imerso no ambiente digital, serve não apenas ao entretenimento, mas à diplomacia cultural, à economia da atenção e à disputa por hegemonia narrativa.
A Premier League é um dos casos mais emblemáticos dessa transformação. A liga inglesa desenvolveu um ecossistema digital estruturado para o consumo internacional, com transmissões adaptadas por fuso horário, legendas multilíngues, conteúdo sob demanda e perfis segmentados nas redes sociais voltados para diferentes regiões, do sudeste asiático ao Oriente Médio. Hoje, a Premier League é mais assistida na Ásia do que no próprio Reino Unido, resultado de uma estratégia deliberada que vai além da audiência: trata-se de um projeto de formação de identidade cultural global em torno do “futebol inglês”, reposicionando o Reino Unido como polo de referência esportiva, econômica e simbólica.
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| Mais que futebol: a Premier League é o braço cultural da Inglaterra no século XXI. Por meio dos streamings globais e da presença multiplataforma nas redes sociais, os clubes britânicos não vendem apenas esporte, exportam estilo de vida, idioma, consumo e influência. Os direitos de transmissão são moldados país a país, respeitando especificidades culturais e comerciais, ampliando ainda mais o alcance e a penetração geopolítica do futebol inglês. Fonte: Site oficial da Premier League. |
Esse processo de digitalização do futebol funciona como soft power em tempo real. Países como Alemanha, Japão e China têm investido pesadamente em programas de formação de base internacionais, criando academias em países do Sul Global, promovendo intercâmbios esportivos e estabelecendo convênios com federações locais. A formação de jovens atletas estrangeiros sob o modelo técnico, pedagógico e ético da nação formadora funciona como uma semeadura estratégica de afinidades culturais e políticas, moldando gerações futuras não só de jogadores, mas também de consumidores, torcedores e até diplomatas simbólicos.
A Alemanha, por exemplo, exporta seu modelo de organização tática e eficiência institucional por meio de programas como o “DFB-Akademie Global”, que oferece consultoria esportiva para países em desenvolvimento. A China, embora ainda em construção como potência futebolística, utiliza o futebol como plataforma para estreitar relações políticas com países africanos e asiáticos, especialmente dentro da lógica da Iniciativa do Cinturão e Rota. Já o Japão, por meio de clubes como o Kashima Antlers e empresas como a Rakuten, tem atuado na difusão de valores como disciplina, cooperação e tecnologia associada ao esporte, reforçando sua marca cultural no exterior.
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| DFB-Akademie Global. Fonte: Photography Eduardo Perez. |
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| Escudo do Kashima Antlers, equipe de futebol do Japão. Fonte: desconhecida. |
Essa dimensão digital, conectada à formação esportiva, transforma o futebol num dispositivo geopolítico sofisticado. O objetivo não é apenas ganhar títulos ou formar atletas de elite, mas disputar corações e mentes por meio de plataformas acessíveis, emocionalmente impactantes e culturalmente envolventes. O futebol, nesse contexto, não é neutro: ele carrega intencionalidade política, projetos de influência internacional e estratégias de reposicionamento simbólico das nações.
No fim, a globalização do futebol digital representa um campo de disputa silenciosa, mas profunda, em que quem forma, transmite e engaja também domina. A lógica do soft power se atualiza: o que antes era diplomacia cultural via cinema ou literatura, hoje passa por transmissões ao vivo, vídeos curtos no TikTok e modelos táticos ensinados a milhares de jovens em centros de treinamento financiados por governos estrangeiros.
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| Tiktok como plataforma e diplomacia cultural. Imagem: Flavia correia. |
Futebol Feminino: Novo Vetor Geopolítico de Soft Power e Construção de Imagem Internacional
Nas últimas décadas, o futebol feminino deixou de ser um fenômeno marginalizado para se transformar em uma plataforma estratégica de soft power. Governos, federações e organismos multilaterais compreenderam seu potencial simbólico na diplomacia pública, especialmente ao se posicionarem em temas sensíveis como igualdade de gênero, inclusão social e direitos humanos.
Países como Estados Unidos, França, Noruega e Inglaterra utilizam deliberadamente o desempenho de suas seleções femininas como vitrines de valores democráticos, projetando uma imagem internacional de modernidade e compromisso com a equidade. A hegemonia norte-americana na modalidade, por exemplo, é constantemente instrumentalizada em narrativas oficiais como evidência de liderança não apenas esportiva, mas também moral. A valorização institucional do futebol feminino é convertida em capital simbólico, com impacto direto na imagem externa dos países.
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| Megan Rapinoe e Alex Morgan, a representatividade por igualdade no futebol feminino e por acordos com a federação americana, principalmente referente a salários. |
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| EUA dominam futebol feminino há mais de 30 anos - Foto: Reprodução Instagram / @uswnt |
Os investimentos em infraestrutura, mídia especializada, patrocínios e formação de base destinados ao futebol feminino não são neutros, eles funcionam como instrumentos de legitimação internacional. Em muitos casos, são interpretados como sinais de avanço civilizacional, especialmente quando associados a reformas institucionais que favorecem o protagonismo feminino no esporte e fora dele. O engajamento estatal e empresarial nesse campo revela a intencionalidade política por trás de sua promoção.
