A Guerra Híbrida Russa contra a Europa: A Arquitetura da Pressão Estratégica de Moscou

A Guerra Híbrida Russa contra a Europa: Inteligência, Zona Cinzenta e o Conflito Permanente
 
 Guerra da Rússia contra a Europa já começou? Drones, espionagem, sabotagem e a lógica da guerra híbrida no flanco oriental da OTAN
 
Ao longo do desenvolvimento deste texto, o leitor encontrará a resposta para uma questão central: como Moscou conduz uma guerra híbrida permanente, por meio de espionagem, sabotagem, coerção energética e manipulação informacional, operando deliberadamente abaixo do limiar da guerra convencional. 
 A ideia de guerra ainda permanece, para muitos, associada a imagens clássicas: colunas de blindados cruzando fronteiras, tropas em marcha e declarações formais de hostilidade entre Estados. Essa leitura, contudo, já não é suficiente para compreender a natureza do confronto que hoje se estabelece entre a Rússia e a Europa. O conflito em curso opera sob uma lógica distinta, difusa, fragmentada e intencionalmente ambígua. Representatividade de uma guerra que não se anuncia, não se declara e raramente assume autoria explícita, mas que produz efeitos concretos e mensuráveis sobre infraestrutura crítica, estabilidade econômica, processos políticos e percepção pública. É uma forma de enfrentamento conduzida abaixo do limiar jurídico do conflito armado convencional, inserida naquilo que analistas estratégicos e estudiosos de segurança internacional definem como a zona cinzenta do conflito contemporâneo.
Este ensaio parte da premissa de que a invasão russa da Ucrânia, em 2022, não inaugurou um novo confronto entre Moscou e a Europa, mas apenas expôs de maneira inequívoca uma disputa que já vinha sendo conduzida há anos. Antes do emprego aberto da força militar, houve espionagem sistemática, antes dos mísseis e drones, houve sabotagem discreta, antes da coerção armada direta, consolidaram-se mecanismos de influência política, dependência energética e manipulação informacional. O que se observa, portanto, não é uma escalada súbita, mas uma estratégia prolongada de desgaste, na qual o Kremlin articula operações clandestinas, pressão econômica, ações híbridas e guerra cognitiva com o objetivo de corroer, de forma gradual e cumulativa, a coesão europeia.
Ao longo deste texto, apresento como os serviços de inteligência russos, com destaque para o GRU (Diretoria Principal de Inteligência Militar) e o FSB (Serviço Federal de Segurança), atuam como vetores centrais dessa estratégia. Suas operações integram sabotagem física, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação, coerção energética e testes militares limitados, conduzidos de maneira a preservar a negação plausível e evitar respostas diretas. Longe de constituírem episódios isolados, esses eventos revelam um padrão consistente de comportamento estatal, profundamente enraizado em uma tradição histórica de segurança baseada na percepção permanente de cerco e na normalização do conflito como instrumento legítimo de interação com o ambiente externo.
 
Vladimir Putin durante uma visita de 2006 à sede da GRU
Vladimir Putin durante uma visita de 2006 à sede da GRU Foto: DMITRY ASTAKHOV / EPA-EFE / REX / Shutterstock 
 
FSB realizando uma operação em Abril de 2017 Fonte: khodorkovsky.
 
Compreender essa guerra invisível exige abandonar leituras fragmentadas e episódicas, reconhecendo a lógica sistêmica que conecta fenômenos aparentemente desconexos: drones sobrevoando bases militares, cabos submarinos monitorados ou sabotados no fundo do mar, fluxos energéticos utilizados como instrumento de pressão, processos eleitorais alvo de interferência e narrativas cuidadosamente construídas para moldar percepções públicas. Não se trata de antecipar uma invasão direta do território europeu, mas de entender como o poder russo opera para enfraquecer adversários estratégicos sem jamais cruzar, de forma inequívoca, as linhas que demandariam uma resposta militar coletiva.
É precisamente nesse espaço de ambiguidade calculada que este ensaio se insere, não para anunciar uma nova guerra, mas para demonstrar que ela já está em andamento. Uma guerra silenciosa para muitos, mas estrutural para o futuro da segurança europeia e para a própria compreensão contemporânea do que significa estar em conflito nos tempos atuais. 
 
O Leste Europeu como Espaço Histórico de Confronto Estratégico
 
O conceito de Leste Europeu não é apenas geográfico. Trata-se de uma construção histórica, política e estratégica moldada por séculos de disputas imperiais, guerras ideológicas e rearranjos de poder. Diferentemente da Europa Ocidental, cuja identidade política se consolidou em torno de Estados-nação relativamente estáveis, o Leste Europeu sempre ocupou a posição de zona de transição, fronteira móvel entre impérios, sistemas políticos rivais e visões antagônicas de ordem internacional.
De forma ampla, o Leste Europeu abrange países como Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, além dos Estados Bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia e, em muitas abordagens, países dos Bálcãs e do entorno do Mar Negro. Essa delimitação varia conforme o enfoque acadêmico, mas há um consenso central: trata-se da região onde as fronteiras políticas sempre foram mais frágeis que as pressões estratégicas externas.
 
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 Mapa do Leste Europeu. Fonte: Brasil Escola 
 
Durante a Guerra Fria, o Leste Europeu foi incorporado à esfera de influência soviética e transformado em cinturão de segurança da União Soviética. Por meio do Pacto de Varsóvia, Moscou garantiu não apenas alinhamento político, mas também profundidade estratégica, afastando o poder militar da OTAN de suas fronteiras diretas. Esses Estados funcionavam como zonas tampão, cuja soberania era severamente limitada sempre que entrava em conflito com os interesses do Kremlin, como demonstraram as intervenções na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968).
 
Pacto de Varsóvia. "União da Paz e do Socialismo.". Fonte: Fenn-O-maniC.
 
O colapso da União Soviética, em 1991, rompeu essa arquitetura de forma abrupta. O que antes era um bloco rigidamente controlado tornou-se um conjunto de Estados independentes, politicamente frágeis, economicamente vulneráveis e estrategicamente expostos. Para esses países, a integração à União Europeia e à OTAN não representou apenas uma escolha ideológica, mas uma estratégia de sobrevivência diante da incerteza quanto ao futuro comportamento russa.
 
5 razões pelas quais a União Soviética entrou em colapso há 30 anos - BBC  News Brasil
Mikhail Gorbachev foi muito festejado internacionalmente, mas tornou-se impopular em casa. Fonte: Getty Images.
 
Para Moscou, entretanto, essa transformação foi interpretada sob uma lógica diametralmente oposta. A perda do Leste Europeu significou não apenas o fim de uma zona de influência, mas a dissolução de sua profundidade estratégica histórica. A região deixou de ser um amortecedor e passou a ser percebida como um espaço de avanço de estruturas militares e políticas adversárias, alimentando uma narrativa persistente de cerco e vulnerabilidade.
É nesse ponto que o Leste Europeu se consolida como epicentro estrutural do conflito contemporâneo entre Rússia e Europa. Não se trata apenas de memória histórica ou ressentimento geopolítico, mas de uma leitura estratégica profundamente enraizada na cultura de segurança russa: controlar, influenciar ou, no mínimo, desestabilizar essa região é visto como condição essencial para garantir a segurança do próprio Estado russo.
Ao mesmo tempo, a heterogeneidade interna do Leste Europeu, diferenças econômicas, fragilidades institucionais, disputas identitárias, minorias étnicas e históricos políticos distintos, criam um ambiente particularmente suscetível à guerra híbrida. É uma região onde pressão energética, operações de inteligência, desinformação, coerção econômica e sabotagem encontram terreno fértil para produzir efeitos desproporcionais sem a necessidade de confrontos militares diretos.
Assim, o Leste Europeu não deve ser entendido apenas como um conjunto de países, mas como um espaço estratégico contestado, onde o passado imperial, o legado da Guerra Fria e as dinâmicas de segurança do século XXI se sobrepõem. É a partir dessa condição estrutural que emerge, de forma quase inevitável, o Flanco Oriental da OTAN como a principal linha de fricção entre Rússia e Ocidente. 
 
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O flanco oriental da OTAN. Fonte: Geopol.
 
Compreender o Leste Europeu, portanto, é compreender por que o confronto atual assume a forma que assume, por que ele se manifesta com maior intensidade nessa região e por que a guerra contemporânea na Europa não começa com tanques cruzando fronteiras, mas com pressões graduais sobre Estados historicamente situados na linha de choque entre grandes potências.
 
 O Fim da Guerra Fria e a Reconfiguração do Leste Europeu
 
O fim da Guerra Fria não representou apenas a dissolução de um confronto ideológico entre capitalismo e socialismo, mas a implosão de uma arquitetura de poder que, por mais de quatro décadas, havia estruturado o espaço político e estratégico do Leste Europeu. Com o colapso da União Soviética, em 1991, e a dissolução do Pacto de Varsóvia, a região deixou de funcionar como cinturão de segurança de Moscou e passou a ocupar uma posição inédita: a de vácuo estratégico em um continente em transição.
Durante o período bipolar, os Estados do Leste Europeu operavam sob soberania limitada. Regimes alinhados a Moscou garantiam estabilidade geopolítica ao bloco socialista, ainda que à custa de autonomia política e liberdade econômica. A queda do Muro de Berlim, em 1989, simbolizou o colapso dessa ordem. Em poucos anos, países como Polônia, Hungria e Tchecoslováquia abandonaram regimes comunistas e iniciaram processos acelerados, e muitas vezes desorganizados, de transição política e econômica.
 
Multidão em frente o Muro de Berlim enquanto guardas da fronteira da Alemanha Oriental derrubam parte da barreira, criado um novo ponto de travessia entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental
Foto: GERARD MALIE / AFP/11-11-1989
Multidão em frente o Muro de Berlim enquanto guardas da fronteira da Alemanha Oriental derrubam parte da barreira, criado um novo ponto de travessia entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental Foto: GERARD MALIE / AFP/11-11-1989 
 
A reconfiguração do Leste Europeu foi marcada por três movimentos simultâneos e profundamente interligados: a reconstrução do Estado, a redefinição da identidade nacional e a busca por garantias externas de segurança. Economias planificadas foram abruptamente expostas ao mercado, estruturas institucionais frágeis tiveram de absorver modelos democráticos importados, e sociedades inteiras passaram a redefinir seu lugar no sistema internacional.
 
Após o colapso da Dissolução da União Soviética, esses países seguiram caminhos distintos, alguns alinhados ao Ocidente, outros ainda sob a sombra e a influência de Rússia. Fonte: Loac.
 
Nesse contexto, a aproximação com o Ocidente tornou-se uma prioridade estratégica. A integração à União Europeia e, sobretudo, à OTAN foi percebida por esses Estados não como expansão ideológica, mas como blindagem existencial. Para países cuja memória histórica inclui invasões, ocupações e dominação externa, a adesão a estruturas multilaterais de defesa coletiva representava uma ruptura definitiva com a condição de zona tampão.
A expansão da OTAN para o Leste, iniciada nos anos 1990 e aprofundada nas décadas seguintes, consolidou essa transformação. Estados anteriormente inseridos na órbita soviética passaram a integrar formalmente a aliança militar liderada pelos Estados Unidos, deslocando a linha de contato estratégico centenas de quilômetros em direção às fronteiras russas. Para Moscou, esse processo não foi interpretado como mera escolha soberana dos novos membros, mas como uma alteração estrutural do equilíbrio de poder europeu.
É nesse ponto que a reconfiguração do Leste Europeu deixa de ser apenas um fenômeno regional e passa a assumir dimensão sistêmica. O espaço que antes garantia profundidade estratégica à Rússia transformou-se em área de presença institucional, militar e política do Ocidente. A região deixou de ser amortecedor e passou a ser fronteira ativa, dinâmica e permanentemente tensionada.
Ao contrário da narrativa que trata o pós-guerra Fria como um período de estabilização definitiva da Europa, o que se observa no Leste Europeu é a consolidação de um equilíbrio instável, sustentado por garantias externas, mas atravessado por fragilidades internas. Diferenças econômicas persistentes, disputas políticas, dependência energética e desafios institucionais mantiveram a região exposta a pressões externas, particularmente por parte da Rússia.
Assim, o fim da Guerra Fria não encerrou o papel estratégico do Leste Europeu, apenas o transformou. A região deixou de ser um espaço controlado por um único centro de poder e tornou-se um campo de disputa indireta, onde influência, coerção e guerra híbrida substituíram a ocupação militar direta. É dessa reconfiguração incompleta, assimétrica e contestada que emerge o cenário atual, no qual o conflito entre Rússia e Europa não se manifesta como ruptura aberta, mas como processo contínuo de fricção estratégica.
Compreender essa transição é essencial para entender por que o Leste Europeu permanece no centro das tensões contemporâneas. Não como resíduo da Guerra Fria, mas como produto direto de seu fim mal resolvido, um espaço onde a história não foi superada, apenas reconfigurada.
 
Trecho do mapa mundi com o continente europeu. Acima do mapa há a legenda composta por retângulos com diferentes tons de azul para cada categoria do mapa. O tom de azul-marinho, o mais escuro, é para os países fundadores da Otan, que incluem Bélgica, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. O tom de azul cobalto (um pouco mais claro que o marinho) inclui os países que aderiram a Otan durante a guerra fria, que são Grécia, Turquia, Alemanha Ocidental e Espanha. Já o tom de azul celeste é para os países que aderiram após a Guerra Fria: República Tcheca, Hungria, Polônia, Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia, Albânia, Croácia, Montenegro e Macedônia do Norte. Já os dois países que entraram na Otan após a invasão da Ucrânia, Finlândia e Suécia, foram coloridos na cor azul turquesa mais claro.

 
O que é o Flanco Oriental da OTAN?
 
O Flanco Oriental da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é o conjunto de países da Aliança localizados na fronteira direta ou imediata com a Rússia e seu entorno estratégico. Trata-se da porção mais sensível da arquitetura de segurança europeia, onde a proximidade geográfica com Moscou transforma tensões políticas em riscos militares, informacionais e estratégicos concretos.
De forma objetiva, o flanco oriental inclui principalmente os Estados Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), a Polônia, a Romênia, a Bulgária, além de países da Europa Central e do entorno do Mar Negro. Com a entrada da Finlândia na OTAN, essa linha de contato foi ampliada de maneira significativa, adicionando centenas de quilômetros de fronteira direta com o território russo. Não se trata, portanto, de uma noção abstrata, mas de uma linha física de contato entre dois sistemas de poder rivais.
Para a OTAN, o flanco oriental cumpre uma função defensiva clássica: dissuadir agressões, garantir a segurança dos Estados-membros e sinalizar compromisso coletivo. Para a Rússia, entretanto, essa mesma região é percebida de maneira radicalmente diferente. Desde o fim da Guerra Fria, a expansão da Aliança para o Leste é interpretada em Moscou como a perda de profundidade estratégica e como um avanço de estruturas militares adversárias em direção ao seu núcleo geopolítico. Essa percepção, correta ou não do ponto de vista jurídico, é central para compreender o comportamento russo.
É justamente por isso que o flanco oriental não é apenas uma fronteira militar, mas um espaço de fricção permanente. Nele, exercícios militares, movimentações de tropas, sobrevoos, atividades navais, operações de inteligência e disputas narrativas ocorrem de forma contínua. Diferentemente das fronteiras clássicas da Guerra Fria, não há uma separação rígida entre paz e guerra. O que existe é uma zona de contato constante, marcada por ambiguidade e tensão controlada.
É essencial compreender que quando se fala em guerra híbrida russa contra a Europa, fala-se, antes de tudo, do que acontece nesse flanco. É ali que Moscou testa limites, observa reações, explora fragilidades institucionais e mede o grau de coesão política da Aliança. Pequenos incidentes no flanco oriental raramente são acidentais; eles fazem parte de uma lógica estratégica que opera abaixo do limiar do conflito armado convencional.
Assim, o flanco oriental da OTAN deve ser entendido como o principal teatro contemporâneo da zona cinzenta europeia. Não porque ali já exista uma guerra declarada, mas porque é nesse espaço que se manifesta, de forma mais visível, a transição do conflito clássico para um modelo em que pressão militar, inteligência, desinformação e coerção política se combinam continuamente.
Compreender o que é o flanco oriental, portanto, não é apenas uma questão geográfica. É o primeiro passo para entender onde a guerra moderna acontece quando ela não é oficialmente reconhecida como tal, e por que grande parte do confronto entre Rússia e Europa se desenrola exatamente ali, sem anúncios formais, mas com efeitos estratégicos reais.
 
Mostra a força e a localização dos grupos de batalha da OTAN. Fonte: Blomberg, OTAN, Reuters, Graphic News,
 
A Arquitetura da Guerra Híbrida: Vetores, Escalonamento e Negação Plausível
 
A guerra híbrida não pode ser compreendida como a simples soma de sabotagem, espionagem, coerção econômica e operações informacionais. Ela é, antes de tudo, uma arquitetura estratégica integrada, concebida para produzir efeitos cumulativos sem jamais se apresentar como guerra no sentido jurídico clássico. Seu poder não reside em um ataque isolado, mas na articulação coordenada de múltiplos vetores de pressão, distribuídos no tempo, no espaço e nos domínios do poder.
Diferentemente da guerra convencional, que se organiza em campanhas militares claramente delimitadas, a guerra híbrida opera como um sistema permanente de confronto, no qual ações militares limitadas, operações clandestinas, coerção econômica, manipulação informacional e pressão política atuam de forma sincronizada, ainda que não simultânea. Cada vetor cumpre uma função específica, mas todos convergem para um objetivo comum: desgastar o adversário sem acionar os mecanismos clássicos de resposta coletiva.
Nesse modelo, Moscou estrutura sua estratégia a partir de quatro eixos centrais de atuação:
O primeiro eixo é o militar não convencional, marcado por testes limitados de força, uso extensivo de drones, violações aéreas breves, exercícios militares provocativos e presença armada ambígua em zonas sensíveis. Essas ações não visam a conquista territorial imediata, mas o mapeamento de respostas, a identificação de lacunas defensivas e a imposição de um estado psicológico de alerta constante. O emprego de drones em incursões pontuais no flanco oriental da OTAN exemplifica essa lógica: baixo custo, alto impacto político e ambiguidade suficiente para evitar uma escalada automática.
O segundo eixo é o clandestino - operacional, conduzido, sobretudo pelos serviços de inteligência russos, com destaque para o GRU e o FSB. Aqui se inserem sabotagens físicas, espionagem, operações de assassinato seletivo, infiltração de redes criminosas e mapeamento de infraestrutura crítica. Essas ações são deliberadamente fragmentadas, projetadas para parecerem acidentes, criminalidade comum ou eventos isolados. O objetivo não é provocar choque imediato, mas normalizar a instabilidade e elevar o custo de segurança do adversário.
O terceiro eixo é o econômico - energético, no qual a dependência estrutural substitui a coerção direta. Energia, matérias-primas estratégicas, cadeias logísticas e fluxos comerciais são utilizados como instrumentos de pressão política indireta. Nesse domínio, o poder não se exerce pela interrupção total, mas pela imprevisibilidade: cortes seletivos, flutuações abruptas de preços e ameaças implícitas. Trata-se de uma forma de guerra que transforma decisões geopolíticas em dilemas domésticos, deslocando o conflito para o interior das sociedades europeias.
O quarto eixo é o cognitivo - informacional, talvez o mais decisivo. A guerra híbrida não busca convencer, mas confundir. Narrativas concorrentes, campanhas de desinformação, exploração de polarizações internas e amplificação de crises sociais visam paralisar a tomada de decisão. Quando fatos se tornam disputas interpretativas intermináveis, a resposta estratégica se dissolve. A dúvida, nesse contexto, é mais eficaz do que a mentira direta.
O elemento que conecta esses quatro eixos é a negação plausível. Cada ação é calibrada para ser grave demais para ser ignorada, mas ambígua demais para justificar uma resposta militar direta. Esse equilíbrio instável mantém o conflito permanentemente abaixo do limiar jurídico da guerra convencional, deslocando o ônus da reação para o campo político, legal e social do adversário. O tempo, aqui, não é um fator neutro: ele favorece quem ataca de forma difusa e penaliza quem precisa deliberar coletivamente.
A guerra híbrida, portanto, não é um estágio intermediário entre paz e guerra. Ela é um estado permanente de confronto, no qual a distinção entre tempos de normalidade e tempos de crise deixa de existir. Moscou não busca a vitória decisiva, mas a erosão progressiva da capacidade de reação, transformando cada resposta europeia em um debate interno custoso, lento e politicamente divisível.
Compreender essa arquitetura é essencial para interpretar corretamente os episódios analisados nos capítulos seguintes. Drones, sabotagens, crises migratórias, ataques cibernéticos e campanhas de influência não são eventos desconexos, mas manifestações de um mesmo sistema estratégico. A guerra não começa quando tanques cruzam fronteiras, ela começa quando o adversário passa a reagir sempre tarde demais, sempre dividido e sempre em dúvida sobre a natureza do conflito que enfrenta.
 
Visão Conceitual Russa de Guerra Híbrida (Guerra Não Linear)
 
Concepção Russa de Guerra Híbrida
  
A Geopolítica Conceitual: A Teoria do Heartland e a Centralidade Estratégica da Ucrânia
 
Para compreender por que a Rússia investe de forma tão persistente em uma estratégia de confronto prolongado com a Europa, é necessário ir além da análise conjuntural e retornar aos fundamentos clássicos da geopolítica. Muito antes da formulação contemporânea da guerra híbrida, já existia uma leitura estrutural sobre o papel do espaço, do território e da profundidade estratégica na projeção de poder global.
Em 1904, o geógrafo e estrategista britânico Halford Mackinder formulou a chamada Teoria do Heartland, segundo a qual quem controlasse o “coração da Eurásia” controlaria, em última instância, o destino do sistema internacional, ideia que o próprio autor sintetizou de forma contundente ao afirmar que “quem governa a Europa Oriental domina o Heartland, quem governa o Heartland domina a Ilha Mundo, quem governa a Ilha Mundo controla o mundo”. Esse núcleo geográfico, abrangendo grande parte da atual Rússia, a Ucrânia e a Ásia Central, seria protegido por sua profundidade continental, difícil de ser penetrado por potências marítimas e decisivo para a projeção de poder terrestre em escala global, é justamente essa lógica que transforma o espaço ucraniano, hoje, em um campo de disputa que vai muito além do campo de batalha militar.
Essa lógica se manifestou de forma concreta durante a invasão alemã da União Soviética em 1941, quando o avanço rápido da Operação Barbarossa colidiu com a profundidade territorial soviética.
A Operação Barbarossa, lançada em junho de 1941, foi à ofensiva da Alemanha nazista contra a União Soviética baseada na expectativa de uma vitória rápida, obtida por meio de avanços profundos, cerco de forças inimigas e colapso político em poucas semanas. O que se impôs, contudo, foi à profundidade territorial soviética: à medida que o Exército Alemão avançava centenas de quilômetros para o interior, suas linhas de suprimento se alongavam, a logística entrava em colapso, o tempo operava contra a ofensiva e o espaço conquistado deixava de ser vantagem estratégica, transformando-se em fator de desgaste contínuo. O território, longe de representar controle, passou a absorver a força atacante até dissolver sua capacidade ofensiva, invertendo o curso da guerra.

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Cenas do front oriental durante a Segunda Guerra Mundial revelam a brutalidade e a escala do confronto entre Alemanha Nazista e União Soviética: o avanço alemão pelo norte russo, equipes de lança-chamas em combate, aviões soviéticos sobrevoando posições inimigas próximas a Moscou, prisioneiros de guerra marchando rumo ao cativeiro e a resistência soviética respondendo com fogo direto. Um retrato da guerra total — onde território, ideologia e sobrevivência colidiram sem limites. Fonte: Bundesarchiv, Bild 146-1974-099-19 / Kempe.

