A Guerra
Híbrida Russa contra a Europa: Inteligência, Zona Cinzenta e o Conflito
Permanente
Guerra da Rússia contra a Europa já começou? Drones,
espionagem, sabotagem e a lógica da guerra híbrida no flanco oriental da OTAN
Ao longo do
desenvolvimento deste texto, o leitor encontrará a resposta para uma questão
central: como Moscou conduz uma guerra híbrida permanente, por meio de
espionagem, sabotagem, coerção energética e manipulação informacional, operando
deliberadamente abaixo do limiar da guerra convencional.
A ideia de guerra
ainda permanece, para muitos, associada a imagens clássicas: colunas de
blindados cruzando fronteiras, tropas em marcha e declarações formais de
hostilidade entre Estados. Essa leitura, contudo, já não é suficiente para
compreender a natureza do confronto que hoje se estabelece entre a Rússia e a
Europa. O conflito em curso opera sob uma lógica distinta, difusa, fragmentada
e intencionalmente ambígua. Representatividade de uma guerra que não se anuncia,
não se declara e raramente assume autoria explícita, mas que produz efeitos
concretos e mensuráveis sobre infraestrutura crítica, estabilidade econômica,
processos políticos e percepção pública. É uma forma de enfrentamento conduzida
abaixo do limiar jurídico do conflito armado convencional, inserida naquilo que
analistas estratégicos e estudiosos de segurança internacional definem como a
zona cinzenta do conflito contemporâneo.
Este ensaio parte da
premissa de que a invasão russa da Ucrânia, em 2022, não inaugurou um novo
confronto entre Moscou e a Europa, mas apenas expôs de maneira inequívoca uma
disputa que já vinha sendo conduzida há anos. Antes do emprego aberto da força
militar, houve espionagem sistemática, antes dos mísseis e drones, houve
sabotagem discreta, antes da coerção armada direta, consolidaram-se mecanismos
de influência política, dependência energética e manipulação informacional. O
que se observa, portanto, não é uma escalada súbita, mas uma estratégia
prolongada de desgaste, na qual o Kremlin articula operações clandestinas,
pressão econômica, ações híbridas e guerra cognitiva com o objetivo de corroer,
de forma gradual e cumulativa, a coesão europeia.
Ao longo deste texto,
apresento como os serviços de inteligência russos, com destaque para o GRU
(Diretoria Principal de Inteligência Militar) e o FSB (Serviço Federal de
Segurança), atuam como vetores centrais dessa estratégia. Suas operações
integram sabotagem física, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação,
coerção energética e testes militares limitados, conduzidos de maneira a
preservar a negação plausível e evitar respostas diretas. Longe de constituírem
episódios isolados, esses eventos revelam um padrão consistente de
comportamento estatal, profundamente enraizado em uma tradição histórica de
segurança baseada na percepção permanente de cerco e na normalização do
conflito como instrumento legítimo de interação com o ambiente externo.
 |
| Vladimir Putin durante uma visita de 2006 à sede da GRU Foto: DMITRY ASTAKHOV / EPA-EFE / REX / Shutterstock |
 |
| FSB realizando uma operação em Abril de 2017 Fonte: khodorkovsky. |
Compreender essa guerra
invisível exige abandonar leituras fragmentadas e episódicas, reconhecendo a
lógica sistêmica que conecta fenômenos aparentemente desconexos: drones
sobrevoando bases militares, cabos submarinos monitorados ou sabotados no fundo
do mar, fluxos energéticos utilizados como instrumento de pressão, processos
eleitorais alvo de interferência e narrativas cuidadosamente construídas para
moldar percepções públicas. Não se trata de antecipar uma invasão direta do
território europeu, mas de entender como o poder russo opera para enfraquecer
adversários estratégicos sem jamais cruzar, de forma inequívoca, as linhas que
demandariam uma resposta militar coletiva.
É precisamente nesse
espaço de ambiguidade calculada que este ensaio se insere, não para anunciar
uma nova guerra, mas para demonstrar que ela já está em andamento. Uma guerra
silenciosa para muitos, mas estrutural para o futuro da segurança europeia e
para a própria compreensão contemporânea do que significa estar em conflito nos
tempos atuais.
O Leste Europeu como
Espaço Histórico de Confronto Estratégico
O conceito de Leste
Europeu não é apenas geográfico. Trata-se de uma construção histórica, política
e estratégica moldada por séculos de disputas imperiais, guerras ideológicas e
rearranjos de poder. Diferentemente da Europa Ocidental, cuja identidade
política se consolidou em torno de Estados-nação relativamente estáveis, o
Leste Europeu sempre ocupou a posição de zona de transição, fronteira móvel
entre impérios, sistemas políticos rivais e visões antagônicas de ordem
internacional.
De forma ampla, o Leste
Europeu abrange países como Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria,
Romênia, Bulgária, além dos Estados Bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia e, em
muitas abordagens, países dos Bálcãs e do entorno do Mar Negro. Essa
delimitação varia conforme o enfoque acadêmico, mas há um consenso central:
trata-se da região onde as fronteiras políticas sempre foram mais frágeis que
as pressões estratégicas externas.
 |
| Mapa do Leste Europeu. Fonte: Brasil Escola |
Durante a Guerra Fria, o
Leste Europeu foi incorporado à esfera de influência soviética e transformado
em cinturão de segurança da União Soviética. Por meio do Pacto de Varsóvia,
Moscou garantiu não apenas alinhamento político, mas também profundidade
estratégica, afastando o poder militar da OTAN de suas fronteiras diretas.
Esses Estados funcionavam como zonas tampão, cuja soberania era severamente
limitada sempre que entrava em conflito com os interesses do Kremlin, como
demonstraram as intervenções na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968).
 |
| Pacto de Varsóvia. "União da Paz e do Socialismo.". Fonte: Fenn-O-maniC. |
O colapso da União
Soviética, em 1991, rompeu essa arquitetura de forma abrupta. O que antes era um
bloco rigidamente controlado tornou-se um conjunto de Estados independentes,
politicamente frágeis, economicamente vulneráveis e estrategicamente expostos.
Para esses países, a integração à União Europeia e à OTAN não representou
apenas uma escolha ideológica, mas uma estratégia de sobrevivência diante da
incerteza quanto ao futuro comportamento russa.
 |
| Mikhail Gorbachev foi muito festejado internacionalmente, mas tornou-se impopular em casa. Fonte: Getty Images. |
Para Moscou, entretanto,
essa transformação foi interpretada sob uma lógica diametralmente oposta. A
perda do Leste Europeu significou não apenas o fim de uma zona de influência,
mas a dissolução de sua profundidade estratégica histórica. A região deixou de
ser um amortecedor e passou a ser percebida como um espaço de avanço de
estruturas militares e políticas adversárias, alimentando uma narrativa persistente
de cerco e vulnerabilidade.
É nesse ponto que o Leste
Europeu se consolida como epicentro estrutural do conflito contemporâneo entre
Rússia e Europa. Não se trata apenas de memória histórica ou ressentimento
geopolítico, mas de uma leitura estratégica profundamente enraizada na cultura
de segurança russa: controlar, influenciar ou, no mínimo, desestabilizar essa
região é visto como condição essencial para garantir a segurança do próprio
Estado russo.
Ao mesmo tempo, a
heterogeneidade interna do Leste Europeu, diferenças econômicas, fragilidades
institucionais, disputas identitárias, minorias étnicas e históricos políticos
distintos, criam um ambiente particularmente suscetível à guerra híbrida. É uma
região onde pressão energética, operações de inteligência, desinformação,
coerção econômica e sabotagem encontram terreno fértil para produzir efeitos
desproporcionais sem a necessidade de confrontos militares diretos.
Assim, o Leste Europeu não
deve ser entendido apenas como um conjunto de países, mas como um espaço
estratégico contestado, onde o passado imperial, o legado da Guerra Fria e as
dinâmicas de segurança do século XXI se sobrepõem. É a partir dessa condição
estrutural que emerge, de forma quase inevitável, o Flanco Oriental da OTAN
como a principal linha de fricção entre Rússia e Ocidente.
 |
| O flanco oriental da OTAN. Fonte: Geopol. |
Compreender o Leste
Europeu, portanto, é compreender por que o confronto atual assume a forma que
assume, por que ele se manifesta com maior intensidade nessa região e por que a
guerra contemporânea na Europa não começa com tanques cruzando fronteiras, mas
com pressões graduais sobre Estados historicamente situados na linha de choque
entre grandes potências.
O Fim da Guerra
Fria e a Reconfiguração do Leste Europeu
O fim da
Guerra Fria não representou apenas a dissolução de um confronto ideológico
entre capitalismo e socialismo, mas a implosão de uma arquitetura de poder que,
por mais de quatro décadas, havia estruturado o espaço político e estratégico
do Leste Europeu. Com o colapso da União Soviética, em 1991, e a dissolução do
Pacto de Varsóvia, a região deixou de funcionar como cinturão de segurança de
Moscou e passou a ocupar uma posição inédita: a de vácuo estratégico em um
continente em transição.
Durante o período bipolar,
os Estados do Leste Europeu operavam sob soberania limitada. Regimes alinhados
a Moscou garantiam estabilidade geopolítica ao bloco socialista, ainda que à
custa de autonomia política e liberdade econômica. A queda do Muro de Berlim,
em 1989, simbolizou o colapso dessa ordem. Em poucos anos, países como Polônia,
Hungria e Tchecoslováquia abandonaram regimes comunistas e iniciaram processos
acelerados, e muitas vezes desorganizados, de transição política e econômica.
 |
| Multidão em frente o Muro de Berlim enquanto guardas da fronteira da Alemanha Oriental derrubam parte da barreira, criado um novo ponto de travessia entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental Foto: GERARD MALIE / AFP/11-11-1989 |
A reconfiguração do Leste
Europeu foi marcada por três movimentos simultâneos e profundamente
interligados: a reconstrução do Estado, a redefinição da identidade nacional e
a busca por garantias externas de segurança. Economias planificadas foram
abruptamente expostas ao mercado, estruturas institucionais frágeis tiveram de
absorver modelos democráticos importados, e sociedades inteiras passaram a
redefinir seu lugar no sistema internacional.
 |
| Após o colapso da Dissolução da União Soviética, esses países seguiram caminhos distintos, alguns alinhados ao Ocidente, outros ainda sob a sombra e a influência de Rússia. Fonte: Loac. |
Nesse contexto, a
aproximação com o Ocidente tornou-se uma prioridade estratégica. A integração à
União Europeia e, sobretudo, à OTAN foi percebida por esses Estados não como
expansão ideológica, mas como blindagem existencial. Para países cuja memória
histórica inclui invasões, ocupações e dominação externa, a adesão a estruturas
multilaterais de defesa coletiva representava uma ruptura definitiva com a
condição de zona tampão.
A expansão da OTAN para o
Leste, iniciada nos anos 1990 e aprofundada nas décadas seguintes, consolidou
essa transformação. Estados anteriormente inseridos na órbita soviética
passaram a integrar formalmente a aliança militar liderada pelos Estados
Unidos, deslocando a linha de contato estratégico centenas de quilômetros em
direção às fronteiras russas. Para Moscou, esse processo não foi interpretado
como mera escolha soberana dos novos membros, mas como uma alteração estrutural
do equilíbrio de poder europeu.
É nesse ponto que a
reconfiguração do Leste Europeu deixa de ser apenas um fenômeno regional e
passa a assumir dimensão sistêmica. O espaço que antes garantia profundidade
estratégica à Rússia transformou-se em área de presença institucional, militar
e política do Ocidente. A região deixou de ser amortecedor e passou a ser
fronteira ativa, dinâmica e permanentemente tensionada.
Ao contrário da narrativa
que trata o pós-guerra Fria como um período de estabilização definitiva da
Europa, o que se observa no Leste Europeu é a consolidação de um equilíbrio
instável, sustentado por garantias externas, mas atravessado por fragilidades
internas. Diferenças econômicas persistentes, disputas políticas, dependência
energética e desafios institucionais mantiveram a região exposta a pressões
externas, particularmente por parte da Rússia.
Assim, o fim da Guerra
Fria não encerrou o papel estratégico do Leste Europeu, apenas o transformou. A
região deixou de ser um espaço controlado por um único centro de poder e
tornou-se um campo de disputa indireta, onde influência, coerção e guerra
híbrida substituíram a ocupação militar direta. É dessa reconfiguração
incompleta, assimétrica e contestada que emerge o cenário atual, no qual o
conflito entre Rússia e Europa não se manifesta como ruptura aberta, mas como
processo contínuo de fricção estratégica.
Compreender essa transição
é essencial para entender por que o Leste Europeu permanece no centro das
tensões contemporâneas. Não como resíduo da Guerra Fria, mas como produto
direto de seu fim mal resolvido, um espaço onde a história não foi superada,
apenas reconfigurada.
O que é o Flanco Oriental
da OTAN?
O Flanco Oriental da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é o conjunto de países da
Aliança localizados na fronteira direta ou imediata com a Rússia e seu entorno
estratégico. Trata-se da porção mais sensível da arquitetura de segurança
europeia, onde a proximidade geográfica com Moscou transforma tensões políticas
em riscos militares, informacionais e estratégicos concretos.
De forma objetiva, o
flanco oriental inclui principalmente os Estados Bálticos (Estônia, Letônia e
Lituânia), a Polônia, a Romênia, a Bulgária, além de países da Europa Central e
do entorno do Mar Negro. Com a entrada da Finlândia na OTAN, essa linha de
contato foi ampliada de maneira significativa, adicionando centenas de
quilômetros de fronteira direta com o território russo. Não se trata, portanto,
de uma noção abstrata, mas de uma linha física de contato entre dois sistemas
de poder rivais.
Para a OTAN, o flanco
oriental cumpre uma função defensiva clássica: dissuadir agressões, garantir a
segurança dos Estados-membros e sinalizar compromisso coletivo. Para a Rússia,
entretanto, essa mesma região é percebida de maneira radicalmente diferente.
Desde o fim da Guerra Fria, a expansão da Aliança para o Leste é interpretada
em Moscou como a perda de profundidade estratégica e como um avanço de
estruturas militares adversárias em direção ao seu núcleo geopolítico. Essa
percepção, correta ou não do ponto de vista jurídico, é central para
compreender o comportamento russo.
É justamente por isso que
o flanco oriental não é apenas uma fronteira militar, mas um espaço de fricção
permanente. Nele, exercícios militares, movimentações de tropas, sobrevoos,
atividades navais, operações de inteligência e disputas narrativas ocorrem de
forma contínua. Diferentemente das fronteiras clássicas da Guerra Fria, não há
uma separação rígida entre paz e guerra. O que existe é uma zona de contato
constante, marcada por ambiguidade e tensão controlada.
É essencial compreender
que quando se fala em guerra híbrida russa contra a Europa, fala-se, antes de
tudo, do que acontece nesse flanco. É ali que Moscou testa limites, observa
reações, explora fragilidades institucionais e mede o grau de coesão política
da Aliança. Pequenos incidentes no flanco oriental raramente são acidentais;
eles fazem parte de uma lógica estratégica que opera abaixo do limiar do conflito
armado convencional.
Assim, o flanco oriental
da OTAN deve ser entendido como o principal teatro contemporâneo da zona
cinzenta europeia. Não porque ali já exista uma guerra declarada, mas porque é
nesse espaço que se manifesta, de forma mais visível, a transição do conflito
clássico para um modelo em que pressão militar, inteligência, desinformação e
coerção política se combinam continuamente.
Compreender o que é o
flanco oriental, portanto, não é apenas uma questão geográfica. É o primeiro
passo para entender onde a guerra moderna acontece quando ela não é
oficialmente reconhecida como tal, e por que grande parte do confronto entre
Rússia e Europa se desenrola exatamente ali, sem anúncios formais, mas com
efeitos estratégicos reais.
 |
| Mostra a força e a localização dos grupos de batalha da OTAN. Fonte: Blomberg, OTAN, Reuters, Graphic News, |
A Arquitetura da Guerra
Híbrida: Vetores, Escalonamento e Negação Plausível
A guerra híbrida não pode
ser compreendida como a simples soma de sabotagem, espionagem, coerção
econômica e operações informacionais. Ela é, antes de tudo, uma arquitetura
estratégica integrada, concebida para produzir efeitos cumulativos sem jamais
se apresentar como guerra no sentido jurídico clássico. Seu poder não reside em
um ataque isolado, mas na articulação coordenada de múltiplos vetores de
pressão, distribuídos no tempo, no espaço e nos domínios do poder.
Diferentemente da guerra
convencional, que se organiza em campanhas militares claramente delimitadas, a
guerra híbrida opera como um sistema permanente de confronto, no qual ações
militares limitadas, operações clandestinas, coerção econômica, manipulação
informacional e pressão política atuam de forma sincronizada, ainda que não
simultânea. Cada vetor cumpre uma função específica, mas todos convergem para
um objetivo comum: desgastar o adversário sem acionar os mecanismos clássicos de
resposta coletiva.
Nesse modelo, Moscou
estrutura sua estratégia a partir de quatro eixos centrais de atuação:
O primeiro eixo é o
militar não convencional, marcado por testes limitados de força, uso extensivo
de drones, violações aéreas breves, exercícios militares provocativos e
presença armada ambígua em zonas sensíveis. Essas ações não visam a conquista
territorial imediata, mas o mapeamento de respostas, a identificação de lacunas
defensivas e a imposição de um estado psicológico de alerta constante. O
emprego de drones em incursões pontuais no flanco oriental da OTAN exemplifica
essa lógica: baixo custo, alto impacto político e ambiguidade suficiente para
evitar uma escalada automática.
O segundo eixo é o
clandestino - operacional, conduzido, sobretudo pelos serviços de inteligência
russos, com destaque para o GRU e o FSB. Aqui se inserem sabotagens físicas,
espionagem, operações de assassinato seletivo, infiltração de redes criminosas
e mapeamento de infraestrutura crítica. Essas ações são deliberadamente
fragmentadas, projetadas para parecerem acidentes, criminalidade comum ou
eventos isolados. O objetivo não é provocar choque imediato, mas normalizar a
instabilidade e elevar o custo de segurança do adversário.
O terceiro eixo é o
econômico - energético, no qual a dependência estrutural substitui a coerção
direta. Energia, matérias-primas estratégicas, cadeias logísticas e fluxos
comerciais são utilizados como instrumentos de pressão política indireta. Nesse
domínio, o poder não se exerce pela interrupção total, mas pela
imprevisibilidade: cortes seletivos, flutuações abruptas de preços e ameaças
implícitas. Trata-se de uma forma de guerra que transforma decisões
geopolíticas em dilemas domésticos, deslocando o conflito para o interior das
sociedades europeias.
O quarto eixo é o
cognitivo - informacional, talvez o mais decisivo. A guerra híbrida não busca
convencer, mas confundir. Narrativas concorrentes, campanhas de desinformação,
exploração de polarizações internas e amplificação de crises sociais visam
paralisar a tomada de decisão. Quando fatos se tornam disputas interpretativas
intermináveis, a resposta estratégica se dissolve. A dúvida, nesse contexto, é
mais eficaz do que a mentira direta.
O elemento que conecta
esses quatro eixos é a negação plausível. Cada ação é calibrada para ser grave
demais para ser ignorada, mas ambígua demais para justificar uma resposta
militar direta. Esse equilíbrio instável mantém o conflito permanentemente
abaixo do limiar jurídico da guerra convencional, deslocando o ônus da reação
para o campo político, legal e social do adversário. O tempo, aqui, não é um
fator neutro: ele favorece quem ataca de forma difusa e penaliza quem precisa
deliberar coletivamente.
A guerra híbrida,
portanto, não é um estágio intermediário entre paz e guerra. Ela é um estado
permanente de confronto, no qual a distinção entre tempos de normalidade e
tempos de crise deixa de existir. Moscou não busca a vitória decisiva, mas a
erosão progressiva da capacidade de reação, transformando cada resposta
europeia em um debate interno custoso, lento e politicamente divisível.
Compreender essa
arquitetura é essencial para interpretar corretamente os episódios analisados
nos capítulos seguintes. Drones, sabotagens, crises migratórias, ataques
cibernéticos e campanhas de influência não são eventos desconexos, mas
manifestações de um mesmo sistema estratégico. A guerra não começa quando
tanques cruzam fronteiras, ela começa quando o adversário passa a reagir sempre
tarde demais, sempre dividido e sempre em dúvida sobre a natureza do conflito
que enfrenta.
 |
| Visão Conceitual Russa de Guerra Híbrida (Guerra Não Linear) |
 |
| Concepção Russa de Guerra Híbrida |
A Geopolítica Conceitual:
A Teoria do Heartland e a Centralidade Estratégica da Ucrânia
Para compreender por que a
Rússia investe de forma tão persistente em uma estratégia de confronto
prolongado com a Europa, é necessário ir além da análise conjuntural e retornar
aos fundamentos clássicos da geopolítica. Muito antes da formulação
contemporânea da guerra híbrida, já existia uma leitura estrutural sobre o
papel do espaço, do território e da profundidade estratégica na projeção de
poder global.
Em 1904, o geógrafo e
estrategista britânico Halford Mackinder formulou a chamada Teoria do
Heartland, segundo a qual quem controlasse o “coração da Eurásia” controlaria,
em última instância, o destino do sistema internacional, ideia que o próprio
autor sintetizou de forma contundente ao afirmar que “quem governa a Europa Oriental domina o Heartland, quem governa o
Heartland domina a Ilha Mundo, quem governa a Ilha Mundo controla o mundo”.
Esse núcleo geográfico, abrangendo grande parte da atual Rússia, a Ucrânia e a
Ásia Central, seria protegido por sua profundidade continental, difícil de ser
penetrado por potências marítimas e decisivo para a projeção de poder terrestre
em escala global, é justamente essa lógica que transforma o espaço
ucraniano, hoje, em um campo de disputa que vai muito além do campo de batalha
militar.
Essa lógica se manifestou
de forma concreta durante a invasão alemã da União Soviética em 1941, quando o
avanço rápido da Operação Barbarossa
colidiu com a profundidade territorial soviética.
A Operação Barbarossa, lançada em junho de 1941, foi à ofensiva da
Alemanha nazista contra a União Soviética baseada na expectativa de uma vitória
rápida, obtida por meio de avanços profundos, cerco de forças inimigas e
colapso político em poucas semanas. O que se impôs, contudo, foi à profundidade
territorial soviética: à medida que o Exército Alemão avançava centenas de
quilômetros para o interior, suas linhas de suprimento se alongavam, a
logística entrava em colapso, o tempo operava contra a ofensiva e o espaço
conquistado deixava de ser vantagem estratégica, transformando-se em fator de
desgaste contínuo. O território, longe de representar controle, passou a
absorver a força atacante até dissolver sua capacidade ofensiva, invertendo o
curso da guerra.
 |
| Cenas do front oriental durante a Segunda Guerra Mundial revelam a brutalidade e a escala do confronto entre Alemanha Nazista e União Soviética: o avanço alemão pelo norte russo, equipes de lança-chamas em combate, aviões soviéticos sobrevoando posições inimigas próximas a Moscou, prisioneiros de guerra marchando rumo ao cativeiro e a resistência soviética respondendo com fogo direto. Um retrato da guerra total — onde território, ideologia e sobrevivência colidiram sem limites. Fonte: Bundesarchiv, Bild 146-1974-099-19 / Kempe. |
Neste contexto, profundidade
territorial não deve ser compreendida apenas como dimensão geográfica, mas como
lógica estratégica: a existência de espaço suficiente para absorver o impacto
inicial, alongar o avanço adversário, transformar rapidez em desgaste e
converter cada quilômetro conquistado em custo político, logístico e humano
crescente, até que o impulso ofensivo se dissolva no interior continental.
Mackinder antecipava que o
avanço das tecnologias terrestres, especialmente ferrovias, reduziria a
vantagem histórica das potências marítimas e tornaria o controle desse espaço
ainda mais estratégico. Mais de um século depois, essa previsão se materializa
não por trilhos, mas por oleodutos, gasodutos, corredores logísticos,
infraestrutura energética e cabos de comunicação que atravessam o leste
europeu.
O território deixou de ser
apenas chão, tornou-se sistema, um sistema que inclui energia, logística,
conectividade digital e infraestrutura crítica, hoje sistematicamente
pressionados por sabotagens, espionagem e coerção econômica.
É nesse contexto que a
Ucrânia assume centralidade absoluta na percepção estratégica de Moscou. Para o
Kremlin, o controle, ou, no mínimo, a neutralização do espaço ucraniano não é
apenas uma questão de segurança imediata, mas um elemento estrutural da disputa
pelo equilíbrio de poder na Eurásia. Uma Ucrânia integrada ao Ocidente
representa, sob essa lógica, uma ruptura direta do cinturão defensivo russo e
uma projeção da influência atlântica no coração
continental, diferentemente de outras áreas do antigo Heartland, a Ucrânia
combina profundidade territorial, densidade populacional, infraestrutura
crítica e proximidade direta com o flanco oriental da OTAN, tornando-se o ponto
de maior sensibilidade estratégica para Moscou.
A invasão de 2022,
portanto, não pode ser interpretada apenas como um ato revisionista ou reativo.
Ela se insere em uma leitura geopolítica de longo prazo, na qual a Rússia busca
preservar sua condição de potência continental frente ao que percebe como um
cerco estratégico promovido pela OTAN e pelos Estados Unidos. A guerra na
Ucrânia não é apenas sobre fronteiras, é sobre posição sistêmica, tendo em
vista que na leitura estratégica russa, a OTAN não representa apenas tropas,
mas a incorporação plena do espaço ucraniano a um ecossistema político militar
atlântico.