A própria FIFA tem reconfigurado sua abordagem em relação ao futebol feminino. As últimas edições da Copa do Mundo Feminina, como as de 2019 na França e 2023 na Austrália e Nova Zelândia, receberam investimentos massivos em cobertura televisiva, digital e institucional, com transmissões multilíngues, campanhas de marketing global e parcerias comerciais inéditas. Essa visibilidade crescente insere a modalidade no tabuleiro geopolítico do esporte global, fazendo dela um vetor de influência cultural comparável ao futebol masculino em termos de narrativa e valor simbólico.
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| Espanha conquista a Copa do Mundo feminina de futebol 2023 pela primeira vez. Fonte: Carl Recine/Reuters |
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| Fonte: FIFA. |
Mais do que refletir as transformações sociais internas, o futebol feminino é hoje um espelho estratégico, que os Estados utilizam para projetar externamente a imagem de sociedades equitativas, progressistas e inclusivas. Essa projeção simbólica gera efeitos tangíveis: atrai turismo, investimentos, parcerias internacionais e legitima posições políticas em fóruns multilaterais.
Em um contexto internacional onde a batalha por legitimidade é travada por meios simbólicos e narrativos, a ascensão do futebol feminino representa uma forma silenciosa, porém poderosa, de reconfiguração do prestígio nacional. Não se trata apenas de empoderamento esportivo, mas de uma diplomacia simbólica com efeitos duradouros na percepção global de poder e autoridade moral.
Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil: mais do que futebol, uma disputa por influência e legitimidade
A escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo Feminina de 2027 é, antes de tudo, um evento de múltiplas camadas. Para além da celebração esportiva, trata-se de um marco geopolítico e cultural com repercussões profundas na imagem do país no exterior, no papel do futebol como instrumento de soft power, e na luta por equidade de gênero no esporte global. A decisão da FIFA, anunciada em maio de 2024, ocorreu num contexto em que a América Latina busca reafirmar seu protagonismo em um sistema internacional cada vez mais polarizado e reconfigurado.
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| Segunda a Agência Brasil, A candidatura brasileira venceu a disputa com uma candidatura conjunta
de Alemanha, Bélgica e Holanda. O Brasil, que já sediou duas edições da
Copa do Mundo Masculina de futebol, contabilizou 119 votos, enquanto a
candidatura europeia recebeu 78 votos. Fonte: REUTERS/Chalinee Thirasupa. |
O simbolismo da sede e a geopolítica do futebol: Em uma votação apertada no Congresso da FIFA, o Brasil venceu a candidatura conjunta europeia (Alemanha, Bélgica e Países Baixos), e tornou-se o primeiro país sul-americano a sediar uma Copa do Mundo Feminina. Esse fato por si só carrega uma importante carga simbólica: a América do Sul, frequentemente associada ao futebol masculino de elite, assume agora um novo papel, como difusora do futebol feminino em larga escala. Em termos geopolíticos, trata-se de um movimento claro da FIFA para ampliar sua esfera de influência fora do eixo euro-americano tradicional, ao mesmo tempo em que o Brasil busca resgatar a credibilidade perdida nas últimas décadas por crises institucionais e econômicas.
Soft power, legitimidade e imagem internacional: Ao trazer o maior evento de futebol feminino do mundo para sua casa, o Brasil ativa o futebol como ferramenta de soft power, reposicionando sua imagem global. A narrativa construída a partir desse evento poderá reforçar o país como uma nação democrática, plural e aberta à promoção da equidade de gênero, mesmo que isso nem sempre reflita com exatidão a realidade doméstica. Em termos estratégicos, essa Copa será utilizada como vitrine para mostrar ao mundo que o Brasil continua sendo uma potência esportiva e cultural capaz de organizar megaeventos com impacto internacional, algo já demonstrado com a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Infraestrutura e desafios: entre o legado e o marketing político: A realização da Copa de 2027 exigirá investimentos significativos em infraestrutura, segurança, acessibilidade e logística — especialmente em um momento de restrições fiscais e instabilidade política. No entanto, diferentemente da Copa de 2014, o País agora possui estádios já prontos e uma malha esportiva relativamente consolidada, o que reduz os custos e amplia o discurso de “Copa sustentável”.
A expectativa do governo brasileiro é utilizar o evento para mobilizar a sociedade em torno da valorização do futebol feminino, mas também para se autopromover politicamente. A narrativa do "Brasil que dá certo" deverá ser explorada em campanhas oficiais, especialmente num possível cenário de reeleição presidencial ou de reposicionamento do País em fóruns internacionais como G20, BRICS e ONU.