Neste contexto, profundidade territorial não deve ser compreendida apenas como dimensão geográfica, mas como lógica estratégica: a existência de espaço suficiente para absorver o impacto inicial, alongar o avanço adversário, transformar rapidez em desgaste e converter cada quilômetro conquistado em custo político, logístico e humano crescente, até que o impulso ofensivo se dissolva no interior continental.
Mackinder antecipava que o avanço das tecnologias terrestres, especialmente ferrovias, reduziria a vantagem histórica das potências marítimas e tornaria o controle desse espaço ainda mais estratégico. Mais de um século depois, essa previsão se materializa não por trilhos, mas por oleodutos, gasodutos, corredores logísticos, infraestrutura energética e cabos de comunicação que atravessam o leste europeu.
O território deixou de ser apenas chão, tornou-se sistema, um sistema que inclui energia, logística, conectividade digital e infraestrutura crítica, hoje sistematicamente pressionados por sabotagens, espionagem e coerção econômica.
É nesse contexto que a Ucrânia assume centralidade absoluta na percepção estratégica de Moscou. Para o Kremlin, o controle, ou, no mínimo, a neutralização do espaço ucraniano não é apenas uma questão de segurança imediata, mas um elemento estrutural da disputa pelo equilíbrio de poder na Eurásia. Uma Ucrânia integrada ao Ocidente representa, sob essa lógica, uma ruptura direta do cinturão defensivo russo e uma projeção da influência atlântica no coração continental, diferentemente de outras áreas do antigo Heartland, a Ucrânia combina profundidade territorial, densidade populacional, infraestrutura crítica e proximidade direta com o flanco oriental da OTAN, tornando-se o ponto de maior sensibilidade estratégica para Moscou.
A invasão de 2022, portanto, não pode ser interpretada apenas como um ato revisionista ou reativo. Ela se insere em uma leitura geopolítica de longo prazo, na qual a Rússia busca preservar sua condição de potência continental frente ao que percebe como um cerco estratégico promovido pela OTAN e pelos Estados Unidos. A guerra na Ucrânia não é apenas sobre fronteiras, é sobre posição sistêmica, tendo em vista que na leitura estratégica russa, a OTAN não representa apenas tropas, mas a incorporação plena do espaço ucraniano a um ecossistema político militar atlântico.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que Moscou não limita sua ação ao campo militar convencional. A disputa pelo Heartland, no século XXI, não se trava apenas com tanques, mas com energia, sabotagem, espionagem, desinformação e coerção econômica. A guerra híbrida surge, assim, não como inovação isolada, mas como adaptação funcional de uma lógica geopolítica antiga a um ambiente estratégico contemporâneo, o que hoje se manifesta como sabotagem, coerção energética e operações clandestinas é, na essência, a disputa pelo controle do Heartland travada abaixo do limiar da guerra convencional.
 
Na visão de Halford Mackinder, o controle da Europa Oriental é a chave: é ali que o poder continental se projeta em direção ao Ocidente. Entre Polônia, Ucrânia e Bielorrússia, desenha-se a verdadeira linha de tensão, onde a influência da Rússia encontra os limites estratégicos do mundo europeu.

Kaliningrado e os Enclaves Russos na Europa: Pressão Geopolítica na Zona Cinzenta
 
A presença russa na Europa não se limita às fronteiras reconhecidas da Federação Russa. Um dos elementos mais sensíveis, e frequentemente subestimados, da estratégia de Moscou é a manutenção de enclaves territoriais altamente militarizados, capazes de projetar poder, gerar instabilidade e impor dilemas estratégicos à aliança atlântica (OTAN) sem o disparo de um único tiro, O caso mais emblemático é o de Kaliningrado.
 
Oblast Russo de Kaliningrado. Fonte: RFA.
 
A origem de Kaliningrado remonta ao final da Segunda Guerra Mundial, quando o antigo território alemão da Prússia Oriental, cuja capital era Königsberg, foi incorporado à União Soviética como resultado direto dos acordos de Potsdam em 1945. A população alemã foi expulsa, o território foi completamente sovietizado e rebatizado em homenagem a Mikhail Kalinin, dirigente bolchevique próximo a Stalin. 
 
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A Prússia foi um Estado que surgiu a partir da Prússia Oriental e que exerceu influencia sobre a História da Alemanha e da Europa. Fonte: Brasil Escola.

Com o colapso da União Soviética em 1991, Kaliningrado passou a existir como um enclave russo, isto é, um território pertencente a um Estado, mas geograficamente separado de seu corpo principal e cercado por países estrangeiros, situado entre Polônia e Lituânia, ambos hoje membros da OTAN. Essa condição geográfica singular transformou Kaliningrado de herança territorial da Guerra Fria em instrumento ativo de pressão estratégica, permitindo à Rússia projetar poder militar, político e psicológico no coração do flanco oriental da Aliança Atlântica.
Geograficamente isolado do território continental russo e situado entre Polônia e Lituânia, Kaliningrado representa uma anomalia estratégica herdada da Guerra Fria, mas plenamente integrada à lógica contemporânea da guerra híbrida. Longe de ser um resquício histórico, o enclave tornou-se um posto avançado de coerção estratégica, inserido no flanco oriental da OTAN.
Do ponto de vista militar, Kaliningrado abriga sistemas avançados de mísseis, capacidades antiaéreas e infraestrutura naval que permitem à Rússia estabelecer zonas de negação de acesso e interdição de área (A2/AD) no Mar Báltico. Essa configuração não visa necessariamente a um confronto direto, mas cria um ambiente permanente de dissuasão, no qual qualquer movimentação da OTAN exige cálculo, coordenação política e risco de escalada. A ambiguidade quanto à presença de capacidades nucleares táticas no enclave amplia ainda mais esse dilema estratégico, pois eleva o custo potencial de qualquer resposta militar, mesmo diante de ações limitadas.
 
Rússia realiza exercícios nucleares com mísseis em Kaliningrado - Guerra na  Ucrânia - Correio da Manhã
Míssil Nuclear Iskander - M Russo em Kaliningrado. Fonte: CM

O ponto chave para explicar o conceito A2/AD é a palavra dissuasão, e essa expressão significa negação de acesso e interdição de área (A2/AD – Anti-Access/Area Denial), ela descreve uma lógica estratégica relativamente simples, ainda que poderosa: impedir que o adversário chegue a um determinado espaço ou, caso chegue, dificultar severamente sua permanência e sua capacidade de operar ali. Em vez de conquistar território com tropas em solo, essa estratégia se baseia na criação de um ambiente hostil, no qual qualquer movimentação aérea, naval ou terrestre passa a ser constantemente ameaçada. Sistemas de mísseis de longo alcance, defesas antiaéreas, radares, bases navais e capacidades de guerra eletrônica formam uma espécie de “bolha militar”, capaz de atingir aeronaves, navios e forças terrestres antes mesmo que consigam se organizar para o combate. O objetivo não é necessariamente travar uma batalha aberta, mas elevar o custo de uma intervenção a níveis tão altos que o adversário seja dissuadido de agir. Assim, o controle do espaço não se dá pela ocupação direta, mas pela capacidade de negar ao outro o uso seguro desse espaço, transformando a geografia em um instrumento de coerção estratégica.

Antiacesso e Negação de Área - A2/AD 
 
 
Capacidades A2/AD russas frente a OTAN. Fonte: behorizon
 
Mais do que uma base militar, Kaliningrado exerce uma função psicológica e política. Sua simples existência impõe à Europa um estado contínuo de alerta, deslocando recursos defensivos, ampliando exercícios militares e alimentando debates internos sobre segurança, orçamento e compromisso coletivo. Consiste em um mecanismo clássico de guerra híbrida: pressionar sem atacar, ameaçar sem agir, desgastar sem declarar guerra.
Essa pressão estratégica torna-se ainda mais sensível quando se observa o chamado Corredor de Suwałki, uma estreita faixa de aproximadamente 65 quilômetros de largura situada entre a Polônia e a Lituânia. À primeira vista, trata-se apenas de um trecho periférico do mapa europeu; na prática, porém, ele funciona como a única ligação terrestre entre os países bálticos e o restante do território da OTAN. Tudo o que conecta Estônia, Letônia e Lituânia ao apoio militar direto da Aliança passam, inevitavelmente, por esse corredor. Do ponto de vista estratégico, isso cria uma vulnerabilidade estrutural clara: caso esse espaço seja bloqueado, isolado ou simplesmente ameaçado, os países bálticos tornam-se, na prática, um enclave estratégico exposto.
 
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O território, uma área quase desabitada que consiste principalmente de pântanos, duas estradas e uma única pista de trem, representa a menor distância entre Kaliningrado e Bielorrússia. Fonte: BBC

Moscou compreende perfeitamente essa fragilidade e a explora de forma recorrente não apenas por meio de exercícios militares e simulações de guerra, mas também no plano psicológico e narrativo. A ameaça não precisa ser executada para produzir efeitos reais, sua simples existência já obriga a OTAN a redistribuir forças, rever planos de contingência e operar sob permanente pressão estratégica, transformando um estreito corredor geográfico em um ponto de tensão desproporcionalmente poderoso. Kaliningrado, portanto, não é um teatro de guerra convencional, mas um instrumento de coerção permanente, operando exatamente no espaço cinzento entre paz e guerra. Ele exemplifica como a Rússia utiliza a geografia como arma, transformando enclaves territoriais em plataformas de influência, dissuasão e instabilidade controlada.
Inserido no contexto mais amplo da Teoria do Heartland, o enclave revela uma dimensão complementar da estratégia russa: enquanto Moscou busca preservar sua profundidade continental na Eurásia, projeta poder a partir de posições avançadas na Europa, desafiando a lógica marítima e institucional do Ocidente. O resultado é uma arquitetura de confronto difuso, na qual o território deixa de ser apenas espaço físico e passa a funcionar como vetor ativo da guerra híbrida.
 
A Doutrina da Guerra Não Linear e a Lógica da Zona Cinzenta
 
As ações russas descritas ao longo deste ensaio não são improvisações oportunistas nem respostas reativas a eventos isolados. Elas se inserem em um corpo doutrinário consolidado, desenvolvido ao longo de décadas e formalizado progressivamente no pensamento estratégico russo contemporâneo. Os analistas militares definem como guerra não linear, um modelo de enfrentamento que rompe deliberadamente com a separação clássica entre guerra e paz, civil e militar, interno e externo.
Essa concepção foi sistematizada no debate estratégico russo ao longo dos anos 2000 e 2010, especialmente a partir das reflexões de oficiais-generais como Valery Gerasimov, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa desde 2012 e um dos mais próximos e duradouros colaboradores de Vladimir Putin no núcleo decisório da segurança nacional russa, Gerasimov ocupa uma posição singular na arquitetura do poder em Moscou. Sua função vai muito além da dimensão operacional: ele atua como elo entre a liderança política do Kremlin e a formulação estratégico militar de longo prazo, participando diretamente das decisões sobre emprego da força, planejamento estratégico e integração entre instrumentos militares e não militares do Estado russo.
 
O presidente russo Vladimir Putin (à esquerda) e Valery Gerasimov (à direita), novo comandante do Exército, em encontro no Ministério da Defesa em dezembro
O presidente russo Vladimir Putin (à esquerda) e Valery Gerasimov (à direita), atualmente Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Russas. Foto: SERGEI GUNEYEV/AFP
 
Em seus escritos e pronunciamentos, Gerasimov enfatizou de forma recorrente a primazia dos meios não militares: ou seja, os informacionais, psicológicos, econômicos, diplomáticos e cibernéticos, na obtenção de objetivos estratégicos, defendendo que, no ambiente contemporâneo, esses instrumentos podem ser mais decisivos do que o emprego direto da força armada convencional. Ainda que frequentemente mal interpretada no Ocidente como uma “doutrina formal”, a chamada Doutrina Gerasimov, essa leitura não corresponde a um manual operacional rígido, mas sim à observação pragmática de como a Rússia percebe a evolução dos conflitos modernos. Consiste, na prática, de uma adaptação consciente da tradição russa de maskirovka, negação plausível e operações encobertas ao ambiente informacional do século XXI, no qual a fronteira entre guerra e paz se torna deliberadamente ambígua.
 
Theatricality and deception: How Russia uses 'maskirovka' to shake the  world - National | Globalnews.ca
Antiga estratégia militar Russa para enganar seus oponentes geopolíticos. Fonte Global News.

O conceito de maskirovka ocupa uma posição central na tradição militar e estratégica russa e soviética, sendo frequentemente traduzido de forma imprecisa no Ocidente como simples “camuflagem”. Na realidade, trata-se de um princípio muito mais amplo, que envolve o emprego sistemático do engano como instrumento de poder. A maskirovka visa confundir, desorientar e induzir o adversário a avaliações equivocadas sobre intenções, capacidades, objetivas estratégicos e o real estado das operações, operando de maneira integrada nos níveis tático, operacional, estratégico e político.
Diferentemente de concepções ocidentais que tendem a tratar o engano como um expediente circunstancial, a maskirovka é entendida, no pensamento russo, como um método estrutural e permanente da condução do conflito. Ela não se limita à ocultação de forças ou equipamentos, mas inclui a criação deliberada de narrativas falsas, a manipulação do fluxo informacional, o uso calculado da ambiguidade e a construção de múltiplas camadas de negação plausível. O objetivo não é apenas esconder a realidade, mas moldar a percepção do adversário, atrasando sua reação, fragmentando sua tomada de decisão e explorando suas vulnerabilidades cognitivas e institucionais.
Historicamente, a maskirovka atravessa diferentes períodos do pensamento estratégico russo. Está presente tanto na herança czarista quanto na doutrina soviética, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, quando o engano operacional e estratégico foi amplamente empregado para mascarar concentrações de tropas, eixos de ataque e intenções políticas. Essa continuidade histórica demonstra que o engano não é um recurso episódico, mas uma prática institucionalizada, transmitida e adaptada ao longo do tempo.
No contexto contemporâneo, marcado pela centralidade do domínio informacional, pela velocidade da circulação de narrativas e pela hiper conectividade, a maskirovka passa por uma reinterpretação funcional. Ela se expande para além do campo militar estrito, incorporando operações psicológicas, desinformação, coerção diplomática, pressão econômica e ações cibernéticas. Nesse ambiente, a distinção entre guerra e paz torna-se deliberadamente ambígua, permitindo que o Estado russo atue de forma persistente abaixo do limiar da guerra convencional, explorando zonas cinzentas do sistema internacional.
Essa lógica conecta diretamente a maskirovka às práticas contemporâneas de guerra híbrida. Não como uma doutrina formalizada em manuais rígidos, mas como uma cultura estratégica profundamente enraizada, na qual o engano, a ambiguidade e a manipulação perceptiva são considerados tão decisivos quanto o emprego direto da força. A guerra, nesse sentido, deixa de ser um evento claramente delimitado no tempo e no espaço e passa a ser concebida como um processo contínuo de competição estratégica.
Compreender a maskirovka, portanto, é compreender um elemento fundamental da forma como a Rússia percebe o conflito moderno. Para Moscou, o engano não representa uma exceção às regras da condução da guerra, mas um método estruturante da estratégia estatal, capaz de produzir efeitos políticos e estratégicos duradouros sem a necessidade imediata de confrontação militar aberta.
 O maior exemplo prático da aplicação da maskirovka em larga escala ocorreu durante a Operação Bagration, lançada pela União Soviética em junho de 1944 contra o Grupo de Exércitos Centro da Alemanha nazista. Considerada uma das ofensivas mais devastadoras da Segunda Guerra Mundial, a operação não foi apenas um sucesso militar, mas uma demonstração sofisticada de engano estratégico. 
 
Fonte:  Pyotr Bernstein/Sputnik

Enquanto os alemães esperavam o principal esforço soviético no sul, em direção à Ucrânia, o comando soviético, sob coordenação do Stavka, empregou um conjunto articulado de medidas de maskirovka: movimentações falsas de tropas, comunicações simuladas, ocultação logística e manipulação deliberada de inteligência. Unidades inteiras foram reposicionadas sem detecção significativa, enquanto sinais visuais e eletrônicos induziam o alto comando alemão a interpretações equivocadas sobre o eixo principal do ataque.
 
Equipamentos militares alemães abandonados aos soviéticos na Bielorrússia após a retirada das tropas da região, Frente Oriental na Segunda Guerra Mundial. Fonte: Arquivo do Ministério de Defesa da Rússia.

O resultado foi um colapso quase completo das defesas alemãs na Bielorrússia. O Grupo de Exércitos Centro foi praticamente destruído, com perdas humanas e materiais catastróficas, evidenciando não apenas a superioridade operacional soviética, mas, sobretudo, a eficácia do engano como multiplicador de força.
Mais do que um episódio isolado, a Operação Bagration consolidou a maskirovka como um elemento decisivo da arte operacional soviética, demonstrando que a manipulação da percepção do inimigo pode ser tão determinante quanto à superioridade numérica ou tecnológica no campo de batalha.
Nesse paradigma, o conflito não começa com o disparo do primeiro míssil, mas com a preparação do ambiente estratégico. A guerra passa a ser concebida como um processo contínuo de pressão multidimensional, no qual instrumentos políticos, econômicos, informacionais, cibernéticos, energéticos e clandestinos precedem, acompanham e muitas vezes substituem o uso aberto da força militar. O objetivo não é derrotar o inimigo em batalha decisiva, mas corroer gradualmente sua capacidade de decisão, sua coesão interna e sua percepção de segurança.
É nesse contexto que se insere o conceito de “zona cinzenta”, amplamente utilizado por estrategistas contemporâneos para definir o espaço operacional no qual ações hostis são deliberadamente calibradas para permanecer abaixo do limiar jurídico e político da guerra convencional. Moscou explora esse espaço com precisão cirúrgica. Cada sabotagem limitada, cada ataque cibernético reversível, cada violação aérea breve ou campanha de desinformação é projetada para ser grave demais para ser ignorada, mas ambígua demais para justificar uma resposta militar direta.
 Esse modelo favorece profundamente atores autoritários em detrimento de democracias liberais. Enquanto regimes centralizados conseguem absorver custos, ocultar informações e acelerar decisões, sistemas democráticos operam sob escrutínio público, disputas internas e necessidade de legitimidade jurídica, a guerra não linear explora precisamente essa assimetria estrutural.
A racionalidade estratégica por trás desse modelo é clara: paralisar o processo decisório do adversário. Ao transformar cada ação hostil em um debate jurídico, político e diplomático interno, a Rússia desloca o custo do conflito para dentro das democracias europeias. O tempo que a Europa gasta discutindo se um incidente constitui ou não um “ato de guerra” é, para Moscou, tempo ganho. A guerra não se vence pelo impacto imediato, mas pela exaustão cumulativa.
 
Os Limites Estruturais da Resposta Europeia à Guerra Híbrida
 
Diante dessa estratégia, a resposta europeia tem sido marcada por avanços pontuais, mas também por limitações estruturais profundas. A criação de centros especializados em ameaças híbridas, o reforço da presença militar no flanco oriental e o aumento da cooperação em inteligência representam passos relevantes. No entanto, essas medidas operam dentro de um arcabouço político e jurídico que favorece a cautela, a fragmentação e a lentidão.
 A complexidade da resposta europeia é ampliada pelo descompasso institucional entre a OTAN, responsável pela defesa coletiva, e a União Europeia, que detém competências centrais em áreas como regulação digital, energia, infraestrutura crítica e políticas internas. A guerra híbrida opera exatamente no espaço onde essas competências se sobrepõem, mas não se fundem plenamente.
 
Sede da Otan em Bruxelas, na Bélgica. REUTERS/Johanna Geron.
 
Nesse contexto, o Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte permanece como uma garantia poderosa, porém mal adaptada a ações deliberadamente fragmentadas e ambíguas. A ausência de um ataque armado inequívoco transforma a cláusula central da dissuasão coletiva em um instrumento politicamente sensível e operacionalmente difícil de acionar.
A União Europeia e seus 27 Estados-membros enfrentam um dilema fundamental: responder com firmeza a ações hostis que não se enquadram claramente nas categorias tradicionais do direito internacional. Cada sabotagem precisa ser atribuída com alto grau de certeza, cada ataque cibernético exige provas técnicas complexas, cada campanha de desinformação se dissolve na fronteira nebulosa entre liberdade de expressão e interferência estrangeira. O resultado é um ambiente no qual a responsabilização é sempre tardia e a dissuasão, frequentemente insuficiente.
 A saída do Reino Unido da União Europeia, formalizada após o Brexit, expôs de maneira concreta as limitações estruturais do bloco diante de desafios complexos e prolongados. O processo, iniciado com o referendo de 2016, revelou não apenas divisões internas profundas, tanto dentro do próprio Reino Unido quanto entre os Estados-membros, mas também a dificuldade da União em responder de forma ágil e coesa a um evento político de grande magnitude. As negociações arrastadas, marcadas por impasses sobre soberania, comércio e fronteiras (especialmente na questão da Irlanda do Norte), evidenciaram um padrão semelhante ao observado em outros cenários: decisões estratégicas que exigem consenso tendem a serem lentas, reativas e condicionadas a múltiplos vetores políticos e jurídicos.
Esse precedente reforça a percepção de que, em contextos onde a ambiguidade e a complexidade dominam , seja na saída de um membro ou na resposta a ameaças híbridas, a União Europeia frequentemente opera em um ritmo inferior ao necessário para estabelecer dissuasão eficaz. O Brexit, nesse sentido, não foi apenas um episódio de ruptura institucional, mas um estudo de caso sobre os limites da coordenação política dentro de um sistema supranacional que depende, em última instância, da convergência de interesses nacionais distintos.

Mapa dos países da União Europeia
Mapa dos países da União Europeia, já sem o Reino Unido. Fonte: MARQUES, Vinícius. União Europeia. Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/uniao-europeia/. Acesso em: 20 abr. 2026

Além disso, a natureza multinacional da Europa impõe um desafio adicional, o que para um País representa uma ameaça existencial, para outro pode parecer um incidente periférico. Moscou compreende essa assimetria e a explora sistematicamente, atacando pontos sensíveis de forma seletiva, fragmentada e distribuída. Não se trata de confrontar a Europa como um bloco coeso, mas de explorar suas fissuras internas.
Essa assimetria estratégica explica por que a Rússia consegue manter a iniciativa, enquanto Moscou opera sob uma lógica centralizada, com cadeias de comando opacas e decisões rápidas, a Europa responde por meio de consenso, debate público e processos legais prolongados, a diferença de ritmo não é um detalhe operacional, é um fator estrutural que molda o equilíbrio do conflito.
 Nesse ambiente, a vantagem russa não decorre de superioridade econômica ou tecnológica absoluta, mas da exploração sistemática das regras, valores e procedimentos que sustentam a ordem europeia. A guerra híbrida transforma a própria arquitetura institucional do Ocidente em terreno de disputa, convertendo prudência em paralisia e legalidade em vulnerabilidade estratégica.
 
 A Normalização do Risco: Drones Russos, Violação do Espaço Aéreo Polonês e o Teste da Guerra Híbrida no Flanco Oriental da OTAN
 
Na madrugada de 9 para 10 de setembro de 2025, um dos episódios mais significativos e delicados da atual fase da guerra entre Rússia e Ucrânia desenrolou-se a milhares de quilômetros das linhas de frente: aproximadamente 19 drones militares russos penetraram o espaço aéreo da República da Polônia, um Estado membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), marcando uma escalada que até então era apenas latente nas tensões entre Moscou e as potências ocidentais. Esses veículos não tripulados oriundos, segundo relatos oficiais, da Federação Russa e de territórios sob influência russa atravessaram a fronteira polonesa em meio a uma ampla ofensiva aérea contra o território ucraniano, provocando a primeira resposta militar direta de um País da OTAN no conflito desde o início da invasão russa em 2022 e desencadeando uma reação coordenada entre aliados europeus e norte-americanos.
 
Imagem mostra drone em Czosnowka, Polônia, após suspeita de drones russos terem sido abatidos
Imagem mostra drone em Czosnowka, Polônia, após suspeita de drones russos terem sido abatidos. Fonte: REUTERS/Dariusz Stefaniuk
 
 O espaço aéreo constitui um dos domínios mais sensíveis da guerra híbrida contemporânea, pois violações breves e ambíguas permitem testar soberanias sem produzir automaticamente vítimas, destruição massiva ou provas inequívocas de intenção hostil. Ao operar nesse domínio, Moscou explora deliberadamente a fronteira entre erro técnico, provocação política e ação militar, ampliando a incerteza decisória do adversário.
 
 INFOGRÁFICO: drones abatidos na Polônia — Foto: Arte/g1 

O primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, definiu a ação como uma “provocação em larga escala” e afirmou que os drones violaram repetidamente o espaço aéreo polonês, representando um perigo real para a segurança do País. Aqueles objetos que apresentaram risco foram abatidos pelos caças F-16 poloneses com apoio de aeronaves da OTAN, incluindo jatos F-35 de países aliados, numa operação sem precedentes na história da aliança. Aeródromos civis na região, como o Aeroporto Chopin em Varsóvia, além de outros aeroportos regionais, tiveram voos suspensos como medida de precaução enquanto a ameaça persistia no território. Relatórios oficiais confirmam que até oito desses drones caíram em solo polonês ou foram interceptados, sem que fossem registradas vítimas civis.
 