Essa perspectiva ajuda a
compreender por que Moscou não limita sua ação ao campo militar convencional. A
disputa pelo Heartland, no século XXI, não se trava apenas com tanques, mas com
energia, sabotagem, espionagem, desinformação e coerção econômica. A guerra
híbrida surge, assim, não como inovação isolada, mas como adaptação funcional
de uma lógica geopolítica antiga a um ambiente estratégico contemporâneo, o que
hoje se manifesta como sabotagem, coerção energética e operações clandestinas
é, na essência, a disputa pelo controle do Heartland travada abaixo do limiar
da guerra convencional.
 |
Na visão de Halford Mackinder, o controle da Europa Oriental é a chave: é ali que o poder continental se projeta em direção ao Ocidente. Entre Polônia, Ucrânia e Bielorrússia, desenha-se a verdadeira linha de tensão, onde a influência da Rússia encontra os limites estratégicos do mundo europeu.
|
Kaliningrado e os Enclaves
Russos na Europa: Pressão Geopolítica na Zona Cinzenta
A presença russa na Europa
não se limita às fronteiras reconhecidas da Federação Russa. Um dos elementos
mais sensíveis, e frequentemente subestimados, da estratégia de Moscou é a
manutenção de enclaves territoriais altamente militarizados, capazes de
projetar poder, gerar instabilidade e impor dilemas estratégicos à aliança
atlântica (OTAN) sem o disparo de um único tiro, O caso mais emblemático é o de
Kaliningrado.
 |
| Oblast Russo de Kaliningrado. Fonte: RFA. |
A origem de Kaliningrado remonta ao final da
Segunda Guerra Mundial, quando o antigo território alemão da Prússia Oriental,
cuja capital era Königsberg, foi incorporado à União Soviética como resultado
direto dos acordos de Potsdam em 1945. A população alemã foi expulsa, o
território foi completamente sovietizado e rebatizado em homenagem a Mikhail
Kalinin, dirigente bolchevique próximo a Stalin.
 |
| A Prússia foi um Estado que surgiu a partir da Prússia Oriental e que exerceu influencia sobre a História da Alemanha e da Europa. Fonte: Brasil Escola. |
Com o colapso da União
Soviética em 1991, Kaliningrado passou a existir como um enclave russo, isto é,
um território pertencente a um Estado, mas geograficamente separado de seu
corpo principal e cercado por países estrangeiros, situado entre Polônia e Lituânia, ambos hoje membros da OTAN. Essa condição geográfica singular transformou Kaliningrado
de herança territorial da Guerra Fria em instrumento ativo de pressão
estratégica, permitindo à Rússia projetar poder militar, político e psicológico
no coração do flanco oriental da Aliança Atlântica.
Geograficamente isolado do
território continental russo e situado entre Polônia e Lituânia, Kaliningrado
representa uma anomalia estratégica herdada da Guerra Fria, mas plenamente
integrada à lógica contemporânea da guerra híbrida. Longe de ser um resquício
histórico, o enclave tornou-se um posto avançado de coerção estratégica,
inserido no flanco oriental da OTAN.
Do ponto de vista militar,
Kaliningrado abriga sistemas avançados de mísseis, capacidades antiaéreas e
infraestrutura naval que permitem à Rússia estabelecer zonas de negação de
acesso e interdição de área (A2/AD) no Mar Báltico. Essa configuração não visa
necessariamente a um confronto direto, mas cria um ambiente permanente de
dissuasão, no qual qualquer movimentação da OTAN exige cálculo, coordenação
política e risco de escalada. A ambiguidade quanto à presença de
capacidades nucleares táticas no enclave amplia ainda mais esse dilema estratégico,
pois eleva o custo potencial de qualquer resposta militar, mesmo diante de
ações limitadas.
 |
| Míssil Nuclear Iskander - M Russo em Kaliningrado. Fonte: CM |
O ponto chave para
explicar o conceito A2/AD é a palavra dissuasão, e essa expressão significa negação de acesso e interdição de área (A2/AD
– Anti-Access/Area Denial),
ela descreve uma lógica estratégica relativamente simples, ainda que poderosa: impedir que o adversário chegue a um
determinado espaço ou, caso chegue, dificultar severamente sua permanência e
sua capacidade de operar ali. Em vez de conquistar território com tropas
em solo, essa estratégia se baseia na criação de um ambiente hostil, no qual
qualquer movimentação aérea, naval ou terrestre passa a ser constantemente
ameaçada. Sistemas de mísseis de longo alcance, defesas antiaéreas, radares, bases
navais e capacidades de guerra eletrônica formam uma espécie de “bolha
militar”, capaz de atingir aeronaves, navios e forças terrestres antes mesmo
que consigam se organizar para o combate. O objetivo não é necessariamente
travar uma batalha aberta, mas elevar o
custo de uma intervenção a níveis tão altos que o adversário seja dissuadido de
agir. Assim, o controle do espaço não se dá pela ocupação direta, mas
pela capacidade de negar ao outro o uso
seguro desse espaço, transformando a geografia em um instrumento de
coerção estratégica.
 |
| Antiacesso e Negação de Área - A2/AD |
 |
| Capacidades A2/AD russas frente a OTAN. Fonte: behorizon |
Mais do que uma base
militar, Kaliningrado exerce uma função psicológica e política. Sua simples
existência impõe à Europa um estado contínuo de alerta, deslocando recursos
defensivos, ampliando exercícios militares e alimentando debates internos sobre
segurança, orçamento e compromisso coletivo. Consiste em um mecanismo clássico
de guerra híbrida: pressionar sem atacar, ameaçar sem agir, desgastar sem
declarar guerra.
Essa pressão estratégica
torna-se ainda mais sensível quando se observa o chamado Corredor de Suwałki, uma estreita
faixa de aproximadamente 65 quilômetros de largura situada entre a Polônia e a
Lituânia. À primeira vista, trata-se apenas de um trecho periférico do mapa
europeu; na prática, porém, ele funciona como a única ligação terrestre entre os países bálticos e o restante do
território da OTAN. Tudo o que conecta Estônia, Letônia e Lituânia ao
apoio militar direto da Aliança passam, inevitavelmente, por esse corredor. Do
ponto de vista estratégico, isso cria uma vulnerabilidade estrutural clara:
caso esse espaço seja bloqueado, isolado ou simplesmente ameaçado, os países
bálticos tornam-se, na prática, um enclave estratégico exposto.
 |
| O território, uma área quase desabitada que consiste principalmente de pântanos, duas estradas e uma única pista de trem, representa a menor distância entre Kaliningrado e Bielorrússia. Fonte: BBC |
Moscou
compreende perfeitamente essa fragilidade e a explora de forma recorrente não
apenas por meio de exercícios militares e simulações de guerra, mas também no
plano psicológico e narrativo. A ameaça
não precisa ser executada para produzir efeitos reais, sua
simples existência já obriga a OTAN a redistribuir forças, rever planos de
contingência e operar sob permanente pressão estratégica, transformando um
estreito corredor geográfico em um ponto de tensão desproporcionalmente
poderoso. Kaliningrado, portanto, não é um teatro de guerra convencional, mas
um instrumento de coerção permanente, operando exatamente no espaço cinzento
entre paz e guerra. Ele exemplifica como a Rússia utiliza a geografia como
arma, transformando enclaves territoriais em plataformas de influência,
dissuasão e instabilidade controlada.
Inserido no contexto mais
amplo da Teoria do Heartland, o enclave revela uma dimensão complementar da
estratégia russa: enquanto Moscou busca preservar sua profundidade continental
na Eurásia, projeta poder a partir de posições avançadas na Europa, desafiando
a lógica marítima e institucional do Ocidente. O resultado é uma arquitetura de
confronto difuso, na qual o território deixa de ser apenas espaço físico e
passa a funcionar como vetor ativo da guerra híbrida.
A Doutrina da Guerra Não
Linear e a Lógica da Zona Cinzenta
As ações russas descritas
ao longo deste ensaio não são improvisações oportunistas nem respostas reativas
a eventos isolados. Elas se inserem em um corpo doutrinário consolidado,
desenvolvido ao longo de décadas e formalizado progressivamente no pensamento
estratégico russo contemporâneo. Os analistas militares definem como guerra não
linear, um modelo de enfrentamento que rompe deliberadamente com a separação
clássica entre guerra e paz, civil e militar, interno e externo.
Essa concepção foi
sistematizada no debate estratégico russo ao longo dos anos 2000 e 2010,
especialmente a partir das reflexões de oficiais-generais como Valery Gerasimov, Chefe do
Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa desde 2012 e um dos mais
próximos e duradouros colaboradores de Vladimir Putin no núcleo decisório da
segurança nacional russa, Gerasimov ocupa uma posição singular na arquitetura
do poder em Moscou. Sua função vai muito além da dimensão operacional: ele atua
como elo entre a liderança política do Kremlin e a formulação estratégico militar de longo prazo, participando diretamente das decisões sobre emprego da força,
planejamento estratégico e integração entre instrumentos militares e não
militares do Estado russo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2023/J/T/4TduwYRR6sitgG8EPvGw/101726024-files-in-this-file-photo-taken-on-december-21-2021-russian-president-vladimir-putin-li.jpg) |
| O presidente russo Vladimir Putin (à esquerda) e Valery Gerasimov (à direita), atualmente Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Russas. Foto: SERGEI GUNEYEV/AFP |
Em seus escritos e
pronunciamentos, Gerasimov enfatizou de forma recorrente a primazia dos meios
não militares: ou seja, os informacionais, psicológicos, econômicos,
diplomáticos e cibernéticos, na obtenção de objetivos estratégicos, defendendo
que, no ambiente contemporâneo, esses instrumentos podem ser mais decisivos do
que o emprego direto da força armada convencional. Ainda que frequentemente mal
interpretada no Ocidente como uma “doutrina formal”, a chamada Doutrina Gerasimov, essa leitura não
corresponde a um manual operacional rígido, mas sim à observação pragmática de
como a Rússia percebe a evolução dos conflitos modernos. Consiste, na prática,
de uma adaptação consciente da tradição russa de maskirovka, negação plausível e operações encobertas ao ambiente
informacional do século XXI, no qual a fronteira entre guerra e paz se torna
deliberadamente ambígua.
 |
| Antiga estratégia militar Russa para enganar seus oponentes geopolíticos. Fonte Global News. |
O conceito de maskirovka
ocupa uma posição central na tradição militar e estratégica russa e soviética,
sendo frequentemente traduzido de forma imprecisa no Ocidente como simples
“camuflagem”. Na realidade, trata-se de um princípio muito mais amplo, que
envolve o emprego sistemático do engano como instrumento de poder. A maskirovka
visa confundir, desorientar e induzir o adversário a avaliações equivocadas
sobre intenções, capacidades, objetivas estratégicos e o real estado das
operações, operando de maneira integrada nos níveis tático, operacional,
estratégico e político.
Diferentemente de
concepções ocidentais que tendem a tratar o engano como um expediente
circunstancial, a maskirovka é entendida, no pensamento russo, como um
método estrutural e permanente da condução do conflito. Ela não se limita à
ocultação de forças ou equipamentos, mas inclui a criação deliberada de
narrativas falsas, a manipulação do fluxo informacional, o uso calculado da
ambiguidade e a construção de múltiplas camadas de negação plausível. O
objetivo não é apenas esconder a realidade, mas moldar a percepção do
adversário, atrasando sua reação, fragmentando sua tomada de decisão e
explorando suas vulnerabilidades cognitivas e institucionais.
Historicamente, a maskirovka
atravessa diferentes períodos do pensamento estratégico russo. Está presente
tanto na herança czarista quanto na doutrina soviética, especialmente durante a
Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, quando o engano operacional e estratégico
foi amplamente empregado para mascarar concentrações de tropas, eixos de ataque
e intenções políticas. Essa continuidade histórica demonstra que o engano não é
um recurso episódico, mas uma prática institucionalizada, transmitida e
adaptada ao longo do tempo.
No contexto contemporâneo,
marcado pela centralidade do domínio informacional, pela velocidade da
circulação de narrativas e pela hiper conectividade, a maskirovka passa
por uma reinterpretação funcional. Ela se expande para além do campo militar
estrito, incorporando operações psicológicas, desinformação, coerção
diplomática, pressão econômica e ações cibernéticas. Nesse ambiente, a
distinção entre guerra e paz torna-se deliberadamente ambígua, permitindo que o
Estado russo atue de forma persistente abaixo do limiar da guerra convencional,
explorando zonas cinzentas do sistema internacional.
Essa lógica conecta
diretamente a maskirovka às práticas contemporâneas de guerra híbrida.
Não como uma doutrina formalizada em manuais rígidos, mas como uma cultura
estratégica profundamente enraizada, na qual o engano, a ambiguidade e a
manipulação perceptiva são considerados tão decisivos quanto o emprego direto
da força. A guerra, nesse sentido, deixa de ser um evento claramente delimitado
no tempo e no espaço e passa a ser concebida como um processo contínuo de
competição estratégica.
Compreender a maskirovka,
portanto, é compreender um elemento fundamental da forma como a Rússia percebe
o conflito moderno. Para Moscou, o engano não representa uma exceção às regras
da condução da guerra, mas um método estruturante da estratégia estatal, capaz
de produzir efeitos políticos e estratégicos duradouros sem a necessidade
imediata de confrontação militar aberta.
O maior exemplo prático da
aplicação da maskirovka em larga escala ocorreu durante a Operação
Bagration, lançada pela União Soviética em junho de 1944 contra o Grupo de
Exércitos Centro da Alemanha nazista. Considerada uma das ofensivas mais
devastadoras da Segunda Guerra Mundial, a operação não foi apenas um sucesso
militar, mas uma demonstração sofisticada de engano estratégico.
 |
| Fonte:
Pyotr Bernstein/Sputnik
|
Enquanto os alemães
esperavam o principal esforço soviético no sul, em direção à Ucrânia, o comando
soviético, sob coordenação do Stavka, empregou um conjunto articulado de
medidas de maskirovka: movimentações falsas de tropas, comunicações
simuladas, ocultação logística e manipulação deliberada de inteligência.
Unidades inteiras foram reposicionadas sem detecção significativa, enquanto
sinais visuais e eletrônicos induziam o alto comando alemão a interpretações
equivocadas sobre o eixo principal do ataque.
 |
| Equipamentos militares alemães abandonados aos soviéticos na Bielorrússia após a retirada das tropas da região, Frente Oriental na Segunda Guerra Mundial. Fonte: Arquivo do Ministério de Defesa da Rússia. |
O resultado foi um colapso
quase completo das defesas alemãs na Bielorrússia. O Grupo de Exércitos Centro
foi praticamente destruído, com perdas humanas e materiais catastróficas,
evidenciando não apenas a superioridade operacional soviética, mas, sobretudo,
a eficácia do engano como multiplicador de força.
Mais do que um episódio
isolado, a Operação Bagration consolidou a maskirovka como um elemento
decisivo da arte operacional soviética, demonstrando que a manipulação da
percepção do inimigo pode ser tão determinante quanto à superioridade numérica
ou tecnológica no campo de batalha.
Nesse paradigma, o
conflito não começa com o disparo do primeiro míssil, mas com a preparação do
ambiente estratégico. A guerra passa a ser concebida como um processo contínuo
de pressão multidimensional, no qual instrumentos políticos, econômicos,
informacionais, cibernéticos, energéticos e clandestinos precedem, acompanham e
muitas vezes substituem o uso aberto da força militar. O objetivo não é
derrotar o inimigo em batalha decisiva, mas corroer gradualmente sua capacidade
de decisão, sua coesão interna e sua percepção de segurança.
É nesse contexto que se
insere o conceito de “zona cinzenta”, amplamente utilizado por estrategistas
contemporâneos para definir o espaço operacional no qual ações hostis são
deliberadamente calibradas para permanecer abaixo do limiar jurídico e político
da guerra convencional. Moscou explora esse espaço com precisão cirúrgica. Cada
sabotagem limitada, cada ataque cibernético reversível, cada violação aérea
breve ou campanha de desinformação é projetada para ser grave demais para ser
ignorada, mas ambígua demais para justificar uma resposta militar direta.
Esse modelo favorece
profundamente atores autoritários em detrimento de democracias liberais.
Enquanto regimes centralizados conseguem absorver custos, ocultar informações e
acelerar decisões, sistemas democráticos operam sob escrutínio público,
disputas internas e necessidade de legitimidade jurídica, a guerra não linear
explora precisamente essa assimetria estrutural.
A racionalidade
estratégica por trás desse modelo é clara: paralisar o processo decisório do
adversário. Ao transformar cada ação hostil em um debate jurídico, político e
diplomático interno, a Rússia desloca o custo do conflito para dentro das
democracias europeias. O tempo que a Europa gasta discutindo se um incidente
constitui ou não um “ato de guerra” é, para Moscou, tempo ganho. A guerra não
se vence pelo impacto imediato, mas pela exaustão cumulativa.
Os Limites Estruturais da
Resposta Europeia à Guerra Híbrida
Diante dessa estratégia, a
resposta europeia tem sido marcada por avanços pontuais, mas também por
limitações estruturais profundas. A criação de centros especializados em
ameaças híbridas, o reforço da presença militar no flanco oriental e o aumento
da cooperação em inteligência representam passos relevantes. No entanto, essas
medidas operam dentro de um arcabouço político e jurídico que favorece a
cautela, a fragmentação e a lentidão.
A complexidade da
resposta europeia é ampliada pelo descompasso institucional entre a OTAN,
responsável pela defesa coletiva, e a União Europeia, que detém competências
centrais em áreas como regulação digital, energia, infraestrutura crítica e
políticas internas. A guerra híbrida opera exatamente no espaço onde essas
competências se sobrepõem, mas não se fundem plenamente.
 |
| Sede da Otan em Bruxelas, na Bélgica. REUTERS/Johanna Geron. |
Nesse contexto, o
Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte permanece como uma garantia poderosa,
porém mal adaptada a ações deliberadamente fragmentadas e ambíguas. A ausência
de um ataque armado inequívoco transforma a cláusula central da dissuasão
coletiva em um instrumento politicamente sensível e operacionalmente difícil de
acionar.
A União Europeia e seus 27 Estados-membros enfrentam um dilema fundamental: responder com firmeza a ações
hostis que não se enquadram claramente nas categorias tradicionais do direito
internacional. Cada sabotagem precisa ser atribuída com alto grau de certeza, cada
ataque cibernético exige provas técnicas complexas, cada campanha de
desinformação se dissolve na fronteira nebulosa entre liberdade de expressão e
interferência estrangeira. O resultado é um ambiente no qual a
responsabilização é sempre tardia e a dissuasão, frequentemente insuficiente.
A saída do Reino Unido da União Europeia, formalizada após o Brexit, expôs de maneira concreta as limitações estruturais do bloco diante de desafios complexos e prolongados. O processo, iniciado com o referendo de 2016, revelou não apenas divisões internas profundas, tanto dentro do próprio Reino Unido quanto entre os Estados-membros, mas também a dificuldade da União em responder de forma ágil e coesa a um evento político de grande magnitude. As negociações arrastadas, marcadas por impasses sobre soberania, comércio e fronteiras (especialmente na questão da Irlanda do Norte), evidenciaram um padrão semelhante ao observado em outros cenários: decisões estratégicas que exigem consenso tendem a serem lentas, reativas e condicionadas a múltiplos vetores políticos e jurídicos.
Esse precedente reforça a percepção de que, em contextos onde a ambiguidade e a complexidade dominam , seja na saída de um membro ou na resposta a ameaças híbridas, a União Europeia frequentemente opera em um ritmo inferior ao necessário para estabelecer dissuasão eficaz. O Brexit, nesse sentido, não foi apenas um episódio de ruptura institucional, mas um estudo de caso sobre os limites da coordenação política dentro de um sistema supranacional que depende, em última instância, da convergência de interesses nacionais distintos.
 |
| Mapa dos países da União Europeia, já sem o Reino Unido. Fonte: MARQUES, Vinícius. União Europeia. Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/uniao-europeia/. Acesso em: 20 abr. 2026 |
Além disso, a natureza
multinacional da Europa impõe um desafio adicional, o que para um País
representa uma ameaça existencial, para outro pode parecer um incidente
periférico. Moscou compreende essa assimetria e a explora sistematicamente,
atacando pontos sensíveis de forma seletiva, fragmentada e distribuída. Não se
trata de confrontar a Europa como um bloco coeso, mas de explorar suas fissuras
internas.
Essa assimetria estratégica
explica por que a Rússia consegue manter a iniciativa, enquanto Moscou opera
sob uma lógica centralizada, com cadeias de comando opacas e decisões rápidas,
a Europa responde por meio de consenso, debate público e processos legais
prolongados, a diferença de ritmo não é um detalhe operacional, é um fator
estrutural que molda o equilíbrio do conflito.
Nesse ambiente, a
vantagem russa não decorre de superioridade econômica ou tecnológica absoluta,
mas da exploração sistemática das regras, valores e procedimentos que sustentam
a ordem europeia. A guerra híbrida transforma a própria arquitetura
institucional do Ocidente em terreno de disputa, convertendo prudência em
paralisia e legalidade em vulnerabilidade estratégica.
A Normalização do
Risco: Drones Russos, Violação do Espaço Aéreo Polonês e o Teste da Guerra
Híbrida no Flanco Oriental da OTAN
Na madrugada de 9 para 10
de setembro de 2025, um dos episódios mais significativos e delicados da atual
fase da guerra entre Rússia e Ucrânia desenrolou-se a milhares de quilômetros
das linhas de frente: aproximadamente 19 drones militares russos penetraram o
espaço aéreo da República da Polônia, um Estado membro da Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN), marcando uma escalada que até então era apenas
latente nas tensões entre Moscou e as potências ocidentais. Esses veículos não
tripulados oriundos, segundo relatos oficiais, da Federação Russa e de
territórios sob influência russa atravessaram a fronteira polonesa em meio a
uma ampla ofensiva aérea contra o território ucraniano, provocando a primeira
resposta militar direta de um País da OTAN no conflito desde o início da
invasão russa em 2022 e desencadeando uma reação coordenada entre aliados
europeus e norte-americanos.
 |
| Imagem mostra drone em Czosnowka, Polônia, após suspeita de drones russos terem sido abatidos. Fonte: REUTERS/Dariusz Stefaniuk |
O espaço aéreo
constitui um dos domínios mais sensíveis da guerra híbrida contemporânea, pois
violações breves e ambíguas permitem testar soberanias sem produzir
automaticamente vítimas, destruição massiva ou provas inequívocas de intenção
hostil. Ao operar nesse domínio, Moscou explora deliberadamente a fronteira
entre erro técnico, provocação política e ação militar, ampliando a incerteza
decisória do adversário.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/l/s/uA8l82ThKf3wltLaihew/250910-info-mapa-russia-ataca-polonia.png) |
| INFOGRÁFICO: drones abatidos na Polônia — Foto: Arte/g1 |
O primeiro-ministro da
Polônia, Donald Tusk, definiu a ação como uma “provocação em larga escala” e
afirmou que os drones violaram repetidamente o espaço aéreo polonês,
representando um perigo real para a segurança do País. Aqueles objetos que
apresentaram risco foram abatidos pelos caças F-16 poloneses com apoio de
aeronaves da OTAN, incluindo jatos F-35 de países aliados, numa operação sem
precedentes na história da aliança. Aeródromos civis na região, como o
Aeroporto Chopin em Varsóvia, além de outros aeroportos regionais, tiveram voos
suspensos como medida de precaução enquanto a ameaça persistia no território.
Relatórios oficiais confirmam que até oito desses drones caíram em solo polonês
ou foram interceptados, sem que fossem registradas vítimas civis.
 |
Caças F-16 Block 52 da Força Aérea Polonesa em voo. Foto: Bartek - Bera/MoD Polônia. |
O conceito de guerra híbrida é essencial para
compreender esse episódio dentro de um contexto estratégico mais amplo, ele
descreve uma forma de conflito com combinações, simultâneas, de meios
convencionais e não convencionais de pressão, desinformação, utilização de forças
regulares (Forças armadas) e irregulares (grupos armados não estatais ou
operadores especiais sem identificação), e o uso massivo de tecnologias como
drones, guerra cibernética e propaganda política. Em vez de se limitar a
confrontos frontais entre exércitos, a guerra híbrida busca explorar
vulnerabilidades políticas, militares e sociais do adversário, pressionar por
resultados sem declarar formalmente um estado de guerra e provocar divisões
internas dos blocos adversários. O uso de veículos aéreos não tripulados é um
exemplo clássico dessa lógica: os drones são econômicos, difíceis de rastrear e
podem ser empregados em grande número para criar um efeito militar e
psicológico desproporcional ao seu custo, elementos que definem as estratégias
híbridas contemporâneas.
 |
| Imagens mostram combatentes do Grupo Wagner (Mercenários Russos) supostamente treinando soldados belarussos em uma base a sudeste de Minsk, 15 julho 2023. Fonte: Reuters |
No episódio polonês, ficou
claro que Moscou não apenas procurou causar dano físico, mas testar os limites
da resposta coletiva da OTAN, forçando aliados a reagir diante de um ato que
tradicionalmente, em conflitos clássicos, poderia caracterizar um “ato de
guerra”. Essa nuance é típica da guerra híbrida, provocar uma resposta militar
ou política desfavorável ao adversário, sem um confronto aberto em grande
escala, na expectativa de enfraquecer sua unidade interna ou questionar a
eficácia de suas alianças.