A disputa de narrativas e os interesses em jogo: Por trás do evento, existe uma batalha silenciosa entre diferentes setores que desejam capitalizar politicamente com a Copa. Governos estaduais, patrocinadores, dirigentes esportivos, redes de TV e grandes marcas já se movimentam para assumir protagonismo nas ações preparatórias. As transmissões televisivas e o uso massivo de redes sociais, especialmente plataformas como Instagram, YouTube, TikTok e Twitch, serão instrumentos essenciais na guerra narrativa que se desenha até 2027. A luta pelo engajamento digital será, inclusive, tão relevante quanto a disputa dentro de campo.
Além disso, cada país que participa da Copa levará sua própria estratégia de soft power: a França apresentará sua tradição de vanguarda na promoção dos direitos femininos, os EUA exibirão sua hegemonia esportiva e midiática, e a China utilizará o evento como espaço para reforçar sua presença nos esportes globais. O Brasil, por sua vez, precisará escolher qual narrativa deseja sustentar: a do país do futebol inclusivo ou a do gigante adormecido que tenta acordar?
O futebol feminino como espelho da sociedade: Mais do que apenas um torneio, a Copa de 2027 será um reflexo das contradições e potencialidades do Brasil contemporâneo. Ela trará à tona debates sobre machismo estrutural, investimentos desiguais entre homens e mulheres no esporte, e os entraves culturais que ainda marginalizam o futebol feminino em diversas regiões do país. Ao mesmo tempo, o evento oferece uma oportunidade única para impulsionar mudanças, desde políticas públicas de incentivo ao esporte feminino até transformações na cobertura midiática e nos hábitos de consumo da população.
A esperança é que o impacto da Copa transcenda os 30 dias de competição. Se bem conduzida, ela pode reconfigurar a estrutura do futebol feminino no Brasil, atrair patrocínios duradouros, formar uma nova geração de atletas e consolidar o país como referência global nesse segmento. Se mal aproveitada, será apenas mais um evento no calendário, incapaz de romper com as estruturas que ainda oprimem o futebol praticado por mulheres.
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| Sedes da Copa do Mundo Feminina de Futebol - 2027 |
Conclusão
O futebol, na realidade concreta de hoje, ultrapassou qualquer definição esportiva tradicional. Ele é um instrumento geopolítico sofisticado, explorado tanto por democracias quanto por regimes autoritários com objetivos distintos, mas uma tática comum: influenciar a percepção internacional. Do Qatar à Arábia Saudita, passando pela China, Estados Unidos e até pelo Brasil, o futebol tornou-se uma engrenagem visível de estratégias estatais para moldar reputações, conquistar prestígio e suavizar realidades que, sob outros holofotes, seriam amplamente criticadas.
Na prática, estamos assistindo à consolidação de uma política global que utiliza o futebol como fachada. Clubes não são mais apenas organizações esportivas; são ativos geoestratégicos controlados, em muitos casos, por fundos soberanos que respondem diretamente a governos. Jogadores, por sua vez, passaram a ocupar um espaço simbólico que antes era exclusivo de diplomatas e líderes políticos, mas sem qualquer responsabilidade institucional. Com salários inimagináveis, esses atletas se tornam embaixadores involuntários de regimes envolvidos em conflitos armados, violações sistemáticas de direitos humanos e repressão interna, como é o caso da Arábia Saudita no Iêmen.
Essa lógica é sustentada por um ecossistema global que prefere o espetáculo ao questionamento. Grandes plataformas de streaming, marcas multinacionais, federações e até torcedores alimentam, muitas vezes de forma inconsciente, uma indústria que transforma opressão em branding positivo. O caso do PIF saudita, que hoje dita o ritmo do futebol em várias partes do mundo, inclusive comprando clubes e direitos de transmissão, mostra que não se trata mais de uma teoria sobre Soft Power, mas de uma operação real, meticulosamente calculada e com efeitos visíveis.
O Brasil, que por décadas exerceu um Soft Power espontâneo por meio do futebol, vive um paradoxo. Apesar da potência cultural que representa, perdeu espaço no jogo de narrativas globais. A Copa de 2014 escancarou para o mundo a distância entre a imagem vendida e os problemas estruturais do país, mostrando que não há Soft Power que resista à incoerência institucional.
Portanto, olhar para o futebol com seriedade hoje é entender que ele participa diretamente das dinâmicas de poder do século XXI. Não se trata mais apenas de paixão nacional ou rivalidade esportiva. O futebol passou a integrar estratégias de Estado, campanhas de reputação e operações políticas de longo alcance. Reconhecer essa realidade não significa negar o valor do esporte, mas assumir que, em muitos casos, o que está em jogo não é o título, é a narrativa. E quem controla a narrativa, influencia o mundo.
Escrito e produzido por Gabriel Chagas
Autor do blog Mundo em Conflito, com análises profundas sobre Geopolítica, Espionagem e Relações Internacionais.
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