Caças F-35A e F-16C abatem drones russos em espaço aéreo polonês
Caças F-16 Block 52 da Força Aérea Polonesa em voo. Foto: Bartek - Bera/MoD Polônia. 
 
O conceito de guerra híbrida é essencial para compreender esse episódio dentro de um contexto estratégico mais amplo, ele descreve uma forma de conflito com combinações, simultâneas, de meios convencionais e não convencionais de pressão, desinformação, utilização de forças regulares (Forças armadas) e irregulares (grupos armados não estatais ou operadores especiais sem identificação), e o uso massivo de tecnologias como drones, guerra cibernética e propaganda política. Em vez de se limitar a confrontos frontais entre exércitos, a guerra híbrida busca explorar vulnerabilidades políticas, militares e sociais do adversário, pressionar por resultados sem declarar formalmente um estado de guerra e provocar divisões internas dos blocos adversários. O uso de veículos aéreos não tripulados é um exemplo clássico dessa lógica: os drones são econômicos, difíceis de rastrear e podem ser empregados em grande número para criar um efeito militar e psicológico desproporcional ao seu custo, elementos que definem as estratégias híbridas contemporâneas.
 
Combatentes do Grupo Wagner treinando soldados belarussos em uma base a sudeste de Minsk
Imagens mostram combatentes do Grupo Wagner (Mercenários Russos) supostamente treinando soldados belarussos em uma base a sudeste de Minsk, 15 julho 2023. Fonte: Reuters
 
No episódio polonês, ficou claro que Moscou não apenas procurou causar dano físico, mas testar os limites da resposta coletiva da OTAN, forçando aliados a reagir diante de um ato que tradicionalmente, em conflitos clássicos, poderia caracterizar um “ato de guerra”. Essa nuance é típica da guerra híbrida, provocar uma resposta militar ou política desfavorável ao adversário, sem um confronto aberto em grande escala, na expectativa de enfraquecer sua unidade interna ou questionar a eficácia de suas alianças.
Esse incidente detonou uma série de repercussões geopolíticas. A Polônia acionou o 4º Artigo do Tratado do Atlântico Norte, que não implica automaticamente ação militar coletiva sob Artigo 5ª, mas estabelece a obrigação dos aliados em consultarem-se caso a segurança de um membro seja ameaçada. Isso significa que, mesmo sem um ataque convencional declarado, a comunidade de defesa transatlântica reconheceu o potencial de crise e tratou como um ponto de convergência estratégica para consultas e decisões conjuntas.
 Ao repetir esse tipo de incursão sem desencadear retaliações proporcionais, consolida-se um processo de normalização do risco. Incidentes que antes seriam considerados exceções passam a integrar a rotina estratégica, deslocando gradualmente o limiar de tolerância da OTAN e da Europa a ações hostis limitadas.
Simultaneamente, a escalada foi levada ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) a pedido da Polônia, em busca de uma resposta diplomática multilateral ao evento, redimensionando o incidente na esfera política global como uma violação do direito internacional.
 
O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski - “O seu nacionalismo insano contém uma sede de dominação que não cessará até que percebam que a era dos impérios acabou, e que o seu império não será reconstruído. 30/09/2025. Fonte: BP.
 
A resposta não ficou apenas no âmbito institucional. A OTAN lançou a chamada Operação Eastern Sentry (Sentinela Oriental), uma iniciativa de reforço geral das defesas no flanco oriental europeu, com o objetivo declarado de aumentar a capacidade de defesa aérea contra ameaças russas, especialmente drones. Isso incluiu o reforço de sistemas antiaéreos e a patrulha contínua do espaço aéreo na fronteira leste da aliança, sinalizando um aprofundamento prático da cooperação militar dos países membros.
 
Secretario - Geral da OTAN, Mark Rutte e o comandante Supremo Aliado da Europa (SACEUR), General Alexus G. Grynkewich, falam à imprensa na sede da OTAN. Fonte: OTAN.

A União Europeia também se manifestou unida em solidariedade à Polônia, com membros reconhecendo que a violação não era um evento isolado, mas possuía implicações continentais de segurança, incentivando uma postura mais firme contra Moscou nos campos diplomático, econômico e de defesa.
Esse episódio, drones russos violando o espaço aéreo de um aliado da OTAN, rompeu uma barreira simbólica: não é mais apenas a Ucrânia e o seu território que experimenta hostilidades, mas diretamente países do bloco ocidental. Tal fato intensifica debates sobre os limites da corrida militar tecnológica, o papel dos sistemas de defesa antiaéreos modernos, e a eficácia das alianças coletivas frente a modelos de guerra híbrida que procuram explorar ambiguidades técnicas e políticas.
Do ponto de vista geopolítico, isso significa que: A dinâmica de dissuasão tradicional da OTAN está sendo testada, e sua capacidade de resposta rápida e unificada torna-se, mais do que nunca, crucial para a estabilidade europeia.
A Rússia demonstra intenção, real ou calculada, de pressionar fisicamente fronteiras e testar solidariedades, em um esforço por ganhar vantagem negociadora sem iniciar um confronto declarado formalmente.
A tecnologia de drones demonstra ser uma arma estratégica de baixo custo com alto impacto, capaz de reconfigurar rapidamente cenários de conflito e obrigar alianças e estados a revisarem suas doutrinas de defesa e sua prontidão operacional.
A incursão dos drones russos na Polônia evidencia como as guerras contemporâneas ultrapassam o campo de batalha tradicional: elas incorporam tecnologias disruptiva, fragmentam espaço e tempo geopolíticos, e forçam aliados a respostas coordenadas que vão além da retórica diplomática. O episódio não apenas marcou um ponto de inflexão na guerra Rússia - Ucrânia, mas destacou as fragilidades e fortalezas inerentes aos sistemas de segurança coletiva, confirmando que a guerra híbrida é, hoje, um dos maiores desafios estrutural para as alianças de defesa multilaterais. A Polônia, ao reagir com firmeza e acionar mecanismos diplomáticos e militares conjuntos, enviou uma mensagem clara: a soberania territorial e o respeito às fronteiras continuam sendo pilares inegociáveis da ordem internacional baseada em regras.
 Mais do que um incidente isolado, a incursão dos drones russos no espaço aéreo polonês funcionou como um experimento estratégico em tempo real. Ela revelou até onde a Rússia pode avançar sem provocar uma resposta coletiva automática e até que ponto a Europa está disposta a absorver custos em nome da estabilidade. Nesse sentido, o episódio transforma-se em um barômetro da guerra híbrida no flanco oriental da OTAN, no qual tecnologia, política e ambiguidade operam como instrumentos integrados de pressão sistêmica.
  
A Guerra Invisível no Fundo do Mar: Cabos Submarinos como Infraestrutura Crítica da Zona Cinzenta 
 
Se a guerra híbrida contemporânea se caracteriza por operar abaixo do limiar da visibilidade política e jurídica, poucas infraestruturas simbolizam melhor essa lógica do que os cabos submarinos de telecomunicações. Responsáveis por mais de 95% do tráfego global de dados, incluindo comunicações governamentais, financeiras, militares e civis, esses sistemas constituem o esqueleto invisível da ordem internacional digital. Ainda assim, permanecem amplamente ausentes do debate público, tratados como questão técnica e não como vetor estratégico central de poder.
 
A infraestrutura de cabos submarinos é essencial para as telecomunicações, sendo responsável por mais de 90% (noventa porcento) da transmissão de dados entre os países e continentes. Fonte:  Tele Geography.
 
Para Moscou, essa invisibilidade não é uma limitação, mas uma oportunidade. Desde o final da Guerra Fria, e de forma cada vez mais sistemática a partir da década de 2010, a Rússia passou a incorporar o domínio submarino como componente integral de sua doutrina de guerra na zona cinzenta. Não se trata de destruir indiscriminadamente a conectividade global, o que equivaleria a um ato de guerra convencional com custos elevados e escaladas previsíveis. Trata-se, antes, de mapear, vigiar, testar vulnerabilidades e sinalizar capacidade de coerção, mantendo sempre a ambiguidade estratégica.
Navios russos de pesquisa oceanográficas, formalmente civis, mas frequentemente associados à inteligência militar, são observados operando de forma recorrente em áreas sensíveis do Mar Báltico, do Atlântico Norte e do Mar do Norte. Essas embarcações não apenas cartografam rotas de cabos, mas também coletam dados sobre profundidade, composição do leito marinho e pontos críticos de interconexão. Esse conhecimento transforma-se em capital estratégico: permite, em caso de crise, executar sabotagens seletivas, reversíveis e de difícil atribuição. 
 
Aumentam as suspeitas de sabotagem em cabos submarinos no Mar Báltico
Aumentam as suspeitas de sabotagem no Mar Báltico, depois de dois cabos submarinos de telecomunicações terem sido cortados. Fonte: RTP.
 
Na prática, a sabotagem ou coerção sobre cabos submarinos raramente assume a forma de um ataque direto e evidente. O processo inicia-se muito antes de qualquer dano físico. Em tempos de normalidade aparente, embarcações russas classificadas como navios de pesquisa oceanográfica operam de forma persistente ao longo de rotas conhecidas de cabos internacionais. Oficialmente, realizam levantamentos científicos, operacionalmente, constrói bancos de dados detalhados sobre localização, profundidade, redundância, tempo de reparo e dependência regional dessas infraestruturas. Representa uma fase silenciosa de preparação estratégica, invisível ao público e dificilmente enquadrável como ato hostil.
 
Oficialmente, o navio russo Yantar viaja pelo mundo realizando pesquisas.
Oficialmente, o navio russo Yantar viaja pelo mundo realizando pesquisas, Extraoficial, navio de espionagem e de dados de inteligência da Rússia. (Foto: Wikimedia Commons)
 
Uma vez mapeada a infraestrutura, o próximo estágio não é necessariamente o corte do cabo, mas a demonstração de acesso. Pequenas anomalias técnicas, interrupções temporárias, falhas localizadas ou danos em pontos secundários produzem efeitos desproporcionais. Bolsas de valores acionam protocolos de contingência, comunicações governamentais migram para sistemas de emergência e empresas privadas sofrem perdas financeiras imediatas. Ainda que o dano seja limitado, o sinal estratégico é inequívoco: o sistema é vulnerável, e alguém possui capacidade de explorá-lo.
O elemento central dessa dinâmica é a ambiguidade. Cabos submarinos rompem-se com relativa frequência por causas não militares, como âncoras de navios comerciais, atividade pesqueira ou movimentos geológicos. A Rússia explora deliberadamente essa zona de incerteza. Um dano causado por ação humana pode ser tecnicamente indistinguível de um acidente. O custo político da acusação sem prova conclusiva é elevado, e a resposta tende a ser postergada, diluída ou descartada. Cada episódio não resolvido reforça a assimetria estratégica em favor de quem opera no limiar da atribuição.
Em situações de tensão política elevada, essa coerção latente converte-se em instrumento de pressão indireta. Governos que enfrentam crises energéticas, debates internos sobre sanções ou divisões políticas tornam-se mais sensíveis a riscos adicionais. A simples possibilidade de interrupções digitais, ainda que não concretizadas, influencia cálculos estratégicos. O conflito passa a operar no plano psicológico e decisório, não apenas no plano material. A ameaça não precisa ser executada, basta ser crível.
Outro aspecto fundamental é o aprendizado adaptativo. Cada incidente mobiliza empresas de reparo, autoridades marítimas, ministérios e alianças militares. O tempo de resposta, o grau de coordenação institucional, a comunicação pública e a disposição política para atribuição são observadas atentamente. A infraestrutura atacada não é apenas o cabo, mas o próprio processo decisório do adversário. O sistema defensivo é convertido, novamente, em fonte de inteligência operacional, ao expor padrões decisórios, tempos de resposta e níveis de coordenação institucional.
Essa lógica explica por que a guerra submarina raramente aparece como evento isolado. Ela ocorre em sincronia com outras formas de pressão: campanhas de desinformação que questionam a segurança das instituições, ataques cibernéticos a sistemas de transporte ou energia e violações aéreas breves. O efeito combinado cria um ambiente de saturação estratégica, no qual cada incidente, isoladamente administrável, contribui para uma percepção acumulativa de vulnerabilidade permanente.
 
Ataques cibernéticos
 hackers russos atacaram redes governamentais da Polônia, disse o Instituto Nacional de Pesquisa (NASK), uma companhia estatal, grupo hacker responsável seria ligado à agência de inteligência militar russa, grupo conhecido como APT28, faz parte da agência de inteligência militar russa GRU e usou software malicioso para atingir instituições governamentais polonesas. Fonte: Kacper Pempel/Reuters

No cotidiano das sociedades europeias, essa guerra manifesta-se de forma difusa: atrasos em serviços digitais, interrupções financeiras momentâneas, falhas de comunicação internacional e discursos oficiais cautelosos que evitam apontar responsabilidades. Para o cidadão comum, são ruídos técnicos. Para o estrategista, são sinais claros de um conflito em curso. A eficácia dessa abordagem reside justamente nessa dissociação entre impacto estratégico e percepção pública.
Assim, a sabotagem de cabos submarinos não deve ser compreendida como prelúdio de uma guerra futura, mas como parte integrante de um regime de conflito permanente, no qual o objetivo não é destruir, mas condicionar, desgastar e deslocar o centro de gravidade da segurança para dentro das próprias sociedades adversárias. O fundo do mar torna-se, dessa forma, não apenas um espaço físico, mas um domínio decisivo da política de coerção contemporânea.
A lógica aqui não é a da interrupção total, mas a da coerção latente, um dano parcial, um corte temporário, uma interferência limitada, ainda que tecnicamente atribuível a “acidentes”, é suficiente para gerar incerteza, pressionar governos e testar protocolos de resposta, cada incidente fornece informações preciosas sobre tempos de reação, coordenação institucional, comunicação pública e capacidade de atribuição do adversário, o sistema defensivo europeu, mais uma vez, converte-se em fonte de inteligência para Moscou.
 
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Petroleiro russo suspeito de danificar cabo submarino no Mar Báltico é detido por forças finlandesas em dezembro de 2024. Fonte: Poder Naval.
 
Esse padrão reflete com precisão a racionalidade da zona cinzenta: operar de forma persistente, incremental e ambígua, deslocando o conflito para espaços onde a resposta política é lenta, fragmentada e juridicamente contestada, a sabotagem de cabos submarinos não exige ocupação territorial, não mobiliza tropas visíveis e não produz imagens chocantes, ainda assim, atinge diretamente a espinha dorsal das economias avançadas e das estruturas de comando contemporâneas.
A reação europeia a esse desafio tem sido sintomática de uma fragilidade estrutural mais profunda, embora a OTAN tenha reconhecido formalmente os cabos submarinos como infraestrutura crítica e criado iniciativas de monitoramento e proteção, a resposta permanece reativa, fragmentada e excessivamente dependente de consensos políticos lentos, a dificuldade de atribuir responsabilidades com alto grau de certeza paralisa decisões, enquanto o receio de escalada impede medidas dissuasórias mais claras.
O resultado é uma assimetria estratégica persistente, Moscou opera em um regime de tolerância ao risco elevado, amparada pela ambiguidade e pela negação plausível, a Europa, por sua vez, permanece presa a um modelo jurídico normativo concebido para um ambiente de paz ou de guerra declarada, mas inadequado para um conflito permanente, difuso e tecnicamente opaco, cada novo incidente reforça a normalização da instabilidade, deslocando a percepção do conflito do campo da segurança estratégica para o da gestão administrativa de crises.
Mais do que um vetor isolado, os cabos submarinos exemplificam a lógica mais ampla da guerra híbrida russa: pressionar sem declarar, desestabilizar sem assumir autoria e corroer a confiança sistêmica do adversário ao longo do tempo. Ao manter a ameaça sempre implícita, mas nunca plenamente materializada, Moscou preserva a iniciativa estratégica e impõe à Europa um dilema permanente entre agir sem provas conclusivas ou aceitar a erosão gradual de sua segurança.
Nesse sentido, a guerra no fundo do mar não é periférica, nem futura, ela já está em curso, integrada a um regime de conflito permanente no qual a distinção entre paz e guerra perde relevância operacional, ignorar essa dimensão não reduz o risco, apenas transfere a vantagem estratégica para quem compreendeu, antes, que a infraestrutura é o novo campo decisivo do poder.
 
A guerra híbrida russa opera abaixo do limiar do conflito convencional, combinando desinformação, sabotagem e pressão estratégica para desgastar a coesão política e institucional da União Europeia sem recorrer a uma guerra declarada.

O Objetivo Estratégico Russo: Paralisia, Não Conquista
 
É fundamental compreender que a estratégia russa contemporânea não tem como objetivo prioritário a ocupação militar do território europeu, tampouco a deflagração de uma guerra convencional direta contra a OTAN. Tal cenário seria excessivamente custoso, previsível e, sobretudo, contraproducente para os interesses estratégicos de Moscou. Em vez disso, o padrão de comportamento observado aponta para uma lógica distinta: ações limitadas, ambíguas e calibradas para gerar impacto político desproporcional, sem ultrapassar o limiar que justificaria uma resposta militar plena.
Incidentes como a penetração de drones de origem russa no espaço aéreo da Polônia, País-membro da OTAN, ilustram com clareza essa dinâmica. Essas ações, ainda que tecnicamente modestas, cumprem múltiplas funções estratégicas simultâneas: testam os mecanismos de resposta coletiva, expõem divergências internas sobre escalada e atribuição de responsabilidade, e impõem custos políticos aos governos afetados. O elemento central não é o dano material, mas a incerteza deliberadamente produzida em torno da intenção, da autoria e da proporcionalidade da resposta.
O objetivo real, portanto, não é a conquista territorial, mas a paralisia estratégica do adversário, Moscou busca transformar a Europa em um espaço politicamente fragmentado, juridicamente hesitante e operacionalmente assimétrico, no qual cada Estado reage de acordo com suas próprias percepções de risco, interesses domésticos e limites políticos, nesse ambiente, a coesão deixa de ser automática, e cada crise é tratada como exceção, jamais como parte de um padrão estrutural de conflito.
Esse processo possui um efeito cumulativo, cada ataque híbrido que não gera resposta significativa, cada sabotagem tratada como incidente isolado, cada campanha de desinformação dissolvida em debates intermináveis sobre liberdade de expressão contribui para a normalização da instabilidade, a vitória, nesse modelo, não se mede em quilômetros conquistados ou forças derrotadas, mas em instituições enfraquecidas, sociedades polarizadas e alianças progressivamente esvaziadas de credibilidade estratégica.
Nesse contexto, a dissuasão tradicional não desaparece, mas perde parte de sua eficácia, instrumentos concebidos para responder a ameaças claras, identificáveis e simétricas mostram-se inadequados diante de ações deliberadamente ambíguas, reversíveis e juridicamente contestáveis, quando o adversário não busca escalada aberta, mas hesitação prolongada, o cálculo estratégico desloca-se do campo estritamente militar para os domínios político, jurídico e psicológico.
Ao elevar o custo político de qualquer resposta firme, ao desgastar a confiança pública nas instituições e ao explorar a fadiga social produzida por crises sucessivas, a Rússia amplia sua liberdade de manobra estratégica. O êxito dessa abordagem reside precisamente em sua visibilidade parcial: suficientemente evidente para gerar inquietação, mas ambígua o bastante para bloquear consensos decisórios. Uma guerra declarada mobiliza sociedades, uma guerra ambígua as confunde, divide e exaure. 
 
A Normalização do Conflito como Estratégia de Poder
 
A guerra invisível conduzida pela Rússia contra a Europa não é um desvio da normalidade internacional, ela é, para Moscou, a própria normalidade, tornando um modelo de poder que rejeita a distinção entre tempos de guerra e tempos de paz, substituindo-a por um estado permanente de confronto controlado. Drones sobre bases militares, cabos submarinos monitorados, fluxos energéticos manipulados, narrativas infiltradas no debate público e operações clandestinas conduzidas por serviços de inteligência não são exceções, mas componentes de uma mesma arquitetura estratégica.
 
Mapa da atividade de drones registrada na Europa em 2025 — que inclui a suspeita de incursão de drone russo na Polônia e casos próximos a aeroportos e bases militares

O maior risco para a Europa não é a escalada súbita para um conflito aberto, mas a habituação progressiva à agressão, esse processo produz um deslocamento gradual do limiar de tolerância estratégica, no qual ações antes consideradas inaceitáveis passam a ser absorvidas como parte do ambiente normal de segurança. Quando sabotagens passam a ser tratadas como incidentes rotineiros, quando ataques cibernéticos se tornam estatísticas e quando campanhas de desinformação são absorvidas como ruído de fundo, o objetivo russo já foi parcialmente alcançado, a guerra não precisa ser vencida, basta que ela deixe de ser reconhecida como tal.
 A realidade, na prática, faz com que a dissuasão deixa de operar por medo da retaliação e passa a ser corroída pela repetição controlada, a ausência de resposta proporcional não é interpretada como prudência, mas como previsibilidade explorável.
Compreender essa lógica é o primeiro passo para enfrentá-la. Enquanto a Europa insistir em reagir a cada episódio de forma isolada, Moscou continuará operando com vantagem estratégica. A guerra já começou, mas não nos campos de batalha tradicionais, mas nas zonas cinzentas onde a ambiguidade é arma, o tempo é aliado e a invisibilidade é método, Ignorar não a faz desaparecer, apenas a torna mais eficaz.
 
Espionagem, Sabotagem e Operações Clandestinas na Europa
  
A guerra da Rússia contra a Europa não começou em Donetsk, nem no dia em que tanques cruzaram a fronteira ucraniana em 2022. Ela já se desenrolava silenciosamente em portos escuros do Mar Báltico, em cabos submarinos nunca noticiados, em igrejas Moldavas infiltradas, em reatores nucleares escaneados por drones, em servidores violados durante a madrugada em Tallinn e em corredores políticos de Berlim, onde a energia russa moldava decisões estratégicas. A guerra já estava em curso quando ninguém a reconhecia, hoje, ela não apenas existe, ela se intensifica, é uma guerra invisível para muitos, mas absolutamente real para quem observa com atenção o funcionamento dos serviços de inteligência, das redes de influência, dos ataques híbridos e das manobras energéticas que moldam o tabuleiro geopolítico europeu.
O primeiro front desse conflito é silencioso: espionagem, sabotagem e operações clandestinas. O GRU, serviço de inteligência militar da Rússia, com raízes que remontam à clandestinidade soviética e às operações atrás das linhas alemãs na Segunda Guerra Mundial, é hoje o principal instrumento de operações agressivas na Europa.

Vladimir Putin during a 2006 visit to GRU headquarters
Vladimir Putin durante uma visita de 2006 à sede da GRU Foto: DMITRY ASTAKHOV / EPA-EFE / REX / Shutterstock 
 
Ao longo da última década, esse padrão operacional não apenas se consolidou, ele se intensificou em audácia, frequência e grau de risco assumido. A progressão é visível: de ações encobertas voltadas à sabotagem logística para operações de alto impacto político realizadas em pleno território europeu. Nesse contexto, o episódio que melhor sintetiza essa escalada foi a tentativa de assassinato de Sergei Skripal, um ex-oficial de inteligência que rompeu com o Kremlin e passou a colaborar com o Ocidente.
Em 2018, na cidade de Salisbury, no Reino Unido, Skripal foi envenenado com um agente químico do grupo Novichok, uma substância desenvolvida durante o período soviético e classificada como arma química proibida por convenções internacionais. A operação, posteriormente atribuída a agentes do GRU, rompeu um limite que até então permanecia implícito: o uso de um agente químico em território de um país membro da OTAN.
O risco envolvido não era apenas operacional, mas estratégico. Ao empregar um método tão rastreável e politicamente sensível, Moscou abriu mão, em certa medida, da própria negação plausível, um dos pilares clássicos da guerra híbrida. Isso sugere que o objetivo da operação transcendia a eliminação de um indivíduo específico. Tratava-se, sobretudo, de uma ação de caráter demonstrativo.
Nesse sentido, o episódio se insere em uma lógica mais ampla de sinalização estratégica. Ao atingir um desertor em solo europeu, utilizando um instrumento proibido e de alta visibilidade internacional, a Rússia não apenas executava uma operação clandestina, ela comunicava. Comunicava aos serviços de inteligência ocidentais, às lideranças políticas europeias e, principalmente, a indivíduos dentro de seu próprio círculo de poder que a ruptura com o Estado russo carrega custos que ultrapassam fronteiras geográficas e jurídicas.
O recado, ainda que não declarado, foi direto: a distância não oferece proteção, e o tempo não garante esquecimento. Dentro dessa lógica, a guerra híbrida deixa de operar apenas na sombra e passa, em momentos específicos, a se tornar deliberadamente visível, não como falha, mas como instrumento. A visibilidade, nesse caso, não enfraquece a operação, ela é parte essencial do seu efeito.
 