Esse incidente detonou uma
série de repercussões geopolíticas. A Polônia acionou o 4º Artigo do Tratado do
Atlântico Norte, que não implica automaticamente ação militar coletiva sob Artigo
5ª, mas estabelece a obrigação dos aliados em consultarem-se caso a
segurança de um membro seja ameaçada. Isso significa que, mesmo sem um ataque
convencional declarado, a comunidade de defesa transatlântica reconheceu o
potencial de crise e tratou como um ponto de convergência estratégica para
consultas e decisões conjuntas.
Ao repetir esse tipo
de incursão sem desencadear retaliações proporcionais, consolida-se um processo
de normalização do risco. Incidentes que antes seriam considerados exceções
passam a integrar a rotina estratégica, deslocando gradualmente o limiar de
tolerância da OTAN e da Europa a ações hostis limitadas.
Simultaneamente, a
escalada foi levada ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas
(ONU) a pedido da Polônia, em busca de uma resposta diplomática multilateral ao
evento, redimensionando o incidente na esfera política global como uma violação
do direito internacional.
 |
| O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski - “O seu nacionalismo insano contém uma sede de dominação que não cessará até que percebam que a era dos impérios acabou, e que o seu império não será reconstruído. 30/09/2025. Fonte: BP. |
A resposta não ficou
apenas no âmbito institucional. A OTAN lançou a chamada Operação Eastern
Sentry (Sentinela Oriental),
uma iniciativa de reforço geral das defesas no flanco oriental europeu, com o
objetivo declarado de aumentar a capacidade de defesa aérea contra ameaças
russas, especialmente drones. Isso incluiu o reforço de sistemas antiaéreos e a
patrulha contínua do espaço aéreo na fronteira leste da aliança, sinalizando um
aprofundamento prático da cooperação militar dos países membros.
 |
| Secretario - Geral da OTAN, Mark Rutte e o comandante Supremo Aliado da Europa (SACEUR), General Alexus G. Grynkewich, falam à imprensa na sede da OTAN. Fonte: OTAN. |
A União Europeia também se
manifestou unida em solidariedade à Polônia, com membros reconhecendo que a
violação não era um evento isolado, mas possuía implicações continentais de
segurança, incentivando uma postura mais firme contra Moscou nos campos
diplomático, econômico e de defesa.
Esse episódio, drones
russos violando o espaço aéreo de um aliado da OTAN, rompeu uma barreira
simbólica: não é mais apenas a Ucrânia e o seu território que experimenta
hostilidades, mas diretamente países do bloco ocidental. Tal fato intensifica
debates sobre os limites da corrida militar tecnológica, o papel dos sistemas
de defesa antiaéreos modernos, e a eficácia das alianças coletivas frente a
modelos de guerra híbrida que procuram explorar ambiguidades técnicas e
políticas.
Do ponto de vista
geopolítico, isso significa que: A dinâmica de dissuasão tradicional da OTAN
está sendo testada, e sua capacidade de resposta rápida e unificada torna-se,
mais do que nunca, crucial para a estabilidade europeia.
A Rússia demonstra
intenção, real ou calculada, de pressionar fisicamente fronteiras e testar
solidariedades, em um esforço por ganhar vantagem negociadora sem iniciar um
confronto declarado formalmente.
A tecnologia de drones
demonstra ser uma arma estratégica de baixo custo com alto impacto, capaz de
reconfigurar rapidamente cenários de conflito e obrigar alianças e estados a
revisarem suas doutrinas de defesa e sua prontidão operacional.
A incursão dos drones
russos na Polônia evidencia como as guerras contemporâneas ultrapassam o campo
de batalha tradicional: elas incorporam tecnologias disruptiva, fragmentam
espaço e tempo geopolíticos, e forçam aliados a respostas coordenadas que vão
além da retórica diplomática. O episódio não apenas marcou um ponto de inflexão
na guerra Rússia - Ucrânia, mas destacou as fragilidades e fortalezas inerentes
aos sistemas de segurança coletiva, confirmando que a guerra híbrida é, hoje,
um dos maiores desafios estrutural para as alianças de defesa multilaterais. A
Polônia, ao reagir com firmeza e acionar mecanismos diplomáticos e militares
conjuntos, enviou uma mensagem clara: a soberania territorial e o respeito às
fronteiras continuam sendo pilares inegociáveis da ordem internacional baseada
em regras.
Mais do que um
incidente isolado, a incursão dos drones russos no espaço aéreo polonês
funcionou como um experimento estratégico em tempo real. Ela revelou até onde a
Rússia pode avançar sem provocar uma resposta coletiva automática e até que
ponto a Europa está disposta a absorver custos em nome da estabilidade. Nesse
sentido, o episódio transforma-se em um barômetro da guerra híbrida no flanco
oriental da OTAN, no qual tecnologia, política e ambiguidade operam como
instrumentos integrados de pressão sistêmica.
A Guerra Invisível no
Fundo do Mar: Cabos Submarinos como Infraestrutura Crítica da Zona Cinzenta
Se a guerra híbrida
contemporânea se caracteriza por operar abaixo do limiar da visibilidade
política e jurídica, poucas infraestruturas simbolizam melhor essa lógica do
que os cabos submarinos de telecomunicações. Responsáveis por mais de 95% do
tráfego global de dados, incluindo comunicações governamentais, financeiras,
militares e civis, esses sistemas constituem o esqueleto invisível da ordem
internacional digital. Ainda assim, permanecem amplamente ausentes do debate
público, tratados como questão técnica e não como vetor estratégico central de
poder.
 |
| A infraestrutura de cabos submarinos é essencial para as telecomunicações, sendo responsável por mais de 90% (noventa porcento) da transmissão de dados entre os países e continentes. Fonte: Tele Geography. |
Para Moscou, essa
invisibilidade não é uma limitação, mas uma oportunidade. Desde o final da
Guerra Fria, e de forma cada vez mais sistemática a partir da década de 2010, a
Rússia passou a incorporar o domínio submarino como componente integral de sua
doutrina de guerra na zona cinzenta. Não se trata de destruir
indiscriminadamente a conectividade global, o que equivaleria a um ato de
guerra convencional com custos elevados e escaladas previsíveis. Trata-se,
antes, de mapear, vigiar, testar vulnerabilidades e sinalizar capacidade de
coerção, mantendo sempre a ambiguidade estratégica.
Navios russos de pesquisa
oceanográficas, formalmente civis, mas frequentemente associados à inteligência
militar, são observados operando de forma recorrente em áreas sensíveis do Mar
Báltico, do Atlântico Norte e do Mar do Norte. Essas embarcações não apenas
cartografam rotas de cabos, mas também coletam dados sobre profundidade,
composição do leito marinho e pontos críticos de interconexão. Esse
conhecimento transforma-se em capital estratégico: permite, em caso de crise,
executar sabotagens seletivas, reversíveis e de difícil atribuição.
 |
| Aumentam as suspeitas de sabotagem no Mar Báltico, depois de dois cabos submarinos de telecomunicações terem sido cortados. Fonte: RTP. |
Na prática, a sabotagem ou
coerção sobre cabos submarinos raramente assume a forma de um ataque direto e
evidente. O processo inicia-se muito antes de qualquer dano físico. Em tempos
de normalidade aparente, embarcações russas classificadas como navios de
pesquisa oceanográfica operam de forma persistente ao longo de rotas conhecidas
de cabos internacionais. Oficialmente, realizam levantamentos científicos,
operacionalmente, constrói bancos de dados detalhados sobre localização,
profundidade, redundância, tempo de reparo e dependência regional dessas
infraestruturas. Representa uma fase silenciosa de preparação estratégica,
invisível ao público e dificilmente enquadrável como ato hostil.
 |
| Oficialmente, o navio russo Yantar viaja pelo mundo realizando pesquisas, Extraoficial, navio de espionagem e de dados de inteligência da Rússia. (Foto: Wikimedia Commons) |
Uma vez mapeada a
infraestrutura, o próximo estágio não é necessariamente o corte do cabo, mas a
demonstração de acesso. Pequenas anomalias técnicas, interrupções temporárias,
falhas localizadas ou danos em pontos secundários produzem efeitos
desproporcionais. Bolsas de valores acionam protocolos de contingência,
comunicações governamentais migram para sistemas de emergência e empresas
privadas sofrem perdas financeiras imediatas. Ainda que o dano seja limitado, o
sinal estratégico é inequívoco: o sistema é vulnerável, e alguém possui
capacidade de explorá-lo.
O elemento central dessa
dinâmica é a ambiguidade. Cabos submarinos rompem-se com relativa frequência
por causas não militares, como âncoras de navios comerciais, atividade
pesqueira ou movimentos geológicos. A Rússia explora deliberadamente essa zona
de incerteza. Um dano causado por ação humana pode ser tecnicamente
indistinguível de um acidente. O custo político da acusação sem prova
conclusiva é elevado, e a resposta tende a ser postergada, diluída ou
descartada. Cada episódio não resolvido reforça a assimetria estratégica em
favor de quem opera no limiar da atribuição.
Em situações de tensão
política elevada, essa coerção latente converte-se em instrumento de pressão
indireta. Governos que enfrentam crises energéticas, debates internos sobre
sanções ou divisões políticas tornam-se mais sensíveis a riscos adicionais. A
simples possibilidade de interrupções digitais, ainda que não concretizadas,
influencia cálculos estratégicos. O conflito passa a operar no plano
psicológico e decisório, não apenas no plano material. A ameaça não precisa ser
executada, basta ser crível.
Outro aspecto fundamental
é o aprendizado adaptativo. Cada incidente mobiliza empresas de reparo,
autoridades marítimas, ministérios e alianças militares. O tempo de resposta, o
grau de coordenação institucional, a comunicação pública e a disposição
política para atribuição são observadas atentamente. A infraestrutura atacada
não é apenas o cabo, mas o próprio processo decisório do adversário. O sistema
defensivo é convertido, novamente, em fonte de inteligência operacional, ao
expor padrões decisórios, tempos de resposta e níveis de coordenação
institucional.
Essa lógica explica por
que a guerra submarina raramente aparece como evento isolado. Ela ocorre em
sincronia com outras formas de pressão: campanhas de desinformação que
questionam a segurança das instituições, ataques cibernéticos a sistemas de
transporte ou energia e violações aéreas breves. O efeito combinado cria um
ambiente de saturação estratégica, no qual cada incidente, isoladamente
administrável, contribui para uma percepção acumulativa de vulnerabilidade
permanente.
 |
| hackers russos atacaram redes governamentais da Polônia, disse o Instituto Nacional de Pesquisa (NASK), uma companhia
estatal, grupo hacker responsável seria ligado à agência de inteligência militar russa, grupo conhecido como APT28, faz parte da agência de inteligência militar russa GRU e usou software
malicioso para atingir instituições governamentais polonesas. Fonte: Kacper Pempel/Reuters |
No cotidiano das
sociedades europeias, essa guerra manifesta-se de forma difusa: atrasos em
serviços digitais, interrupções financeiras momentâneas, falhas de comunicação
internacional e discursos oficiais cautelosos que evitam apontar
responsabilidades. Para o cidadão comum, são ruídos técnicos. Para o
estrategista, são sinais claros de um conflito em curso. A eficácia dessa
abordagem reside justamente nessa dissociação entre impacto estratégico e
percepção pública.
Assim, a sabotagem de
cabos submarinos não deve ser compreendida como prelúdio de uma guerra futura,
mas como parte integrante de um regime de conflito permanente, no qual o
objetivo não é destruir, mas condicionar, desgastar e deslocar o centro de
gravidade da segurança para dentro das próprias sociedades adversárias. O fundo
do mar torna-se, dessa forma, não apenas um espaço físico, mas um domínio
decisivo da política de coerção contemporânea.
A lógica aqui não é a da
interrupção total, mas a da coerção latente, um dano parcial, um corte
temporário, uma interferência limitada, ainda que tecnicamente atribuível a
“acidentes”, é suficiente para gerar incerteza, pressionar governos e testar
protocolos de resposta, cada incidente fornece informações preciosas sobre
tempos de reação, coordenação institucional, comunicação pública e capacidade
de atribuição do adversário, o sistema defensivo europeu, mais uma vez,
converte-se em fonte de inteligência para Moscou.
 |
| Petroleiro russo suspeito de danificar cabo submarino no Mar Báltico é detido por forças finlandesas em dezembro de 2024. Fonte: Poder Naval. |
Esse padrão reflete com
precisão a racionalidade da zona cinzenta: operar de forma persistente,
incremental e ambígua, deslocando o conflito para espaços onde a resposta
política é lenta, fragmentada e juridicamente contestada, a sabotagem de cabos
submarinos não exige ocupação territorial, não mobiliza tropas visíveis e não
produz imagens chocantes, ainda assim, atinge diretamente a espinha dorsal das
economias avançadas e das estruturas de comando contemporâneas.
A reação europeia a esse
desafio tem sido sintomática de uma fragilidade estrutural mais profunda, embora a OTAN tenha reconhecido formalmente os cabos submarinos como
infraestrutura crítica e criado iniciativas de monitoramento e proteção, a
resposta permanece reativa, fragmentada e excessivamente dependente de
consensos políticos lentos, a dificuldade de atribuir responsabilidades com
alto grau de certeza paralisa decisões, enquanto o receio de escalada impede
medidas dissuasórias mais claras.
O resultado é uma
assimetria estratégica persistente, Moscou opera em um regime de tolerância ao
risco elevado, amparada pela ambiguidade e pela negação plausível, a Europa,
por sua vez, permanece presa a um modelo jurídico normativo concebido para um
ambiente de paz ou de guerra declarada, mas inadequado para um conflito
permanente, difuso e tecnicamente opaco, cada novo incidente reforça a
normalização da instabilidade, deslocando a percepção do conflito do campo da
segurança estratégica para o da gestão administrativa de crises.
Mais do que um vetor
isolado, os cabos submarinos exemplificam a lógica mais ampla da guerra híbrida
russa: pressionar sem declarar, desestabilizar sem assumir autoria e corroer a
confiança sistêmica do adversário ao longo do tempo. Ao manter a ameaça sempre
implícita, mas nunca plenamente materializada, Moscou preserva a iniciativa
estratégica e impõe à Europa um dilema permanente entre agir sem provas
conclusivas ou aceitar a erosão gradual de sua segurança.
Nesse sentido, a guerra no
fundo do mar não é periférica, nem futura, ela já está em curso, integrada a um
regime de conflito permanente no qual a distinção entre paz e guerra perde
relevância operacional, ignorar essa dimensão não reduz o risco, apenas
transfere a vantagem estratégica para quem compreendeu, antes, que a
infraestrutura é o novo campo decisivo do poder.
 |
| A guerra híbrida russa opera abaixo do limiar do conflito convencional, combinando desinformação, sabotagem e pressão estratégica para desgastar a coesão política e institucional da União Europeia sem recorrer a uma guerra declarada. |
O Objetivo Estratégico
Russo: Paralisia, Não Conquista
É fundamental compreender
que a estratégia russa contemporânea não tem como objetivo prioritário a
ocupação militar do território europeu, tampouco a deflagração de uma guerra
convencional direta contra a OTAN. Tal cenário seria excessivamente custoso,
previsível e, sobretudo, contraproducente para os interesses estratégicos de
Moscou. Em vez disso, o padrão de comportamento observado aponta para uma
lógica distinta: ações limitadas, ambíguas e calibradas para gerar impacto
político desproporcional, sem ultrapassar o limiar que justificaria uma
resposta militar plena.
Incidentes como a
penetração de drones de origem russa no espaço aéreo da Polônia, País-membro da
OTAN, ilustram com clareza essa dinâmica. Essas ações, ainda que tecnicamente
modestas, cumprem múltiplas funções estratégicas simultâneas: testam os
mecanismos de resposta coletiva, expõem divergências internas sobre escalada e
atribuição de responsabilidade, e impõem custos políticos aos governos
afetados. O elemento central não é o dano material, mas a incerteza
deliberadamente produzida em torno da intenção, da autoria e da
proporcionalidade da resposta.
O objetivo real, portanto,
não é a conquista territorial, mas a paralisia estratégica do adversário, Moscou busca transformar a Europa em um espaço politicamente fragmentado,
juridicamente hesitante e operacionalmente assimétrico, no qual cada Estado
reage de acordo com suas próprias percepções de risco, interesses domésticos e
limites políticos, nesse ambiente, a coesão deixa de ser automática, e cada
crise é tratada como exceção, jamais como parte de um padrão estrutural de
conflito.
Esse processo possui um
efeito cumulativo, cada ataque híbrido que não gera resposta significativa,
cada sabotagem tratada como incidente isolado, cada campanha de desinformação
dissolvida em debates intermináveis sobre liberdade de expressão contribui para
a normalização da instabilidade, a vitória, nesse modelo, não se mede em
quilômetros conquistados ou forças derrotadas, mas em instituições
enfraquecidas, sociedades polarizadas e alianças progressivamente esvaziadas de
credibilidade estratégica.
Nesse contexto, a
dissuasão tradicional não desaparece, mas perde parte de sua eficácia, instrumentos concebidos para responder a ameaças claras, identificáveis e
simétricas mostram-se inadequados diante de ações deliberadamente ambíguas,
reversíveis e juridicamente contestáveis, quando o adversário não busca
escalada aberta, mas hesitação prolongada, o cálculo estratégico desloca-se do
campo estritamente militar para os domínios político, jurídico e psicológico.
Ao elevar o custo político
de qualquer resposta firme, ao desgastar a confiança pública nas instituições e
ao explorar a fadiga social produzida por crises sucessivas, a Rússia amplia
sua liberdade de manobra estratégica. O êxito dessa abordagem reside
precisamente em sua visibilidade parcial: suficientemente evidente para gerar
inquietação, mas ambígua o bastante para bloquear consensos decisórios. Uma
guerra declarada mobiliza sociedades, uma guerra ambígua as confunde, divide e
exaure.
A Normalização do Conflito
como Estratégia de Poder
A guerra invisível
conduzida pela Rússia contra a Europa não é um desvio da normalidade
internacional, ela é, para Moscou, a própria normalidade, tornando um modelo de
poder que rejeita a distinção entre tempos de guerra e tempos de paz,
substituindo-a por um estado permanente de confronto controlado. Drones sobre
bases militares, cabos submarinos monitorados, fluxos energéticos manipulados,
narrativas infiltradas no debate público e operações clandestinas conduzidas
por serviços de inteligência não são exceções, mas componentes de uma mesma
arquitetura estratégica.
 |
|
O maior risco para a
Europa não é a escalada súbita para um conflito aberto, mas a habituação
progressiva à agressão, esse processo produz um deslocamento gradual do
limiar de tolerância estratégica, no qual ações antes consideradas inaceitáveis
passam a ser absorvidas como parte do ambiente normal de segurança. Quando
sabotagens passam a ser tratadas como incidentes rotineiros, quando ataques
cibernéticos se tornam estatísticas e quando campanhas de desinformação são
absorvidas como ruído de fundo, o objetivo russo já foi parcialmente alcançado, a guerra não precisa ser vencida, basta que ela deixe de ser reconhecida como
tal.
A realidade, na
prática, faz com que a dissuasão deixa de operar por medo da retaliação e passa
a ser corroída pela repetição controlada, a ausência de resposta proporcional
não é interpretada como prudência, mas como previsibilidade explorável.
Compreender essa lógica é
o primeiro passo para enfrentá-la. Enquanto a Europa insistir em reagir a cada
episódio de forma isolada, Moscou continuará operando com vantagem estratégica.
A guerra já começou, mas não nos campos de batalha tradicionais, mas nas zonas
cinzentas onde a ambiguidade é arma, o tempo é aliado e a invisibilidade é
método, Ignorar não a faz desaparecer, apenas a torna mais eficaz.
Espionagem, Sabotagem e
Operações Clandestinas na Europa
A guerra da Rússia contra
a Europa não começou em Donetsk, nem no dia em que tanques cruzaram a fronteira
ucraniana em 2022. Ela já se desenrolava silenciosamente em portos escuros do
Mar Báltico, em cabos submarinos nunca noticiados, em igrejas Moldavas
infiltradas, em reatores nucleares escaneados por drones, em servidores
violados durante a madrugada em Tallinn e em corredores políticos de Berlim,
onde a energia russa moldava decisões estratégicas. A guerra já estava em curso
quando ninguém a reconhecia, hoje, ela não apenas existe, ela se intensifica, é uma guerra invisível para muitos, mas absolutamente real para quem observa com
atenção o funcionamento dos serviços de inteligência, das redes de influência,
dos ataques híbridos e das manobras energéticas que moldam o tabuleiro
geopolítico europeu.
O primeiro front desse
conflito é silencioso: espionagem, sabotagem e operações clandestinas. O GRU,
serviço de inteligência militar da Rússia, com raízes que remontam à
clandestinidade soviética e às operações atrás das linhas alemãs na Segunda
Guerra Mundial, é hoje o principal instrumento de operações agressivas na
Europa.
 |
| Vladimir Putin durante uma visita de 2006 à sede da GRU Foto: DMITRY ASTAKHOV / EPA-EFE / REX / Shutterstock |
Ao longo da última década,
esse padrão operacional não apenas se consolidou, ele se intensificou em
audácia, frequência e grau de risco assumido. A progressão é visível: de ações
encobertas voltadas à sabotagem logística para operações de alto impacto
político realizadas em pleno território europeu. Nesse contexto, o episódio que
melhor sintetiza essa escalada foi a tentativa de assassinato de Sergei Skripal,
um ex-oficial de inteligência que rompeu com o Kremlin e passou a colaborar com
o Ocidente.
Em 2018, na cidade de
Salisbury, no Reino Unido, Skripal foi envenenado com um agente químico do
grupo Novichok, uma substância desenvolvida durante o período soviético e
classificada como arma química proibida por convenções internacionais. A
operação, posteriormente atribuída a agentes do GRU, rompeu um limite que até
então permanecia implícito: o uso de um agente químico em território de um país
membro da OTAN.
O risco envolvido não era
apenas operacional, mas estratégico. Ao empregar um método tão rastreável e
politicamente sensível, Moscou abriu mão, em certa medida, da própria negação
plausível, um dos pilares clássicos da guerra híbrida. Isso sugere que o
objetivo da operação transcendia a eliminação de um indivíduo específico.
Tratava-se, sobretudo, de uma ação de caráter demonstrativo.
Nesse sentido, o episódio
se insere em uma lógica mais ampla de sinalização estratégica. Ao atingir um
desertor em solo europeu, utilizando um instrumento proibido e de alta
visibilidade internacional, a Rússia não apenas executava uma operação
clandestina, ela comunicava. Comunicava aos serviços de inteligência
ocidentais, às lideranças políticas europeias e, principalmente, a indivíduos
dentro de seu próprio círculo de poder que a ruptura com o Estado russo carrega
custos que ultrapassam fronteiras geográficas e jurídicas.
O recado, ainda que não
declarado, foi direto: a distância não oferece proteção, e o tempo não garante
esquecimento. Dentro dessa lógica, a guerra híbrida deixa de operar apenas na
sombra e passa, em momentos específicos, a se tornar deliberadamente visível,
não como falha, mas como instrumento. A visibilidade, nesse caso, não
enfraquece a operação, ela é parte essencial do seu efeito.
 |
| Ex-espião foi envenenado por agente nervoso Foto: RTR via Reuters TV |
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2018/z/r/NZh8NFSPa3HgL6x1aHBQ/russos-suspeitos.jpg) |
| Russos apontados pelo Reino Unido como suspeitos do caso Skripal dão entrevista ao canal RT em 2018, Alexander Petrov e Ruslan Boshirov foram apontados como suspeitos de
envenenar o ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha, Yulia Skripal. Foto: RT/Handout via Reuters |
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2018/J/u/eVyvmvQueqyHlogun1Pg/suspeitos-russos.jpg) |
| Russos suspeitos de envenenar Sergei Skripal em março de 2018 no Reino Unido foram registrados em câmera de segurança em estação de trem na cidade de Salisbury — Foto: Metropolitan Police via AP |
Desde então, a leitura
europeia deixou de tratar esses episódios como anomalias e passou a
reconhecê-los como parte de uma engrenagem estratégica coerente. A inflexão
ocorre em 2021, quando o governo da República Tcheca torna pública uma
conclusão que, até então, operava no campo das suspeitas: a explosão dos
depósitos de munição em Vrbětice, em 2014, não foi um acidente nem um ato
isolado de sabotagem, mas uma operação conduzida por agentes do GRU, a mesma
estrutura responsável por operações externas sensíveis do aparato militar
russo.
O intervalo de sete anos
entre a execução e a atribuição oficial não é um detalhe secundário; ele é, na
verdade, parte integrante da própria lógica operacional. A guerra híbrida russa
se alimenta do tempo, da ambiguidade e da dificuldade de prova. Ao agir nas
chamadas zonas cinzentas, Moscou explora precisamente o espaço onde a resposta
política e jurídica europeia se torna lenta, fragmentada e, muitas vezes,
hesitante.
O alvo da operação também
não foi escolhido de forma aleatória. Os depósitos armazenavam material que,
direta ou indiretamente, poderia ser destinado à Ucrânia, um ponto sensível
dentro da estratégia russa já naquele momento, anos antes da escalada aberta de
2022. Ao destruir essa infraestrutura, a Rússia não apenas interrompia um fluxo
logístico específico, mas testava algo mais relevante: a capacidade europeia de
detectar, atribuir e reagir a uma ação clandestina em seu próprio território.