Ex-espião foi envenenado por agente nervoso Foto: RTR via Reuters TV
 Ex-espião foi envenenado por agente nervoso Foto: RTR via Reuters TV 
 
Russos apontados pelo Reino Unido como suspeitos do caso Skripal dão entrevista ao canal RT — Foto: RT/Handout via Reuters
Russos apontados pelo Reino Unido como suspeitos do caso Skripal dão entrevista ao canal RT em 2018, Alexander Petrov e Ruslan Boshirov foram apontados como suspeitos de envenenar o ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha, Yulia Skripal. Foto: RT/Handout via Reuters 
 
Russos suspeitos de envenenar Sergei Skripal em março no Reino Unido foram registrados em câmera de segurança em estação de trem na cidade de Salisbury  — Foto: Metropolitan Police via AP
 Russos suspeitos de envenenar Sergei Skripal em março de 2018 no Reino Unido foram registrados em câmera de segurança em estação de trem na cidade de Salisbury — Foto: Metropolitan Police via AP 
 
Desde então, a leitura europeia deixou de tratar esses episódios como anomalias e passou a reconhecê-los como parte de uma engrenagem estratégica coerente. A inflexão ocorre em 2021, quando o governo da República Tcheca torna pública uma conclusão que, até então, operava no campo das suspeitas: a explosão dos depósitos de munição em Vrbětice, em 2014, não foi um acidente nem um ato isolado de sabotagem, mas uma operação conduzida por agentes do GRU, a mesma estrutura responsável por operações externas sensíveis do aparato militar russo.
O intervalo de sete anos entre a execução e a atribuição oficial não é um detalhe secundário; ele é, na verdade, parte integrante da própria lógica operacional. A guerra híbrida russa se alimenta do tempo, da ambiguidade e da dificuldade de prova. Ao agir nas chamadas zonas cinzentas, Moscou explora precisamente o espaço onde a resposta política e jurídica europeia se torna lenta, fragmentada e, muitas vezes, hesitante.
O alvo da operação também não foi escolhido de forma aleatória. Os depósitos armazenavam material que, direta ou indiretamente, poderia ser destinado à Ucrânia, um ponto sensível dentro da estratégia russa já naquele momento, anos antes da escalada aberta de 2022. Ao destruir essa infraestrutura, a Rússia não apenas interrompia um fluxo logístico específico, mas testava algo mais relevante: a capacidade europeia de detectar, atribuir e reagir a uma ação clandestina em seu próprio território.
Há um elemento adicional que torna esse episódio ainda mais revelador. Os agentes envolvidos foram posteriormente associados a outras operações fora da Rússia, incluindo o Envenenamento de Sergei Skripal. Isso indica não apenas continuidade operacional, mas a existência de unidades especializadas em ações de alto risco, capazes de transitar entre sabotagem, assassinato seletivo e operações de desestabilização, sempre sob a proteção da negação plausível.
O caso Vrbětice, portanto, não é apenas um evento retrospectivo que veio à tona tardiamente. Ele funciona como uma peça de evidência dentro de um padrão mais amplo: a disposição russa de projetar poder dentro da Europa sem cruzar formalmente o limiar da guerra. O que está em jogo não é a destruição imediata, mas o desgaste progressivo, da confiança, da segurança e, sobretudo, da percepção de controle por parte dos Estados europeus.
Quando observado em conjunto com outros episódios, o recado se torna claro: a guerra híbrida não começa quando é percebida, ela começa muito antes, e só se torna visível quando seus efeitos já estão em curso
 
Investigação conduzida por Praga apontou que dois agentes russos causaram explosões que destruíram um depósito de armamentos. Registro do fim do combate às chamas após explosão do depósito de armas de Vrbetice (Foto: Reprodução/Twitter/Filip Horky)
 
Em 2023, autoridades polonesas revelaram infiltrações de células financiadas pelo Kremlin para monitorar bases aéreas da OTAN e registrar movimentação de armamentos destinados a Kiev. No ano de 2024, a Noruega confirmou múltiplos avistamentos de drones operando perto de plataformas de petróleo e instalações militares, muitos deles identificados como equipamentos usados rotineiramente por unidades de reconhecimento russas. E em seguida, 2025, investigações conjuntas entre Estônia, Finlândia e Suécia revelaram operações de mapeamento clandestino da infraestrutura elétrica e de cabos submarinos, conduzidas por embarcações associadas ao Ministério da Defesa russo.
 
Ministro da Defesa não deu mais detalhes do caso, mas afirmou se tratar de uma 'ameaça real'
Ministro da Defesa não deu mais detalhes sobre a rede de espionagem Russa na Polônia, mas afirmou se tratar de uma 'ameaça real' — Foto: Divulgação/Ministério da Defesa Nacional da Polônia
 
No vocabulário da inteligência e da contrainteligência, o termo células não designa grandes redes de espionagem clássicas, mas sim núcleos operacionais clandestinos, pequenos, compartimentados e de baixa visibilidade. Essas estruturas são concebidas para operar com autonomia limitada, evitando conexões diretas entre seus integrantes e dificultando a identificação de um comando central, é um modelo amplamente utilizado por serviços de inteligência contemporâneos por sua resiliência, baixo custo e elevada capacidade de negação plausível.
No caso revelado pelas autoridades da Polônia em 2023, essas células atuavam fora dos canais diplomáticos formais e não se apresentavam como agentes estatais declarados. Eram compostas, majoritariamente, por civis recrutados localmente, intermediários logísticos ou indivíduos com acesso cotidiano a áreas sensíveis, como arredores de bases aéreas, rotas ferroviárias e centros de transporte militar. O vínculo com o Estado russo ocorria de forma indireta, por meio de financiamento, orientação estratégica e canais de comunicação clandestinos, o que permitia ao Kremlin manter distância formal das operações.
A função principal dessas células não era realizar atos de sabotagem ou ataques diretos, mas sim coletar inteligência tática e operacional, isso incluía o monitoramento de bases aéreas da OTAN, a observação de movimentações logísticas, o registro de horários, padrões de transporte e tipos de armamentos, além da identificação de fluxos recorrentes de apoio militar destinados à Kiev, informações aparentemente fragmentadas, quando consolidadas, permitem mapear a retaguarda estratégica europeia e antecipar decisões militares.
Esse tipo de estrutura reflete uma lógica central da guerra híbrida russa, na qual a coleta de dados, a vigilância persistente e a exploração de brechas institucionais substituem confrontos diretos, ao operar abaixo do limiar do conflito armado, essas células desgastam a segurança coletiva sem provocar uma resposta militar imediata, transformando espaços civis e infraestruturas logísticas em alvos permanentes de inteligência. O resultado é um ambiente de pressão contínua, no qual democracias abertas enfrentam dificuldades para neutralizar ameaças que não se manifestam de forma ostensiva.
Paralelamente, o FSB, o serviço de segurança interna da Rússia, herdeiro direto da KGB, expandiu sua atuação externa. Tradicionalmente voltado para controle doméstico, o FSB passou a operar na Europa para neutralizar dissidentes, infiltrar redes de influência e coordenar ações de desinformação em igrejas ortodoxas, partidos políticos e meios de comunicação alternativos.
Em 2023, autoridades moldavas e as agências Reuters revelaram que padres ortodoxos estavam recebendo financiamento russo para disseminar narrativas anti União Europeia, criando um ambiente de desconfiança, medo e polarização. 
 
Cirilo I
Cirilo I, líder da Igreja Ortodoxa Russa e aliado de Vladimir Putin. fonte: Mikhail Svetlov/Getty Images

A partir de 2022, a Alemanha passou a lidar com um dos episódios mais sensíveis de infiltração em sua estrutura de inteligência desde o fim da Guerra Fria. Em dezembro daquele ano, o BND anunciou a prisão de um de seus próprios funcionários, identificado como Carsten L., sob suspeita de repassar informações classificadas ao FSB. A operação não foi resultado de detecção interna isolada, mas contou com alertas de serviços de inteligência aliados, o que por si só já indicava a gravidade da falha.
 
Serviço Federal de Inteligência da Alemanha (BND) - Sputnik Brasil
O Bundesnachrichtendienst (BND) - Serviço Federal de Informações,  concentra a coleta e a análise de informações externas, operando no núcleo da avaliação estratégica alemã sobre riscos políticos, militares e dinâmicas internacionais.
 
Ao longo de 2023, a investigação revelou um padrão que vai além da espionagem tradicional, Carsten L. não atuava na periferia do sistema, mas em um setor com acesso a relatórios estratégicos sobre a Rússia e o ambiente de segurança europeu. Com o auxílio de um intermediário, o empresário Arthur E., documentos sensíveis foram extraídos e transferidos, em alguns casos por meios físicos, um indicativo de que a operação buscava reduzir exposição digital e dificultar rastreamento.
O ponto central, no entanto, não está apenas no vazamento de dados, mas na natureza do material comprometido. Não se tratava apenas de informações coletadas, mas de análises produzidas. Isso significa que Moscou não apenas teve acesso ao que a Alemanha sabia, mas potencialmente ao modo como interpretava esse conhecimento, quais cenários considerava plausíveis e quais decisões projetava. Em termos estratégicos, essa diferença é decisiva.
Quando o caso chega ao seu estágio judicial em 2024, ele já não é mais apenas uma investigação criminal, ele se torna um reflexo de uma vulnerabilidade estrutural. A infiltração de um agente dentro do próprio aparelho de inteligência expõe não apenas falhas de segurança, mas limitações mais profundas na capacidade de proteger processos analíticos e fluxos de decisão. A distinção entre coleta de informação e influência sobre a interpretação dessa informação passa a se tornar difusa.
Nesse contexto, o episódio alemão reforça uma tendência mais ampla, a atuação russa não se limita a observar ou interferir à distância, ela busca, de forma persistente, operar dentro das estruturas do adversário, onde o impacto não é imediato, mas progressivo, silencioso e, sobretudo, difícil de mensurar.
 Um aspecto relevante do caso diz respeito à própria identificação do agente, o funcionário do BND é oficialmente referido como Carsten L., e não há divulgação pública de seu nome completo ou imagem. Essa forma de identificação não corresponde a um pseudônimo operacional, mas sim a uma prática padrão do sistema jurídico alemão, que restringe a exposição integral de suspeitos em investigações de segurança nacional e processos em andamento.
Do ponto de vista técnico, isso implica uma limitação informacional importante, a ausência de identificação completa reduz a possibilidade de verificação independente sobre o perfil do agente, seu histórico profissional e eventuais conexões externas, concentrando a maior parte das informações disponíveis em fontes institucionais e relatórios oficiais.
Além disso, não há registros visuais confirmados do indivíduo em circulação pública, o que é consistente com o perfil de funcionários de serviços de inteligência, especialmente aqueles alocados em áreas sensíveis. Esse fator reforça o caráter opaco do caso e dificulta a construção de uma narrativa pública mais detalhada sobre a extensão da infiltração.
Essas ações clandestinas se expandem para além de pessoas, elas atingem a própria arquitetura física que sustenta o funcionamento das sociedades europeias. Desde 2022, a infraestrutura submarina passou a ocupar um lugar central nesse cenário, não apenas como suporte técnico, mas como alvo estratégico, cabos de telecomunicações e energia, responsáveis por conectar economias, sistemas militares e fluxos de informação, tornaram-se um dos pontos mais vulneráveis do continente.
Um dos episódios mais reveladores dessa dinâmica ocorreu no Ártico, envolvendo o sistema de cabos submarinos que conecta o arquipélago de Svalbard ao território continental da Noruega, operado pela Space Norway, esse sistema não se limita a comunicações civis. Ele sustenta uma das principais infraestruturas globais de recepção de dados de satélites, beneficiada pela posição geográfica única de Svalbard, que permite contato frequente com satélites em órbita polar.
 
Update: Undersea fiber link to Svalbard returns to full redundant service  with temporary fix awaiting cable vessel - Space Intel Report
Sistema de cabos submarinos que conecta o arquipélago de Svalbard ao território continental da Noruega. Fonte: Space Intel 
 
Em janeiro de 2022, um dos cabos foi danificado em profundidades superiores a dois mil metros, em uma área onde intervenções são tecnicamente complexas e estatisticamente incomuns. A falha foi classificada pelas autoridades norueguesas como resultado de uma “influência externa”, sem que uma causa definitiva fosse publicamente estabelecida. Investigações independentes apontaram a presença recorrente de embarcações russas na região no período do incidente, incluindo cruzamentos sobre a rota do cabo no momento da falha, ainda assim, nenhuma atribuição formal foi feita.
Essa combinação, dano real, contexto estratégico sensível e ausência de prova conclusiva, não representam uma falha analítica, mas sim uma característica central da guerra híbrida contemporânea. Se tratando de um ambiente operacional onde a ação existe, mas a autoria permanece deliberadamente difusa, protegida pelo princípio da negação plausível.
Quando analisado isoladamente, o caso de Svalbard pode ser interpretado como um incidente técnico raro, no entanto, sua relevância se amplia ao ser inserido em um padrão mais amplo de eventos registrados na Europa desde 2022. A sabotagem dos gasodutos Nord Stream, no Mar Báltico, representou a forma mais explícita dessa dinâmica, com destruição física confirmada e impacto direto sobre a segurança energética europeia. Em paralelo, uma série de incidentes envolvendo cabos submarinos de telecomunicações entre países como Finlândia, Estônia e Suécia passou a ser registrada, frequentemente associados a atividades marítimas suspeitas, ainda que sem conclusões definitivas sobre intenção ou responsabilidade.
O que conecta esses episódios não é a prova direta de sabotagem em todos os casos, mas a recorrência de um padrão operacional: alvos não militares, porém críticos, danos localizados com impacto sistêmico; ambiguidade persistente na atribuição, e dificuldade de resposta proporcional por parte dos Estados afetados.
Nesse contexto, o domínio submarino emerge como um dos principais espaços cinzentos da guerra contemporânea, esses sistemas, responsáveis por sustentar a maior parte do tráfego global de dados e fluxos energéticos, permanecem amplamente expostos, parcialmente enterrados e distribuídos ao longo de milhares de quilômetros de difícil monitoramento. A combinação entre acessibilidade técnica e baixa visibilidade transforma essa infraestrutura em um vetor ideal para operações clandestinas.
O caso de Svalbard, portanto, não deve ser interpretado apenas como um evento isolado, mas como um indicativo de uma transformação mais ampla. Ao lado dos ataques ao Nord Stream e dos incidentes recorrentes no Mar Báltico, ele sugere que a projeção de poder no espaço europeu passou a incorporar, de forma sistemática, a exploração da vulnerabilidade de infraestruturas críticas. Mais do que interromper comunicações ou fluxos energéticos, esse tipo de ação opera sobre a percepção de segurança, introduzindo incerteza, elevando custos e testando, de forma contínua, a capacidade de resposta das democracias europeias.
Em 2023 e 2024, governos europeus relataram movimentações incomuns de embarcações russas próximas às rotas que conectam a Europa aos Estados Unidos, incluindo o navio espião Yantar e submarinos de propósitos especiais capazes de cortar ou interferir em cabos a grandes profundidades. A OTAN, preocupada com o cenário, criou um centro dedicado à proteção dessas estruturas em North Wood (Distrito da cidade de Londres), no Reino Unido. Mas o consenso entre analistas é firme: a capacidade russa nesse domínio é uma das mais avançadas do mundo, e a Europa está atrasada.
 
Marinha do Reino Unido escolta o navio-espião russo Yantar após detectá-lo durante passagem por águas britânicas — Foto: Divulgação/Royal Navy
 Marinha do Reino Unido escolta o navio-espião russo Yantar após detectá-lo durante passagem por águas britânicas — Foto: Divulgação/Royal Navy https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/09/29/navio-espiao-russo-e-nova-ameaca-para-rede-de-cabos-submarinos.ghtml
 
Para além dos episódios de grande repercussão, a guerra invisível russa se manifesta por meio de ações de baixa intensidade, mas alta frequência. Incêndios em centros logísticos na Polônia e na Alemanha, falhas inexplicadas em linhas ferroviárias estratégicas, danos pontuais a sistemas de sinalização e ataques a depósitos civis próximos a rotas militares formam um padrão de sabotagem silenciosa. Individualmente, esses eventos parecem acidentes ou criminalidade comum, coletivamente, compõe uma campanha de desgaste destinada a testar resiliência, provocar custos econômicos e normalizar a instabilidade como condição permanente no espaço europeu.
 Esse tipo de ação opera sob o princípio da negação plausível, no qual a ausência de provas conclusivas impede respostas proporcionais, mesmo diante de um padrão recorrente de hostilidade.
 Mais do que causar dano físico imediato, essas operações visam saturar os sistemas de alerta, investigação e decisão da Europa, transformando cada incidente em um dilema político e jurídico, e não em um gatilho de resposta estratégica.
 
 Energia, Economia e Dependência Estratégica como Instrumentos de Coerção
 
Se a infraestrutura física está sob ameaça, a infraestrutura energética tornou-se o campo de batalha mais visível. A Europa acreditou por décadas que o comércio de gás criava estabilidade. Mas para Moscou, o gás sempre foi instrumento de coerção política. Desde a crise do gás de 2006, passando pela interrupção de 2009 e pelos reajustes estratégicos posteriores à anexação da Crimeia em 2014, a Rússia aperfeiçoou o uso da energia como arma geopolítica. 
O Nord Stream 2, tratado por muitos como um projeto econômico, era, para o Kremlin, um mecanismo de influência direta sobre o coração da Europa. Com a invasão da Ucrânia em 2022, a Rússia reduziu drasticamente o fornecimento para gerar pressão social e econômica. A explosão dos gasodutos Nord Stream 1 e 2, ainda sem autoria oficialmente esclarecida, simbolizou a vulnerabilidade da Europa diante de guerra energética e híbrida, nesse contexto, a interdependência econômica deixa de ser um mecanismo de estabilidade e passa a operar como arma estratégica, na qual a assimetria de dependência define quem suporta o custo do confronto.
 
Dutos nas instalações de terra firme do gasoduto 'Nord Stream 1' em Lubmin / REUTERS/Hannibal Hanschke
Dutos nas instalações de terra firme do gasoduto 'Nord Stream 1' em Lubmin / REUTERS/Hannibal Hanschke
 
Fugas de gás no Báltico e registo de explosões aumentam tese de sabotagem |  Euronews
Nord Stream 1 e 2. Fonte: EuroNews.
 
Em 26 de setembro de 2022, quatro grandes vazamentos foram detectados nos gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2, localizados no fundo do Mar Báltico, nas proximidades das zonas econômicas exclusivas da Dinamarca e da Suécia. Investigações preliminares conduzidas por autoridades europeias identificaram sinais claros de explosões submarinas deliberadas, indicando um ato de sabotagem contra uma das mais importantes infraestruturas energéticas da Europa.
 
Fotos tiradas por um F-16 mostram oceano borbulhando onde houve vazamento no Nord Stream 1
Fotos tiradas por um F-16 mostram oceano borbulhando onde houve vazamento no Nord Stream 1 — Foto: Reprodução/Exército da Dinamarca
 
 
Gasodutos Nord Stream 1 e 2 cruzam Mar Báltico ligando a Rússia à Alemanha — Foto: Arte O Globo
 Gasodutos Nord Stream 1 e 2 cruzam Mar Báltico ligando a Rússia à Alemanha — Foto: Arte O Globo
 
As detonações ocorreram a cerca de 70 a 90 metros de profundidade e liberaram enormes quantidades de gás natural na superfície do mar, criando grandes áreas de ebulição visíveis por satélites e embarcações na região. Embora o Serviço de Segurança Sueco e autoridades dinamarquesas tenham confirmado que se tratou de um ato intencional, a autoria do ataque permanece oficialmente indefinida.
A sabotagem dos gasodutos teve impacto imediato tanto no campo energético quanto no campo estratégico. Ainda que o Nord Stream 1 já estivesse com o fluxo interrompido por decisão de Moscou desde agosto de 2022, a destruição parcial da infraestrutura eliminou, ao menos no curto prazo, qualquer possibilidade de retomada rápida do fornecimento. O episódio evidenciou um novo nível de vulnerabilidade das infraestruturas críticas submarinas, que incluem não apenas gasodutos, mas também cabos de telecomunicações e energia que sustentam a economia global. Analistas de segurança europeus passaram a tratar o incidente como um marco na chamada guerra híbrida, na qual ataques indiretos contra infraestrutura estratégica tornam-se instrumentos de pressão geopolítica sem necessariamente desencadear um confronto militar aberto entre Estados. 
 Além do impacto econômico e energético, o episódio também teve consequências políticas significativas dentro da União Europeia. A destruição dos gasodutos acelerou o processo de diversificação energética europeia, intensificando a importação de gás natural liquefeito (GNL) proveniente dos Estados Unidos, do Catar e de outros fornecedores. Ao mesmo tempo, reforçou a percepção de que a dependência energética construída ao longo de décadas havia se transformado em uma vulnerabilidade estratégica, obrigando governos europeus a repensarem a segurança de suas cadeias de abastecimento e a proteção de infraestruturas críticas no ambiente marítimo.
 
Um navio é abastecido de gás liquefeito para chegar aos EUA. Política tarifária de Trump aflige o setor
Um navio é abastecido de gás liquefeito para chegar aos EUA. Foto: Divulgação, O Globo.
 
 Para além do gás e do petróleo, a Europa permanece vulnerável em setores menos visíveis, porém estratégicos, ligados a matérias-primas críticas. Mesmo após 2022, países europeus continuam dependentes de fornecedores russos ou de Estados alinhados a Moscou para insumos como urânio enriquecido utilizado em usinas nucleares, titânio essencial às indústrias aeroespacial e de defesa, e fertilizantes fundamentais para a segurança alimentar, essa dependência cria um poder estrutural silencioso, que limita opções políticas e permite ao Kremlin exercer pressão indireta sem recorrer a confrontos abertos.
Para além da energia e da sabotagem física, a guerra invisível russa opera no campo da economia política, as sanções impostas após 2014 e intensificadas em 2022 não interromperam a capacidade de Moscou de financiar o conflito, elas transformaram a economia russa em um sistema adaptativo de evasão, triangulação comercial e captura indireta de mercados, por meio de intermediários na Ásia, no Oriente Médio e no Cáucaso, o Kremlin redirecionou fluxos de exportação, especialmente de petróleo e derivados, mantendo receitas suficientes para sustentar sua máquina militar.
Nesse contexto, a triangulação comercial emerge como um dos principais mecanismos utilizados para reduzir os efeitos práticos das sanções econômicas. Esse mecanismo ocorre quando um terceiro Estado, empresa intermediária ou rede de comerciantes passa a atuar como elo entre o País sancionado e o mercado final, permitindo que produtos continuem circulando no comércio internacional sem que sua origem inicial apareça de forma direta nas cadeias logísticas ou nos registros comerciais. Em vez de interromper completamente os fluxos comerciais, as sanções frequentemente provocam uma reorganização das rotas de exportação e importação, criando camadas intermediárias que tornam mais difícil rastrear a origem real das mercadorias.
 
Comércio com a Rússia depois da invasão à Ucrânia — Foto: Editoria de Arte
 Comércio com a Rússia depois da invasão à Ucrânia, novembro de 2022— Foto: Editoria de Arte
 
No caso russo, essa dinâmica tornou-se particularmente visível no setor energético, após a intensificação das sanções ocidentais, Moscou passou a redirecionar grandes volumes de petróleo para mercados dispostos a absorver o produto com desconto, especialmente em países da Ásia, parte desse petróleo é posteriormente refinada nesses países e retorna ao mercado internacional na forma de derivados como diesel, gasolina ou querosene, uma vez transformado, o produto passa a ser classificado como exportação do país refinador, e não mais como energia de origem russa. Esse processo cria uma zona cinzenta no comércio internacional, na qual a matéria-prima continua sendo russa, mas o produto final passa a circular sob outra identidade comercial.
A triangulação comercial também aparece no fluxo de tecnologia e equipamentos industriais. Componentes eletrônicos, máquinas e sistemas produzidos em países que aderiram às sanções podem ser exportados inicialmente para Estados que mantêm relações comerciais abertas com Moscou, como Turquia, Emirados Árabes Unidos, Cazaquistão ou Armênia, e posteriormente reexportados para o mercado russo. Em muitos casos, esses itens são classificados como “bens de uso dual”, categoria que engloba produtos capazes de ter aplicações tanto civis quanto militares. Essa rede de reexportação tornou-se uma das principais preocupações das autoridades ocidentais, pois permite que a Rússia continue adquirindo componentes essenciais para setores estratégicos, incluindo sua indústria de defesa.
 