Há um elemento adicional
que torna esse episódio ainda mais revelador. Os agentes envolvidos foram
posteriormente associados a outras operações fora da Rússia, incluindo o Envenenamento
de Sergei Skripal. Isso indica não apenas continuidade operacional, mas a
existência de unidades especializadas em ações de alto risco, capazes de
transitar entre sabotagem, assassinato seletivo e operações de
desestabilização, sempre sob a proteção da negação plausível.
O caso Vrbětice, portanto,
não é apenas um evento retrospectivo que veio à tona tardiamente. Ele funciona
como uma peça de evidência dentro de um padrão mais amplo: a disposição russa
de projetar poder dentro da Europa sem cruzar formalmente o limiar da guerra. O
que está em jogo não é a destruição imediata, mas o desgaste progressivo, da
confiança, da segurança e, sobretudo, da percepção de controle por parte dos
Estados europeus.
Quando observado em
conjunto com outros episódios, o recado se torna claro: a guerra híbrida não
começa quando é percebida, ela começa muito antes, e só se torna visível quando
seus efeitos já estão em curso
 |
| Investigação conduzida por Praga apontou que dois agentes russos causaram explosões que destruíram um depósito de armamentos. Registro do fim do combate às chamas após explosão do depósito de armas de Vrbetice (Foto: Reprodução/Twitter/Filip Horky) |
Em 2023, autoridades polonesas revelaram infiltrações
de células financiadas pelo Kremlin para monitorar bases aéreas da OTAN e registrar
movimentação de armamentos destinados a Kiev. No ano de 2024, a Noruega confirmou
múltiplos avistamentos de drones operando perto de plataformas de petróleo e
instalações militares, muitos deles identificados como equipamentos usados
rotineiramente por unidades de reconhecimento russas. E em seguida, 2025, investigações
conjuntas entre Estônia, Finlândia e Suécia revelaram operações de mapeamento
clandestino da infraestrutura elétrica e de cabos submarinos, conduzidas por
embarcações associadas ao Ministério da Defesa russo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2023/y/c/YIunmATuWYyJZPLEiXlg/fqn2sx0wiaaijjf.jfif) |
| Ministro da Defesa não deu mais detalhes sobre a rede de espionagem Russa na Polônia, mas afirmou se tratar de uma 'ameaça real' — Foto: Divulgação/Ministério da Defesa Nacional da Polônia |
No vocabulário da
inteligência e da contrainteligência, o termo células não designa grandes redes de espionagem clássicas, mas
sim núcleos operacionais clandestinos,
pequenos, compartimentados e de baixa visibilidade. Essas estruturas são
concebidas para operar com autonomia limitada, evitando conexões diretas entre
seus integrantes e dificultando a identificação de um comando central, é um
modelo amplamente utilizado por serviços de inteligência contemporâneos por sua
resiliência, baixo custo e elevada
capacidade de negação plausível.
No caso revelado pelas
autoridades da Polônia em 2023,
essas células atuavam fora dos canais diplomáticos formais e não se
apresentavam como agentes estatais declarados. Eram compostas,
majoritariamente, por civis recrutados
localmente, intermediários logísticos ou indivíduos com acesso cotidiano
a áreas sensíveis, como arredores de bases aéreas, rotas ferroviárias e centros
de transporte militar. O vínculo com o Estado russo ocorria de forma indireta,
por meio de financiamento, orientação
estratégica e canais de comunicação clandestinos, o que permitia ao Kremlin manter distância formal das
operações.
A função principal dessas
células não era realizar atos de sabotagem ou ataques diretos, mas sim coletar inteligência tática e operacional, isso incluía o monitoramento de bases aéreas da OTAN, a observação de movimentações logísticas, o registro de
horários, padrões de transporte e tipos de armamentos, além da identificação de
fluxos recorrentes de apoio militar destinados à Kiev, informações aparentemente fragmentadas, quando consolidadas,
permitem mapear a retaguarda estratégica europeia e antecipar decisões
militares.
Esse tipo de estrutura
reflete uma lógica central da guerra
híbrida russa, na qual a coleta de dados, a vigilância persistente e a
exploração de brechas institucionais substituem confrontos diretos, ao operar
abaixo do limiar do conflito armado, essas células desgastam a segurança coletiva sem provocar uma resposta militar imediata,
transformando espaços civis e infraestruturas logísticas em alvos permanentes
de inteligência. O resultado é um ambiente de pressão contínua, no qual
democracias abertas enfrentam dificuldades para neutralizar ameaças que não se
manifestam de forma ostensiva.
Paralelamente, o FSB, o
serviço de segurança interna da Rússia, herdeiro direto da KGB, expandiu sua
atuação externa. Tradicionalmente voltado para controle doméstico, o FSB passou
a operar na Europa para neutralizar dissidentes, infiltrar redes de influência
e coordenar ações de desinformação em igrejas ortodoxas, partidos políticos e
meios de comunicação alternativos.
Em 2023, autoridades
moldavas e as agências Reuters revelaram que padres ortodoxos estavam recebendo
financiamento russo para disseminar narrativas anti União Europeia, criando um
ambiente de desconfiança, medo e polarização.
 |
| Cirilo I, líder da Igreja Ortodoxa Russa e aliado de Vladimir Putin. fonte: Mikhail Svetlov/Getty Images |
A partir de 2022, a
Alemanha passou a lidar com um dos episódios mais sensíveis de infiltração em
sua estrutura de inteligência desde o fim da Guerra Fria. Em dezembro daquele
ano, o BND anunciou a prisão de um de seus próprios funcionários, identificado
como Carsten L., sob suspeita de repassar informações classificadas ao FSB. A
operação não foi resultado de detecção interna isolada, mas contou com alertas
de serviços de inteligência aliados, o que por si só já indicava a gravidade da
falha.
 |
| O Bundesnachrichtendienst (BND) - Serviço Federal de Informações, concentra a coleta e a análise de informações externas, operando no núcleo da avaliação estratégica alemã sobre riscos políticos, militares e dinâmicas internacionais. |
Ao longo de 2023, a
investigação revelou um padrão que vai além da espionagem tradicional, Carsten
L. não atuava na periferia do sistema, mas em um setor com acesso a relatórios
estratégicos sobre a Rússia e o ambiente de segurança europeu. Com o auxílio de
um intermediário, o empresário Arthur E., documentos sensíveis foram extraídos
e transferidos, em alguns casos por meios físicos, um indicativo de que a
operação buscava reduzir exposição digital e dificultar rastreamento.
O ponto central, no
entanto, não está apenas no vazamento de dados, mas na natureza do material
comprometido. Não se tratava apenas de informações coletadas, mas de análises
produzidas. Isso significa que Moscou não apenas teve acesso ao que a Alemanha
sabia, mas potencialmente ao modo como interpretava esse conhecimento, quais
cenários considerava plausíveis e quais decisões projetava. Em termos
estratégicos, essa diferença é decisiva.
Quando o caso chega ao seu
estágio judicial em 2024, ele já não é mais apenas uma investigação criminal, ele se torna um reflexo de uma vulnerabilidade estrutural. A infiltração de um
agente dentro do próprio aparelho de inteligência expõe não apenas falhas de
segurança, mas limitações mais profundas na capacidade de proteger processos
analíticos e fluxos de decisão. A distinção entre coleta de informação e
influência sobre a interpretação dessa informação passa a se tornar difusa.
Nesse contexto, o episódio
alemão reforça uma tendência mais ampla, a atuação russa não se limita a
observar ou interferir à distância, ela busca, de forma persistente, operar
dentro das estruturas do adversário, onde o impacto não é imediato, mas
progressivo, silencioso e, sobretudo, difícil de mensurar.
Um aspecto relevante do caso diz respeito à própria identificação do agente, o funcionário do BND é oficialmente referido como Carsten L., e não há divulgação pública de seu nome completo ou imagem. Essa forma de identificação não corresponde a um pseudônimo operacional, mas sim a uma prática padrão do sistema jurídico alemão, que restringe a exposição integral de suspeitos em investigações de segurança nacional e processos em andamento.Do ponto de vista técnico, isso implica uma limitação informacional importante, a ausência de identificação completa reduz a possibilidade de verificação independente sobre o perfil do agente, seu histórico profissional e eventuais conexões externas, concentrando a maior parte das informações disponíveis em fontes institucionais e relatórios oficiais.
Além disso, não há registros visuais confirmados do indivíduo em circulação pública, o que é consistente com o perfil de funcionários de serviços de inteligência, especialmente aqueles alocados em áreas sensíveis. Esse fator reforça o caráter opaco do caso e dificulta a construção de uma narrativa pública mais detalhada sobre a extensão da infiltração.
Essas ações clandestinas
se expandem para além de pessoas, elas atingem a própria arquitetura física que
sustenta o funcionamento das sociedades europeias. Desde 2022, a infraestrutura
submarina passou a ocupar um lugar central nesse cenário, não apenas como
suporte técnico, mas como alvo estratégico, cabos de telecomunicações e
energia, responsáveis por conectar economias, sistemas militares e fluxos de
informação, tornaram-se um dos pontos mais vulneráveis do continente.
Um dos episódios mais
reveladores dessa dinâmica ocorreu no Ártico, envolvendo o sistema de cabos
submarinos que conecta o arquipélago de Svalbard ao território continental da Noruega,
operado pela Space Norway, esse sistema não se limita a comunicações civis. Ele
sustenta uma das principais infraestruturas globais de recepção de dados de
satélites, beneficiada pela posição geográfica única de Svalbard, que permite
contato frequente com satélites em órbita polar.
 |
| Sistema de cabos submarinos que conecta o arquipélago de Svalbard ao território continental da Noruega. Fonte: Space Intel |
Em janeiro de 2022, um dos
cabos foi danificado em profundidades superiores a dois mil metros, em uma área
onde intervenções são tecnicamente complexas e estatisticamente incomuns. A
falha foi classificada pelas autoridades norueguesas como resultado de uma
“influência externa”, sem que uma causa definitiva fosse publicamente
estabelecida. Investigações independentes apontaram a presença recorrente de
embarcações russas na região no período do incidente, incluindo cruzamentos
sobre a rota do cabo no momento da falha, ainda assim, nenhuma atribuição
formal foi feita.
Essa combinação, dano
real, contexto estratégico sensível e ausência de prova conclusiva, não
representam uma falha analítica, mas sim uma característica central da guerra
híbrida contemporânea. Se tratando de um ambiente operacional onde a ação
existe, mas a autoria permanece deliberadamente difusa, protegida pelo
princípio da negação plausível.
Quando analisado
isoladamente, o caso de Svalbard pode ser interpretado como um incidente técnico
raro, no entanto, sua relevância se amplia ao ser inserido em um padrão mais
amplo de eventos registrados na Europa desde 2022. A sabotagem dos gasodutos Nord
Stream, no Mar Báltico, representou a forma mais explícita dessa dinâmica, com
destruição física confirmada e impacto direto sobre a segurança energética
europeia. Em paralelo, uma série de incidentes envolvendo cabos submarinos de
telecomunicações entre países como Finlândia, Estônia e Suécia passou a ser
registrada, frequentemente associados a atividades marítimas suspeitas, ainda
que sem conclusões definitivas sobre intenção ou responsabilidade.
O que conecta esses
episódios não é a prova direta de sabotagem em todos os casos, mas a
recorrência de um padrão operacional: alvos não militares, porém críticos,
danos localizados com impacto sistêmico; ambiguidade persistente na atribuição,
e dificuldade de resposta proporcional por parte dos Estados afetados.
Nesse contexto, o domínio
submarino emerge como um dos principais espaços cinzentos da guerra
contemporânea, esses sistemas, responsáveis por sustentar a maior parte do
tráfego global de dados e fluxos energéticos, permanecem amplamente expostos,
parcialmente enterrados e distribuídos ao longo de milhares de quilômetros de
difícil monitoramento. A combinação entre acessibilidade técnica e baixa
visibilidade transforma essa infraestrutura em um vetor ideal para operações
clandestinas.
O caso de Svalbard,
portanto, não deve ser interpretado apenas como um evento isolado, mas como um
indicativo de uma transformação mais ampla. Ao lado dos ataques ao Nord Stream
e dos incidentes recorrentes no Mar Báltico, ele sugere que a projeção de poder
no espaço europeu passou a incorporar, de forma sistemática, a exploração da
vulnerabilidade de infraestruturas críticas. Mais do que interromper
comunicações ou fluxos energéticos, esse tipo de ação opera sobre a percepção
de segurança, introduzindo incerteza, elevando custos e testando, de forma
contínua, a capacidade de resposta das democracias europeias.
Em 2023 e 2024, governos
europeus relataram movimentações incomuns de embarcações russas próximas às
rotas que conectam a Europa aos Estados Unidos, incluindo o navio espião Yantar
e submarinos de propósitos especiais capazes de cortar ou interferir em cabos a
grandes profundidades. A OTAN, preocupada com o cenário, criou um centro
dedicado à proteção dessas estruturas em North Wood (Distrito da cidade de
Londres), no Reino Unido. Mas o consenso entre analistas é firme: a capacidade
russa nesse domínio é uma das mais avançadas do mundo, e a Europa está
atrasada.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2025/q/D/29ZJI5QnC74J0etYXdJA/foto29esp-101-russia-a22.jpg) |
| Marinha do Reino Unido escolta o navio-espião russo Yantar após detectá-lo durante passagem por águas britânicas — Foto: Divulgação/Royal Navy https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/09/29/navio-espiao-russo-e-nova-ameaca-para-rede-de-cabos-submarinos.ghtml |
Para além dos episódios de
grande repercussão, a guerra invisível russa se manifesta por meio de ações de
baixa intensidade, mas alta frequência. Incêndios em centros logísticos na
Polônia e na Alemanha, falhas inexplicadas em linhas ferroviárias estratégicas,
danos pontuais a sistemas de sinalização e ataques a depósitos civis próximos a
rotas militares formam um padrão de sabotagem silenciosa. Individualmente,
esses eventos parecem acidentes ou criminalidade comum, coletivamente, compõe
uma campanha de desgaste destinada a testar resiliência, provocar custos
econômicos e normalizar a instabilidade como condição permanente no espaço
europeu.
Esse tipo de ação
opera sob o princípio da negação plausível, no qual a ausência de provas
conclusivas impede respostas proporcionais, mesmo diante de um padrão
recorrente de hostilidade.
Mais do que causar
dano físico imediato, essas operações visam saturar os sistemas de alerta,
investigação e decisão da Europa, transformando cada incidente em um dilema
político e jurídico, e não em um gatilho de resposta estratégica.
Energia, Economia e
Dependência Estratégica como Instrumentos de Coerção
Se a infraestrutura física
está sob ameaça, a infraestrutura energética tornou-se o campo de batalha mais
visível. A Europa acreditou por décadas que o comércio de gás criava
estabilidade. Mas para Moscou, o gás sempre foi instrumento de coerção
política. Desde a crise do gás de 2006, passando pela interrupção de 2009 e
pelos reajustes estratégicos posteriores à anexação da Crimeia em 2014, a
Rússia aperfeiçoou o uso da energia como arma geopolítica.
O Nord Stream 2,
tratado por muitos como um projeto econômico, era, para o Kremlin, um mecanismo
de influência direta sobre o coração da Europa. Com a invasão da Ucrânia em
2022, a Rússia reduziu drasticamente o fornecimento para gerar pressão social e
econômica. A explosão dos gasodutos Nord Stream 1 e 2, ainda sem autoria
oficialmente esclarecida, simbolizou a vulnerabilidade da Europa diante de
guerra energética e híbrida, nesse contexto, a interdependência econômica
deixa de ser um mecanismo de estabilidade e passa a operar como arma
estratégica, na qual a assimetria de dependência define quem suporta o custo do
confronto.
 |
| Dutos nas instalações de terra firme do gasoduto 'Nord Stream 1' em Lubmin / REUTERS/Hannibal Hanschke |
 |
| Nord Stream 1 e 2. Fonte: EuroNews. |
Em 26 de setembro de 2022, quatro grandes vazamentos foram detectados
nos gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2, localizados no fundo do
Mar Báltico, nas proximidades das zonas econômicas exclusivas da Dinamarca e da
Suécia. Investigações preliminares conduzidas por autoridades europeias
identificaram sinais claros de explosões
submarinas deliberadas, indicando um ato de sabotagem contra uma das
mais importantes infraestruturas energéticas da Europa.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2022/A/z/f5sWfcT6SZa9rK9s1Mjg/fdqdx-ixgaeuuza.jpg) |
| Fotos tiradas por um F-16 mostram oceano borbulhando onde houve vazamento no Nord Stream 1 — Foto: Reprodução/Exército da Dinamarca |
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2022/B/w/rvrVBqRnCaJKItBeg6oQ/vazementos-gas-nordstream.jpg) |
| Gasodutos Nord Stream 1 e 2 cruzam Mar Báltico ligando a Rússia à Alemanha — Foto: Arte O Globo |
As detonações ocorreram
a cerca de 70 a 90 metros de profundidade e liberaram enormes quantidades de
gás natural na superfície do mar, criando grandes áreas de ebulição visíveis
por satélites e embarcações na região. Embora o Serviço de Segurança Sueco e autoridades dinamarquesas tenham confirmado
que se tratou de um ato intencional, a autoria do ataque permanece oficialmente
indefinida.
A sabotagem dos gasodutos
teve impacto imediato tanto no campo energético quanto no campo estratégico.
Ainda que o Nord Stream 1 já
estivesse com o fluxo interrompido por decisão de Moscou desde agosto de 2022,
a destruição parcial da infraestrutura eliminou, ao menos no curto prazo,
qualquer possibilidade de retomada rápida do fornecimento. O episódio
evidenciou um novo nível de vulnerabilidade das infraestruturas críticas submarinas, que incluem não apenas
gasodutos, mas também cabos de telecomunicações e energia que sustentam a
economia global. Analistas de segurança europeus passaram a tratar o incidente
como um marco na chamada guerra híbrida,
na qual ataques indiretos contra infraestrutura estratégica tornam-se
instrumentos de pressão geopolítica sem necessariamente desencadear um
confronto militar aberto entre Estados.
Além do impacto econômico
e energético, o episódio também teve consequências políticas significativas
dentro da União Europeia. A destruição dos gasodutos acelerou o processo de diversificação energética europeia,
intensificando a importação de gás natural liquefeito (GNL) proveniente dos
Estados Unidos, do Catar e de outros fornecedores. Ao mesmo tempo, reforçou a
percepção de que a dependência energética construída ao longo de décadas havia
se transformado em uma vulnerabilidade estratégica, obrigando governos europeus
a repensarem a segurança de suas cadeias de abastecimento e a proteção de
infraestruturas críticas no ambiente marítimo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/p/u/pNgqrxQ7eqrNq26BUz7Q/gnl.jpeg) |
| Um navio é abastecido de gás liquefeito para chegar aos EUA. Foto: Divulgação, O Globo. |
Para além do gás e
do petróleo, a Europa permanece vulnerável em setores menos visíveis, porém
estratégicos, ligados a matérias-primas críticas. Mesmo após 2022, países
europeus continuam dependentes de fornecedores russos ou de Estados alinhados a
Moscou para insumos como urânio enriquecido utilizado em usinas nucleares,
titânio essencial às indústrias aeroespacial e de defesa, e fertilizantes
fundamentais para a segurança alimentar, essa dependência cria um poder
estrutural silencioso, que limita opções políticas e permite ao Kremlin exercer
pressão indireta sem recorrer a confrontos abertos.
Para além da energia e da
sabotagem física, a guerra invisível russa opera no campo da economia política, as sanções impostas após 2014 e intensificadas em 2022 não interromperam a
capacidade de Moscou de financiar o conflito, elas transformaram a economia
russa em um sistema adaptativo de evasão, triangulação comercial e captura
indireta de mercados, por meio de intermediários na Ásia, no Oriente Médio e no
Cáucaso, o Kremlin redirecionou fluxos de exportação, especialmente de petróleo
e derivados, mantendo receitas suficientes para sustentar sua máquina militar.
Nesse contexto, a triangulação comercial emerge como um
dos principais mecanismos utilizados para reduzir os efeitos práticos das
sanções econômicas. Esse mecanismo ocorre quando um terceiro Estado, empresa intermediária ou rede de comerciantes passa a
atuar como elo entre o País sancionado e o mercado final, permitindo que
produtos continuem circulando no comércio internacional sem que sua origem
inicial apareça de forma direta nas cadeias logísticas ou nos registros
comerciais. Em vez de interromper completamente os fluxos comerciais, as
sanções frequentemente provocam uma reorganização das rotas de exportação e
importação, criando camadas intermediárias que tornam mais difícil rastrear a
origem real das mercadorias.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2022/G/7/WXAtbfRBmfA93fgFkb7w/comercio-russia-pos-invasao.jpg) |
| Comércio com a Rússia depois da invasão à Ucrânia, novembro de 2022— Foto: Editoria de Arte |
No caso russo, essa
dinâmica tornou-se particularmente visível no setor energético, após a intensificação
das sanções ocidentais, Moscou passou a redirecionar grandes volumes de
petróleo para mercados dispostos a absorver o produto com desconto,
especialmente em países da Ásia, parte desse petróleo é posteriormente refinada
nesses países e retorna ao mercado internacional na forma de derivados como
diesel, gasolina ou querosene, uma vez transformado, o produto passa a ser
classificado como exportação do país refinador, e não mais como energia de
origem russa. Esse processo cria uma zona cinzenta no comércio internacional,
na qual a matéria-prima continua sendo
russa, mas o produto final passa a circular sob outra identidade comercial.
A triangulação comercial
também aparece no fluxo de tecnologia e equipamentos industriais. Componentes
eletrônicos, máquinas e sistemas produzidos em países que aderiram às sanções
podem ser exportados inicialmente para Estados que mantêm relações comerciais
abertas com Moscou, como Turquia, Emirados Árabes Unidos, Cazaquistão ou
Armênia, e posteriormente reexportados para o mercado russo. Em muitos casos,
esses itens são classificados como “bens
de uso dual”, categoria que engloba produtos capazes de ter aplicações
tanto civis quanto militares. Essa rede de reexportação tornou-se uma das
principais preocupações das autoridades ocidentais, pois permite que a Rússia
continue adquirindo componentes essenciais para setores estratégicos, incluindo
sua indústria de defesa.
 |
| Triangulação Comercial |
O resultado é que as
sanções, embora imponham custos relevantes à economia russa, não produzem isolamento absoluto. Em
vez disso, incentivam a formação de redes comerciais alternativas, novos
corredores logísticos e sistemas financeiros paralelos. A triangulação
comercial passa, portanto, a desempenhar um papel central nessa adaptação
econômica, permitindo que Moscou mantenha receitas provenientes das exportações
de energia e preserve parte de suas cadeias de suprimento industrial, fatores
fundamentais para sustentar tanto a estabilidade econômica interna quanto o
financiamento prolongado do esforço militar.
Ao mesmo tempo, os custos
dessas sanções recaem de forma assimétrica sobre as sociedades europeias, a inflação energética, a pressão sobre cadeias industriais e o aumento do custo
de vida alimentam descontentamento interno, que por sua vez é explorado por campanhas
de desinformação pró russas, a guerra econômica, nesse sentido, não busca
colapsar a Europa, mas corroer sua coesão política por dentro, transformando
medidas defensivas em fontes de instabilidade doméstica.
Ao deslocar o
impacto do conflito para o cotidiano das sociedades europeias, a guerra
econômica amplia a paralisia decisória dos governos, que passam a equilibrar
segurança estratégica e sobrevivência política doméstica.
A Frota Fantasma Russa:
Guerra Híbrida no Domínio Marítimo
A guerra híbrida conduzida
pela Rússia não se limita aos domínios mais visíveis do conflito contemporâneo,
como o espaço aéreo, o ciberespaço ou o campo informacional, ela se projeta, de
forma cada vez mais consistente, sobre o domínio marítimo, um espaço historicamente
percebido como técnico - comercial e regulado, mas que hoje se revela uma das
áreas mais vulneráveis da arquitetura de segurança europeia. Nesse cenário, a
chamada frota fantasma russa emerge como um instrumento central de coerção
indireta, ambiguidade estratégica e erosão institucional.
 |
| O petroleiro Bella-1, renomeado Marinera sob bandeira russa, que foi abordado pelos EUA. Fonte: Hakon Rimmereid - 18.mar.2025/Reuters |
Esses navios não operam
como meios militares convencionais, tampouco se apresentam como instrumentos
explícitos de agressão. Justamente por isso, são eficazes, a frota fantasma não
busca confronto, mas normalizar a instabilidade, não busca conquista
territorial, mas paralisar a capacidade de reação do adversário, não busca
violar normas de forma aberta, mas explorar sistematicamente suas zonas de
silêncio, lacunas e ambiguidades.
A frota fantasma russa é
composta majoritariamente por navios petroleiros envelhecidos, adquiridos após
a imposição de sanções ocidentais ao setor energético russo. Esses navios são
registrados sob bandeiras de conveniência, operados por empresas de fachada e
frequentemente excluídos dos principais sistemas internacionais de seguro e
certificação marítima. Formalmente, trata-se de embarcações privadas, funcionalmente,
porém, elas operam alinhadas aos interesses estratégicos do Estado russo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/P/7/rdABmJRqOg1MBZXiEO4w/g1z02alwqaa4bcb.jpg) |
| Navio Astrol 1 — Foto: Reprodução/X |
Essa distinção é crucial,
força da frota fantasma reside justamente no fato de que ela não pertence
oficialmente ao Estado, o que dificulta a atribuição direta de responsabilidade
política ou jurídica, cada navio é, ao mesmo tempo, um agente econômico e um
vetor estratégico, navegando em um espaço onde o direito internacional marítimo
se mostra lento, fragmentado e reativo.
O padrão operacional
desses navios é relativamente consistente e amplamente documentado por
autoridades marítimas e agências de monitoramento: Desligamento
deliberado ou manipulação do sistema AIS (Automatic Identification System),
dificultando rastreamento, transferências de carga navio a navio em águas
internacionais, ocultando a origem do petróleo, rotas erráticas e pouco
transparentes, frequentemente próximas a infraestruturas críticas, ausência de
seguros reconhecidos internacionalmente, elevando riscos ambientais e
financeiros, circulação constante em zonas onde a fiscalização depende de
cooperação multilateral lenta, cada uma dessas práticas,
isoladamente, pode ser enquadrada como irregularidade comercial, o ponto
central é que elas ocorrem de forma sistemática e cumulativa, produzindo um
efeito estratégico que vai muito além da evasão de sanções.
A frota fantasma
transforma o espaço marítimo europeu em um ambiente permanente de incerteza
estratégica, qualquer incidente envolvendo esses navios, vazamentos, colisões,
avarias ou simples violações administrativas, gera dilemas imediatos para os
Estados europeus, intervir pode significar escalada política, não intervir
reforça a percepção de fragilidade institucional.
Esse dilema não é
acidental, ele explora uma vulnerabilidade estrutural da Europa: a dependência
de processos jurídicos complexos, consensos políticos lentos e mecanismos
regulatórios pensados para tempos de normalidade, a frota fantasma opera
exatamente fora desse horizonte, forçando respostas sempre tardias,
fragmentadas e defensivas.
Nesse sentido, a ameaça
não está apenas no que esses navios fazem, mas no que eles obrigam as instituições
europeias a não conseguirem fazer, a presença recorrente desses navios em
áreas próximas a cabos submarinos de telecomunicações e energia adiciona uma
camada adicional de risco estratégico. Esses cabos sustentam comunicações
governamentais, fluxos financeiros, sistemas militares e a economia digital
europeia, a simples circulação de navios operando fora da normalidade nesses
espaços já cumpre um papel coercitivo.
Não é necessária a sabotagem
direta para produzir efeito estratégico, basta a introdução permanente de
ambiguidade: quem vigia e quem responde, sob qual base legal e em que momento, a frota fantasma transforma o mar em um espaço onde a distinção entre atividade
civil e ação hostil se dissolve gradualmente, esse é o funcionamento clássico
da zona cinzenta: operar abaixo do limiar que justificaria uma resposta firme,
mas acima do nível que permitiria ignorar o problema.
Mais do que contornar
sanções, a frota fantasma serve a um objetivo estratégico mais amplo: a
paralisia decisória europeia, cada navio operando nessas condições representa
um teste contínuo à capacidade da Europa de agir como ator estratégico coeso, o custo não é apenas econômico ou ambiental, é político, jurídico e psicológico.
No plano jurídico, a
situação revela as limitações do direito marítimo internacional e dos
mecanismos de aplicação das sanções. Muitas dessas embarcações operam com
bandeiras de conveniência, registros em paraísos regulatórios e cadeias opacas
de propriedade que dificultam a responsabilização legal. Essa arquitetura
deliberadamente ambígua cria zonas cinzentas no sistema jurídico internacional:
embora haja suspeitas claras de violação de sanções, a capacidade de
comprovação e de aplicação efetiva da lei torna-se limitada, assim, cada
operação bem-sucedida da frota fantasma expõe fragilidades estruturais do
regime de sanções e da governança marítima global.
Por fim, existe um efeito
psicológico frequentemente subestimado, a persistência dessas operações
transmite a mensagem de que as sanções ocidentais são permeáveis e que Moscou
possui capacidade de adaptação estratégica, para formuladores de políticas
europeus, isso gera um ambiente de incerteza permanente: mesmo com sucessivos
pacotes de sanções, a Rússia continua exportando petróleo e financiando sua
máquina de guerra. Essa percepção corrói gradualmente a confiança na eficácia
das medidas adotadas, produzindo um efeito de desgaste político interno e
fortalecendo narrativas de impotência estratégica no interior das democracias
europeias.
Ao longo do tempo, a
repetição desses episódios produz um efeito cumulativo: a habituação
estratégica, incidentes deixam de ser percebidos como ameaças e passam a ser
tratados como ruído. É nesse ponto que a guerra híbrida atinge seu êxito mais
sofisticado: não pela escalada, mas pela normalização do risco.
A frota fantasma russa não
é um desvio tático nem uma resposta improvisada às sanções. Ela é uma extensão
marítima coerente da doutrina russa de guerra híbrida, baseada na exploração de
ambiguidades, na erosão da governança adversária e na recusa deliberada do
confronto direto.
Esses navios não
transportam apenas petróleo. Transportam instabilidade, dilemas jurídicos e
desgaste institucional. Navegam em um espaço onde a guerra não é declarada, mas
a paz já não existe plenamente. Ao tolerar sua operação contínua, a Europa não
enfrenta apenas um desafio regulatório, mas um teste estratégico mais profundo:
reconhecer que o conflito já se deslocou para domínios onde a exceção deixou de
existir e a instabilidade passou a ser método.
 |
| Navio petroleiro Vladimir Monomakh, da Rosneft e com bandeira russa, transita pelo Bósforo em Istambul, Turquia 06/07/2023 REUTERS/Yoruk Isik |
Migração, Pressão
Política e Desestabilização Interna
A instrumentalização da
migração consolidou-se, a partir de 2021, como um dos exemplos mais explícitos
e documentados de guerra híbrida em solo europeu, o episódio envolvendo a
Bielorrússia não foi um efeito colateral de instabilidade regional, mas uma
operação deliberadamente conduzida pelo Estado, com objetivos políticos claros.
Esse tipo de
operação é descrito na literatura estratégica como a weaponização da migração,
na qual fluxos humanos são deliberadamente manipulados para sobrecarregar
sistemas institucionais, gerar crises políticas internas e deslocar o debate
público do campo da segurança externa para o da controvérsia doméstica.
 |
| Bielorrússia leva imigrantes para divisa com UE e dá alicate para cortar cerca. Fonte: Poder 360. |
O uso do conceito de
weaponização nesse contexto não deve ser interpretado como recurso retórico ou
exagero discursivo, mas como uma formulação técnica amplamente empregada nos
estudos de segurança internacional e guerra híbrida. Ao falar em weaponização
da migração, a literatura descreve um processo intencional de conversão de
fluxos humanos em instrumentos de pressão estratégica, explorando
vulnerabilidades institucionais, dilemas jurídicos e sensibilidades normativas
próprias das democracias liberais. A eficácia dessa prática não reside na
migração em si, mas no efeito sistêmico que ela produz: sobrecarga de sistemas
de asilo, polarização do debate público, erosão da coesão política interna e
deslocamento do foco estratégico do campo da segurança externa para disputas
domésticas altamente sensíveis. Sendo, portanto, uma forma de coerção indireta
que opera abaixo do limiar da guerra convencional, na qual o custo da resposta
recai desproporcionalmente sobre o Estado-alvo, enquanto o ator que
instrumentaliza o fluxo humano preserva a ambiguidade e evita a responsabilização
direta.
 |
| Muitos migrantes ficaram presos na fronteira entre a Polônia e Belarus. Fonte: Crédito, Shwan Kurd, 9 novembro 2021. |
Sob o comando de Alexander
Lukashenko, o regime bielorrusso passou a facilitar ativamente a chegada de
migrantes oriundos do Oriente Médio e da África, sobretudo do Iraque, Síria e
Afeganistão. Companhias aéreas estatais e privadas ampliaram voos para Minsk,
vistos foram facilitados de maneira atípica, e, uma vez em território
bielorrusso, esses grupos passaram a ser escoltados por forças de segurança até
as fronteiras da Polônia, Lituânia e Letônia.
 |
| Lukashenko visita fronteira com a Polônia e incentiva imigrantes a tentarem entrar na União Europeia. Foto: MAXIM GUCHEK / AFP |
Não se tratava de migração
espontânea, relatórios de governos europeus e de organizações internacionais
documentaram a atuação direta de agentes bielorrussos, que indicavam rotas,
forneciam ferramentas para cortar cercas e, em alguns casos, impediam o retorno
dos migrantes ao interior da Bielorrússia, empurrando-os deliberadamente para
zonas de fronteira militarizadas.
O objetivo era múltiplo e
estratégico: Pressionar politicamente a União Europeia, especialmente após as
sanções impostas a Minsk, testar a resiliência dos sistemas de controle de
fronteiras e o funcionamento do Espaço Schengen, provocar crises políticas
internas, alimentando tensões entre governos nacionais, parlamentos e opinião
pública, explorar divisões ideológicas, sobretudo em países onde o tema
migratório já era sensível e polarizador.
Espaço Schengen é a área
de livre circulação europeia que elimina controle de fronteira entre os países
participantes, concentrando a vigilância migratória nas fronteiras externas do
bloco. Atualmente, o Espaço Schengen reúne 26 países europeus, permitindo a livre circulação entre eles. Desses, 22 fazem parte da União Europeia:
Portugal, Alemanha, Bélgica, República Checa, Dinamarca, Estônia,
Grécia, Espanha, França, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Hungria,
Malta, Países Baixos, Áustria, Polônia, Eslovênia, Eslováquia,
Finlândia e Suécia. Além disso, 4 países não pertencem à União Europeia, mas integram o espaço: Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça.
 |
| O Espaço Schengen reúne 26 países europeus, permitindo a livre circulação entre eles. Fonte: www.supercambio.com.br. |
Na Polônia, por exemplo, a
crise foi rapidamente convertida em embate político interno, com acusações de
violações de direitos humanos, disputas judiciais e tensão entre Varsóvia e
Bruxelas. Na Lituânia e na Letônia, Estados menores e com recursos limitados, o
impacto logístico e simbólico foi desproporcional, forçando estados de
emergência e mobilização militar.
Embora formalmente
conduzida pela Bielorrússia, essa operação não pode ser dissociada da lógica
estratégica russa. Moscou não apenas manteve apoio político a Lukashenko como se
beneficiou diretamente do efeito desestabilizador gerado na União Europeia, sem
disparar um único tiro ou assumir responsabilidade direta.
Ao transformar
fronteiras em arenas de disputa moral, jurídica e política, esse tipo de
coerção desloca o centro da decisão estratégica europeia para um campo onde
consenso é raro e respostas rápidas são politicamente custosas.
Esse episódio ilustra com
clareza a essência da guerra híbrida contemporânea: fluxos humanos
transformados em instrumentos de coerção, sofrimento civil convertido em arma
política e a ambiguidade calculada como escudo contra retaliações diretas. Não
é uma guerra declarada, mas uma ofensiva contínua contra a coesão interna, a
legitimidade institucional e a estabilidade política dos Estados europeus.
A Geografia Funcional da
Europa: Capitais, Eixos e o Significado Estratégico de Cada Região
A Europa contemporânea não
se organiza apenas a partir de suas fronteiras formais ou da divisão clássica
entre Estados, existe uma lógica mais profunda, menos visível, que estrutura o
continente a partir de funções estratégicas bem definidas. Nesse cenário,
determinadas capitais deixam de ser apenas centros administrativos e passam a
representar papéis específicos dentro de um sistema mais amplo de poder, tensão
e estabilidade, mais do que geografia, trata-se de uma arquitetura funcional.
No centro desse sistema
está o núcleo decisório europeu, formado por Bruxelas (Bélgica), Paris (França),
Berlim (Alemanha) e Londres (Reino Unido). Essas capitais concentram a
capacidade de formulação política, coordenação estratégica e, em última
instância, definição dos rumos do continente. Bruxelas funciona como o centro
institucional, onde decisões são formalizadas e transformadas em diretrizes que
afetam toda a União Europeia e a OTAN.
 |
| Sede da OTAN, em Bruxelas, na Bélgica (Foto: Thierry Monasse / Colaborador) |
Já Paris e Berlim operam como pilares
complementares: a primeira com forte capacidade militar e ambição estratégica,
a segunda com peso econômico e influência política estrutural. Londres, mesmo
fora da União Europeia, permanece integrada ao núcleo de poder ocidental,
sobretudo no campo da inteligência e da segurança, é nesse eixo que se definem
respostas, se constroem consensos e se estabelecem os limites da ação europeia.
 |
| O Palácio do Eliseu, Paris, centro da política francesa Foto: Divulgação |
 |
| Sede do Serviço federal de inteligência da Alemanha. Foto: MICHAEL SOHN / AFP
|
À medida que se desloca
para o leste, essa lógica se transforma, capitais como Varsóvia (Polônia), Kiev
(Ucrânia), Minsk (Bielorrússia) e Moscou (Rússia) compõem o principal arco de
tensão do continente, diferentemente do núcleo ocidental, onde predomina a
coordenação, essa região é marcada pela confrontação direta ou potencial.
 |
| Fonte: elaboração própria, com base em dados geopolíticos de OTAN, União Europeia e análises estratégicas do conflito no Leste Europeu. |
Varsóvia assume o papel de linha avançada da OTAN, funcionando como um ponto de
contenção e preparação, Kiev representa o espaço onde a disputa geopolítica se
materializa de forma mais evidente, tornando-se o epicentro de uma redefinição
de fronteiras de influência, Minsk atua como zona de projeção indireta de poder
russo, enquanto Moscou permanece como o centro de decisão de uma estratégia que
busca expandir ou preservar sua esfera de influência. Esse eixo oriental não
apenas revela a tensão existente, mas também delimita até onde o sistema
europeu consegue se estender sem entrar em confronto direto.
Mais ao norte, o cenário
assume uma configuração distinta. Capitais como Estocolmo (Suécia) e Helsinque
(Finlândia) não estão no centro da tomada de decisão nem na linha imediata de
confronto, mas ocupam uma posição estratégica sensível. Essa região funciona
como uma zona de transição entre estabilidade e tensão, onde as proximidades
geográficas com a Rússia e a presença de infraestruturas críticas elevam sua
relevância. Ao mesmo tempo, trata-se de um espaço altamente preparado, com
Estados que investem em defesa, resiliência e integração com estruturas
ocidentais. O norte europeu, nesse contexto, representa um ambiente de
vigilância constante, onde o objetivo principal não é reagir a crises já
instaladas, mas antecipar riscos e evitar que eles se concretizem.
 |
| Entre o Ártico e o Báltico, forma-se um novo escudo estratégico da OTAN. A entrada de Finlândia e Suécia redefine o equilíbrio regional e transforma o norte europeu em uma zona de vigilância permanente, onde antecipar ameaças é tão decisivo quanto responder a elas, especialmente diante da pressão geopolítica exercida pela Rússia. |
No sul do continente, a
dinâmica muda novamente, em Roma e Atenas, a relevância estratégica não está
ligada à confrontação militar direta ou à tomada de decisão central, mas à gestão
de pressões estruturais. Essa região concentra desafios que impactam
diretamente a estabilidade interna da Europa, como crises econômicas
recorrentes, instabilidade política e, sobretudo, fluxos migratórios intensos
vindos do Norte da África e do Oriente Médio. Nesse contexto, o sul europeu
funciona como uma espécie de zona de absorção de tensões externas, onde
problemas que se originam fora do continente passam a produzir efeitos diretos
dentro dele. A forma como essas capitais lidam com essas pressões influencia
não apenas seus próprios países, mas a coesão de toda a União Europeia.
 |
| No sul europeu, Roma e Atenas atuam como pontos de absorção de pressões externas, onde fluxos migratórios e instabilidades vindas do Norte da África e do Oriente Médio impactam diretamente a coesão da União Europeia. |
O que emerge dessa leitura
é uma Europa organizada não apenas por Estados, mas por funções. Um núcleo que
decide, uma fronteira que confronta, uma região que monitora e outra que
absorve pressões. Cada uma dessas zonas cumpre um papel específico dentro de um
sistema que busca equilibrar estabilidade interna com um ambiente externo cada
vez mais volátil.
Compreender essa geografia
funcional é essencial para entender o comportamento europeu diante de crises.
As respostas não são uniformes porque as responsabilidades também não são. Cada
região reage a partir do papel que ocupa dentro dessa estrutura, e é justamente
essa distribuição de funções que permite ao continente sustentar, ainda que com
dificuldades, um certo nível de equilíbrio em meio a um cenário de crescente
complexidade geopolítica.
A Dimensão Cognitiva da
Guerra Híbrida: medo, polarização e paralisia decisória
Se a sabotagem atinge a
infraestrutura e a coerção energética pressiona a economia, é na mente coletiva
das sociedades europeias que a guerra invisível russa encontra seu terreno mais
fértil. Na literatura estratégica contemporânea, esse conjunto de práticas
é descrito como guerra cognitiva: um esforço deliberado para moldar percepções,
induzir dúvida, fragmentar consensos e interferir diretamente nos processos de
decisão política do adversário, sem recorrer ao confronto militar direto.
Moscou compreendeu, antes de muitos analistas ocidentais, que democracias
liberais não colapsam necessariamente sob ataque direto, mas sob exposição
contínua à instabilidade, à dúvida e à erosão da confiança pública, a guerra
híbrida, nesse sentido, não busca a vitória militar clássica, mas a
desorganização cognitiva do adversário.
 |
| Rede de agentes recrutados pela inteligência Rússia, ligados ao crime organizado para realizar atos de sabotagem em países da União Europeia. Fonte: Deutsche Welle |
Democracias operam sobre
consensos frágeis, decisões estratégicas exigem legitimidade política, apoio
social, debate parlamentar e respaldo jurídico. Esse modelo, que em tempos de
normalidade garante estabilidade, torna-se vulnerável quando submetido a uma
sequência constante de choques de baixa intensidade. Incidentes isolados não
derrubam governos, crises permanentes, sim, Moscou não aposta no colapso
súbito, mas no desgaste cumulativo, no cansaço social e na normalização da
exceção.
A instrumentalização da
migração, a volatilidade energética, os ataques cibernéticos e as sabotagens
pontuais não operam apenas no plano material, elas produzem efeitos
psicológicos profundos: medo difuso, sensação de perda de controle e percepção
de incompetência institucional, cada crise migratória fabricada nas fronteiras
orientais da União Europeia reacende debates identitário, alimenta movimentos
nacionalistas, radicaliza discursos políticos e fragmenta coalizões
governamentais, cada aumento abrupto no preço da energia transforma decisões
geopolíticas em temas de sobrevivência cotidiana, deslocando o debate
estratégico para o terreno emocional.
Nesse contexto, a guerra
informacional atua como catalisador, campanhas de desinformação não precisam
convencer, basta confundir, não precisam impor uma narrativa única, basta
multiplicar versões, criar ruído e transformar fatos em disputas
interpretativas intermináveis. Quando sociedades passam a discutir se um ataque
foi real, acidental ou exagerado, o ataque já cumpriu sua função, a dúvida
paralisa mais do que o medo explícito.
 |
| Rede de fake news financiada pela Rússia tenta interferir em eleição na Europa. Fonte: BBC News, 28 de setembro 2025. |
O objetivo central dessa
guerra cognitiva não é conquistar corações e mentes em favor da Rússia, mas
impedir a formação de consensos estáveis contra ela, Moscou ganha quando
parlamentos se dividem, quando governos hesitam, quando alianças discutem
procedimentos em vez de respostas, cada debate interno prolongado reduz o custo
estratégico das ações russas, a ausência de uma linha clara entre guerra e paz
transforma qualquer reação europeia em um dilema político interno,
juridicamente contestável e socialmente polarizador.
Essa lógica explica por
que a Rússia opera deliberadamente abaixo do limiar jurídico da guerra
convencional, a zona cinzenta não é apenas um espaço operacional, é um ambiente
psicológico, sabotagens reversíveis, ataques cibernéticos calibrados, violações
aéreas breves e crises migratórias instrumentalizadas produzem tensão
suficiente para gerar instabilidade, mas não o bastante para acionar respostas
militares automáticas. O resultado é a paralisia decisória: todos percebem a
ameaça, poucos concordam sobre sua natureza, e quase ninguém assume o custo
político de uma reação contundente.
 |
| O centro comercial Marywilska 44, em Varsóvia, após o ataque criminoso inspirado por agentes russos. Fonte: Cybularny. |
Ao longo do tempo, esse
processo corrói algo fundamental: a confiança da sociedade em sua própria
capacidade de defesa, a sensação permanente de vulnerabilidade cria cinismo,
descrença e fadiga estratégica, desta forma, a guerra deixa de ser percebida como um evento
extraordinário e passa a ser tratada como ruído de fundo da vida política. É
nesse ponto que a vitória invisível se materializa, não quando tanques cruzam
fronteiras, mas quando sociedades aceitam a instabilidade como normalidade e
passam a reagir sempre tarde demais.
A guerra híbrida russa,
portanto, não se limita à espionagem, à sabotagem ou à coerção econômica, ela
é, sobretudo, uma guerra contra o tempo político, contra a capacidade das
democracias de decidir rapidamente, sustentar consensos e agir de forma
coordenada, Moscou não precisa vencer militarmente a Europa, basta prolongar
indefinidamente um estado de tensão no qual cada decisão se torna um risco
interno maior do que a própria ameaça externa.
Ao prolongar
indefinidamente o processo decisório europeu, a Rússia transforma o tempo em
ativo estratégico, cada adiamento, cada comissão, cada debate interno não
resolvido amplia sua liberdade de ação e reduz o custo relativo de suas
operações híbridas.
É nesse campo invisível,
onde medo, dúvida e polarização se entrelaçam que a guerra contemporânea
encontra sua forma mais eficaz. E enquanto o debate europeu permanecer preso à
pergunta “estamos ou não em guerra?”, a resposta estratégica russa já estará
dada. A dimensão mais perigosa
da guerra híbrida contemporânea talvez não esteja na destruição física
produzida por sabotagens ou ataques militares limitados, mas na transformação
gradual da percepção coletiva das sociedades democráticas, o verdadeiro campo
de batalha deixa de ser apenas territorial e passa a existir dentro do ambiente
psicológico, informacional e emocional das populações. A guerra cognitiva emerge
exatamente nesse espaço invisível, onde a disputa estratégica não busca
necessariamente conquistar cidades, mas influenciar percepções, manipular
emoções coletivas, ampliar divisões políticas internas e comprometer a
capacidade de reação coordenada do adversário. A Rússia percebeu, de maneira
particularmente eficiente, que democracias liberais possuem vulnerabilidades
estruturais profundamente exploráveis em cenários de instabilidade prolongada.
Diferentemente de regimes autoritários, democracias dependem de legitimidade
política, consenso institucional, apoio popular e estabilidade informacional
para sustentar decisões estratégicas de longo prazo, quando esses elementos
passam a ser corroídos simultaneamente, o próprio sistema decisório entra em
tensão permanente.
A lógica central da guerra
híbrida russa não está baseada exclusivamente na superioridade militar
convencional, mas na capacidade de explorar fragilidades internas das
sociedades adversárias. Moscou compreendeu que, em um ambiente democrático altamente
polarizado e hiperconectado digitalmente, pequenas crises contínuas podem
produzir efeitos estratégicos muito superiores aos de um confronto militar
direto. O objetivo não é provocar necessariamente o colapso imediato do Estado,
mas induzir um desgaste lento, cumulativo e psicologicamente exaustivo, democracias raramente entram em crise profunda por um único evento isolado, o desgaste normalmente ocorre através da repetição constante de choques de baixa
intensidade que, ao longo do tempo, produzem fadiga social, perda de confiança
institucional e sensação permanente de vulnerabilidade.
Essa lógica tornou-se
particularmente evidente na Europa após a invasão da Ucrânia em 2022, a crise
energética decorrente da redução do fornecimento de gás russo demonstrou como
dependências econômicas podem ser convertidas em instrumentos de pressão
psicológica coletiva. Em diversos países europeus, especialmente na Alemanha, o
debate sobre sanções contra Moscou rapidamente deixou de ser apenas uma questão
geopolítica e passou a afetar diretamente a percepção cotidiana da população. O
aumento da inflação, o medo de escassez energética durante o inverno e a
deterioração econômica ampliaram tensões sociais internas e fortaleceram
discursos políticos radicais. A guerra híbrida opera justamente nesse
deslocamento emocional: temas estratégicos complexos são convertidos em crises
de sobrevivência doméstica percebidas diretamente pela população comum.
O mesmo mecanismo aparece
na instrumentalização de fluxos migratórios, a crise na fronteira entre Belarus
e Polônia em 2021 demonstrou como movimentos populacionais podem ser utilizados
como ferramentas de pressão estratégica. O objetivo não estava apenas em gerar
tensão humanitária nas fronteiras europeias, mas em provocar divisões políticas
internas dentro da própria União Europeia. Questões migratórias possuem enorme
potencial de polarização porque atingem simultaneamente debates sobre
identidade nacional, segurança, direitos humanos e soberania estatal. Cada
crise migratória artificialmente estimulada amplia divisões ideológicas,
fortalece movimentos nacionalistas e reduz a capacidade de formulação de
consensos políticos estáveis.