Triangulação Comercial

O resultado é que as sanções, embora imponham custos relevantes à economia russa, não produzem isolamento absoluto. Em vez disso, incentivam a formação de redes comerciais alternativas, novos corredores logísticos e sistemas financeiros paralelos. A triangulação comercial passa, portanto, a desempenhar um papel central nessa adaptação econômica, permitindo que Moscou mantenha receitas provenientes das exportações de energia e preserve parte de suas cadeias de suprimento industrial, fatores fundamentais para sustentar tanto a estabilidade econômica interna quanto o financiamento prolongado do esforço militar.
Ao mesmo tempo, os custos dessas sanções recaem de forma assimétrica sobre as sociedades europeias, a inflação energética, a pressão sobre cadeias industriais e o aumento do custo de vida alimentam descontentamento interno, que por sua vez é explorado por campanhas de desinformação pró russas, a guerra econômica, nesse sentido, não busca colapsar a Europa, mas corroer sua coesão política por dentro, transformando medidas defensivas em fontes de instabilidade doméstica.
 Ao deslocar o impacto do conflito para o cotidiano das sociedades europeias, a guerra econômica amplia a paralisia decisória dos governos, que passam a equilibrar segurança estratégica e sobrevivência política doméstica.
 
A Frota Fantasma Russa: Guerra Híbrida no Domínio Marítimo
 
A guerra híbrida conduzida pela Rússia não se limita aos domínios mais visíveis do conflito contemporâneo, como o espaço aéreo, o ciberespaço ou o campo informacional, ela se projeta, de forma cada vez mais consistente, sobre o domínio marítimo, um espaço historicamente percebido como técnico - comercial e regulado, mas que hoje se revela uma das áreas mais vulneráveis da arquitetura de segurança europeia. Nesse cenário, a chamada frota fantasma russa emerge como um instrumento central de coerção indireta, ambiguidade estratégica e erosão institucional.
 
O petroleiro Bella-1, renomeado Marinera sob bandeira russa, que foi abordado pelos EUA
O petroleiro Bella-1, renomeado Marinera sob bandeira russa, que foi abordado pelos EUA. Fonte: Hakon Rimmereid - 18.mar.2025/Reuters
 
Esses navios não operam como meios militares convencionais, tampouco se apresentam como instrumentos explícitos de agressão. Justamente por isso, são eficazes, a frota fantasma não busca confronto, mas normalizar a instabilidade, não busca conquista territorial, mas paralisar a capacidade de reação do adversário, não busca violar normas de forma aberta, mas explorar sistematicamente suas zonas de silêncio, lacunas e ambiguidades.
A frota fantasma russa é composta majoritariamente por navios petroleiros envelhecidos, adquiridos após a imposição de sanções ocidentais ao setor energético russo. Esses navios são registrados sob bandeiras de conveniência, operados por empresas de fachada e frequentemente excluídos dos principais sistemas internacionais de seguro e certificação marítima. Formalmente, trata-se de embarcações privadas, funcionalmente, porém, elas operam alinhadas aos interesses estratégicos do Estado russo.
 
Navio Astrol 1
Navio Astrol 1 — Foto: Reprodução/X
 
Essa distinção é crucial, força da frota fantasma reside justamente no fato de que ela não pertence oficialmente ao Estado, o que dificulta a atribuição direta de responsabilidade política ou jurídica, cada navio é, ao mesmo tempo, um agente econômico e um vetor estratégico, navegando em um espaço onde o direito internacional marítimo se mostra lento, fragmentado e reativo.
O padrão operacional desses navios é relativamente consistente e amplamente documentado por autoridades marítimas e agências de monitoramento: Desligamento deliberado ou manipulação do sistema AIS (Automatic Identification System), dificultando rastreamento, transferências de carga navio a navio em águas internacionais, ocultando a origem do petróleo, rotas erráticas e pouco transparentes, frequentemente próximas a infraestruturas críticas, ausência de seguros reconhecidos internacionalmente, elevando riscos ambientais e financeiros, circulação constante em zonas onde a fiscalização depende de cooperação multilateral lenta, cada uma dessas práticas, isoladamente, pode ser enquadrada como irregularidade comercial, o ponto central é que elas ocorrem de forma sistemática e cumulativa, produzindo um efeito estratégico que vai muito além da evasão de sanções.
A frota fantasma transforma o espaço marítimo europeu em um ambiente permanente de incerteza estratégica, qualquer incidente envolvendo esses navios, vazamentos, colisões, avarias ou simples violações administrativas, gera dilemas imediatos para os Estados europeus, intervir pode significar escalada política, não intervir reforça a percepção de fragilidade institucional.
Esse dilema não é acidental, ele explora uma vulnerabilidade estrutural da Europa: a dependência de processos jurídicos complexos, consensos políticos lentos e mecanismos regulatórios pensados para tempos de normalidade, a frota fantasma opera exatamente fora desse horizonte, forçando respostas sempre tardias, fragmentadas e defensivas.
Nesse sentido, a ameaça não está apenas no que esses navios fazem, mas no que eles obrigam as instituições europeias a não conseguirem fazer, a presença recorrente desses navios em áreas próximas a cabos submarinos de telecomunicações e energia adiciona uma camada adicional de risco estratégico. Esses cabos sustentam comunicações governamentais, fluxos financeiros, sistemas militares e a economia digital europeia, a simples circulação de navios operando fora da normalidade nesses espaços já cumpre um papel coercitivo.
Não é necessária a sabotagem direta para produzir efeito estratégico, basta a introdução permanente de ambiguidade: quem vigia e quem responde, sob qual base legal e em que momento, a frota fantasma transforma o mar em um espaço onde a distinção entre atividade civil e ação hostil se dissolve gradualmente, esse é o funcionamento clássico da zona cinzenta: operar abaixo do limiar que justificaria uma resposta firme, mas acima do nível que permitiria ignorar o problema.
Mais do que contornar sanções, a frota fantasma serve a um objetivo estratégico mais amplo: a paralisia decisória europeia, cada navio operando nessas condições representa um teste contínuo à capacidade da Europa de agir como ator estratégico coeso, o custo não é apenas econômico ou ambiental, é político, jurídico e psicológico.
No plano jurídico, a situação revela as limitações do direito marítimo internacional e dos mecanismos de aplicação das sanções. Muitas dessas embarcações operam com bandeiras de conveniência, registros em paraísos regulatórios e cadeias opacas de propriedade que dificultam a responsabilização legal. Essa arquitetura deliberadamente ambígua cria zonas cinzentas no sistema jurídico internacional: embora haja suspeitas claras de violação de sanções, a capacidade de comprovação e de aplicação efetiva da lei torna-se limitada, assim, cada operação bem-sucedida da frota fantasma expõe fragilidades estruturais do regime de sanções e da governança marítima global.
Por fim, existe um efeito psicológico frequentemente subestimado, a persistência dessas operações transmite a mensagem de que as sanções ocidentais são permeáveis e que Moscou possui capacidade de adaptação estratégica, para formuladores de políticas europeus, isso gera um ambiente de incerteza permanente: mesmo com sucessivos pacotes de sanções, a Rússia continua exportando petróleo e financiando sua máquina de guerra. Essa percepção corrói gradualmente a confiança na eficácia das medidas adotadas, produzindo um efeito de desgaste político interno e fortalecendo narrativas de impotência estratégica no interior das democracias europeias.
Ao longo do tempo, a repetição desses episódios produz um efeito cumulativo: a habituação estratégica, incidentes deixam de ser percebidos como ameaças e passam a ser tratados como ruído. É nesse ponto que a guerra híbrida atinge seu êxito mais sofisticado: não pela escalada, mas pela normalização do risco.
A frota fantasma russa não é um desvio tático nem uma resposta improvisada às sanções. Ela é uma extensão marítima coerente da doutrina russa de guerra híbrida, baseada na exploração de ambiguidades, na erosão da governança adversária e na recusa deliberada do confronto direto.
Esses navios não transportam apenas petróleo. Transportam instabilidade, dilemas jurídicos e desgaste institucional. Navegam em um espaço onde a guerra não é declarada, mas a paz já não existe plenamente. Ao tolerar sua operação contínua, a Europa não enfrenta apenas um desafio regulatório, mas um teste estratégico mais profundo: reconhecer que o conflito já se deslocou para domínios onde a exceção deixou de existir e a instabilidade passou a ser método.
 
Navio petroleiro Vladimir Monomakh, da Rosneft e com bandeira russa, transita pelo Bósforo em Istambul, Turquia 06/07/2023 REUTERS/Yoruk Isik
 Navio petroleiro Vladimir Monomakh, da Rosneft e com bandeira russa, transita pelo Bósforo em Istambul, Turquia 06/07/2023 REUTERS/Yoruk Isik 
 
 Migração, Pressão Política e Desestabilização Interna
  
A instrumentalização da migração consolidou-se, a partir de 2021, como um dos exemplos mais explícitos e documentados de guerra híbrida em solo europeu, o episódio envolvendo a Bielorrússia não foi um efeito colateral de instabilidade regional, mas uma operação deliberadamente conduzida pelo Estado, com objetivos políticos claros.
 Esse tipo de operação é descrito na literatura estratégica como a weaponização da migração, na qual fluxos humanos são deliberadamente manipulados para sobrecarregar sistemas institucionais, gerar crises políticas internas e deslocar o debate público do campo da segurança externa para o da controvérsia doméstica.
 
Fronteira Bielorrússia-UE
Bielorrússia leva imigrantes para divisa com UE e dá alicate para cortar cerca. Fonte: Poder 360.
 
O uso do conceito de weaponização nesse contexto não deve ser interpretado como recurso retórico ou exagero discursivo, mas como uma formulação técnica amplamente empregada nos estudos de segurança internacional e guerra híbrida. Ao falar em weaponização da migração, a literatura descreve um processo intencional de conversão de fluxos humanos em instrumentos de pressão estratégica, explorando vulnerabilidades institucionais, dilemas jurídicos e sensibilidades normativas próprias das democracias liberais. A eficácia dessa prática não reside na migração em si, mas no efeito sistêmico que ela produz: sobrecarga de sistemas de asilo, polarização do debate público, erosão da coesão política interna e deslocamento do foco estratégico do campo da segurança externa para disputas domésticas altamente sensíveis. Sendo, portanto, uma forma de coerção indireta que opera abaixo do limiar da guerra convencional, na qual o custo da resposta recai desproporcionalmente sobre o Estado-alvo, enquanto o ator que instrumentaliza o fluxo humano preserva a ambiguidade e evita a responsabilização direta.
 
Shwan Kurd disse que os imigrantes ficaram presos no lado da fronteira com Belarus
Muitos migrantes ficaram presos na fronteira entre a Polônia e Belarus. Fonte: Crédito, Shwan Kurd, 9 novembro 2021.
 
Sob o comando de Alexander Lukashenko, o regime bielorrusso passou a facilitar ativamente a chegada de migrantes oriundos do Oriente Médio e da África, sobretudo do Iraque, Síria e Afeganistão. Companhias aéreas estatais e privadas ampliaram voos para Minsk, vistos foram facilitados de maneira atípica, e, uma vez em território bielorrusso, esses grupos passaram a ser escoltados por forças de segurança até as fronteiras da Polônia, Lituânia e Letônia.
 
O presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, visita centro de imigrantes em Bruzgi, na fronteira com a Polônia Foto: MAXIM GUCHEK / AFP
Lukashenko visita fronteira com a Polônia e incentiva imigrantes a tentarem entrar na União Europeia.  Foto: MAXIM GUCHEK / AFP 
 
Não se tratava de migração espontânea, relatórios de governos europeus e de organizações internacionais documentaram a atuação direta de agentes bielorrussos, que indicavam rotas, forneciam ferramentas para cortar cercas e, em alguns casos, impediam o retorno dos migrantes ao interior da Bielorrússia, empurrando-os deliberadamente para zonas de fronteira militarizadas.
O objetivo era múltiplo e estratégico: Pressionar politicamente a União Europeia, especialmente após as sanções impostas a Minsk, testar a resiliência dos sistemas de controle de fronteiras e o funcionamento do Espaço Schengen, provocar crises políticas internas, alimentando tensões entre governos nacionais, parlamentos e opinião pública, explorar divisões ideológicas, sobretudo em países onde o tema migratório já era sensível e polarizador.
Espaço Schengen é a área de livre circulação europeia que elimina controle de fronteira entre os países participantes, concentrando a vigilância migratória nas fronteiras externas do bloco. 
Atualmente, o Espaço Schengen reúne 26 países europeus, permitindo a livre circulação entre eles. Desses, 22 fazem parte da União Europeia: Portugal, Alemanha, Bélgica, República Checa, Dinamarca, Estônia, Grécia, Espanha, França, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Hungria, Malta, Países Baixos, Áustria, Polônia, Eslovênia, Eslováquia, Finlândia e Suécia. Além disso, 4 países não pertencem à União Europeia, mas integram o espaço: Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça.
 
espaço schengen 01 - nacionalidade portuguesa
 O Espaço Schengen reúne 26 países europeus, permitindo a livre circulação entre eles. Fonte: www.supercambio.com.br.
 
Na Polônia, por exemplo, a crise foi rapidamente convertida em embate político interno, com acusações de violações de direitos humanos, disputas judiciais e tensão entre Varsóvia e Bruxelas. Na Lituânia e na Letônia, Estados menores e com recursos limitados, o impacto logístico e simbólico foi desproporcional, forçando estados de emergência e mobilização militar.
Embora formalmente conduzida pela Bielorrússia, essa operação não pode ser dissociada da lógica estratégica russa. Moscou não apenas manteve apoio político a Lukashenko como se beneficiou diretamente do efeito desestabilizador gerado na União Europeia, sem disparar um único tiro ou assumir responsabilidade direta. 
 Ao transformar fronteiras em arenas de disputa moral, jurídica e política, esse tipo de coerção desloca o centro da decisão estratégica europeia para um campo onde consenso é raro e respostas rápidas são politicamente custosas.
Esse episódio ilustra com clareza a essência da guerra híbrida contemporânea: fluxos humanos transformados em instrumentos de coerção, sofrimento civil convertido em arma política e a ambiguidade calculada como escudo contra retaliações diretas. Não é uma guerra declarada, mas uma ofensiva contínua contra a coesão interna, a legitimidade institucional e a estabilidade política dos Estados europeus.
 
A Geografia Funcional da Europa: Capitais, Eixos e o Significado Estratégico de Cada Região
 
A Europa contemporânea não se organiza apenas a partir de suas fronteiras formais ou da divisão clássica entre Estados, existe uma lógica mais profunda, menos visível, que estrutura o continente a partir de funções estratégicas bem definidas. Nesse cenário, determinadas capitais deixam de ser apenas centros administrativos e passam a representar papéis específicos dentro de um sistema mais amplo de poder, tensão e estabilidade, mais do que geografia, trata-se de uma arquitetura funcional.
No centro desse sistema está o núcleo decisório europeu, formado por Bruxelas (Bélgica), Paris (França), Berlim (Alemanha) e Londres (Reino Unido). Essas capitais concentram a capacidade de formulação política, coordenação estratégica e, em última instância, definição dos rumos do continente. Bruxelas funciona como o centro institucional, onde decisões são formalizadas e transformadas em diretrizes que afetam toda a União Europeia e a OTAN.
 
OTAN (Foto: Thierry Monasse / Colaborador)
Sede da OTAN, em Bruxelas, na Bélgica (Foto: Thierry Monasse / Colaborador)

Já Paris e Berlim operam como pilares complementares: a primeira com forte capacidade militar e ambição estratégica, a segunda com peso econômico e influência política estrutural. Londres, mesmo fora da União Europeia, permanece integrada ao núcleo de poder ocidental, sobretudo no campo da inteligência e da segurança, é nesse eixo que se definem respostas, se constroem consensos e se estabelecem os limites da ação europeia.

O Palácio do Eliseu, centro da política francesa Foto: Divulgação
 O Palácio do Eliseu, Paris, centro da política francesa Foto: Divulgação 
 
O novo prédio do Serviço Federal de Inteligência tem 14 mil janelas e 12 mil portas Foto: MICHAEL SOHN / AFP
Sede do Serviço federal de inteligência da Alemanha. Foto: MICHAEL SOHN / AFP
 
À medida que se desloca para o leste, essa lógica se transforma, capitais como Varsóvia (Polônia), Kiev (Ucrânia), Minsk (Bielorrússia) e Moscou (Rússia) compõem o principal arco de tensão do continente, diferentemente do núcleo ocidental, onde predomina a coordenação, essa região é marcada pela confrontação direta ou potencial. 
 
Fonte:  elaboração própria, com base em dados geopolíticos de OTAN, União Europeia e análises estratégicas do conflito no Leste Europeu.

Varsóvia assume o papel de linha avançada da OTAN, funcionando como um ponto de contenção e preparação, Kiev representa o espaço onde a disputa geopolítica se materializa de forma mais evidente, tornando-se o epicentro de uma redefinição de fronteiras de influência, Minsk atua como zona de projeção indireta de poder russo, enquanto Moscou permanece como o centro de decisão de uma estratégia que busca expandir ou preservar sua esfera de influência. Esse eixo oriental não apenas revela a tensão existente, mas também delimita até onde o sistema europeu consegue se estender sem entrar em confronto direto.
Mais ao norte, o cenário assume uma configuração distinta. Capitais como Estocolmo (Suécia) e Helsinque (Finlândia) não estão no centro da tomada de decisão nem na linha imediata de confronto, mas ocupam uma posição estratégica sensível. Essa região funciona como uma zona de transição entre estabilidade e tensão, onde as proximidades geográficas com a Rússia e a presença de infraestruturas críticas elevam sua relevância. Ao mesmo tempo, trata-se de um espaço altamente preparado, com Estados que investem em defesa, resiliência e integração com estruturas ocidentais. O norte europeu, nesse contexto, representa um ambiente de vigilância constante, onde o objetivo principal não é reagir a crises já instaladas, mas antecipar riscos e evitar que eles se concretizem.

Entre o Ártico e o Báltico, forma-se um novo escudo estratégico da OTAN. A entrada de Finlândia e Suécia redefine o equilíbrio regional e transforma o norte europeu em uma zona de vigilância permanente, onde antecipar ameaças é tão decisivo quanto responder a elas, especialmente diante da pressão geopolítica exercida pela Rússia.

No sul do continente, a dinâmica muda novamente, em Roma e Atenas, a relevância estratégica não está ligada à confrontação militar direta ou à tomada de decisão central, mas à gestão de pressões estruturais. Essa região concentra desafios que impactam diretamente a estabilidade interna da Europa, como crises econômicas recorrentes, instabilidade política e, sobretudo, fluxos migratórios intensos vindos do Norte da África e do Oriente Médio. Nesse contexto, o sul europeu funciona como uma espécie de zona de absorção de tensões externas, onde problemas que se originam fora do continente passam a produzir efeitos diretos dentro dele. A forma como essas capitais lidam com essas pressões influencia não apenas seus próprios países, mas a coesão de toda a União Europeia.
 
No sul europeu, Roma e Atenas atuam como pontos de absorção de pressões externas, onde fluxos migratórios e instabilidades vindas do Norte da África e do Oriente Médio impactam diretamente a coesão da União Europeia.
 
O que emerge dessa leitura é uma Europa organizada não apenas por Estados, mas por funções. Um núcleo que decide, uma fronteira que confronta, uma região que monitora e outra que absorve pressões. Cada uma dessas zonas cumpre um papel específico dentro de um sistema que busca equilibrar estabilidade interna com um ambiente externo cada vez mais volátil.
Compreender essa geografia funcional é essencial para entender o comportamento europeu diante de crises. As respostas não são uniformes porque as responsabilidades também não são. Cada região reage a partir do papel que ocupa dentro dessa estrutura, e é justamente essa distribuição de funções que permite ao continente sustentar, ainda que com dificuldades, um certo nível de equilíbrio em meio a um cenário de crescente complexidade geopolítica.
 
A Dimensão Cognitiva da Guerra Híbrida: medo, polarização e paralisia decisória
 
Se a sabotagem atinge a infraestrutura e a coerção energética pressiona a economia, é na mente coletiva das sociedades europeias que a guerra invisível russa encontra seu terreno mais fértil. Na literatura estratégica contemporânea, esse conjunto de práticas é descrito como guerra cognitiva: um esforço deliberado para moldar percepções, induzir dúvida, fragmentar consensos e interferir diretamente nos processos de decisão política do adversário, sem recorrer ao confronto militar direto. Moscou compreendeu, antes de muitos analistas ocidentais, que democracias liberais não colapsam necessariamente sob ataque direto, mas sob exposição contínua à instabilidade, à dúvida e à erosão da confiança pública, a guerra híbrida, nesse sentido, não busca a vitória militar clássica, mas a desorganização cognitiva do adversário.
 
Rede de agentes recrutados pela inteligência Rússia, ligados ao crime organizado para realizar atos de sabotagem em países da União Europeia. Fonte: Deutsche Welle
 
Democracias operam sobre consensos frágeis, decisões estratégicas exigem legitimidade política, apoio social, debate parlamentar e respaldo jurídico. Esse modelo, que em tempos de normalidade garante estabilidade, torna-se vulnerável quando submetido a uma sequência constante de choques de baixa intensidade. Incidentes isolados não derrubam governos, crises permanentes, sim, Moscou não aposta no colapso súbito, mas no desgaste cumulativo, no cansaço social e na normalização da exceção.
A instrumentalização da migração, a volatilidade energética, os ataques cibernéticos e as sabotagens pontuais não operam apenas no plano material, elas produzem efeitos psicológicos profundos: medo difuso, sensação de perda de controle e percepção de incompetência institucional, cada crise migratória fabricada nas fronteiras orientais da União Europeia reacende debates identitário, alimenta movimentos nacionalistas, radicaliza discursos políticos e fragmenta coalizões governamentais, cada aumento abrupto no preço da energia transforma decisões geopolíticas em temas de sobrevivência cotidiana, deslocando o debate estratégico para o terreno emocional.
Nesse contexto, a guerra informacional atua como catalisador, campanhas de desinformação não precisam convencer, basta confundir, não precisam impor uma narrativa única, basta multiplicar versões, criar ruído e transformar fatos em disputas interpretativas intermináveis. Quando sociedades passam a discutir se um ataque foi real, acidental ou exagerado, o ataque já cumpriu sua função, a dúvida paralisa mais do que o medo explícito.
 
Uma mulher com cabelos castanhos longos (Alina Juc) sorri para o grupo que a rodeia — eles estão sentados em torno de uma grande mesa e duas bandeiras estão à vista, uma das quais é a bandeira da Moldávia, nas cores vermelho, amarelo e azul.
 Rede de fake news financiada pela Rússia tenta interferir em eleição na Europa. Fonte: BBC News, 28 de setembro 2025.
 
O objetivo central dessa guerra cognitiva não é conquistar corações e mentes em favor da Rússia, mas impedir a formação de consensos estáveis contra ela, Moscou ganha quando parlamentos se dividem, quando governos hesitam, quando alianças discutem procedimentos em vez de respostas, cada debate interno prolongado reduz o custo estratégico das ações russas, a ausência de uma linha clara entre guerra e paz transforma qualquer reação europeia em um dilema político interno, juridicamente contestável e socialmente polarizador.
Essa lógica explica por que a Rússia opera deliberadamente abaixo do limiar jurídico da guerra convencional, a zona cinzenta não é apenas um espaço operacional, é um ambiente psicológico, sabotagens reversíveis, ataques cibernéticos calibrados, violações aéreas breves e crises migratórias instrumentalizadas produzem tensão suficiente para gerar instabilidade, mas não o bastante para acionar respostas militares automáticas. O resultado é a paralisia decisória: todos percebem a ameaça, poucos concordam sobre sua natureza, e quase ninguém assume o custo político de uma reação contundente.
 
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O centro comercial Marywilska 44, em Varsóvia, após o ataque criminoso inspirado por agentes russos. Fonte: Cybularny.
 
Ao longo do tempo, esse processo corrói algo fundamental: a confiança da sociedade em sua própria capacidade de defesa, a sensação permanente de vulnerabilidade cria cinismo, descrença e fadiga estratégica, desta forma, a guerra deixa de ser percebida como um evento extraordinário e passa a ser tratada como ruído de fundo da vida política. É nesse ponto que a vitória invisível se materializa, não quando tanques cruzam fronteiras, mas quando sociedades aceitam a instabilidade como normalidade e passam a reagir sempre tarde demais.
A guerra híbrida russa, portanto, não se limita à espionagem, à sabotagem ou à coerção econômica, ela é, sobretudo, uma guerra contra o tempo político, contra a capacidade das democracias de decidir rapidamente, sustentar consensos e agir de forma coordenada, Moscou não precisa vencer militarmente a Europa, basta prolongar indefinidamente um estado de tensão no qual cada decisão se torna um risco interno maior do que a própria ameaça externa.
 Ao prolongar indefinidamente o processo decisório europeu, a Rússia transforma o tempo em ativo estratégico, cada adiamento, cada comissão, cada debate interno não resolvido amplia sua liberdade de ação e reduz o custo relativo de suas operações híbridas.
É nesse campo invisível, onde medo, dúvida e polarização se entrelaçam que a guerra contemporânea encontra sua forma mais eficaz. E enquanto o debate europeu permanecer preso à pergunta “estamos ou não em guerra?”, a resposta estratégica russa já estará dada. 
A dimensão mais perigosa da guerra híbrida contemporânea talvez não esteja na destruição física produzida por sabotagens ou ataques militares limitados, mas na transformação gradual da percepção coletiva das sociedades democráticas, o verdadeiro campo de batalha deixa de ser apenas territorial e passa a existir dentro do ambiente psicológico, informacional e emocional das populações. A guerra cognitiva emerge exatamente nesse espaço invisível, onde a disputa estratégica não busca necessariamente conquistar cidades, mas influenciar percepções, manipular emoções coletivas, ampliar divisões políticas internas e comprometer a capacidade de reação coordenada do adversário. A Rússia percebeu, de maneira particularmente eficiente, que democracias liberais possuem vulnerabilidades estruturais profundamente exploráveis em cenários de instabilidade prolongada. Diferentemente de regimes autoritários, democracias dependem de legitimidade política, consenso institucional, apoio popular e estabilidade informacional para sustentar decisões estratégicas de longo prazo, quando esses elementos passam a ser corroídos simultaneamente, o próprio sistema decisório entra em tensão permanente.
A lógica central da guerra híbrida russa não está baseada exclusivamente na superioridade militar convencional, mas na capacidade de explorar fragilidades internas das sociedades adversárias. Moscou compreendeu que, em um ambiente democrático altamente polarizado e hiperconectado digitalmente, pequenas crises contínuas podem produzir efeitos estratégicos muito superiores aos de um confronto militar direto. O objetivo não é provocar necessariamente o colapso imediato do Estado, mas induzir um desgaste lento, cumulativo e psicologicamente exaustivo, democracias raramente entram em crise profunda por um único evento isolado, o desgaste normalmente ocorre através da repetição constante de choques de baixa intensidade que, ao longo do tempo, produzem fadiga social, perda de confiança institucional e sensação permanente de vulnerabilidade.
Essa lógica tornou-se particularmente evidente na Europa após a invasão da Ucrânia em 2022, a crise energética decorrente da redução do fornecimento de gás russo demonstrou como dependências econômicas podem ser convertidas em instrumentos de pressão psicológica coletiva. Em diversos países europeus, especialmente na Alemanha, o debate sobre sanções contra Moscou rapidamente deixou de ser apenas uma questão geopolítica e passou a afetar diretamente a percepção cotidiana da população. O aumento da inflação, o medo de escassez energética durante o inverno e a deterioração econômica ampliaram tensões sociais internas e fortaleceram discursos políticos radicais. A guerra híbrida opera justamente nesse deslocamento emocional: temas estratégicos complexos são convertidos em crises de sobrevivência doméstica percebidas diretamente pela população comum.
O mesmo mecanismo aparece na instrumentalização de fluxos migratórios, a crise na fronteira entre Belarus e Polônia em 2021 demonstrou como movimentos populacionais podem ser utilizados como ferramentas de pressão estratégica. O objetivo não estava apenas em gerar tensão humanitária nas fronteiras europeias, mas em provocar divisões políticas internas dentro da própria União Europeia. Questões migratórias possuem enorme potencial de polarização porque atingem simultaneamente debates sobre identidade nacional, segurança, direitos humanos e soberania estatal. Cada crise migratória artificialmente estimulada amplia divisões ideológicas, fortalece movimentos nacionalistas e reduz a capacidade de formulação de consensos políticos estáveis.
Nesse contexto, a guerra informacional assume papel central. Diferentemente da propaganda tradicional da Guerra Fria, o ambiente digital contemporâneo não exige mais controle absoluto da narrativa, o objetivo operacional das campanhas modernas de desinformação não é necessariamente convencer populações inteiras de uma única versão dos fatos. Muitas vezes, basta produzir confusão suficiente para impedir a formação de consensos claros, a dúvida transforma-se em arma estratégica. Redes sociais, algoritmos de engajamento e ecossistemas digitais radicalizados ampliaram drasticamente a velocidade e o alcance da manipulação informacional, Bots automatizados, canais coordenados no Telegram, campanhas virais no TikTok e redes de influência online permitem que versões contraditórias sobre um mesmo evento circulem simultaneamente em escala global.
 
Captura de tela da conta da Embaixada da Rússia no Reino Unido - a alegação falsa foi removida pelo Twitter
Captura de tela da conta da Embaixada da Rússia no Reino Unido - a alegação falsa foi removida pelo X.
 
O caso do voo MH17, abatido sobre o leste da Ucrânia em 2014, exemplifica claramente essa lógica, enquanto investigações internacionais apontavam responsabilidade de separatistas pró russos utilizando sistemas antiaéreos fornecidos por Moscou, múltiplas versões alternativas passaram a circular imediatamente no ambiente digital. Narrativas contraditórias surgiam em velocidade elevada: conspiração ocidental, erro militar ucraniano, acidente técnico, manipulação midiática. O objetivo não era necessariamente substituir a verdade por outra narrativa completamente dominante, o verdadeiro objetivo consistia em destruir a confiança pública na própria possibilidade de estabelecer uma verdade objetiva verificável. Quando sociedades entram em disputas intermináveis sobre a realidade dos fatos, a capacidade de resposta política coordenada se deteriora rapidamente.
 
Investigadores holandeses e membro do Ministério de Emergências inspecionam recuperação dos restos do voo MH17, da Malaysia Airlines
Foto: MAXIM ZMEYEV / REUTERS
 Investigadores holandeses e membro do Ministério de Emergências inspecionam recuperação dos restos do voo MH17, da Malaysia Airlines Foto: MAXIM ZMEYEV / REUTERS 
 
A guerra cognitiva russa também explora uma vulnerabilidade estrutural fundamental das democracias contemporâneas: a lentidão decisória, sistemas democráticos dependem de debate parlamentar, respaldo jurídico, coordenação institucional e legitimidade política para agir. Em condições normais, isso garante estabilidade e reduz riscos autoritários. Em cenários de guerra híbrida permanente, porém, essa mesma característica transforma-se em fragilidade operacional. Moscou atua deliberadamente abaixo do limiar jurídico da guerra convencional justamente para dificultar respostas rápidas e consensuais. Ataques cibernéticos limitados, sabotagens reversíveis, operações de influência e provocações calibradas produzem tensão suficiente para gerar instabilidade, mas frequentemente não o bastante para justificar respostas militares automáticas da OTAN.
Essa chamada “zona cinzenta” representa um espaço estratégico profundamente psicológico, todos percebem que existe uma ameaça em curso, mas poucos concordam plenamente sobre sua natureza exata, intensidade ou origem operacional. O resultado é a paralisia decisória, governos hesitam diante do risco de escalada, parlamentos entram em divisões internas, populações polarizadas passam a interpretar ameaças externas através de disputas ideológicas domésticas e alianças internacionais enfrentam dificuldades para formular respostas coordenadas, o tempo torna-se ativo estratégico para a Rússia.
A guerra híbrida contemporânea, portanto, não deve ser compreendida apenas como um conjunto de operações militares não convencionais, ela representa uma disputa pela capacidade psicológica das sociedades de manter estabilidade, confiança institucional e coordenação política sob pressão contínua. Moscou não precisa necessariamente vencer militarmente a Europa para obter vantagens estratégicas relevantes, basta prolongar indefinidamente um ambiente de tensão permanente no qual democracias passem mais tempo administrando crises internas do que formulando respostas externas consistentes.
Essa talvez seja a transformação mais profunda dos conflitos modernos, a guerra deixa de ser percebida apenas como um evento excepcional marcado por invasões militares formais e passa a existir como condição permanente de desgaste político, psicológico e informacional. A vitória estratégica não ocorre necessariamente quando cidades são ocupadas ou exércitos derrotados, ela começa a se materializar quando sociedades inteiras passam a aceitar sabotagens, campanhas de desinformação, polarização extrema e instabilidade contínua como parte normal da vida política contemporânea. Nesse estágio, a erosão da confiança coletiva torna-se mais destrutiva do que a própria destruição física produzida pela guerra convencional.
 
A Zona Cinzenta como Método: Testes Militares, Terceirização e Guerra Cognitiva
 
O objetivo central dessa estratégia não é a vitória rápida, mas o desgaste cumulativo, Moscou aposta na fadiga social, no cinismo político e na erosão gradual da confiança pública nas instituições europeias. Cada ataque que não gera resposta, cada incidente tratado como isolado, cada divisão interna ampliada por campanhas de desinformação contribui para um efeito psicológico profundo: a sensação de vulnerabilidade constante. O cenário revela a consolidação de uma guerra cognitiva, na qual o campo de batalha não é apenas o território, mas a percepção coletiva de segurança, estabilidade e controle.
Ao mesmo tempo, a frente militar híbrida opera em escala crescente, drones russos violaram o espaço aéreo da Polônia em 2025, levando o País a acionar o Artigo 4º da OTAN, episódios semelhantes ocorreram na Romênia e na Lituânia, a Dinamarca registrou drones sobrevoando aeroportos e bases onde F-35 estavam estacionados, a Estônia denunciou caças russos voando sem transponder, obrigando interceptações. Cada um desses incidentes é uma forma de teste: Moscou mede tempo de reação, observa protocolos de defesa e identifica vulnerabilidades, não são acidentes, são fases de reconhecimento operacional. 
 
Embaixador da Rússia na Moldávia, Oleg Ozerov, observa drone russo, em 26 de novembro de 2025, que o governo moldavo acusa de ter invadido seu espaço aéreo no dia anterior. — Foto: Ministério das Relações Exteriores da Moldávia/Divulgação via REUTERS
Embaixador da Rússia na Moldávia, Oleg Ozerov, observa drone russo, em 26 de novembro de 2025, que o governo moldavo acusa de ter invadido seu espaço aéreo no dia anterior. — Foto: Ministério das Relações Exteriores da Moldávia/Divulgação via REUTERS 
 
Esse padrão de incursões limitadas reflete uma lógica de test-and-learn (testar e aprender), na qual cada ação não busca o impacto imediato, mas a extração sistemática de dados operacionais, políticos e psicológicos sobre o adversário. A violação pontual do espaço aéreo, o ataque cibernético reversível ou a sabotagem ambígua funcionam como instrumentos de sondagem: medem tempos de reação, expõem divergências internas, revelam protocolos de defesa e delimitam, na prática, as verdadeiras linhas vermelhas. Nesse modelo, a guerra híbrida converte o próprio sistema defensivo europeu em uma fonte involuntária de inteligência, transformando cada resposta hesitante, cada debate jurídico e cada não decisão em informação estratégica reutilizável.
Um dos traços mais sofisticados dessa guerra invisível é a terceirização operacional: Redes criminosas, empresas militares privadas, hackers freelancers e grupos extremistas locais passaram a atuar como extensões informais do Estado russo. Essa estrutura permite ao Kremlin manter negação plausível, o que configura nas operações clandestinas, e também diluir responsabilidades e reduzir custos políticos, a terceirização não apenas reduz custos operacionais, mas fragmenta a atribuição jurídica da agressão, dificultando respostas legais, sanções proporcionais e enquadramentos formais no direito internacional.
 
Departamento de Estado Americano oferece recompensa para quem der informações sobre hackers russos Foto: Divulgação
 Departamento de Estado Americano oferece recompensa para quem der informações sobre hackers russos Foto: Divulgação 
 
Diversas fotos sobre mesa
 Imagens de procurados pelo FBI por acusação de envolvimento com crimes cibernéticos, Novembro 2012. Fonte: FBI.
 
Investigações da Europol apontam para uma cooperação crescente entre organizações criminosas europeias e agentes russos, especialmente em ataques cibernéticos, sabotagens de transporte e campanhas de desinformação financiadas por criptomoedas. O Estado russo não precisa aparecer, basta que o efeito estratégico seja alcançado, a guerra cibernética completa o quadro, em abril de 2025, hackers ligados a grupos pró Rússia, provocaram uma liberação controlada de água em uma barragem na Noruega, um ataque projetado para demonstrar fragilidade, não necessariamente para causar destruição imediata, na Estônia, ataques cibernéticos atingiram ministérios e hospitais, a União Europeia sancionou indivíduos associados ao GRU por essas operações.
 
Barragem Rizevatnet, na Noruega
Hackers fazem barragem na Noruega vazar 500 litros d’água por segundo. Fonte: imagem: reprodução/VG
 
Esse padrão também se manifesta em ataques direcionados a infraestruturas energéticas descentralizadas. Em diversos países do Leste Europeu, operadores de redes elétricas relataram tentativas de intrusão em sistemas SCADA, responsáveis pelo controle automatizado da distribuição de energia. Diferentemente de um apagão total, os acessos buscavam manipulações pontuais, como oscilações de carga e interrupções localizadas, suficientes para gerar instabilidade, desconfiança pública e pressão política sobre governos. Mais uma vez, o objetivo não era a destruição imediata, mas a erosão gradual da percepção de segurança e controle estatal.
A Europol, por sua vez, identificou cooperação crescente entre redes criminosas e agentes russos para sabotagem de sistemas de transporte e campanhas coordenadas de desinformação.
 
O hacker russo Evgeniy M. Bogachev, em imagem do FBI publicada pelo ‘The New York Times’. Vinculado aos mais graves ciberataques contra os EUA, ele vive supostamente amparado por Moscou. Fonte: El País.
 
Tudo isso compõe uma guerra que foge aos modelos convencionais, essa guerra invisível opera deliberadamente abaixo do limiar jurídico da guerra convencional. Moscou explora aquilo que estrategistas da OTAN definem como “zona cinzenta”: um espaço de confronto permanente em que ações hostis são graves demais para serem ignoradas, mas ambíguas demais para justificar uma resposta militar direta. Sabotagens limitadas, violações aéreas breves, ataques cibernéticos reversíveis e campanhas de influência permitem à Rússia desgastar seus adversários sem cruzar, formalmente, as linhas que ativariam o Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, cláusula que determina que um ataque armado contra um membro seja tratado como um ataque contra todos os integrantes da aliança.  Trata-se de uma estratégia calculada: paralisar a tomada de decisão, dividir interpretações jurídicas e transformar cada resposta europeia em um debate político interno, lento e fragmentado.
Não é uma guerra declarada, não é linear, não tem fronteiras bem delimitadas, mas ela está em andamento. A Rússia testa a coesão da OTAN, a resiliência política de seus adversários e a capacidade europeia de proteger setores vitais, energia, informação, infraestrutura, percepção pública e segurança territorial. O objetivo não é conquistar capital europeia, mas desgastar, fragmentar, confundir e dividir. Nesse contexto a vitória russa não viria por meio de tanques em Varsóvia, Londres, Berlin, Paris, Bruxelas e nas demais capitais europeias, mas por meio de uma Europa enfraquecida ao ponto de não reagir.
Diante desse cenário, a resposta europeia tem sido reativa e fragmentada. A criação de centros dedicados à guerra híbrida, o reforço da presença da OTAN no flanco oriental e a imposição de sanções a indivíduos ligados ao GRU e ao FSB (Serviço de inteligência Militar e o Serviço Federal de Segurança) representam avanços, mas não alteram a assimetria fundamental do conflito. A Rússia opera com iniciativa e ambiguidade, a Europa responde com cautela e debate interno, essa diferença de ritmo favorece quem ataca sem declarar guerra.
Como todos os eventos e situações em desenvolvimento, podemos afirmar, a guerra já começou, está nos drones sobre bases militares, nos cabos submarinos monitorados no fundo do mar, nos servidores invadidos, nas narrativas infiltradas via redes sociais e aplicativos de conversas, nas decisões tomadas sob coerção energética, nas operações clandestinas do GRU e do FSB em território europeu, invisível para muitos, mas absolutamente real. 
O que emerge desse conjunto de ações é um estado de guerra permanente de baixa intensidade, no qual não há declaração formal, mas tampouco há retorno à normalidade, a instabilidade torna-se política de Estado.
 
Guerra Informacional e Diplomacia Paralela no Sul Global
 
Enquanto explora vulnerabilidades da infraestrutura e molda rotas de influência política, Moscou também trava uma guerra na dimensão da percepção. A batalha informacional se tornou vital, hackers, agências de fachada, redes de bots e campanhas orquestradas inundam o espaço digital europeu. Em 2023 e 2024, investigações da União Europeia revelaram que redes ligadas ao Kremlin influenciaram eleições na Eslováquia, Alemanha e Itália, disseminando conteúdo polarizador, anti-imigração e anti União Europeia. O objetivo não é necessariamente eleger aliados diretos, mas criar fraturas internas, minar a confiança e enfraquecer a coesão política europeia. O que se perde em estabilidade política, Moscou ganha em liberdade estratégica.
 
Robert Habeck, candidato do partido Os Verdes
Robert Habeck, o principal candidato do partido Os Verdes, foi vítima de uma falsificação orquestrada pela inteligência Russa. Foto: nrtv.online
 
Publicação falsa com o título: "Psiquiatra: Friedrich Merz tentou suicidar-se em 2017"
Publicação falsa sobre alegada tentativa de suicídio de Friedrich Merz, candidato da CDU. Foto: w-a-munchen
 
Vídeos falsos disfarçados de vídeos da DW, Le Point, Bild e France 24
Vídeos falsos disfarçados de vídeos da DW, Le Point, Bild e France 24 foram divulgados antes das eleições antecipadas na Alemanha
Foto: x.com
 
Paralelamente às operações de influência conduzidas dentro da Europa, a Rússia desenvolve uma diplomacia paralela ativa no Sul Global com o objetivo de isolar politicamente o continente europeu. Moscou explora ressentimentos históricos contra o ocidente, oferece cooperação militar, acordos energéticos e apoio político em fóruns internacionais, e constrói narrativas que enquadram a guerra na Ucrânia como um confronto entre imperialismo ocidental e soberania nacional. O resultado tem sido a neutralidade calculada ou a abstenção sistemática de diversos países em votações na ONU, diluindo a capacidade europeia de formar consensos globais e ampliando a margem de manobra estratégica do Kremlin.
 Entre os aspectos mais sensíveis e controversos da guerra está a acusação de transferência forçada de crianças da Ucrânia para territórios controlados pela Rússia. Investigações conduzidas por organizações internacionais, governos ocidentais e entidades de direitos humanos apontam que milhares de menores teriam sido removidos de áreas ocupadas, separados de familiares e submetidos a processos de adoção, reeducação política e assimilação cultural sob controle russo. O caso ganhou dimensão internacional após o Tribunal Penal Internacional emitir mandados de prisão contra Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova, com base em acusações relacionadas à deportação ilegal de crianças durante o conflito, aprofundando ainda mais o isolamento diplomático de Moscou perante parte da comunidade internacional.
 
ICC Pursues Putin: A Sprinkle of Justice in a World of Mischief
Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova. Fonte: UN.
 
ONU: Brasil se abstém em votação pedindo que a Rússia devolva crianças  ucranianas levadas à força
Dezembro de 2025.
 
O chamado Sul Global não constitui uma região geográfica específica, mas um conceito político utilizado nas relações internacionais para descrever um conjunto amplo de Países da África, América Latina, Oriente Médio e partes da Ásia que compartilham experiências históricas semelhantes, marcadas por colonialismo, desenvolvimento econômico desigual e inserção periférica nas estruturas de poder do sistema internacional. O termo emergiu gradualmente como substituto de classificações mais antigas, como “Terceiro Mundo”, e passou a ser amplamente utilizado após o fim da Guerra Fria para designar países que, embora heterogêneos entre si, mantêm uma relação ambivalente com as potências ocidentais e frequentemente buscam maior autonomia estratégica na política internacional. Para Moscou, esse espaço geopolítico representa um campo particularmente fértil de disputa narrativa: ressentimentos históricos contra potências coloniais europeias, desconfiança em relação às instituições internacionais dominadas pelo Ocidente e interesses pragmáticos em cooperação militar, energética e comercial criam um ambiente favorável à construção de discursos que enquadram o conflito na Ucrânia não como uma agressão russa, mas como mais um capítulo da rivalidade entre grandes potências.
 
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Imagem: laibl
 
 Esse esforço combina guerra informacional e diplomacia informacional, na qual, narrativas, enquadramentos históricos e posicionamentos discursivos passam a operar como instrumentos de política externa, moldando percepções globais sem necessidade de alinhamento formal ou alianças institucionais rígidas.
A guerra informacional e a diplomacia paralela no Sul Global não constituem fenômenos isolados dentro da estratégia russa contemporânea. Elas integram um conjunto mais amplo de instrumentos de competição geopolítica que operam simultaneamente em diferentes dimensões do poder. Enquanto campanhas de influência buscam moldar percepções e enfraquecer a coesão política europeia no campo narrativo, outras ferramentas são mobilizadas para produzir pressões concretas no plano social e institucional. Nesse contexto, a instrumentalização da migração emerge como um complemento operacional dessa arquitetura estratégica. Ao estimular, manipular ou explorar fluxos migratórios direcionados à Europa, Moscou amplia os efeitos da guerra informacional ao alimentar exatamente as fraturas políticas que suas campanhas digitais procuram intensificar: polarização sobre políticas migratórias, fortalecimento de movimentos nacionalistas, disputas entre governos e instituições europeias e desgaste da legitimidade das estruturas supranacionais.
 
 
Sob essa lógica, deslocamentos populacionais deixam de ser apenas crises humanitárias ou consequências colaterais de conflitos regionais e passam a operar como multiplicadores de instabilidade política dentro das democracias europeias. A pressão migratória, quando combinada à disseminação coordenada de narrativas polarizadoras e à atuação diplomática em espaços internacionais, transforma-se em parte de uma estratégia integrada de desgaste, na qual o objetivo não é derrotar diretamente o adversário, mas reduzir sua capacidade de coordenação política, fragmentar sua opinião pública e ampliar o custo interno de qualquer resposta estratégica.
 A instrumentalização da migração pelo eixo Moscou–Minsk, contudo, não surge como uma anomalia histórica, tampouco como uma improvisação conjuntural. Configura-se na atualização de um padrão recorrente da estratégia russa, no qual deslocamentos populacionais, crises humanitárias e instabilidade social são absorvidas como variáveis funcionais da projeção de poder. 
 
Migrant crisis on the Belarusian-Polish border
Fronteira entre Polônia e Bielorrússia em uma crise de 2021. Fonte Leonid Scheglov.
 