Nesse contexto, a guerra
informacional assume papel central. Diferentemente da propaganda tradicional da
Guerra Fria, o ambiente digital contemporâneo não exige mais controle absoluto
da narrativa, o objetivo operacional das campanhas modernas de desinformação
não é necessariamente convencer populações inteiras de uma única versão dos
fatos. Muitas vezes, basta produzir confusão suficiente para impedir a formação
de consensos claros, a dúvida transforma-se em arma estratégica. Redes sociais,
algoritmos de engajamento e ecossistemas digitais radicalizados ampliaram
drasticamente a velocidade e o alcance da manipulação informacional, Bots
automatizados, canais coordenados no Telegram, campanhas virais no TikTok e
redes de influência online permitem que versões contraditórias sobre um mesmo
evento circulem simultaneamente em escala global.
 |
| Captura de tela da conta da Embaixada da Rússia no Reino Unido - a alegação falsa foi removida pelo X. |
O caso do voo MH17, abatido
sobre o leste da Ucrânia em 2014, exemplifica claramente essa lógica, enquanto
investigações internacionais apontavam responsabilidade de separatistas pró russos utilizando sistemas antiaéreos fornecidos por Moscou, múltiplas
versões alternativas passaram a circular imediatamente no ambiente digital.
Narrativas contraditórias surgiam em velocidade elevada: conspiração ocidental,
erro militar ucraniano, acidente técnico, manipulação midiática. O objetivo não
era necessariamente substituir a verdade por outra narrativa completamente
dominante, o verdadeiro objetivo consistia em destruir a confiança pública na
própria possibilidade de estabelecer uma verdade objetiva verificável. Quando
sociedades entram em disputas intermináveis sobre a realidade dos fatos, a
capacidade de resposta política coordenada se deteriora rapidamente.
 |
| Investigadores holandeses e membro do Ministério de Emergências inspecionam recuperação dos restos do voo MH17, da Malaysia Airlines Foto: MAXIM ZMEYEV / REUTERS |
A guerra cognitiva russa
também explora uma vulnerabilidade estrutural fundamental das democracias
contemporâneas: a lentidão decisória, sistemas democráticos dependem de debate
parlamentar, respaldo jurídico, coordenação institucional e legitimidade
política para agir. Em condições normais, isso garante estabilidade e reduz
riscos autoritários. Em cenários de guerra híbrida permanente, porém, essa
mesma característica transforma-se em fragilidade operacional. Moscou atua
deliberadamente abaixo do limiar jurídico da guerra convencional justamente
para dificultar respostas rápidas e consensuais. Ataques cibernéticos
limitados, sabotagens reversíveis, operações de influência e provocações
calibradas produzem tensão suficiente para gerar instabilidade, mas
frequentemente não o bastante para justificar respostas militares automáticas
da OTAN.
Essa chamada “zona
cinzenta” representa um espaço estratégico profundamente psicológico, todos percebem
que existe uma ameaça em curso, mas poucos concordam plenamente sobre sua
natureza exata, intensidade ou origem operacional. O resultado é a paralisia
decisória, governos hesitam diante do risco de escalada, parlamentos entram em
divisões internas, populações polarizadas passam a interpretar ameaças externas
através de disputas ideológicas domésticas e alianças internacionais enfrentam
dificuldades para formular respostas coordenadas, o tempo torna-se ativo
estratégico para a Rússia.
A guerra híbrida
contemporânea, portanto, não deve ser compreendida apenas como um conjunto de
operações militares não convencionais, ela representa uma disputa pela
capacidade psicológica das sociedades de manter estabilidade, confiança
institucional e coordenação política sob pressão contínua. Moscou não precisa
necessariamente vencer militarmente a Europa para obter vantagens estratégicas
relevantes, basta prolongar indefinidamente um ambiente de tensão permanente no
qual democracias passem mais tempo administrando crises internas do que
formulando respostas externas consistentes.
Essa talvez seja a
transformação mais profunda dos conflitos modernos, a guerra deixa de ser
percebida apenas como um evento excepcional marcado por invasões militares
formais e passa a existir como condição permanente de desgaste político,
psicológico e informacional. A vitória estratégica não ocorre necessariamente
quando cidades são ocupadas ou exércitos derrotados, ela começa a se
materializar quando sociedades inteiras passam a aceitar sabotagens, campanhas
de desinformação, polarização extrema e instabilidade contínua como parte
normal da vida política contemporânea. Nesse estágio, a erosão da confiança
coletiva torna-se mais destrutiva do que a própria destruição física produzida
pela guerra convencional.
A Zona Cinzenta
como Método: Testes Militares, Terceirização e Guerra Cognitiva
O objetivo central dessa
estratégia não é a vitória rápida, mas o desgaste cumulativo, Moscou aposta na
fadiga social, no cinismo político e na erosão gradual da confiança pública nas
instituições europeias. Cada ataque que não gera resposta, cada incidente
tratado como isolado, cada divisão interna ampliada por campanhas de
desinformação contribui para um efeito psicológico profundo: a sensação de
vulnerabilidade constante. O cenário revela a consolidação de uma guerra
cognitiva, na qual o campo de batalha não é apenas o território, mas a
percepção coletiva de segurança, estabilidade e controle.
Ao mesmo tempo, a frente
militar híbrida opera em escala crescente, drones russos violaram o espaço
aéreo da Polônia em 2025, levando o País a acionar o Artigo 4º da OTAN, episódios semelhantes ocorreram na Romênia e na Lituânia, a Dinamarca registrou
drones sobrevoando aeroportos e bases onde F-35 estavam estacionados, a Estônia
denunciou caças russos voando sem transponder, obrigando interceptações. Cada
um desses incidentes é uma forma de teste: Moscou mede tempo de reação, observa
protocolos de defesa e identifica vulnerabilidades, não são acidentes, são
fases de reconhecimento operacional.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/r/y/co4Hf7Q0SecVk7JMH3XA/2025-11-26t185414z-2086055688-rc2i4ia8guia-rtrmadp-3-ukraine-crisis-moldova-drone.jpg) |
| Embaixador da Rússia na Moldávia, Oleg Ozerov, observa drone russo, em 26 de novembro de 2025, que o governo moldavo acusa de ter invadido seu espaço aéreo no dia anterior. — Foto: Ministério das Relações Exteriores da Moldávia/Divulgação via REUTERS |
Esse padrão de
incursões limitadas reflete uma lógica de test-and-learn (testar
e aprender), na qual cada ação não busca o impacto imediato, mas a extração
sistemática de dados operacionais, políticos e psicológicos sobre o adversário.
A violação pontual do espaço aéreo, o ataque cibernético reversível ou a
sabotagem ambígua funcionam como instrumentos de sondagem: medem tempos de
reação, expõem divergências internas, revelam protocolos de defesa e delimitam,
na prática, as verdadeiras linhas vermelhas. Nesse modelo, a guerra híbrida
converte o próprio sistema defensivo europeu em uma fonte involuntária de
inteligência, transformando cada resposta hesitante, cada debate jurídico e
cada não decisão em informação estratégica reutilizável.
Um dos traços mais sofisticados
dessa guerra invisível é a terceirização operacional: Redes criminosas,
empresas militares privadas, hackers freelancers e grupos extremistas locais
passaram a atuar como extensões informais do Estado russo. Essa estrutura
permite ao Kremlin manter negação plausível, o que configura nas operações
clandestinas, e também diluir responsabilidades e reduzir custos
políticos, a terceirização não apenas reduz custos operacionais, mas
fragmenta a atribuição jurídica da agressão, dificultando respostas legais,
sanções proporcionais e enquadramentos formais no direito internacional.
 |
| Departamento de Estado Americano oferece recompensa para quem der informações sobre hackers russos Foto: Divulgação |
 |
| Imagens de procurados pelo FBI por acusação de envolvimento com crimes cibernéticos, Novembro 2012. Fonte: FBI. |
Investigações da Europol
apontam para uma cooperação crescente entre organizações criminosas europeias e
agentes russos, especialmente em ataques cibernéticos, sabotagens de transporte
e campanhas de desinformação financiadas por criptomoedas. O Estado russo não
precisa aparecer, basta que o efeito estratégico seja alcançado, a guerra
cibernética completa o quadro, em abril de 2025, hackers ligados a grupos pró
Rússia, provocaram uma liberação controlada de água em uma barragem na Noruega,
um ataque projetado para demonstrar fragilidade, não necessariamente para
causar destruição imediata, na Estônia, ataques cibernéticos atingiram
ministérios e hospitais, a União Europeia sancionou indivíduos associados ao
GRU por essas operações.
 |
| Hackers fazem barragem na Noruega vazar 500 litros d’água por segundo. Fonte: imagem: reprodução/VG |
Esse padrão também se
manifesta em ataques direcionados a infraestruturas energéticas
descentralizadas. Em diversos países do Leste Europeu, operadores de redes
elétricas relataram tentativas de intrusão em sistemas SCADA, responsáveis pelo
controle automatizado da distribuição de energia. Diferentemente de um apagão
total, os acessos buscavam manipulações pontuais, como oscilações de carga e
interrupções localizadas, suficientes para gerar instabilidade, desconfiança
pública e pressão política sobre governos. Mais uma vez, o objetivo não era a
destruição imediata, mas a erosão gradual da percepção de segurança e controle
estatal.
A Europol, por sua vez,
identificou cooperação crescente entre redes criminosas e agentes russos para
sabotagem de sistemas de transporte e campanhas coordenadas de desinformação.
 |
| O hacker russo Evgeniy M. Bogachev, em imagem do FBI publicada pelo ‘The New York Times’. Vinculado aos mais graves ciberataques contra os EUA, ele vive supostamente amparado por Moscou. Fonte: El País. |
Tudo isso compõe uma
guerra que foge aos modelos convencionais, essa guerra invisível opera
deliberadamente abaixo do limiar jurídico da guerra convencional. Moscou
explora aquilo que estrategistas da OTAN definem como “zona cinzenta”: um
espaço de confronto permanente em que ações hostis são graves demais para serem
ignoradas, mas ambíguas demais para justificar uma resposta militar direta.
Sabotagens limitadas, violações aéreas breves, ataques cibernéticos reversíveis
e campanhas de influência permitem à Rússia desgastar seus adversários sem
cruzar, formalmente, as linhas que ativariam o Artigo 5º do Tratado do
Atlântico Norte, cláusula que determina que um ataque armado contra um membro seja tratado como um ataque contra todos os integrantes da aliança. Trata-se de uma estratégia calculada: paralisar a tomada de
decisão, dividir interpretações jurídicas e transformar cada resposta europeia
em um debate político interno, lento e fragmentado.
Não é uma guerra
declarada, não é linear, não tem fronteiras bem delimitadas, mas ela está em andamento.
A Rússia testa a coesão da OTAN, a resiliência política de seus adversários e a
capacidade europeia de proteger setores vitais, energia, informação,
infraestrutura, percepção pública e segurança territorial. O objetivo não é
conquistar capital europeia, mas desgastar, fragmentar, confundir e dividir. Nesse contexto a vitória russa não viria por meio de tanques em Varsóvia, Londres,
Berlin, Paris, Bruxelas e nas demais capitais europeias, mas por meio de uma
Europa enfraquecida ao ponto de não reagir.
Diante desse cenário, a
resposta europeia tem sido reativa e fragmentada. A criação de centros
dedicados à guerra híbrida, o reforço da presença da OTAN no flanco oriental e
a imposição de sanções a indivíduos ligados ao GRU e ao FSB (Serviço de inteligência Militar e o Serviço Federal de Segurança) representam
avanços, mas não alteram a assimetria fundamental do conflito. A Rússia opera
com iniciativa e ambiguidade, a Europa responde com cautela e debate interno, essa diferença de ritmo favorece quem ataca sem declarar guerra.
Como todos os eventos e
situações em desenvolvimento, podemos afirmar, a guerra já começou, está nos
drones sobre bases militares, nos cabos submarinos monitorados no fundo do mar,
nos servidores invadidos, nas narrativas infiltradas via redes sociais e
aplicativos de conversas, nas decisões tomadas sob coerção energética, nas
operações clandestinas do GRU e do FSB em território europeu, invisível para
muitos, mas absolutamente real.
O que emerge desse
conjunto de ações é um estado de guerra permanente de baixa intensidade, no
qual não há declaração formal, mas tampouco há retorno à normalidade, a instabilidade torna-se política de Estado.
Guerra
Informacional e Diplomacia Paralela no Sul Global
Enquanto explora vulnerabilidades da infraestrutura e molda rotas de influência política, Moscou também trava uma
guerra na dimensão da percepção. A batalha informacional se tornou vital, hackers, agências de fachada, redes de bots e campanhas orquestradas inundam o
espaço digital europeu. Em 2023 e 2024, investigações da União Europeia
revelaram que redes ligadas ao Kremlin influenciaram eleições na Eslováquia,
Alemanha e Itália, disseminando conteúdo polarizador, anti-imigração e anti
União Europeia. O objetivo não é necessariamente eleger aliados diretos, mas
criar fraturas internas, minar a confiança e enfraquecer a coesão política
europeia. O que se perde em estabilidade política, Moscou ganha em liberdade
estratégica.
 |
| Robert Habeck, o principal candidato do partido Os Verdes, foi vítima de uma falsificação orquestrada pela inteligência Russa. Foto: nrtv.online |
 |
| Publicação falsa sobre alegada tentativa de suicídio de Friedrich Merz, candidato da CDU. Foto: w-a-munchen |
 |
Vídeos falsos disfarçados de vídeos da DW, Le Point, Bild e France 24 foram divulgados antes das eleições antecipadas na Alemanha Foto: x.com |
Paralelamente às
operações de influência conduzidas dentro da Europa, a Rússia desenvolve uma
diplomacia paralela ativa no Sul Global com o objetivo de isolar politicamente
o continente europeu. Moscou explora ressentimentos históricos contra o ocidente,
oferece cooperação militar, acordos energéticos e apoio político em fóruns
internacionais, e constrói narrativas que enquadram a guerra na Ucrânia como um
confronto entre imperialismo ocidental e soberania nacional. O resultado tem
sido a neutralidade calculada ou a abstenção sistemática de diversos países em
votações na ONU, diluindo a capacidade europeia de formar consensos globais e
ampliando a margem de manobra estratégica do Kremlin.
Entre os aspectos mais sensíveis e controversos da guerra está a acusação de transferência forçada de crianças da Ucrânia para territórios controlados pela Rússia. Investigações conduzidas por organizações internacionais, governos ocidentais e entidades de direitos humanos apontam que milhares de menores teriam sido removidos de áreas ocupadas, separados de familiares e submetidos a processos de adoção, reeducação política e assimilação cultural sob controle russo. O caso ganhou dimensão internacional após o Tribunal Penal Internacional emitir mandados de prisão contra Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova, com base em acusações relacionadas à deportação ilegal de crianças durante o conflito, aprofundando ainda mais o isolamento diplomático de Moscou perante parte da comunidade internacional.
 |
| Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova. Fonte: UN. |
 |
| Dezembro de 2025. |
O chamado Sul Global não constitui uma região
geográfica específica, mas um conceito político utilizado nas relações
internacionais para descrever um conjunto amplo de Países da África, América
Latina, Oriente Médio e partes da Ásia que compartilham experiências históricas
semelhantes, marcadas por colonialismo, desenvolvimento econômico desigual e
inserção periférica nas estruturas de poder do sistema internacional. O termo
emergiu gradualmente como substituto de classificações mais antigas, como
“Terceiro Mundo”, e passou a ser amplamente utilizado após o fim da Guerra Fria
para designar países que, embora heterogêneos entre si, mantêm uma relação
ambivalente com as potências ocidentais e frequentemente buscam maior autonomia
estratégica na política internacional. Para Moscou, esse espaço geopolítico
representa um campo particularmente fértil de disputa narrativa: ressentimentos
históricos contra potências coloniais europeias, desconfiança em relação às
instituições internacionais dominadas pelo Ocidente e interesses pragmáticos em
cooperação militar, energética e comercial criam um ambiente favorável à
construção de discursos que enquadram o conflito na Ucrânia não como uma
agressão russa, mas como mais um capítulo da rivalidade entre grandes
potências.
 |
| Imagem: laibl |
Esse esforço combina
guerra informacional e diplomacia informacional, na qual, narrativas,
enquadramentos históricos e posicionamentos discursivos passam a operar como
instrumentos de política externa, moldando percepções globais sem necessidade
de alinhamento formal ou alianças institucionais rígidas.
A guerra informacional e a
diplomacia paralela no Sul Global não constituem fenômenos isolados dentro da
estratégia russa contemporânea. Elas integram um conjunto mais amplo de
instrumentos de competição geopolítica que operam simultaneamente em diferentes
dimensões do poder. Enquanto campanhas de influência buscam moldar percepções e
enfraquecer a coesão política europeia no campo narrativo, outras ferramentas
são mobilizadas para produzir pressões concretas no plano social e institucional.
Nesse contexto, a instrumentalização da migração emerge como um complemento
operacional dessa arquitetura estratégica. Ao estimular, manipular ou explorar
fluxos migratórios direcionados à Europa, Moscou amplia os efeitos da guerra
informacional ao alimentar exatamente as fraturas políticas que suas campanhas
digitais procuram intensificar: polarização sobre políticas migratórias,
fortalecimento de movimentos nacionalistas, disputas entre governos e
instituições europeias e desgaste da legitimidade das estruturas
supranacionais.
Sob essa lógica,
deslocamentos populacionais deixam de ser apenas crises humanitárias ou
consequências colaterais de conflitos regionais e passam a operar como
multiplicadores de instabilidade política dentro das democracias europeias. A
pressão migratória, quando combinada à disseminação coordenada de narrativas
polarizadoras e à atuação diplomática em espaços internacionais, transforma-se
em parte de uma estratégia integrada de desgaste, na qual o objetivo não é
derrotar diretamente o adversário, mas reduzir sua capacidade de coordenação
política, fragmentar sua opinião pública e ampliar o custo interno de qualquer
resposta estratégica.
A instrumentalização
da migração pelo eixo Moscou–Minsk, contudo, não surge como uma anomalia
histórica, tampouco como uma improvisação conjuntural. Configura-se na
atualização de um padrão recorrente da estratégia russa, no qual deslocamentos
populacionais, crises humanitárias e instabilidade social são absorvidas como
variáveis funcionais da projeção de poder.
 |
| Fronteira entre Polônia e Bielorrússia em uma crise de 2021. Fonte Leonid Scheglov. |
Durante a intervenção
soviética no Afeganistão (1979–1989), a condução militar do conflito contribuiu
para o deslocamento de milhões de civis em direção ao Paquistão e ao Irã, embora esse fluxo não tenha sido organizado como instrumento direto de coerção
contra o Ocidente, ele evidencia um traço persistente: a disposição de Moscou
em externalizar os custos humanos e regionais da guerra, desde que o impacto
político não recaia sobre o centro do poder soviético. O deslocamento em massa
não era um erro estratégico, mas uma consequência tolerável, e funcional, da
ação militar.
Padrão semelhante
reapareceu no espaço pós-soviético, na guerra russo-Georgiana de 2008, o
deslocamento forçado de populações georgianas da Ossétia do Sul e da Abkhazia contribuiu
para reconfigurações demográficas irreversíveis, consolidando entidades
separatistas alinhadas a Moscou e criando fatos consumados que dificultaram
qualquer solução diplomática posterior. O deslocamento, nesse contexto, não
apenas acompanhou a guerra, mas ajudou a moldar seus resultados políticos.
 |
| Ossétia do Sul e da Abkhazia (Abcásia) |
Esse método alcançou maior
sofisticação no teatro sírio, a intervenção russa iniciada em 2015, ao apoiar o
regime de Bashar Al-Assad, intensificou fluxos migratórios em direção à Europa,
sobretudo a partir de 2015 e 2016, bombardeios concentrados em áreas urbanas e
infraestrutura civil aceleraram o deslocamento de milhões de sírios, gerando
efeitos políticos profundos dentro da União Europeia: crises internas,
polarização do debate público, fortalecimento de movimentos nacionalistas e
erosão do consenso europeu sobre migração e solidariedade. Ainda que Moscou
jamais tenha assumido tal lógica como intencional, os ganhos estratégicos
indiretos foram evidentes.
 |
| Fonte: Reuters. |
O desfecho do conflito
reforçou a natureza instrumental dessa relação, em dezembro de 2024, diante do
avanço final de forças insurgentes sobre Damasco e do colapso do aparato
estatal sírio, o regime de Assad chegou ao fim, Moscou optou por não intervir
militarmente para sustentar o governo em seus momentos finais, em vez disso,
autoridades russas organizaram a retirada do líder sírio e de sua família para
território russo, concedendo-lhes asilo político em Moscou. A operação
evidenciou o caráter pragmático da política externa russa: após quase uma década
de intervenção decisiva que garantiu a sobrevivência temporária do regime, a
prioridade estratégica passou a ser preservar seus próprios interesses
militares e geopolíticos na região, mesmo que isso significasse abandonar o
aliado que por anos sustentara no poder.
 |
| Vladimir Putin, da Rússia, e Bashar Al-Asad, da Síria • Imprensa do Kremlin/Anadolu Agency/Getty Images |
A queda do regime sírio
não elimina necessariamente os efeitos estratégicos acumulados ao longo do
conflito, Estados que emergem de guerras civis prolongadas frequentemente
enfrentam períodos de fragmentação institucional, disputas internas e instabilidade
política, caso a Síria atravesse um novo ciclo de competição entre facções ou
potências externas, novos deslocamentos populacionais podem surgir, reacendendo
pressões migratórias sobre o continente europeu. Nesse contexto, crises
humanitárias deixam de ser apenas desafios regionais e passam a atuar como
multiplicadores de instabilidade política dentro da Europa, ampliando
exatamente o ambiente de polarização e disputa narrativa explorado por
operações de influência no espaço informacional.
É nesse encadeamento
histórico que a crise migratória na fronteira Bielorrússia deve ser
compreendida, diferentemente dos casos anteriores, em que o deslocamento
populacional emergia como consequência funcional da guerra, o episódio de 2021
representa a formalização explícita do método. A migração deixa de ser apenas
um efeito colateral e passa a ser empregada diretamente como instrumento de
pressão política, calibrado para explorar fragilidades institucionais, divisões
ideológicas e limites normativos da União Europeia.
Ao reduzir a
capacidade europeia de mobilizar consensos morais e jurídicos no sistema
internacional, essa diplomacia paralela enfraquece não apenas a resposta
imediata à guerra, mas o próprio poder normativo da União Europeia como ator
global.
O resultado não é apenas
uma crise humanitária localizada, mas uma operação estratégica de desgaste
prolongado, na qual o sofrimento humano é convertido em alavanca geopolítica e
a ambiguidade jurídica atua como escudo contra respostas diretas. Configurando-se,
portanto, menos de um desvio de conduta e mais da continuidade de uma lógica
histórica, na qual a instabilidade externa é sistematicamente utilizada como
recurso para enfraquecer adversários sem recorrer ao confronto militar aberto.
Dissonância Cognitiva: o
mecanismo psicológico explorado na guerra informacional
Para compreender por que
campanhas de desinformação e manipulação informacional podem produzir efeitos
tão profundos em sociedades contemporâneas, é necessário observar também o
funcionamento psicológico que sustenta a formação das crenças humanas.
Um dos conceitos mais
relevantes nesse campo é o da dissonância
cognitiva, formulado pelo psicólogo social Leon Festinger na década de
1950. Segundo essa teoria, indivíduos experimentam um estado de desconforto
psicológico quando são confrontados com informações que entram em conflito
direto com crenças, valores ou percepções que já fazem parte de sua visão de
mundo.
 |
| Leon Festinger, psicólogo social austríaco naturalizado americano e professor da New School for Social Research e da Universidade de Stanford, desenvolveu a teoria da dissonância cognitiva em 1957, estabelecendo um dos conceitos mais influentes da psicologia social contemporânea. Fonte: 2009 The New York Times Company |
Esse desconforto cognitivo
gera uma tendência natural de buscar formas de reduzir a tensão psicológica, frequentemente, isso não ocorre através da revisão racional das crenças, mas
sim por meio de mecanismos de racionalização, negação ou reinterpretação
seletiva das informações disponíveis.
Em termos práticos, isso
significa que quando indivíduos são expostos a informações que contradizem suas
convicções pré existentes, eles tendem a rejeitar essas informações ou
reinterpretá-las de forma a preservar a coerência interna de sua visão de
mundo.
Em ambientes politicamente polarizados, esse processo torna-se ainda mais intenso porque determinadas crenças deixam de representar apenas opiniões individuais e passam a integrar a própria identidade psicológica e social dos indivíduos, nesse contexto, questionar determinadas narrativas pode ser percebido não apenas como um debate racional de ideias, mas como uma ameaça direta ao pertencimento social, à identidade coletiva e à segurança psicológica do grupo ao qual o indivíduo se sente vinculado.Como consequência, aceitar informações contraditórias pode significar, para determinados grupos, não apenas rever uma opinião específica, mas romper simbolicamente com comunidades políticas, culturais ou ideológicas das quais extraem senso de pertencimento e validação social. Esse mecanismo ajuda a explicar por que debates altamente polarizados frequentemente produzem radicalização crescente em vez de aproximação entre posições divergentes.
Esse mecanismo
psicológico, amplamente documentado em estudos de psicologia social, ajuda a
explicar por que ambientes informacionais altamente polarizados tendem a se
tornar progressivamente mais radicalizados ao longo do tempo, em vez de
produzir convergência de opiniões, a circulação de informações conflitantes
pode reforçar crenças já estabelecidas, intensificando divisões ideológicas.