Durante a intervenção soviética no Afeganistão (1979–1989), a condução militar do conflito contribuiu para o deslocamento de milhões de civis em direção ao Paquistão e ao Irã, embora esse fluxo não tenha sido organizado como instrumento direto de coerção contra o Ocidente, ele evidencia um traço persistente: a disposição de Moscou em externalizar os custos humanos e regionais da guerra, desde que o impacto político não recaia sobre o centro do poder soviético. O deslocamento em massa não era um erro estratégico, mas uma consequência tolerável, e funcional, da ação militar.
Padrão semelhante reapareceu no espaço pós-soviético, na guerra russo-Georgiana de 2008, o deslocamento forçado de populações georgianas da Ossétia do Sul e da Abkhazia contribuiu para reconfigurações demográficas irreversíveis, consolidando entidades separatistas alinhadas a Moscou e criando fatos consumados que dificultaram qualquer solução diplomática posterior. O deslocamento, nesse contexto, não apenas acompanhou a guerra, mas ajudou a moldar seus resultados políticos.
 
mapa separatismo ex republicas soviéticas (Foto: Arte/G1)
Ossétia do Sul e da Abkhazia (Abcásia)
 
Esse método alcançou maior sofisticação no teatro sírio, a intervenção russa iniciada em 2015, ao apoiar o regime de Bashar Al-Assad, intensificou fluxos migratórios em direção à Europa, sobretudo a partir de 2015 e 2016, bombardeios concentrados em áreas urbanas e infraestrutura civil aceleraram o deslocamento de milhões de sírios, gerando efeitos políticos profundos dentro da União Europeia: crises internas, polarização do debate público, fortalecimento de movimentos nacionalistas e erosão do consenso europeu sobre migração e solidariedade. Ainda que Moscou jamais tenha assumido tal lógica como intencional, os ganhos estratégicos indiretos foram evidentes.
Fonte: Reuters.
 
O desfecho do conflito reforçou a natureza instrumental dessa relação, em dezembro de 2024, diante do avanço final de forças insurgentes sobre Damasco e do colapso do aparato estatal sírio, o regime de Assad chegou ao fim, Moscou optou por não intervir militarmente para sustentar o governo em seus momentos finais, em vez disso, autoridades russas organizaram a retirada do líder sírio e de sua família para território russo, concedendo-lhes asilo político em Moscou. A operação evidenciou o caráter pragmático da política externa russa: após quase uma década de intervenção decisiva que garantiu a sobrevivência temporária do regime, a prioridade estratégica passou a ser preservar seus próprios interesses militares e geopolíticos na região, mesmo que isso significasse abandonar o aliado que por anos sustentara no poder.
 
Vladimir Putin, da Rússia, e Bashar Al-Asad, da Síria  • Imprensa do Kremlin/Anadolu Agency/Getty Images
 
A queda do regime sírio não elimina necessariamente os efeitos estratégicos acumulados ao longo do conflito, Estados que emergem de guerras civis prolongadas frequentemente enfrentam períodos de fragmentação institucional, disputas internas e instabilidade política, caso a Síria atravesse um novo ciclo de competição entre facções ou potências externas, novos deslocamentos populacionais podem surgir, reacendendo pressões migratórias sobre o continente europeu. Nesse contexto, crises humanitárias deixam de ser apenas desafios regionais e passam a atuar como multiplicadores de instabilidade política dentro da Europa, ampliando exatamente o ambiente de polarização e disputa narrativa explorado por operações de influência no espaço informacional.
É nesse encadeamento histórico que a crise migratória na fronteira Bielorrússia deve ser compreendida, diferentemente dos casos anteriores, em que o deslocamento populacional emergia como consequência funcional da guerra, o episódio de 2021 representa a formalização explícita do método. A migração deixa de ser apenas um efeito colateral e passa a ser empregada diretamente como instrumento de pressão política, calibrado para explorar fragilidades institucionais, divisões ideológicas e limites normativos da União Europeia.
 Ao reduzir a capacidade europeia de mobilizar consensos morais e jurídicos no sistema internacional, essa diplomacia paralela enfraquece não apenas a resposta imediata à guerra, mas o próprio poder normativo da União Europeia como ator global.
O resultado não é apenas uma crise humanitária localizada, mas uma operação estratégica de desgaste prolongado, na qual o sofrimento humano é convertido em alavanca geopolítica e a ambiguidade jurídica atua como escudo contra respostas diretas. Configurando-se, portanto, menos de um desvio de conduta e mais da continuidade de uma lógica histórica, na qual a instabilidade externa é sistematicamente utilizada como recurso para enfraquecer adversários sem recorrer ao confronto militar aberto.
 
Dissonância Cognitiva: o mecanismo psicológico explorado na guerra informacional
 
Para compreender por que campanhas de desinformação e manipulação informacional podem produzir efeitos tão profundos em sociedades contemporâneas, é necessário observar também o funcionamento psicológico que sustenta a formação das crenças humanas.
Um dos conceitos mais relevantes nesse campo é o da dissonância cognitiva, formulado pelo psicólogo social Leon Festinger na década de 1950. Segundo essa teoria, indivíduos experimentam um estado de desconforto psicológico quando são confrontados com informações que entram em conflito direto com crenças, valores ou percepções que já fazem parte de sua visão de mundo.
 
Leon Festinger, foi professor da nova escola
Leon Festinger, psicólogo social austríaco naturalizado americano e professor da New School for Social Research e da Universidade de Stanford, desenvolveu a teoria da dissonância cognitiva em 1957, estabelecendo um dos conceitos mais influentes da psicologia social contemporânea. Fonte: 2009 The New York Times Company

Esse desconforto cognitivo gera uma tendência natural de buscar formas de reduzir a tensão psicológica, frequentemente, isso não ocorre através da revisão racional das crenças, mas sim por meio de mecanismos de racionalização, negação ou reinterpretação seletiva das informações disponíveis.
Em termos práticos, isso significa que quando indivíduos são expostos a informações que contradizem suas convicções pré existentes, eles tendem a rejeitar essas informações ou reinterpretá-las de forma a preservar a coerência interna de sua visão de mundo.
 Em ambientes politicamente polarizados, esse processo torna-se ainda mais intenso porque determinadas crenças deixam de representar apenas opiniões individuais e passam a integrar a própria identidade psicológica e social dos indivíduos, nesse contexto, questionar determinadas narrativas pode ser percebido não apenas como um debate racional de ideias, mas como uma ameaça direta ao pertencimento social, à identidade coletiva e à segurança psicológica do grupo ao qual o indivíduo se sente vinculado.
Como consequência, aceitar informações contraditórias pode significar, para determinados grupos, não apenas rever uma opinião específica, mas romper simbolicamente com comunidades políticas, culturais ou ideológicas das quais extraem senso de pertencimento e validação social. Esse mecanismo ajuda a explicar por que debates altamente polarizados frequentemente produzem radicalização crescente em vez de aproximação entre posições divergentes.
Esse mecanismo psicológico, amplamente documentado em estudos de psicologia social, ajuda a explicar por que ambientes informacionais altamente polarizados tendem a se tornar progressivamente mais radicalizados ao longo do tempo, em vez de produzir convergência de opiniões, a circulação de informações conflitantes pode reforçar crenças já estabelecidas, intensificando divisões ideológicas.
 O ambiente digital contemporâneo potencializa esse fenômeno de maneira sem precedentes históricos. Plataformas digitais operam através de algoritmos desenvolvidos para maximizar engajamento emocional, frequentemente priorizando conteúdos que provocam indignação, medo, confirmação ideológica ou forte reação emocional. Como resultado, indivíduos tendem a ser continuamente expostos a informações alinhadas às suas próprias crenças e preferências cognitivas.
Esse processo contribui para a formação das chamadas “câmaras de eco” informacionais, ambientes nos quais diferentes grupos passam a consumir versões radicalmente distintas da realidade. A repetição constante de determinadas narrativas reduz a exposição ao contraditório, fortalece mecanismos de validação coletiva e amplia a resistência psicológica à aceitação de informações incompatíveis com as crenças já estabelecidas.
No contexto das operações de influência informacional, esse fenômeno possui implicações estratégicas profundas, campanhas de desinformação não precisam necessariamente convencer grandes parcelas da população de uma narrativa específica, muitas vezes, basta introduzir versões alternativas de eventos ou questionamentos sistemáticos sobre fatos estabelecidos para amplificar a dissonância cognitiva dentro do debate público.
 Diversas operações contemporâneas de influência informacional parecem seguir exatamente essa lógica estratégica, durante as investigações sobre a interferência russa nas eleições presidenciais americanas de 2016, por exemplo, pesquisadores identificaram campanhas digitais que frequentemente promoviam simultaneamente narrativas contraditórias, muitas vezes direcionadas a grupos ideologicamente opostos. O objetivo aparente não era estabelecer uma versão única dos acontecimentos, mas ampliar tensões sociais, intensificar polarizações internas e enfraquecer consensos coletivos dentro do ambiente político americano.
Esse modelo de operação representa uma transformação importante na guerra informacional contemporânea: em vez de simplesmente persuadir populações, busca-se frequentemente desorganizar cognitivamente o debate público, tornando cada vez mais difícil a existência de uma percepção compartilhada da realidade.
Quando diferentes grupos sociais passam a interpretar os mesmos acontecimentos de formas completamente incompatíveis, o resultado não é apenas divergência de opinião, mas a fragmentação da própria realidade compartilhada que sustenta o funcionamento do debate democrático.
Nesse sentido, a guerra cognitiva explora vulnerabilidades que não estão apenas nas estruturas tecnológicas da informação, mas no próprio funcionamento psicológico da mente humana, ao estimular dúvidas persistentes, multiplicar interpretações conflitantes e amplificar tensões ideológicas preexistentes, operações informacionais podem transformar o ambiente cognitivo de uma sociedade em um espaço permanentemente instável.
A exposição contínua a ambientes informacionais caóticos também pode produzir um fenômeno conhecido como fadiga cognitiva. Em cenários marcados por excesso de informação, disputas narrativas permanentes e circulação constante de versões conflitantes da realidade, indivíduos tendem a desenvolver exaustão psicológica, dificuldade de processamento crítico e crescente sensação de desorientação informacional.
Em termos estratégicos, esse processo pode gerar efeitos profundamente desestabilizadores. Sociedades submetidas a elevados níveis de saturação cognitiva frequentemente apresentam redução da confiança institucional, aumento da apatia política, fragmentação social e maior dificuldade em estabelecer consensos mínimos sobre fatos objetivos. Nesse contexto, a erosão da confiança coletiva torna-se, por si só, um objetivo relevante dentro das operações modernas de guerra cognitiva.
Assim, a eficácia dessas operações não depende apenas da capacidade tecnológica de disseminar mensagens, mas também da forma como essas mensagens interagem com mecanismos psicológicos profundamente enraizados no comportamento humano.
 
O Conceito de “Controle Reflexivo”: influenciar decisões sem coerção direta
 
Um dos fundamentos teóricos mais importantes dessa tradição estratégica é o conceito de controle reflexivo (reflexive control). A teoria foi inicialmente desenvolvida pelo matemático e analista soviético Vladimir Lefebvre na década de 1960 e posteriormente incorporado ao pensamento estratégico soviético e russo.
 Vladimir Lefebvre, matemático e psicólogo soviético nascido em Leningrado em 1936, foi um dos principais formuladores da teoria do controle reflexivo, conceito posteriormente incorporado ao pensamento estratégico soviético durante a Guerra Fria. Seus estudos buscavam compreender como percepções, informações e processos cognitivos poderiam influenciar o comportamento decisório de adversários em cenários políticos e militares.
 
Лефевр, Владимир Александрович — Википедия
Vladimir Lefebvre (nascido em 1936, em Leningrado, URSS) é um psicólogo matemático da Universidade da Califórnia, Irvine. Fonte: shchedrovitskiy.
 
O controle reflexivo consiste em induzir o adversário a tomar decisões aparentemente autônomas que, na realidade, foram previamente moldadas pela manipulação do ambiente informacional. Em vez de forçar uma decisão por meio de coerção direta, o objetivo é influenciar os cálculos estratégicos do oponente, alterando sua percepção da realidade.
 Diferentemente da propaganda tradicional, cujo objetivo frequentemente consiste em persuadir ou convencer populações sobre determinada narrativa, o controle reflexivo busca algo mais sofisticado: influenciar o próprio processo de tomada de decisão do adversário. O alvo da operação não é apenas a opinião pública, mas a estrutura cognitiva utilizada pelo oponente para interpretar informações, calcular riscos e definir respostas estratégicas.
Nesse modelo, informações verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou deliberadamente falsas podem ser utilizadas de maneira combinada para criar percepções distorcidas da realidade operacional. O objetivo central não é necessariamente fazer o adversário acreditar integralmente em uma narrativa específica, mas levá-lo a agir de maneira previsível e estrategicamente favorável ao operador da influência.
Na prática, isso pode ocorrer através de diversas técnicas, incluindo disseminação seletiva de informações verdadeiras e falsas, manipulação do fluxo de dados disponíveis para tomadores de decisão, criação de narrativas estratégicas capazes de moldar percepções de risco e exploração de preconceitos cognitivos, tensões sociais e divisões políticas preexistentes.
O resultado pretendido é que o adversário chegue sozinho à conclusão desejada pelo operador da influência, acreditando que tomou a decisão de forma independente.
Esse tipo de operação tende a encontrar terreno particularmente favorável em sociedades democráticas abertas, onde o fluxo livre de informações, a pluralidade política e a intensa disputa narrativa fazem parte do próprio funcionamento institucional. Em ambientes democráticos altamente polarizados, a multiplicação deliberada de versões conflitantes da realidade pode dificultar a formação de consensos políticos e ampliar a instabilidade decisória.
Ao explorar divisões internas já existentes, operações de controle reflexivo podem gerar atrasos estratégicos, paralisia institucional, fragmentação social e dificuldades crescentes na formulação de respostas coordenadas por parte do Estado. Nesse contexto, vulnerabilidades cognitivas e informacionais tornam-se elementos centrais da competição geopolítica contemporânea.
Essa lógica se encaixa perfeitamente na guerra híbrida contemporânea. Ao saturar o ambiente informacional com narrativas concorrentes, campanhas de desinformação e interpretações conflitantes de eventos, tornam-se possível desorganizar o processo decisório das democracias, onde decisões dependem de consenso político, debate público e legitimidade institucional.
 No contexto da guerra híbrida contemporânea, o controle reflexivo tornou-se particularmente relevante devido à expansão do ambiente digital e da velocidade de circulação das informações. Redes sociais, plataformas digitais e ecossistemas informacionais fragmentados ampliaram significativamente a capacidade de disseminar narrativas conflitantes em larga escala, permitindo influenciar simultaneamente diferentes segmentos sociais, políticos e institucionais.
Essa dinâmica representa uma transformação importante nos modelos contemporâneos de conflito. Em vez de depender exclusivamente do emprego direto da força militar, Estados e atores não estatais podem buscar vantagens estratégicas através da manipulação de percepções, da desorganização cognitiva do adversário e da erosão gradual da confiança coletiva nas instituições democráticas.
 
As Raízes Históricas da Guerra Cognitiva: das “Medidas Ativas” da KGB à Estratégia Contemporânea
 
Embora o termo “guerra cognitiva” seja relativamente recente no vocabulário estratégico, a lógica por trás desse tipo de operação possui raízes profundas na história da inteligência soviética. Durante a Guerra Fria, a União Soviética desenvolveu um vasto repertório de operações conhecidas como medidas ativas (aktivnye meropriyatiya), conduzidas principalmente pela KGB, o principal serviço de segurança e inteligência do Estado soviético.
 
KGB: História, Estrutura e Operações da Agência | ESPIAMOS®
KGB
 
Diferentemente da espionagem clássica, cujo objetivo principal é coletar informações, as medidas ativas tinham um propósito muito mais ambicioso: influenciar diretamente a percepção pública, manipular debates políticos e interferir no funcionamento interno das sociedades adversárias. Para Moscou, o campo informacional não era apenas um complemento da política externa, mas um verdadeiro teatro de operações estratégicas.
Essas operações incluíam uma ampla gama de instrumentos: disseminação de desinformação em jornais estrangeiros, financiamento clandestino de movimentos políticos, infiltração em organizações civis, manipulação de narrativas ideológicas e exploração de tensões sociais existentes nas democracias ocidentais. O objetivo não era necessariamente convencer o público a apoiar a União Soviética, mas desestabilizar o ambiente político do adversário, ampliando divisões internas e enfraquecendo a confiança nas instituições democráticas.
Um dos exemplos mais conhecidos dessa estratégia foi à chamada Operação INFEKTION, conduzida nos anos 1980 pela KGB, a campanha espalhou a narrativa de que o vírus da AIDS teria sido criado em um laboratório militar dos Estados Unidos. A história foi inicialmente plantada em um jornal periférico e posteriormente amplificada por veículos internacionais, demonstrando a capacidade soviética de transformar desinformação em um fenômeno global de percepção pública, o objetivo da operação não era apenas atacar a imagem americana, mas gerar desconfiança internacional em relação às instituições científicas e militares do Ocidente.
 A relevância estratégica da Operação INFEKTION ultrapassava a simples disseminação de uma notícia falsa, a campanha demonstrava uma lógica central das chamadas “medidas ativas” soviéticas: explorar vulnerabilidades psicológicas, tensões políticas e ambientes de incerteza para influenciar percepções coletivas em escala internacional. Nesse modelo, a desinformação não buscava apenas convencer o público de uma narrativa específica, mas corroer gradualmente a confiança em instituições, autoridades científicas e fontes tradicionais de informação.
Décadas depois, em 1992, Yevgeny Primakov, então diretor do Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR), reconheceu publicamente o envolvimento da KGB na disseminação da campanha. O episódio tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de como operações informacionais podem ser utilizadas como instrumentos estratégicos de influência política e desorganização cognitiva no ambiente internacional.

 Cartaz de 1986 das Filipinas mostra o quão bem-sucedida foi a campanha para culpar os EUA pela Aids/HIV
 
Yevgeny Primakov, Ex diretor do Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR). Fonte: RIA Novosti archive
 
A lógica estratégica por trás dessas ações refletia uma visão profundamente enraizada na doutrina soviética de guerra política. Inspirados por conceitos desenvolvidos ainda no período pós-revolucionário, estrategistas soviéticos acreditavam que o conflito entre sistemas políticos não ocorria apenas no campo militar, mas também nas dimensões ideológica, psicológica e informacional, nesse contexto, a manipulação da percepção coletiva era considerada tão importante quanto à superioridade militar.
Após o colapso da União Soviética em 1991, muitos analistas ocidentais acreditaram que esse tipo de estratégia havia desaparecido, no entanto, grande parte da cultura operacional das medidas ativas sobreviveu dentro das estruturas de segurança russas, especialmente nos serviços que sucederam a KGB, como o Federal Security Service (FSB), Serviço Federal de Segurança, em russo Federalnaya Sluzhba Bezopasnosti, responsável pela segurança interna e contrainteligência, e o Foreign Intelligence Service (SVR) Serviço de Inteligência Externa, em russo Sluzhba Vneshney Razvedki, encarregado das operações de espionagem externa da Federação Russa.
 
Agente do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB, na sigla em russo) durante operação - Sputnik Brasil, 1920, 28.08.2023
Agente Russo do FSB atuando no interior da Rússia. Fonte: Sputnik
 
 Essa reorganização institucional não significou uma ruptura completa com a cultura estratégica da antiga KGB. Na realidade, o processo de fragmentação da estrutura soviética de segurança distribuiu suas funções entre diferentes organismos do novo Estado russo, preservando boa parte do corpo de oficiais, dos métodos operacionais e das doutrinas desenvolvidas ao longo da Guerra Fria, enquanto o FSBServiço Federal de Segurança, assumiu grande parte das atribuições relacionadas à contrainteligência e à segurança interna, o Sluzhba Vneshney Razvedki, conhecido internacionalmente como SVR (Serviço de Inteligência Externa) herdou diretamente a tradição da antiga Primeira Diretoria Principal da KGB, responsável pelas operações de espionagem no exterior. 
Paralelamente, a Rússia manteve o Main Directorate of the General Staff (GRU), Diretoria Principal do Estado-Maior das Forças Armadas, em russo Glavnoye Razvedyvatelnoye Upravleniye, seu serviço de inteligência militar historicamente separado da KGB e subordinado ao Ministério da Defesa. A coexistência dessas estruturas permitiu que a Rússia preservasse não apenas a infraestrutura institucional da inteligência soviética, mas também uma cultura estratégica profundamente marcada pela competição informacional e psicológica com o Ocidente.
Ao longo das décadas seguintes, essas práticas não desapareceram com o fim da Guerra Fria, elas foram gradualmente adaptadas a um ambiente informacional radicalmente diferente daquele em que surgiram. O colapso da União Soviética não eliminou a lógica estratégica que sustentava as chamadas “medidas ativas”, mas apenas deslocou esse repertório para um novo cenário tecnológico.
Com a expansão da internet, das redes sociais e da fragmentação do ecossistema midiático, os instrumentos clássicos de manipulação informacional passaram por uma transformação estrutural. Operações que durante décadas dependeram de infiltrações prolongadas em partidos políticos, financiamento indireto de movimentos ideológicos ou manipulação paciente da imprensa tradicional passaram a ser conduzidas por meio de campanhas digitais coordenadas, redes de influência online e mecanismos de amplificação algorítmica.
Essa mudança alterou profundamente a escala das operações de influência, durante a Guerra Fria, campanhas conduzidas pela KGB tinham como foco principal elites políticas, círculos acadêmicos ou veículos de imprensa específicos, o ambiente digital contemporâneo, por outro lado, permite atingir populações inteiras em tempo real, explorando tensões sociais já existentes e amplificando percepções de crise, desconfiança institucional e polarização política.
Foi nesse contexto que estrategistas militares e centros de pesquisa do Ocidente começaram a sistematizar um conceito mais amplo para descrever essa nova dimensão do conflito: a guerra cognitiva. O termo passou a aparecer com frequência crescente em análises estratégicas vinculadas a OTAN para descrever operações destinadas a influenciar diretamente os processos mentais que estruturam a percepção coletiva da realidade.
A diferença em relação à propaganda tradicional é significativa, enquanto a propaganda busca persuadir audiências específicas através de narrativas ideológicas relativamente claras, a guerra cognitiva opera de maneira mais difusa e estrutural, seu objetivo central não é necessariamente convencer, mas desorganizar o ambiente informacional, multiplicando versões concorrentes da realidade e transformando fatos objetivos em disputas interpretativas permanentes.
Nesse cenário, a competição geopolítica deixa de ocorrer apenas em campos de batalha militares ou em arenas diplomáticas. O próprio funcionamento das sociedades passa a ser compreendido como um espaço de disputa estratégica, a percepção pública de eventos internacionais, o nível de confiança nas instituições políticas, a polarização do debate público e a capacidade de coordenação estratégica das democracias tornam-se elementos centrais dessa nova forma de conflito.
Sob essa perspectiva, a guerra cognitiva contemporânea não representa uma ruptura completa com as práticas desenvolvidas durante a Guerra Fria, mas sim uma evolução tecnológica de métodos já consolidados durante décadas de competição informacional entre Moscou e o Ocidente, a lógica fundamental permanece essencialmente a mesma: explorar vulnerabilidades políticas, sociais e psicológicas do adversário para enfraquecer sua coesão interna.
O que mudou foi o ambiente operacional, a arquitetura digital do século XXI oferece uma infraestrutura sem precedentes para esse tipo de operação, plataformas de comunicação instantânea, redes sociais e ecossistemas informacionais descentralizados permitem que narrativas manipuladas se espalhem com velocidade exponencial, muitas vezes antes que governos ou veículos jornalísticos consigam reagir.
Nesse sentido, a estratégia russa contemporânea pode ser compreendida como a adaptação moderna de um princípio estratégico antigo: o reconhecimento de que a estabilidade das democracias depende, em grande medida, da confiança coletiva em suas instituições políticas, científicas e midiáticas.
Ao atacar essa confiança, por meio da dúvida sistemática, da amplificação de divisões internas e da saturação informacional, torna-se possível enfraquecer adversários estratégicos sem recorrer necessariamente ao confronto militar direto.
A guerra cognitiva, portanto, não deve ser interpretada como uma invenção repentina do século XXI, ela representa, na realidade, a continuidade de uma tradição estratégica que se desenvolveu ao longo de décadas de confronto político, psicológico e informacional entre Moscou e o Ocidente.
O que mudou não foi à lógica da operação, o que mudou foi o campo de batalha, e, no mundo contemporâneo, esse campo de batalha passa cada vez mais pela própria mente das sociedades.
No auge da Guerra Fria, oficiais da KGB acreditavam que a forma mais eficiente de enfraquecer um adversário não era necessariamente destruir suas cidades ou derrotar seus exércitos, mas minar lentamente a confiança que mantinha sua sociedade coesa.
Décadas depois, em um ambiente informacional dominado por redes digitais e fluxos instantâneos de informação, essa lógica estratégica permanece surpreendentemente atual.
A diferença é que hoje o campo de batalha não está apenas escondido em arquivos secretos, operações clandestinas ou redes de espionagem.
Ele está aberto, permanente e invisivelmente presente no fluxo diário de informações que molda a forma como sociedades inteiras compreendem o mundo.