O ambiente digital contemporâneo potencializa esse fenômeno de maneira sem precedentes históricos. Plataformas digitais operam através de algoritmos desenvolvidos para maximizar engajamento emocional, frequentemente priorizando conteúdos que provocam indignação, medo, confirmação ideológica ou forte reação emocional. Como resultado, indivíduos tendem a ser continuamente expostos a informações alinhadas às suas próprias crenças e preferências cognitivas.Esse processo contribui para a formação das chamadas “câmaras de eco” informacionais, ambientes nos quais diferentes grupos passam a consumir versões radicalmente distintas da realidade. A repetição constante de determinadas narrativas reduz a exposição ao contraditório, fortalece mecanismos de validação coletiva e amplia a resistência psicológica à aceitação de informações incompatíveis com as crenças já estabelecidas.
No contexto das operações
de influência informacional, esse fenômeno possui implicações estratégicas
profundas, campanhas de desinformação não precisam necessariamente convencer
grandes parcelas da população de uma narrativa específica, muitas vezes, basta
introduzir versões alternativas de eventos ou questionamentos sistemáticos
sobre fatos estabelecidos para amplificar a dissonância cognitiva dentro do
debate público.
Diversas operações contemporâneas de influência informacional parecem seguir exatamente essa lógica estratégica, durante as investigações sobre a interferência russa nas eleições presidenciais americanas de 2016, por exemplo, pesquisadores identificaram campanhas digitais que frequentemente promoviam simultaneamente narrativas contraditórias, muitas vezes direcionadas a grupos ideologicamente opostos. O objetivo aparente não era estabelecer uma versão única dos acontecimentos, mas ampliar tensões sociais, intensificar polarizações internas e enfraquecer consensos coletivos dentro do ambiente político americano.Esse modelo de operação representa uma transformação importante na guerra informacional contemporânea: em vez de simplesmente persuadir populações, busca-se frequentemente desorganizar cognitivamente o debate público, tornando cada vez mais difícil a existência de uma percepção compartilhada da realidade.
Quando diferentes grupos
sociais passam a interpretar os mesmos acontecimentos de formas completamente
incompatíveis, o resultado não é apenas divergência de opinião, mas a fragmentação
da própria realidade compartilhada que sustenta o funcionamento do debate
democrático.
Nesse sentido, a guerra
cognitiva explora vulnerabilidades que não estão apenas nas estruturas
tecnológicas da informação, mas no próprio funcionamento psicológico da mente
humana, ao estimular dúvidas persistentes, multiplicar interpretações
conflitantes e amplificar tensões ideológicas preexistentes, operações
informacionais podem transformar o ambiente cognitivo de uma sociedade em um
espaço permanentemente instável.
A exposição contínua a ambientes informacionais caóticos também pode produzir um fenômeno conhecido como fadiga cognitiva. Em cenários marcados por excesso de informação, disputas narrativas permanentes e circulação constante de versões conflitantes da realidade, indivíduos tendem a desenvolver exaustão psicológica, dificuldade de processamento crítico e crescente sensação de desorientação informacional.
Em termos estratégicos, esse processo pode gerar efeitos profundamente desestabilizadores. Sociedades submetidas a elevados níveis de saturação cognitiva frequentemente apresentam redução da confiança institucional, aumento da apatia política, fragmentação social e maior dificuldade em estabelecer consensos mínimos sobre fatos objetivos. Nesse contexto, a erosão da confiança coletiva torna-se, por si só, um objetivo relevante dentro das operações modernas de guerra cognitiva.
Assim, a eficácia dessas
operações não depende apenas da capacidade tecnológica de disseminar mensagens,
mas também da forma como essas mensagens interagem com mecanismos psicológicos
profundamente enraizados no comportamento humano.
O Conceito de “Controle
Reflexivo”: influenciar decisões sem coerção direta
Um dos fundamentos
teóricos mais importantes dessa tradição estratégica é o conceito de controle reflexivo (reflexive
control). A teoria foi inicialmente desenvolvida pelo matemático e analista
soviético Vladimir Lefebvre na década de 1960 e posteriormente incorporado ao
pensamento estratégico soviético e russo.
Vladimir Lefebvre, matemático e psicólogo soviético nascido em Leningrado em 1936, foi um dos principais formuladores da teoria do controle reflexivo, conceito posteriormente incorporado ao pensamento estratégico soviético durante a Guerra Fria. Seus estudos buscavam compreender como percepções, informações e processos cognitivos poderiam influenciar o comportamento decisório de adversários em cenários políticos e militares.
 |
| Vladimir Lefebvre (nascido em 1936, em Leningrado, URSS) é um psicólogo matemático da Universidade da Califórnia, Irvine. Fonte: shchedrovitskiy. |
O controle reflexivo
consiste em induzir o adversário a
tomar decisões aparentemente autônomas que, na realidade, foram previamente moldadas
pela manipulação do ambiente informacional. Em vez de forçar uma decisão
por meio de coerção direta, o objetivo é influenciar os cálculos estratégicos
do oponente, alterando sua percepção da realidade.
Diferentemente da propaganda tradicional, cujo objetivo frequentemente consiste em persuadir ou convencer populações sobre determinada narrativa, o controle reflexivo busca algo mais sofisticado: influenciar o próprio processo de tomada de decisão do adversário. O alvo da operação não é apenas a opinião pública, mas a estrutura cognitiva utilizada pelo oponente para interpretar informações, calcular riscos e definir respostas estratégicas.Nesse modelo, informações verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou deliberadamente falsas podem ser utilizadas de maneira combinada para criar percepções distorcidas da realidade operacional. O objetivo central não é necessariamente fazer o adversário acreditar integralmente em uma narrativa específica, mas levá-lo a agir de maneira previsível e estrategicamente favorável ao operador da influência.
Na prática, isso pode ocorrer através de diversas técnicas, incluindo disseminação seletiva de informações verdadeiras e falsas, manipulação do fluxo de dados disponíveis para tomadores de decisão, criação de narrativas estratégicas capazes de moldar percepções de risco e exploração de preconceitos cognitivos, tensões sociais e divisões políticas preexistentes.
O resultado pretendido é
que o adversário chegue sozinho à
conclusão desejada pelo operador da influência, acreditando que tomou a
decisão de forma independente.
Esse tipo de operação tende a encontrar terreno particularmente favorável em sociedades democráticas abertas, onde o fluxo livre de informações, a pluralidade política e a intensa disputa narrativa fazem parte do próprio funcionamento institucional. Em ambientes democráticos altamente polarizados, a multiplicação deliberada de versões conflitantes da realidade pode dificultar a formação de consensos políticos e ampliar a instabilidade decisória.
Ao explorar divisões internas já existentes, operações de controle reflexivo podem gerar atrasos estratégicos, paralisia institucional, fragmentação social e dificuldades crescentes na formulação de respostas coordenadas por parte do Estado. Nesse contexto, vulnerabilidades cognitivas e informacionais tornam-se elementos centrais da competição geopolítica contemporânea.
Essa lógica se encaixa
perfeitamente na guerra híbrida contemporânea. Ao saturar o ambiente
informacional com narrativas concorrentes, campanhas de desinformação e
interpretações conflitantes de eventos, tornam-se possível desorganizar o processo decisório das
democracias, onde decisões dependem de consenso político, debate público
e legitimidade institucional.
No contexto da guerra híbrida contemporânea, o controle reflexivo tornou-se particularmente relevante devido à expansão do ambiente digital e da velocidade de circulação das informações. Redes sociais, plataformas digitais e ecossistemas informacionais fragmentados ampliaram significativamente a capacidade de disseminar narrativas conflitantes em larga escala, permitindo influenciar simultaneamente diferentes segmentos sociais, políticos e institucionais.Essa dinâmica representa uma transformação importante nos modelos contemporâneos de conflito. Em vez de depender exclusivamente do emprego direto da força militar, Estados e atores não estatais podem buscar vantagens estratégicas através da manipulação de percepções, da desorganização cognitiva do adversário e da erosão gradual da confiança coletiva nas instituições democráticas.
As Raízes Históricas da
Guerra Cognitiva: das “Medidas Ativas” da KGB à Estratégia Contemporânea
Embora o termo “guerra
cognitiva” seja relativamente recente no vocabulário estratégico, a lógica por
trás desse tipo de operação possui raízes profundas na história da inteligência
soviética. Durante a Guerra Fria, a União Soviética desenvolveu um vasto
repertório de operações conhecidas como medidas
ativas (aktivnye meropriyatiya),
conduzidas principalmente pela KGB, o principal serviço de segurança e
inteligência do Estado soviético.
 |
| KGB |
Diferentemente da
espionagem clássica, cujo objetivo principal é coletar informações, as medidas
ativas tinham um propósito muito mais ambicioso: influenciar diretamente a percepção pública, manipular debates políticos
e interferir no funcionamento interno das sociedades adversárias. Para
Moscou, o campo informacional não era apenas um complemento da política
externa, mas um verdadeiro teatro de operações estratégicas.
Essas operações incluíam
uma ampla gama de instrumentos: disseminação de desinformação em jornais
estrangeiros, financiamento clandestino de movimentos políticos, infiltração em
organizações civis, manipulação de narrativas ideológicas e exploração de
tensões sociais existentes nas democracias ocidentais. O objetivo não era
necessariamente convencer o público a apoiar a União Soviética, mas desestabilizar o ambiente político do
adversário, ampliando divisões internas e enfraquecendo a confiança nas
instituições democráticas.
Um dos exemplos mais
conhecidos dessa estratégia foi à chamada Operação INFEKTION, conduzida nos anos 1980 pela KGB, a campanha
espalhou a narrativa de que o vírus da AIDS teria sido criado em um laboratório
militar dos Estados Unidos. A história foi inicialmente plantada em um jornal
periférico e posteriormente amplificada por veículos internacionais,
demonstrando a capacidade soviética de transformar desinformação em um fenômeno
global de percepção pública, o objetivo da operação não era apenas atacar a
imagem americana, mas gerar
desconfiança internacional em relação às instituições científicas e militares
do Ocidente.
A relevância estratégica da Operação INFEKTION ultrapassava a simples disseminação de uma notícia falsa, a campanha demonstrava uma lógica central das chamadas “medidas ativas” soviéticas: explorar vulnerabilidades psicológicas, tensões políticas e ambientes de incerteza para influenciar percepções coletivas em escala internacional. Nesse modelo, a desinformação não buscava apenas convencer o público de uma narrativa específica, mas corroer gradualmente a confiança em instituições, autoridades científicas e fontes tradicionais de informação.
Décadas depois, em 1992, Yevgeny Primakov, então diretor do Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR), reconheceu publicamente o envolvimento da KGB na disseminação da campanha. O episódio tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de como operações informacionais podem ser utilizadas como instrumentos estratégicos de influência política e desorganização cognitiva no ambiente internacional.
 |
| Cartaz de 1986 das Filipinas mostra o quão bem-sucedida foi a campanha para culpar os EUA pela Aids/HIV |
 |
| Yevgeny Primakov, Ex diretor do Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR). Fonte: RIA Novosti archive |
A lógica estratégica por
trás dessas ações refletia uma visão profundamente enraizada na doutrina
soviética de guerra política. Inspirados por conceitos desenvolvidos ainda no
período pós-revolucionário, estrategistas soviéticos acreditavam que o conflito
entre sistemas políticos não ocorria apenas no campo militar, mas também nas dimensões
ideológica, psicológica e informacional, nesse contexto, a manipulação da percepção coletiva era considerada tão
importante quanto à superioridade militar.
Após o colapso da União
Soviética em 1991, muitos analistas ocidentais acreditaram que esse tipo de
estratégia havia desaparecido, no entanto, grande parte da cultura operacional
das medidas ativas sobreviveu dentro das estruturas de segurança russas,
especialmente nos serviços que sucederam a KGB, como o Federal Security Service (FSB), Serviço Federal de Segurança,
em russo Federalnaya Sluzhba Bezopasnosti, responsável pela segurança
interna e contrainteligência, e o Foreign
Intelligence Service (SVR) Serviço de Inteligência Externa, em
russo Sluzhba Vneshney Razvedki, encarregado das operações de espionagem
externa da Federação Russa.
 |
| Agente Russo do FSB atuando no interior da Rússia. Fonte: Sputnik |
Essa reorganização institucional não
significou uma ruptura completa com a cultura estratégica da antiga KGB. Na
realidade, o processo de fragmentação da estrutura soviética de segurança
distribuiu suas funções entre diferentes organismos do novo Estado russo,
preservando boa parte do corpo de oficiais, dos métodos operacionais e das
doutrinas desenvolvidas ao longo da Guerra Fria, enquanto o FSB, Serviço Federal de Segurança, assumiu grande parte das atribuições
relacionadas à contrainteligência e à segurança interna, o Sluzhba Vneshney Razvedki,
conhecido internacionalmente como SVR (Serviço de Inteligência Externa)
herdou diretamente a tradição da antiga Primeira Diretoria Principal da KGB,
responsável pelas operações de espionagem no exterior.
Paralelamente, a Rússia
manteve o Main Directorate of the
General Staff (GRU), Diretoria Principal do Estado-Maior das Forças
Armadas, em russo Glavnoye Razvedyvatelnoye Upravleniye, seu serviço de
inteligência militar historicamente separado da KGB e subordinado ao Ministério
da Defesa. A coexistência dessas estruturas permitiu que a Rússia preservasse
não apenas a infraestrutura institucional da inteligência soviética, mas também
uma cultura estratégica profundamente marcada pela competição informacional e
psicológica com o Ocidente.
Ao longo das décadas
seguintes, essas práticas não desapareceram com o fim da Guerra Fria, elas
foram gradualmente adaptadas a um ambiente informacional radicalmente diferente
daquele em que surgiram. O colapso da União Soviética não eliminou a lógica
estratégica que sustentava as chamadas “medidas ativas”, mas apenas deslocou esse
repertório para um novo cenário tecnológico.
Com a expansão da
internet, das redes sociais e da fragmentação do ecossistema midiático, os
instrumentos clássicos de manipulação informacional passaram por uma
transformação estrutural. Operações que durante décadas dependeram de
infiltrações prolongadas em partidos políticos, financiamento indireto de
movimentos ideológicos ou manipulação paciente da imprensa tradicional passaram
a ser conduzidas por meio de campanhas digitais coordenadas, redes de influência
online e mecanismos de amplificação algorítmica.
Essa mudança alterou
profundamente a escala das operações de influência, durante a Guerra Fria,
campanhas conduzidas pela KGB tinham como foco principal elites políticas,
círculos acadêmicos ou veículos de imprensa específicos, o ambiente digital
contemporâneo, por outro lado, permite atingir populações inteiras em tempo
real, explorando tensões sociais já existentes e amplificando percepções de
crise, desconfiança institucional e polarização política.
Foi nesse contexto que
estrategistas militares e centros de pesquisa do Ocidente começaram a
sistematizar um conceito mais amplo para descrever essa nova dimensão do
conflito: a guerra cognitiva. O termo passou a aparecer com frequência
crescente em análises estratégicas vinculadas a OTAN para descrever operações
destinadas a influenciar diretamente os processos mentais que estruturam a
percepção coletiva da realidade.
A diferença em relação à
propaganda tradicional é significativa, enquanto a propaganda busca persuadir
audiências específicas através de narrativas ideológicas relativamente claras,
a guerra cognitiva opera de maneira mais difusa e estrutural, seu objetivo
central não é necessariamente convencer, mas desorganizar o ambiente
informacional, multiplicando versões concorrentes da realidade e transformando
fatos objetivos em disputas interpretativas permanentes.
Nesse cenário, a
competição geopolítica deixa de ocorrer apenas em campos de batalha militares
ou em arenas diplomáticas. O próprio funcionamento das sociedades passa a ser
compreendido como um espaço de disputa estratégica, a percepção pública de
eventos internacionais, o nível de confiança nas instituições políticas, a
polarização do debate público e a capacidade de coordenação estratégica das
democracias tornam-se elementos centrais dessa nova forma de conflito.
Sob essa perspectiva, a
guerra cognitiva contemporânea não representa uma ruptura completa com as
práticas desenvolvidas durante a Guerra Fria, mas sim uma evolução tecnológica
de métodos já consolidados durante décadas de competição informacional entre
Moscou e o Ocidente, a lógica fundamental permanece essencialmente a mesma:
explorar vulnerabilidades políticas, sociais e psicológicas do adversário para
enfraquecer sua coesão interna.
O que mudou foi o ambiente
operacional, a arquitetura digital do século XXI oferece uma infraestrutura sem
precedentes para esse tipo de operação, plataformas de comunicação instantânea,
redes sociais e ecossistemas informacionais descentralizados permitem que
narrativas manipuladas se espalhem com velocidade exponencial, muitas vezes
antes que governos ou veículos jornalísticos consigam reagir.
Nesse sentido, a
estratégia russa contemporânea pode ser compreendida como a adaptação moderna
de um princípio estratégico antigo: o reconhecimento de que a estabilidade das
democracias depende, em grande medida, da confiança coletiva em suas
instituições políticas, científicas e midiáticas.
Ao atacar essa confiança, por
meio da dúvida sistemática, da amplificação de divisões internas e da saturação
informacional, torna-se possível enfraquecer adversários estratégicos sem
recorrer necessariamente ao confronto militar direto.
A guerra cognitiva,
portanto, não deve ser interpretada como uma invenção repentina do século XXI, ela representa, na realidade, a continuidade de uma tradição estratégica que se
desenvolveu ao longo de décadas de confronto político, psicológico e
informacional entre Moscou e o Ocidente.
O que mudou não foi à
lógica da operação, o que mudou foi o campo de batalha, e, no mundo
contemporâneo, esse campo de batalha passa cada vez mais pela própria mente das
sociedades.
No auge da Guerra Fria,
oficiais da KGB acreditavam que a forma mais eficiente de enfraquecer um
adversário não era necessariamente destruir suas cidades ou derrotar seus
exércitos, mas minar lentamente a confiança que mantinha sua sociedade coesa.
Décadas depois, em um
ambiente informacional dominado por redes digitais e fluxos instantâneos de
informação, essa lógica estratégica permanece surpreendentemente atual.
A diferença é que hoje o
campo de batalha não está apenas escondido em arquivos secretos, operações
clandestinas ou redes de espionagem.
Ele está aberto,
permanente e invisivelmente presente no fluxo diário de informações que molda a
forma como sociedades inteiras compreendem o mundo.
As Raízes do Estado
Secreto Russo: Do Império à Era Putin
A história da inteligência
russa não pode ser compreendida como uma simples sucessão de agências ou reformas
administrativas, ela é, antes de tudo, a história de um Estado que sempre se
percebeu sitiado, geograficamente exposto, politicamente vulnerável e
socialmente instável. Poucos países internalizaram de forma tão profunda a
ideia de cerco permanente quanto à Rússia essa percepção moldou não apenas sua
política externa, mas sua própria arquitetura de poder. O segredo, nesse
contexto, não surge como exceção: ele se transforma em instituição estruturante
do Estado, essa trajetória revela a formação de um Estado de segurança
permanente, no qual vigilância, segredo e antecipação de ameaças deixam de ser
exceções e passam a constituir o funcionamento normal do poder.
Diferentemente das
democracias ocidentais, onde serviços de inteligência surgem como instrumentos
auxiliares do poder político, na Rússia eles se consolidam como coluna
vertebral da sobrevivência estatal. Para compreender a atuação contemporânea do
SVR, GRU e do FSB, e a guerra invisível que Moscou conduz contra a Europa, é
necessário retroceder muito além da Guerra Fria, muito além da KGB, até o
período czarista, quando vigilância, repressão e infiltração já eram vistas
como mecanismos naturais de governança.
O primeiro grande embrião
desse Estado secreto surgiu em 1826, com a criação da Terceira Seção da
Chancelaria Imperial, durante o reinado de Nicolau I, sua função era clara:
monitorar dissidentes, censurar correspondências, infiltrar círculos
intelectuais e antecipar qualquer ameaça ao trono dos Romanov. A Rússia
imperial, vasta e heterogênea, enxergava o liberalismo europeu não como
corrente ideológico, mas como vírus político, a lógica era brutalmente simples:
ideias precedem revoluções, e revoluções destroem impérios, era preciso vigiar
pensamentos antes que se tornassem ações.
 |
| Nicolau I, Imperador e Autocrata de Todas as Rússias, Rei da Polônia e Grão-Duque da Finlândia. Fonte: Wladimir Swertschkoff |
O assassinato do czar
Alexandre II, em 1881, confirmou esse temor e radicalizou a doutrina de
segurança interna, surge então a Okhrana (Departamento para a Proteção da
Segurança Pública e da Ordem), a polícia secreta mais sofisticada da Rússia pré soviética, ao mesmo tempo em que reprimia com violência, a Okhrana
desenvolveu técnicas avançadas de infiltração, agentes duplos, operações
psicológicas e controle de movimentos revolucionários, muitos dos métodos que
mais tarde seriam associados à inteligência soviética nasceram ali, a cultura
da suspeita, da vigilância total e da normalização da clandestinidade já estava
plenamente formada antes mesmo da Revolução de 1917.
 |
| Czar Alexandre II é morto em atentado terrorista. Fonte Getty imagens. |
A Revolução Russa não
destruiu esse aparato, ela o radicalizou ideologicamente, a criação da Cheka (Comissão
Extraordinária para Combater a Contra revolução e a Sabotagem), sob a liderança
de Felix Dzerzhinsky, marcou uma ruptura decisiva, se a Okhrana protegia o
czar, a Cheka protegia a revolução, e, por definição, qualquer um podia ser
inimigo. A repressão deixou de ser defensiva e tornou-se ofensiva, execuções
sumárias, terror institucionalizado, redes massivas de informantes e vigilância
absoluta passaram a ser justificada como instrumentos legítimos de construção
do novo Estado, a lealdade ao poder revolucionário passou a justificar qualquer
método.
 |
| Poeta Nikolay Gumilyov, acusado de
tramar uma revolta contra os bolcheviques, assassinado pela Cheka. Fonte: Getty Images |
A estrutura criada por Lenin e consolidada por Felix Dzerzhinsky não permaneceu estática. A antiga Cheka rapidamente se transformou em GPU (Direção Política do Estado), posteriormente OGPU (Direção Política Unificada do Estado) e, por fim, NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos). Essas mudanças não representavam apenas alterações burocráticas ou administrativas dentro do aparelho soviético. Cada reorganização simbolizava a expansão progressiva do poder repressivo do Estado soviético, ampliando sua capacidade de vigilância, infiltração, perseguição política e controle social. À medida que a União Soviética consolidava seu modelo autoritário, essas instituições deixavam de atuar apenas como órgãos de segurança e passavam a se tornar instrumentos centrais de terror estatal, responsáveis por operações clandestinas, expurgos, deportações em massa e pela criação de uma cultura permanente de medo e submissão dentro da sociedade soviética.
Sob o comando de Joseph Stalin, o NKVD deixou de ser apenas um mecanismo de segurança interna e passou a ocupar uma posição central na própria engenharia de poder do regime soviético. A inteligência transformou-se em uma arma estratégica do Estado, utilizada não apenas para neutralizar adversários reais, mas para construir uma atmosfera permanente de paranoia, submissão e terror político. O objetivo já não era somente vigiar a sociedade soviética, mas remodelá-la psicologicamente através do medo institucionalizado.
 |
| Primeiro-ministro soviético Joseph Stalin, 1950. Fonte: Britannica |
 |
| Oficiais da NKVD na Ucrânia nas décadas de 30 e 40. Fonte: Britannica. |
Os expurgos internos, as deportações em massa para o sistema de gulags, os assassinatos de opositores no exterior, as operações clandestinas e as sabotagens passaram a integrar uma política de Estado conduzida de maneira sistemática. Nesse período, a inteligência soviética abandonou uma postura meramente defensiva, em vez de apenas reagir a ameaças, o regime passou a fabricar inimigos internos e externos como instrumento de legitimação política, consolidando um sistema onde o medo coletivo se tornava um dos pilares fundamentais para a manutenção do poder soviético.
Durante a Segunda Guerra
Mundial, esse sistema expandiu-se ainda mais, o GRU, já consolidado como braço
de inteligência militar, especializou-se em espionagem estratégica, coleta
tecnológica e operações atrás das linhas inimigas, foram nesse período que se
formaram as bases das redes ilegais soviéticas no Ocidente, células
adormecidas, agentes sem cobertura diplomática e infiltrações profundas em
estruturas militares estrangeiras, as chamadas operações ilegais soviéticas: redes
clandestinas compostas por agentes sem cobertura diplomática, células
adormecidas e infiltrações profundas em estruturas estratégicas do Ocidente.