As Raízes do Estado Secreto Russo: Do Império à Era Putin
 
A história da inteligência russa não pode ser compreendida como uma simples sucessão de agências ou reformas administrativas, ela é, antes de tudo, a história de um Estado que sempre se percebeu sitiado, geograficamente exposto, politicamente vulnerável e socialmente instável. Poucos países internalizaram de forma tão profunda a ideia de cerco permanente quanto à Rússia essa percepção moldou não apenas sua política externa, mas sua própria arquitetura de poder. O segredo, nesse contexto, não surge como exceção: ele se transforma em instituição estruturante do Estado, essa trajetória revela a formação de um Estado de segurança permanente, no qual vigilância, segredo e antecipação de ameaças deixam de ser exceções e passam a constituir o funcionamento normal do poder.
Diferentemente das democracias ocidentais, onde serviços de inteligência surgem como instrumentos auxiliares do poder político, na Rússia eles se consolidam como coluna vertebral da sobrevivência estatal. Para compreender a atuação contemporânea do SVR, GRU e do FSB, e a guerra invisível que Moscou conduz contra a Europa, é necessário retroceder muito além da Guerra Fria, muito além da KGB, até o período czarista, quando vigilância, repressão e infiltração já eram vistas como mecanismos naturais de governança.
O primeiro grande embrião desse Estado secreto surgiu em 1826, com a criação da Terceira Seção da Chancelaria Imperial, durante o reinado de Nicolau I, sua função era clara: monitorar dissidentes, censurar correspondências, infiltrar círculos intelectuais e antecipar qualquer ameaça ao trono dos Romanov. A Rússia imperial, vasta e heterogênea, enxergava o liberalismo europeu não como corrente ideológico, mas como vírus político, a lógica era brutalmente simples: ideias precedem revoluções, e revoluções destroem impérios, era preciso vigiar pensamentos antes que se tornassem ações.

Nicolau I, Imperador e Autocrata de Todas as Rússias, Rei da Polônia e Grão-Duque da Finlândia. Fonte: Wladimir Swertschkoff
 
O assassinato do czar Alexandre II, em 1881, confirmou esse temor e radicalizou a doutrina de segurança interna, surge então a Okhrana (Departamento para a Proteção da Segurança Pública e da Ordem), a polícia secreta mais sofisticada da Rússia pré soviética, ao mesmo tempo em que reprimia com violência, a Okhrana desenvolveu técnicas avançadas de infiltração, agentes duplos, operações psicológicas e controle de movimentos revolucionários, muitos dos métodos que mais tarde seriam associados à inteligência soviética nasceram ali, a cultura da suspeita, da vigilância total e da normalização da clandestinidade já estava plenamente formada antes mesmo da Revolução de 1917.
 
Czar Alexandre II é morto em atentado terrorista. Fonte Getty imagens.

A Revolução Russa não destruiu esse aparato, ela o radicalizou ideologicamente, a criação da Cheka (Comissão Extraordinária para Combater a Contra revolução e a Sabotagem), sob a liderança de Felix Dzerzhinsky, marcou uma ruptura decisiva, se a Okhrana protegia o czar, a Cheka protegia a revolução, e, por definição, qualquer um podia ser inimigo. A repressão deixou de ser defensiva e tornou-se ofensiva, execuções sumárias, terror institucionalizado, redes massivas de informantes e vigilância absoluta passaram a ser justificada como instrumentos legítimos de construção do novo Estado, a lealdade ao poder revolucionário passou a justificar qualquer método.
 
Pôster da União Soviética
Poeta Nikolay Gumilyov, acusado de tramar uma revolta contra os bolcheviques, assassinado pela Cheka. Fonte: Getty Images

A estrutura criada por Lenin e consolidada por Felix Dzerzhinsky não permaneceu estática. A antiga Cheka rapidamente se transformou em GPU (Direção Política do Estado), posteriormente OGPU (Direção Política Unificada do Estado) e, por fim, NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos). Essas mudanças não representavam apenas alterações burocráticas ou administrativas dentro do aparelho soviético. Cada reorganização simbolizava a expansão progressiva do poder repressivo do Estado soviético, ampliando sua capacidade de vigilância, infiltração, perseguição política e controle social. À medida que a União Soviética consolidava seu modelo autoritário, essas instituições deixavam de atuar apenas como órgãos de segurança e passavam a se tornar instrumentos centrais de terror estatal, responsáveis por operações clandestinas, expurgos, deportações em massa e pela criação de uma cultura permanente de medo e submissão dentro da sociedade soviética.
Sob o comando de Joseph Stalin, o NKVD deixou de ser apenas um mecanismo de segurança interna e passou a ocupar uma posição central na própria engenharia de poder do regime soviético. A inteligência transformou-se em uma arma estratégica do Estado, utilizada não apenas para neutralizar adversários reais, mas para construir uma atmosfera permanente de paranoia, submissão e terror político. O objetivo já não era somente vigiar a sociedade soviética, mas remodelá-la psicologicamente através do medo institucionalizado.
 
José Stalin
Primeiro-ministro soviético Joseph Stalin, 1950. Fonte: Britannica 
 
Image -- NKVD officers
Oficiais da NKVD na Ucrânia nas décadas de 30 e 40. Fonte: Britannica.
 
Os expurgos internos, as deportações em massa para o sistema de gulags, os assassinatos de opositores no exterior, as operações clandestinas e as sabotagens passaram a integrar uma política de Estado conduzida de maneira sistemática. Nesse período, a inteligência soviética abandonou uma postura meramente defensiva, em vez de apenas reagir a ameaças, o regime passou a fabricar inimigos internos e externos como instrumento de legitimação política, consolidando um sistema onde o medo coletivo se tornava um dos pilares fundamentais para a manutenção do poder soviético.
Durante a Segunda Guerra Mundial, esse sistema expandiu-se ainda mais, o GRU, já consolidado como braço de inteligência militar, especializou-se em espionagem estratégica, coleta tecnológica e operações atrás das linhas inimigas, foram nesse período que se formaram as bases das redes ilegais soviéticas no Ocidente, células adormecidas, agentes sem cobertura diplomática e infiltrações profundas em estruturas militares estrangeiras, as chamadas operações ilegais soviéticas: redes clandestinas compostas por agentes sem cobertura diplomática, células adormecidas e infiltrações profundas em estruturas estratégicas do Ocidente.
Paralelamente, o NKVD manteve o controle interno absoluto e projetou sua capacidade repressiva para além das fronteiras soviéticas, conduzindo operações externas de eliminação de opositores, sendo o caso mais emblemático o assassinato de Leon Trótski no México, em 1940.
León Trotsky após o golpe de picareta na cabeça, em 1940
León Trotsky após o golpe de picareta na cabeça, em 1940. Foto: Acervo, O Globo.
 
O espião Ramon Mercader, após o assassinato de Trotsky
O espião Ramon Mercader, após o assassinato de Trotsky | Foto de arquivo O Globo.
 
Trecho de notícia sobre a morte de Trotsky no GLOBO de 22 de agosto de 1940
Trecho de notícia sobre a morte de Trotsky no GLOBO de 22 de agosto de 1940 | Acervo O GLOBO
 
Trótski não era um dissidente comum: foi um dos principais arquitetos da Revolução Russa de 1917, responsável pela organização do Exército Vermelho e peça central na consolidação do poder bolchevique. Após a morte de Vladimir Lênin, entrou em rota de colisão com Joseph Stalin ao defender a expansão internacional da revolução, uma visão que confrontava diretamente o projeto stalinista de consolidação interna. Derrotado politicamente, foi expulso, exilado e transformado no principal símbolo de oposição ao regime soviético.
 
Vladimir Lênin. Fonte: Desconhecida.
 
Sua eliminação, portanto, não respondia apenas a uma necessidade de segurança, mas a uma lógica de poder: enquanto Trótski estivesse vivo, existia uma alternativa ideológica com legitimidade revolucionária. O assassinato, executado por meio de infiltração profunda por um agente que operava sob identidade falsa.
 O assassinato, realizado por meio de infiltração profunda por um agente que atuava sob identidade falsa, demonstra um modelo de operação extremamente sofisticado, sustentado pela paciência estratégica, pela construção lenta de confiança e pela exploração calculada de vulnerabilidades humanas e institucionais. Nesse cenário, a infiltração profunda pode ser entendida como a inserção silenciosa e prolongada de um agente dentro de um ambiente específico, seja uma estrutura governamental, organização política, círculo diplomático ou até relações pessoais próximas, utilizando identidades fabricadas, históricos falsos e comportamentos cuidadosamente moldados para evitar qualquer tipo de suspeita.
Ao contrário de operações rápidas ou métodos tradicionais de inteligência, esse tipo de infiltração exige anos de preparação, adaptação psicológica e consolidação de credibilidade, o objetivo do agente não é apenas observar o alvo, mas integrar-se completamente ao ambiente, tornando-se parte funcional daquela estrutura, isso permite acesso privilegiado a informações sensíveis, rotinas internas, fragilidades institucionais e relações de confiança que dificilmente seriam alcançadas por meios convencionais de espionagem, em operações conduzidas pelos serviços de inteligência soviéticos e russos, a infiltração profunda historicamente consolidou-se como uma das ferramentas mais eficazes para manipulação, sabotagem, recrutamento e eliminação de adversários estratégicos. Mais do que um ato isolado, a operação revela a natureza do aparato soviético: o exílio deixava de ser refúgio e passava a ser apenas uma extensão do campo de batalha político. 
Nesse contexto, o alcance do Estado não era limitado por fronteiras, mas definido pela existência de seus inimigos, eliminar Trótski significava, portanto, não apenas neutralizar um adversário, mas apagar simbolicamente uma alternativa ao próprio regime, consolidando a ideia de que a sobrevivência do poder soviético dependia da eliminação preventiva de qualquer ameaça, real ou potencial.
A Guerra Fria cristalizou essa arquitetura, em 1954, o NKVD foi reorganizado e deu origem à KGB, que se tornaria o símbolo máximo da espionagem soviética. A KGB não era apenas uma agência, era um sistema total, responsável por vigilância interna, contraespionagem, operações clandestinas, guerra psicológica, espionagem científica e infiltração política global, tornou-se o padrão-ouro da inteligência centralizada. O GRU, embora mais discreto, cresceu silenciosamente e, ao final da Guerra Fria, possuía efetivo superior ao da própria KGB, com presença militar clandestina em praticamente todos os continentes, a rivalidade entre inteligência civil (voltada à segurança do Estado, espionagem política e controle interno) e inteligência militar (focada em operações estratégicas, coleta de informações no campo de batalha e apoio direto às forças armadas) tornou-se traço permanente do Estado soviético.
Com o colapso da União Soviética, muitos acreditaram que esse sistema ruiria junto com o regime, não ruiu, ele foi reciclado. Em 1991, a KGB foi desmembrada: o FSB assumiu a segurança interna e a contraespionagem, o SVR ficou responsável pela espionagem externa civil, o GRU, crucialmente, permaneceu quase intacto dentro do Ministério da Defesa. Essa preservação não foi acidental, o GRU manteve doutrinas, estruturas e quadros da era soviética justamente no momento em que o Estado russo estava mais fragilizado, a espionagem não foi desmontada, foi adaptada à crise.
 Diferentemente do GRU, cuja atuação privilegia o campo militar e operacional, o SVR consolidou-se como o principal instrumento de projeção política e estratégica da Rússia no exterior, sua missão não se limita à coleta clássica de inteligência, mas envolve a penetração de elites políticas, econômicas, acadêmicas e midiáticas em países considerados estratégicos. O SVR atua no longo prazo, moldando percepções, cultivando redes de influência e preparando o ambiente político para ações futuras do Estado russo.
Nesse sentido, o SVR opera na camada mais silenciosa da guerra híbrida: aquela em que decisões são influenciadas antes que crises se manifestem, por meio de operações de influência, recrutamento de fontes humanas de alto nível e cooptação indireta de intermediários, o serviço busca reduzir resistências, fragmentar consensos e ampliar zonas de ambiguidade política. Enquanto o GRU testa limites por meio de ações visíveis e provocativas, o SVR trabalha para que, quando essas ações ocorram, o ambiente decisório adversário já esteja enfraquecido, dividido ou paralisado.
 
Da Cheka ao FSB, os serviços secretos soviéticos e russos mantiveram uma tradição marcada por espionagem, repressão política, operações clandestinas e guerra informacional ao longo de mais de um século. Fonte: Livro - GB History: 100 Years Of Soviet Terror: The Secret Police Of Russia: Cheka, GPU, OGPU, NKVD, KGB, FSK & FSB.

A ascensão de Vladimir Putin, ex-oficial da KGB, marcou a consolidação definitiva desse modelo, Putin não apenas compreendia o funcionamento do aparelho de segurança, ele pensava o poder por meio dele, sob seu governo, as agências deixaram de ser instrumentos técnicos e passaram a ser atores políticos centrais. O FSB expandiu seus poderes internos, assumindo funções que vão da repressão aos opositores ao controle indireto do processo eleitoral, o GRU foi transformado em ponta de lança da política externa agressiva, priorizando sabotagem, desinformação, ataques cibernéticos e guerra híbrida.
 
Documento de identificação de Putin na Stasi, 1985 - BSTU
Documento de identificação de Putin na Stasi, 1985, oficial do serviço secreto soviético da União Soviética, a KGB. Fluente em alemão, ele trabalhou em Dresden, na Alemanha Oriental, em 1985. Imagem: BSTU
 
A anexação da Crimeia, em 2014, simbolizou essa recomposição plena, operações do GRU prepararam o terreno por meio de infiltração e desestabilização, o FSB atuou na repressão local e na integração administrativa. A partir desse ponto, a inteligência russa entrou em uma fase declaradamente ofensiva, através de envenenamentos, sabotagens, ataques cibernéticos, violações de infraestrutura crítica e operações clandestinas tornaram-se práticas recorrentes no espaço europeu, agora combinando métodos soviéticos clássicos com tecnologias do século XXI.
 
Quem são os homens armados enviados à Crimeia?
Homens armados não identificados são vistos em Sebastopol, na Crimeia. Fonte: Editora Basset.

Nesse contexto de reconfiguração ofensiva, emergiu uma estrutura ainda mais opaca e especializada, descrita através do Wall Street Journal em uma reportagem de março de 2025: o SSD (nova agência de operações e inteligência da Rússia), frequentemente descrita por serviços ocidentais como um departamento de tarefas especiais voltado a operações de alto risco e alto valor estratégico. A SSD representa uma evolução funcional do aparato clandestino russo, concentrando missões de sabotagem sensível, ataques seletivos contra alvos estratégicos para o Estado Russo e assassinatos direcionados em território estrangeiro, principalmente de Países Ocidentais.
Diferentemente do GRU tradicional, cuja atuação pode envolver múltiplos níveis de comando e exposição operacional, a SSD opera com cadeias decisórias curtas, elevado grau de sigilo e clara orientação para resultados políticos imediatos. Sua função não é apenas coletar informação ou testar defesas, mas eliminar ameaças consideradas existenciais ao regime, enviar sinais estratégicos e reforçar a dissuasão psicológica. Ao atuar na interseção entre inteligência e ação letal, a SSD amplia a capacidade russa de operar na zona cinzenta, mantendo negação plausível mesmo diante de operações de impacto extremo.
A persistência desse padrão torna-se ainda mais evidente na Rússia contemporânea, onde a eliminação: direta ou indireta, de figuras consideradas sensíveis ao poder estatal reaparece sob novas formas, mas com lógica semelhante. Casos como o envenenamento de Alexei Navalny, atribuído por investigações independentes a agentes ligados ao FSB, o uso de agente químico contra Sergei Skripal em território britânico por operativos associados ao GRU, e o assassinato por envenenamento radioativo de Alexander Litvinenko em Londres, revelam a continuidade de operações com alcance extraterritorial e assinatura sofisticada. Paralelamente, a morte de figuras como Yevgeny Prigozhin, em circunstâncias associadas à queda de sua aeronave após confronto direto com o Kremlin, e uma série de óbitos envolvendo executivos do setor energético e de defesa, muitos ligados a empresas estratégicas como a Gazprom, frequentemente cercados por versões oficiais ambíguas, reforçam um ambiente no qual o poder estatal, direto ou indiretamente, projeta sua capacidade de coerção sobre elites políticas, militares e industriais.
 
Alexei Navalny durante audiência no Tribunal Municipal de Moscou, no início de fevereiro de 2021. Fonte: AP
 
Sergei Skripal pictured before the attack
Sergei Skripal, retratado antes do ataque em 2018. Fotografia: Rex/Shutterstock
 
 Nesse contexto, o que se observa não são eventos isolados, mas a manifestação contínua de uma lógica histórica de poder, na qual eliminação, intimidação e ambiguidade operam como instrumentos complementares de controle e sinalização estratégica. Mais do que sobreviver ao fim da União Soviética, esse modelo foi adaptado, refinado e integrado ao funcionamento do Estado russo contemporâneo.
 Hoje, compreender o conflito entre Rússia e Europa exige reconhecer essa continuidade histórica, o Estado russo não utiliza a inteligência como ferramenta ocasional, ele pensa e age por meio dela. O segredo deixou de ser apenas método operacional e passou a constituir linguagem política e identidade estratégica, quando o GRU sabota depósitos de munição na República Tcheca ou quando o FSB infiltra redes de influência na Alemanha, não estamos diante de desvios contemporâneos, mas da continuidade de quase dois séculos de cultura estatal baseada na convicção de que sobreviver significa antecipar, infiltrar e neutralizar ameaças antes que elas amadureçam.
 Esse passado ajuda a explicar por que a Rússia não vê espionagem como exceção, mas como forma permanente de interação com o mundo. A guerra híbrida que hoje atravessa a Europa não começou em 2022, ela representa a atualização contemporânea de uma tradição estratégica longa, silenciosa e profundamente enraizada na mentalidade do Estado russo.
 Mais do que garantir a integridade territorial ou a soberania formal da Federação Russa, todo esse aparato de segurança foi historicamente concebido para proteger aquilo que efetivamente representa o Estado: o núcleo central do poder. Na experiência russa, a sobrevivência do regime sempre se confundiu com a sobrevivência do centro decisório instalado no Kremlin, O Estado existe enquanto esse núcleo permanece intacto, quando ele colapsa, o próprio sistema político se dissolve ou se transforma.
 Essa lógica distingue profundamente a Rússia de modelos ocidentais de inteligência enquanto democracias liberais estruturam seus serviços de segurança, ao menos normativamente, para proteger instituições, ordem constitucional e sociedade, no caso russo essas estruturas existem para garantir a continuidade do comando político central, independentemente da forma ideológica assumida pelo regime, a lealdade não é direcionada ao sistema jurídico, mas ao centro do poder.
 A centralidade dessa missão ajuda a explicar por que episódios traumáticos moldaram de forma tão profunda a mentalidade estratégica russa. O colapso do regime czarista em 1917, incapaz de antecipar e neutralizar ameaças internas, tornou-se um trauma fundacional para o pensamento soviético. Da mesma forma, a implosão da União Soviética em 1991 foi interpretada dentro da comunidade de segurança russa não apenas como fracasso econômico, mas como falha do aparato de inteligência em proteger o núcleo político do Estado, em ambos os casos, a queda não ocorreu por invasões externas, mas pela corrosão interna do centro de poder.
 É nesse ponto que a era contemporânea ganha relevância sob a liderança de Vladimir Putin, o sistema de segurança russo foi reorganizado precisamente para impedir que esse tipo de colapso volte a ocorrer. O FSB, o GRU e demais estruturas não operam apenas como agências técnicas, mas como pilares de sustentação do regime, a  proteção do Kremlin, do círculo presidencial e da chamada “vertical do poder” tornou-se prioridade estratégica absoluta, neutralizar dissidências antes que se organizem, impedir fragmentações internas e deslocar ameaças para fora das fronteiras passou a integrar o mesmo imperativo estratégico: impedir que o centro volte a ruir.
 Esse arranjo explica a coerência entre repressão doméstica e agressividade externa. A guerra híbrida, a sabotagem, a desinformação e a coerção indireta não representam desvios oportunistas, mas extensões naturais de um sistema concebido para antecipar riscos existenciais ao núcleo do poder. ao externalizar tensões e produzir instabilidade fora de suas fronteiras, o regime reduz pressões internas e reforça sua própria estabilidade política, a segurança externa transforma-se, assim, em instrumento de segurança interna.
 Nesse sentido, compreender a inteligência russa exige abandonar a ideia de que ela serve primordialmente à Federação Russa enquanto entidade abstrata, ela serve ao poder enquanto estrutura concreta. O Estado de segurança permanente não existe para proteger a Rússia como comunidade política, mas para garantir que o centro decisório jamais seja novamente surpreendido pela história. A guerra invisível projetada sobre a Europa é, nesse aspecto, não apenas política externa, mas mecanismo de autopreservação estratégica do regime.
 
 Conclusão Geral: Quando a guerra deixa de ser exceção e passa a ser método
 
 Ao percorrer este ensaio, torna-se difícil sustentar a ideia de que a Rússia contemporânea esteja apenas “aprendendo” a conduzir guerras híbridas, o que se revela é algo mais profundo: Moscou herdou, aperfeiçoou e normalizou esse modelo de conflito ao longo de quase dois séculos de desenvolvimento estatal.
 Da Terceira Seção czarista à Okhrana, da Cheka ao NKVD, da KGB ao FSB e ao GRU, o fio condutor não é apenas institucional, mas mental, a Rússia aprendeu cedo que poder não se exerce exclusivamente pela força visível, mas pela capacidade de antecipar, infiltrar, confundir, desgastar e operar abaixo do limiar da guerra convencional.
Nesse sentido, a guerra híbrida contemporânea não representa ruptura histórica, mas atualização tecnológica de práticas antigas. O que antes dependia de agentes infiltrados, operações psicológicas analógicas e sabotagens clandestinas hoje se complementa com ciberataques, pressão energética, instrumentalização migratória e manipulação informacional em escala industrial, a lógica, porém, permanece intacta: explorar ambiguidade, fragmentar respostas e deslocar o custo do conflito para dentro das sociedades adversárias.
 A Europa, ao interpretar essa ofensiva como uma sequência de incidentes isolados, enfrenta um risco estratégico profundo: o da normalização gradual da instabilidade, quando sabotagens se transformam em estatísticas burocráticas, campanhas de desinformação em simples disputas narrativas e violações híbridas em episódios administrativos, parte essencial do conflito já foi vencida, não pela destruição direta, mas pelo desgaste psicológico e político das sociedades alvo.
 O objetivo russo não é necessariamente ocupar capitais europeias ou iniciar uma guerra convencional direta contra a OTAN. Isso seria previsível, custoso e arriscado, o objetivo mais sofisticado consiste em paralisar sem invadir, desgastar sem declarar guerra e enfraquecer adversários sem assumir responsabilidade direta.
 Por isso, talvez a pergunta central não seja se a Rússia está em guerra com a Europa, mas há quanto tempo essa guerra já ocorre sem ser plenamente reconhecida. Enquanto democracias europeias permanecerem dependentes de declarações formais, provas absolutas e modelos clássicos de conflito, a estratégia russa continuará operando exatamente onde obtém maior vantagem: na zona cinzenta da dúvida, da lentidão decisória e da erosão gradual da coesão política.
 Este texto não busca anunciar um cenário apocalíptico nem prever uma escalada inevitável, ele aponta algo mais estrutural: para o Estado russo, o conflito deixou de ser exceção e passou a constituir condição permanente da política internacional, ignorar essa realidade não a neutraliza, pelo contrário, amplia sua eficácia.
 Talvez o maior triunfo da guerra híbrida russa não seja um ataque espetacular ou uma vitória militar clássica, mas o momento em que sociedades europeias aceitarem a instabilidade permanente como parte inevitável da normalidade, quando isso acontecer, a guerra terá alcançado sua forma mais sofisticada de vitória: vencer sem jamais precisar ser oficialmente declarada.
 
 
 
Escrito e produzido por Gabriel Chagas 
 
Autor do blog Mundo em Conflito, com análises profundas sobre Geopolítica, Espionagem e Relações Internacionais.
 
 
 Acompanhe os bastidores e novidades pelo Instagram: @gabriel.schagas
 
 
 
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GREENHILL, Kelly M. Weapons of Mass Migration: Forced Displacement, Coercion, and Foreign Policy. Ithaca: Cornell University Press, 2010.

EUROPEAN COUNCIL. Migration Pressure and Hybrid Threats Report. Brussels, 2022.

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