Paralelamente,
o NKVD manteve o controle interno absoluto e projetou sua capacidade repressiva
para além das fronteiras soviéticas, conduzindo operações externas de
eliminação de opositores, sendo o caso mais emblemático o assassinato de Leon Trótski no México, em 1940.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/J/Q/uAJv2ESgiXL1zyC94YuQ/trotsky.png) |
| León Trotsky após o golpe de picareta na cabeça, em 1940. Foto: Acervo, O Globo. |
 |
| O espião Ramon Mercader, após o assassinato de Trotsky | Foto de arquivo O Globo. |
 |
| Trecho de notícia sobre a morte de Trotsky no GLOBO de 22 de agosto de 1940 | Acervo O GLOBO |
Trótski não era um dissidente comum: foi um dos principais arquitetos da Revolução
Russa de 1917, responsável pela organização do Exército Vermelho e peça central
na consolidação do poder bolchevique. Após a morte de Vladimir Lênin, entrou em
rota de colisão com Joseph Stalin ao defender a expansão internacional da
revolução, uma visão que confrontava diretamente o projeto stalinista de
consolidação interna. Derrotado politicamente, foi expulso, exilado e
transformado no principal símbolo de oposição ao regime soviético.
 |
| Vladimir Lênin. Fonte: Desconhecida. |
Sua
eliminação, portanto, não respondia apenas a uma necessidade de segurança, mas
a uma lógica de poder: enquanto Trótski estivesse vivo, existia uma alternativa
ideológica com legitimidade revolucionária. O assassinato, executado por meio
de infiltração profunda por um agente que operava sob identidade falsa.
O assassinato, realizado por meio de infiltração profunda por um agente que atuava sob identidade falsa, demonstra um modelo de operação extremamente sofisticado, sustentado pela paciência estratégica, pela construção lenta de confiança e pela exploração calculada de vulnerabilidades humanas e institucionais. Nesse cenário, a infiltração profunda pode ser entendida como a inserção silenciosa e prolongada de um agente dentro de um ambiente específico, seja uma estrutura governamental, organização política, círculo diplomático ou até relações pessoais próximas, utilizando identidades fabricadas, históricos falsos e comportamentos cuidadosamente moldados para evitar qualquer tipo de suspeita.Ao contrário de operações rápidas ou métodos tradicionais de inteligência, esse tipo de infiltração exige anos de preparação, adaptação psicológica e consolidação de credibilidade, o objetivo do agente não é apenas observar o alvo, mas integrar-se completamente ao ambiente, tornando-se parte funcional daquela estrutura, isso permite acesso privilegiado a informações sensíveis, rotinas internas, fragilidades institucionais e relações de confiança que dificilmente seriam alcançadas por meios convencionais de espionagem, em operações conduzidas pelos serviços de inteligência soviéticos e russos, a infiltração profunda historicamente consolidou-se como uma das ferramentas mais eficazes para manipulação, sabotagem, recrutamento e eliminação de adversários estratégicos. Mais
do que um ato isolado, a operação revela a natureza do aparato soviético: o
exílio deixava de ser refúgio e passava a ser apenas uma extensão do campo de
batalha político.
Nesse contexto, o alcance do Estado não era limitado por
fronteiras, mas definido pela existência de seus inimigos, eliminar Trótski significava, portanto, não apenas neutralizar um adversário, mas apagar
simbolicamente uma alternativa ao próprio regime, consolidando a ideia de que a
sobrevivência do poder soviético dependia da eliminação preventiva de qualquer
ameaça, real ou potencial.
A Guerra Fria cristalizou
essa arquitetura, em 1954, o NKVD foi reorganizado e deu origem à KGB, que se
tornaria o símbolo máximo da espionagem soviética. A KGB não era apenas uma
agência, era um sistema total, responsável por vigilância interna,
contraespionagem, operações clandestinas, guerra psicológica, espionagem
científica e infiltração política global, tornou-se o padrão-ouro da
inteligência centralizada. O GRU, embora mais discreto, cresceu silenciosamente
e, ao final da Guerra Fria, possuía efetivo superior ao da própria KGB, com
presença militar clandestina em praticamente todos os continentes, a rivalidade
entre inteligência civil (voltada à segurança do Estado, espionagem política e
controle interno) e inteligência militar (focada em operações estratégicas,
coleta de informações no campo de batalha e apoio direto às forças armadas) tornou-se
traço permanente do Estado soviético.
Com o colapso da União
Soviética, muitos acreditaram que esse sistema ruiria junto com o regime, não ruiu,
ele foi reciclado. Em 1991, a KGB foi desmembrada: o FSB assumiu a segurança
interna e a contraespionagem, o SVR ficou responsável pela espionagem externa
civil, o GRU, crucialmente, permaneceu quase intacto dentro do Ministério da
Defesa. Essa preservação não foi acidental, o GRU manteve doutrinas, estruturas
e quadros da era soviética justamente no momento em que o Estado russo estava
mais fragilizado, a espionagem não foi desmontada, foi adaptada à crise.
Diferentemente do
GRU, cuja atuação privilegia o campo militar e operacional, o SVR consolidou-se
como o principal instrumento de projeção política e estratégica da Rússia no
exterior, sua missão não se limita à coleta clássica de inteligência, mas
envolve a penetração de elites políticas, econômicas, acadêmicas e midiáticas
em países considerados estratégicos. O SVR atua no longo prazo, moldando
percepções, cultivando redes de influência e preparando o ambiente político
para ações futuras do Estado russo.
Nesse sentido, o SVR opera
na camada mais silenciosa da guerra híbrida: aquela em que decisões são
influenciadas antes que crises se manifestem, por meio de operações de
influência, recrutamento de fontes humanas de alto nível e cooptação indireta
de intermediários, o serviço busca reduzir resistências, fragmentar consensos e
ampliar zonas de ambiguidade política. Enquanto o GRU testa limites por meio de
ações visíveis e provocativas, o SVR trabalha para que, quando essas ações
ocorram, o ambiente decisório adversário já esteja enfraquecido, dividido ou
paralisado.
 |
| Da Cheka ao FSB, os serviços secretos soviéticos e russos mantiveram uma tradição marcada por espionagem, repressão política, operações clandestinas e guerra informacional ao longo de mais de um século. Fonte: Livro - GB History: 100 Years Of Soviet Terror: The Secret Police Of Russia: Cheka, GPU, OGPU, NKVD, KGB, FSK & FSB. |
A ascensão de Vladimir
Putin, ex-oficial da KGB, marcou a consolidação definitiva desse modelo, Putin
não apenas compreendia o funcionamento do aparelho de segurança, ele pensava o
poder por meio dele, sob seu governo, as agências deixaram de ser instrumentos
técnicos e passaram a ser atores políticos centrais. O FSB expandiu seus
poderes internos, assumindo funções que vão da repressão aos opositores ao
controle indireto do processo eleitoral, o GRU foi transformado em ponta de
lança da política externa agressiva, priorizando sabotagem, desinformação,
ataques cibernéticos e guerra híbrida.
 |
| Documento de identificação de Putin na Stasi, 1985, oficial do serviço secreto soviético da União Soviética, a KGB. Fluente em alemão, ele trabalhou em Dresden, na Alemanha Oriental, em 1985. Imagem: BSTU |
A anexação da Crimeia, em
2014, simbolizou essa recomposição plena, operações do GRU prepararam o terreno
por meio de infiltração e desestabilização, o FSB atuou na repressão local e na
integração administrativa. A partir desse ponto, a inteligência russa entrou em
uma fase declaradamente ofensiva, através de envenenamentos, sabotagens,
ataques cibernéticos, violações de infraestrutura crítica e operações clandestinas
tornaram-se práticas recorrentes no espaço europeu, agora combinando métodos
soviéticos clássicos com tecnologias do século XXI.
 |
| Homens armados não identificados são vistos em Sebastopol, na Crimeia. Fonte: Editora Basset. |
Nesse contexto de
reconfiguração ofensiva, emergiu uma estrutura ainda mais opaca e
especializada, descrita através do Wall Street Journal em uma reportagem de
março de 2025: o SSD (nova agência de operações e inteligência da Rússia),
frequentemente descrita por serviços ocidentais como um departamento de tarefas
especiais voltado a operações de alto risco e alto valor estratégico. A SSD
representa uma evolução funcional do aparato clandestino russo, concentrando
missões de sabotagem sensível, ataques seletivos contra alvos estratégicos para
o Estado Russo e assassinatos direcionados em território estrangeiro, principalmente
de Países Ocidentais.
Diferentemente do GRU
tradicional, cuja atuação pode envolver múltiplos níveis de comando e exposição
operacional, a SSD opera com cadeias decisórias curtas, elevado grau de sigilo
e clara orientação para resultados políticos imediatos. Sua função não é apenas
coletar informação ou testar defesas, mas eliminar ameaças consideradas
existenciais ao regime, enviar sinais estratégicos e reforçar a dissuasão
psicológica. Ao atuar na interseção entre inteligência e ação letal, a SSD amplia
a capacidade russa de operar na zona cinzenta, mantendo negação plausível mesmo
diante de operações de impacto extremo.
A
persistência desse padrão torna-se ainda mais evidente na Rússia contemporânea,
onde a eliminação: direta ou indireta, de figuras consideradas sensíveis ao
poder estatal reaparece sob novas formas, mas com lógica semelhante. Casos como
o envenenamento de Alexei Navalny, atribuído por investigações independentes a
agentes ligados ao FSB, o uso de agente químico contra Sergei Skripal em
território britânico por operativos associados ao GRU, e o assassinato por
envenenamento radioativo de Alexander Litvinenko em Londres, revelam a
continuidade de operações com alcance extraterritorial e assinatura
sofisticada. Paralelamente, a morte de figuras como Yevgeny Prigozhin, em
circunstâncias associadas à queda de sua aeronave após confronto direto com o
Kremlin, e uma série de óbitos envolvendo executivos do setor energético e de
defesa, muitos ligados a empresas estratégicas como a Gazprom, frequentemente
cercados por versões oficiais ambíguas, reforçam um ambiente no qual o poder
estatal, direto ou indiretamente, projeta sua capacidade de coerção sobre
elites políticas, militares e industriais.
 |
| Alexei Navalny durante audiência no Tribunal Municipal de Moscou, no início de fevereiro de 2021. Fonte: AP |
 |
| Sergei Skripal, retratado antes do ataque em 2018. Fotografia: Rex/Shutterstock |
Nesse contexto, o que se observa não são eventos isolados, mas a manifestação contínua de uma lógica histórica de poder, na qual eliminação, intimidação e ambiguidade operam como instrumentos complementares de controle e sinalização estratégica. Mais do que sobreviver ao fim da União Soviética, esse modelo foi adaptado, refinado e integrado ao funcionamento do Estado russo contemporâneo.
Hoje, compreender o conflito entre Rússia e Europa exige reconhecer essa continuidade histórica, o Estado russo não utiliza a inteligência como ferramenta ocasional, ele pensa e age por meio dela. O segredo deixou de ser apenas método operacional e passou a constituir linguagem política e identidade estratégica, quando o GRU sabota depósitos de munição na República Tcheca ou quando o FSB infiltra redes de influência na Alemanha, não estamos diante de desvios contemporâneos, mas da continuidade de quase dois séculos de cultura estatal baseada na convicção de que sobreviver significa antecipar, infiltrar e neutralizar ameaças antes que elas amadureçam.
Esse passado ajuda a explicar por que a Rússia não vê espionagem como exceção, mas como forma permanente de interação com o mundo. A guerra híbrida que hoje atravessa a Europa não começou em 2022, ela representa a atualização contemporânea de uma tradição estratégica longa, silenciosa e profundamente enraizada na mentalidade do Estado russo.
Mais do que garantir a integridade territorial ou a soberania formal da Federação Russa, todo esse aparato de segurança foi historicamente concebido para proteger aquilo que efetivamente representa o Estado: o núcleo central do poder. Na experiência russa, a sobrevivência do regime sempre se confundiu com a sobrevivência do centro decisório instalado no Kremlin, O Estado existe enquanto esse núcleo permanece intacto, quando ele colapsa, o próprio sistema político se dissolve ou se transforma.
Essa lógica distingue profundamente a Rússia de modelos ocidentais de inteligência enquanto democracias liberais estruturam seus serviços de segurança, ao menos normativamente, para proteger instituições, ordem constitucional e sociedade, no caso russo essas estruturas existem para garantir a continuidade do comando político central, independentemente da forma ideológica assumida pelo regime, a lealdade não é direcionada ao sistema jurídico, mas ao centro do poder.
A centralidade dessa missão ajuda a explicar por que episódios traumáticos moldaram de forma tão profunda a mentalidade estratégica russa. O colapso do regime czarista em 1917, incapaz de antecipar e neutralizar ameaças internas, tornou-se um trauma fundacional para o pensamento soviético. Da mesma forma, a implosão da União Soviética em 1991 foi interpretada dentro da comunidade de segurança russa não apenas como fracasso econômico, mas como falha do aparato de inteligência em proteger o núcleo político do Estado, em ambos os casos, a queda não ocorreu por invasões externas, mas pela corrosão interna do centro de poder.
É nesse ponto que a era contemporânea ganha relevância sob a liderança de Vladimir Putin, o sistema de segurança russo foi reorganizado precisamente para impedir que esse tipo de colapso volte a ocorrer. O FSB, o GRU e demais estruturas não operam apenas como agências técnicas, mas como pilares de sustentação do regime, a proteção do Kremlin, do círculo presidencial e da chamada “vertical do poder” tornou-se prioridade estratégica absoluta, neutralizar dissidências antes que se organizem, impedir fragmentações internas e deslocar ameaças para fora das fronteiras passou a integrar o mesmo imperativo estratégico: impedir que o centro volte a ruir.
Esse arranjo explica a coerência entre repressão doméstica e agressividade externa. A guerra híbrida, a sabotagem, a desinformação e a coerção indireta não representam desvios oportunistas, mas extensões naturais de um sistema concebido para antecipar riscos existenciais ao núcleo do poder. ao externalizar tensões e produzir instabilidade fora de suas fronteiras, o regime reduz pressões internas e reforça sua própria estabilidade política, a segurança externa transforma-se, assim, em instrumento de segurança interna.
Nesse sentido, compreender a inteligência russa exige abandonar a ideia de que ela serve primordialmente à Federação Russa enquanto entidade abstrata, ela serve ao poder enquanto estrutura concreta. O Estado de segurança permanente não existe para proteger a Rússia como comunidade política, mas para garantir que o centro decisório jamais seja novamente surpreendido pela história. A guerra invisível projetada sobre a Europa é, nesse aspecto, não apenas política externa, mas mecanismo de autopreservação estratégica do regime.
Conclusão Geral: Quando a guerra deixa de ser exceção e passa a ser método
Ao percorrer este ensaio, torna-se difícil sustentar a ideia de que a Rússia contemporânea esteja apenas “aprendendo” a conduzir guerras híbridas, o que se revela é algo mais profundo: Moscou herdou, aperfeiçoou e normalizou esse modelo de conflito ao longo de quase dois séculos de desenvolvimento estatal.
Da Terceira Seção czarista à Okhrana, da Cheka ao NKVD, da KGB ao FSB e ao GRU, o fio condutor não é apenas institucional, mas mental, a Rússia aprendeu cedo que poder não se exerce exclusivamente pela força visível, mas pela capacidade de antecipar, infiltrar, confundir, desgastar e operar abaixo do limiar da guerra convencional.
Nesse sentido, a guerra híbrida contemporânea não representa ruptura histórica, mas atualização tecnológica de práticas antigas. O que antes dependia de agentes infiltrados, operações psicológicas analógicas e sabotagens clandestinas hoje se complementa com ciberataques, pressão energética, instrumentalização migratória e manipulação informacional em escala industrial, a lógica, porém, permanece intacta: explorar ambiguidade, fragmentar respostas e deslocar o custo do conflito para dentro das sociedades adversárias.
A Europa, ao interpretar essa ofensiva como uma sequência de incidentes isolados, enfrenta um risco estratégico profundo: o da normalização gradual da instabilidade, quando sabotagens se transformam em estatísticas burocráticas, campanhas de desinformação em simples disputas narrativas e violações híbridas em episódios administrativos, parte essencial do conflito já foi vencida, não pela destruição direta, mas pelo desgaste psicológico e político das sociedades alvo.
O objetivo russo não é necessariamente ocupar capitais europeias ou iniciar uma guerra convencional direta contra a OTAN. Isso seria previsível, custoso e arriscado, o objetivo mais sofisticado consiste em paralisar sem invadir, desgastar sem declarar guerra e enfraquecer adversários sem assumir responsabilidade direta.
Por isso, talvez a pergunta central não seja se a Rússia está em guerra com a Europa, mas há quanto tempo essa guerra já ocorre sem ser plenamente reconhecida. Enquanto democracias europeias permanecerem dependentes de declarações formais, provas absolutas e modelos clássicos de conflito, a estratégia russa continuará operando exatamente onde obtém maior vantagem: na zona cinzenta da dúvida, da lentidão decisória e da erosão gradual da coesão política.
Este texto não busca anunciar um cenário apocalíptico nem prever uma escalada inevitável, ele aponta algo mais estrutural: para o Estado russo, o conflito deixou de ser exceção e passou a constituir condição permanente da política internacional, ignorar essa realidade não a neutraliza, pelo contrário, amplia sua eficácia.
Talvez o maior triunfo da guerra híbrida russa não seja um ataque espetacular ou uma vitória militar clássica, mas o momento em que sociedades europeias aceitarem a instabilidade permanente como parte inevitável da normalidade, quando isso acontecer, a guerra terá alcançado sua forma mais sofisticada de vitória: vencer sem jamais precisar ser oficialmente declarada.
Escrito e produzido por Gabriel Chagas
Autor do blog Mundo em Conflito, com análises profundas sobre Geopolítica, Espionagem e Relações Internacionais.
Acompanhe os bastidores e novidades pelo Instagram: @gabriel.schagas
Referências Bibliográficas:
CZECH REPUBLIC. Government of the Czech Republic. Statement on the involvement of Russian GRU agents in the Vrbětice explosions. Praga, 2021.
BBC NEWS. Czech Republic expels Russian diplomats over 2014 depot blast. Londres, 2021.
REUTERS. Czech Republic blames Russian agents for 2014 explosion. 2021.
GALEOTTI, Mark. Russian Political War: Moving Beyond the Hybrid. London: Routledge, 2019.
ANDREW, Christopher; MITROKHIN, Vasili. The Mitrokhin Archive: The KGB in Europe and the West. London: Penguin, 2000.
NATO.
Cognitive Warfare. Brussels: NATO Innovation Hub, 2020. Disponível em:
https://www.innovationhub-act.org. Acesso em: 30 mar. 2026.
NATO.
NATO 2030: United for a New Era. Brussels: NATO, 2020.
GILES,
Keir. Handbook of Russian Information Warfare. Rome: NATO Defense
College, 2016.
GILES,
Keir. Russia’s ‘New’ Tools for Confronting the West: Continuity and
Innovation in Moscow’s Exercise of Power. London: Chatham House, 2016.
POMERANTSEV,
Peter; WEISS, Michael. The Menace of Unreality: How the Kremlin Weaponizes
Information, Culture and Money. New York: Institute of Modern Russia, 2014.
Medidas ativas da KGB e Guerra Fria
MITROKHIN,
Vasili; ANDREW, Christopher. The Mitrokhin Archive: The KGB in Europe and
the West. London: Penguin Books, 2000.
RID,
Thomas. Active Measures: The Secret History of Disinformation and Political
Warfare. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.
ANDREW,
Christopher. The World Was Going Our Way: The KGB and the Battle for the
Third World. New York: Basic Books, 2005.
U.S.
DEPARTMENT OF STATE. Soviet Active Measures in the “Post-Cold War” Era
1988–1991. Washington, D.C., 1992.
Operação INFEKTION (desinformação soviética)
BOGDANOV,
Sergei. Operation INFEKTION: Soviet Disinformation and the AIDS Myth.
Washington: Wilson Center, 2019.
RID,
Thomas. Active Measures: The Secret History of Disinformation and Political
Warfare. (já citado acima, fundamental para esse trecho).
Estrutura
de inteligência russa (FSB, SVR, GRU)
GALEOTTI,
Mark. The Modern Russian Army 1992–2016. Oxford: Osprey Publishing,
2017.
SOLDATOV,
Andrei; BOROGAN, Irina. The New Nobility: The Restoration of Russia’s
Security State and the Enduring Legacy of the KGB. New York: PublicAffairs,
2010.
FEDERATION
OF AMERICAN SCIENTISTS. Russian Intelligence Agencies. Washington, D.C.,
2022.
Guerra informacional e desinformação digital
WARDLE,
Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information Disorder: Toward an
Interdisciplinary Framework for Research and Policy Making. Strasbourg:
Council of Europe, 2017.
EUROPEAN
UNION. EUvsDisinfo Annual Report. Brussels: European External Action
Service, 2023.
BRANDT,
Jessica; TIMMONS, Daniel. The Kremlin Playbook 2: The Enablers.
Washington: Center for Strategic and International Studies (CSIS), 2019.
Dissonância
cognitiva (base psicológica)
FESTINGER,
Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford: Stanford University
Press, 1957.
TAVRIS,
Carol; ARONSON, Elliot. Mistakes Were Made (But Not by Me): Why We Justify
Foolish Beliefs, Bad Decisions, and Hurtful Acts. Orlando: Harcourt, 2007.
Controle
reflexivo (reflexive control)
LEFEBVRE,
Vladimir. Algebra of Conscience. Dordrecht: Springer, 2001.
THOMAS,
Timothy. Russia’s Reflexive Control Theory and the Military. Journal of
Slavic Military Studies, v. 17, n. 2, 2004.
THOMAS,
Timothy. Reflexive Control: A Key Russian Theory of War. Fort
Leavenworth: U.S. Army Foreign Military Studies Office, 2017.
Guerra
híbrida, zona cinzenta e paralisia decisória
HOFFMAN,
Frank. Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars. Arlington:
Potomac Institute for Policy Studies, 2007.
MAZARR,
Michael J. Mastering the Gray Zone: Understanding a Changing Era of Conflict.
Carlisle: U.S. Army War College Press, 2015.
ANDREW, Christopher; MITROKHIN, Vasili. The Mitrokhin Archive: The KGB in Europe and the West. London: Penguin Books, 2000.
ANDREW, Christopher; MITROKHIN, Vasili. The Sword and the Shield: The Mitrokhin Archive and the Secret History of the KGB. New York: Basic Books, 1999.
APPLEBAUM, Anne. Gulag: A History. New York: Doubleday, 2003.
BAUD, Jacques. Governar pelo Caos: As Guerras Secretas das Grandes Potências. Campinas: Vide Editorial, 2021.
GALEOTTI, Mark. The Weaponisation of Everything: A Field Guide to the New Way of War. New Haven: Yale University Press, 2022.
GALEOTTI, Mark. We Need to Talk About Putin: Why the West Gets Him Wrong. London: Ebury Press, 2019.
GENTILE, Emilio. Política como Religião. São Paulo: Editora Unesp, 2020.
GORDIEVSKY, Oleg; ANDREW, Christopher. KGB: The Inside Story. London: Hodder & Stoughton, 1990.
HOSKING, Geoffrey. Russia and the Russians: A History. Cambridge: Harvard University Press, 2011.
KNIGHT, Amy. Beria: Stalin’s First Lieutenant. Princeton: Princeton University Press, 1993.
MACINTYRE, Ben. O Espião e o Traidor. Rio de Janeiro: Record, 2019.
MARTIN, Alexander. Cyber Mercenaries: The State, Hackers, and Power. London: Hurst Publishers, 2024.
MONTEFIORE, Simon Sebag. Stalin: A Corte do Czar Vermelho. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
PACEPA, Ion Mihai. Disinformation. Washington, D.C.: WND Books, 2013.
PLATONOV, Andrei. A Máquina de Vigilância Soviética. Moscou: Progress Publishers, 1989.
RID, Thomas. Active Measures: The Secret History of Disinformation and Political Warfare. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.
SERVICE, Robert. História da Rússia do Século XX ao Século XXI. São Paulo: Planeta, 2015.
SOLDATOV, Andrei; BOROGAN, Irina. The New Nobility: The Restoration of Russia’s Security State and the Enduring Legacy of the KGB. New York: PublicAffairs, 2011.
SOLDATOV, Andrei; BOROGAN, Irina. The Compatriots: The Brutal and Chaotic History of Russia’s Exiles, Émigrés, and Agents Abroad. New York: PublicAffairs, 2019.
SUNY, Ronald Grigor. The Soviet Experiment: Russia, the USSR, and the Successor States. Oxford: Oxford University Press, 2011.
THOMAS, Timothy. Russian Military Strategy: Impacting 21st Century Reform and Geopolitics. Fort Leavenworth: Foreign Military Studies Office, 2015.
TROTSKY, Leon. História da Revolução Russa. Rio de Janeiro: Saga, 1967.
U.S. ARMY SPECIAL OPERATIONS UNIVERSITY. Russian New Generation Warfare Handbook. Tampa: Joint Special Operations University Press, 2016.
VOLKOGONOV, Dmitri. Stalin: Triumph and Tragedy. New York: Grove Press, 1991.
Influência
russa na Europa e eleições
EUROPEAN
PARLIAMENT. Foreign Interference in Democratic Processes in the EU.
Brussels, 2022.
EUROPEAN
EXTERNAL ACTION SERVICE. Disinformation Campaigns Report. Brussels,
2024.
Sul
Global e disputa geopolítica
SAMIR
AMIN. Global History: A View from the South. London: Zed Books, 2010.
ACHARYA,
Amitav. The End of American World Order. Cambridge: Polity Press, 2014.
UNITED
NATIONS. Voting Records on Ukraine Resolutions. New York: UN, 2022–2024.
Migração
como instrumento estratégico
GREENHILL,
Kelly M. Weapons of Mass Migration: Forced Displacement, Coercion, and
Foreign Policy. Ithaca: Cornell University Press, 2010.
EUROPEAN
COUNCIL. Migration Pressure and Hybrid Threats Report. Brussels, 2022.
Comentários