Geórgia em Conflito: O Cabo de Guerra Entre o Ocidente e a Rússia no Cáucaso

No sábado, 11 de maio de 2024, a capital da Geórgia, Tbilisi, foi tomada por uma onda de protestos liderada por milhares de jovens que empunhavam bandeiras da União Europeia. À primeira vista, parecia apenas mais um embate político interno. No entanto, para quem observa com atenção o xadrez geopolítico da região, o que está em jogo vai muito além: trata-se de um possível prenúncio de uma nova crise na Eurásia, com ecos alarmantes dos eventos que precederam o conflito entre Rússia e Ucrânia em 2014.

Neste artigo, assinado por mim, Gabriel dos Santos Chagas pesquisador independente e autor do blog Mundo em Conflito, especializado em geopolítica, espionagem e relações internacionais mergulharemos nas raízes históricas, bastidores políticos e nas disputas de poder que colocam a Geórgia novamente no centro do tabuleiro global.
Com base em fontes confiáveis, dados históricos, declarações oficiais e análises comparativas, você entenderá:
 Por que o atual governo georgiano é acusado de servir aos interesses do Kremlin.
 Como a Lei dos Agentes Estrangeiros reflete uma cópia da política russa de 2012.
Qual o papel de figuras como o bilionário Bidzina Ivanishvili; E, principalmente, quais são os riscos de uma repetição do cenário ucraniano no coração do Cáucaso.
 
Bidzina Ivanishvili - também conhecida como Boris Grigoryevich Ivanishvili; nascido em 18 de fevereiro de 1956), ]é um político georgiano, empresário bilionário e oligarca, que serviu como primeiro-ministro da Geórgia de outubro de 2012 a novembro de 2013.

A principal causa do conflito que se aproxima no horizonte é, de maneira sucinta, muito similar à Ucrânia de 2013/2014. O partido que possui poder no Parlamento da Geórgia, "Sonho Georgiano", está criando e aprofundando relações com a Rússia de Vladimir Putin. Entretanto, a sociedade, principalmente a população jovem Georgiana, pretende evitar esse alinhamento com o Estado Russo, optando por se alinhar com o eixo ocidental, sob a figura da União Européia.
 
Tbilisi, 12 maio (Prensa Latina) Vários milhares de opositores ao projeto de lei sobre agentes estrangeiros marcharam até a Praça Européia de Tbilisi, informou hoje o Ministério do Interior do país caucasiano.  Prensa Latina
Agência Latino-americana de Notícias.
 
 
Lei de Agentes Estrangeiros
 
Após duas mortes em protestos no mês de março de 2023, o partido Sonho Georgiano anunciou o abandono da aprovação da lei referente a Agentes Estrangeiros. Esta lei foi extremamente criticada pela população. Mas o que seria esta lei? A lei era a seguinte: veículos de comunicação e ONGs que recebessem mais de 20% do seu financiamento do exterior teriam que se registrarem como agentes de influência estrangeira. Sem nenhuma dúvida, a lei é baseada em uma similar adotada por Moscou em 2012, deixando ainda mais nítido que o parlamento atual georgiano está sob influência de políticos pró Kremlin.
Segundo palavras de Bidzina Ivanishvili: “Financiar ONGs que finge nos ajudar aumenta a influência de estrangeiros e seu poder.” Segundo ele, a lei protegeria a Geórgia de propagandas ocidentais.
O principal problema desta lei é que todo o financiamento externo para a Geórgia pode ser considerado ilegal e carimbado como atos de agentes de potenciais estrangeiras, sem diferenciar organizações não governamentais, indivíduos e órgãos estatais. Ela poderia ser utilizada para conflitos internos, como silenciar opositores, prender e rotular manifestantes contrários ao governo como agentes ilegais de países estrangeiros, ainda mais em período de campanha eleitoral.
 
Pergunta Intrigante
 
Outro questionamento intrigante deste país é: por que uma sociedade que talvez seja uma das mais a favor da cultura ocidental na Europa, com a maioria da população querendo ingressar na União Européia, é liderada por um governo muito mais simpatizante a Moscou do que ao Ocidente? Para responder esta pergunta, voltaremos ao ano de 2008, à guerra de 16 dias em agosto envolvendo a Geórgia e a Rússia. O poderio militar russo era muito superior, fazendo com que a Geórgia perdesse duas regiões, Abcásia e Ossétia do Sul.

 

United Nations Cartographic Section, with amendments by User: ChrisO
 

Imagem: Georgia, Ossetia, Rússia and Abkhazia.SVG




A Cúpula de Bucareste

A motivação e a luz vermelha para Moscou talvez tenham ocorrido quatro meses antes, conhecida como a Cimeira ou Cúpula de Bucareste, entre os dias 2 e 4 de abril de 2008. Nesta cúpula, a aliança debateu se deveria oferecer aos georgianos e ucranianos a adesão à OTAN.

Neste dia, o Kremlin percebeu que medidas deveriam ser adotadas, mesmo que nada tenha saído do papel, principalmente pela recusa dos seguintes países: Alemanha, França, Itália, Hungria e pelos países do BENELUX – Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Alemanha e França justificaram que a Ucrânia e a Geórgia não eram países estáveis o suficiente para terem a aprovação e adesão para o ingresso na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), sendo esta possibilidade de convite para o ingresso da Geórgia à OTAN uma ofensa desnecessária à Rússia, que se opõe firmemente à medida (New York Times, 2008).
 
Cúpula de Bucareste
 
Cálculo Russo

A Rússia realizou um cálculo muito arriscado referente ao custo de oportunidade, que é o valor perdido ao fazer uma determinada ação. Com méritos, possivelmente baseado em informações de seus serviços de inteligência, acertou que o Ocidente não reagiria, e foi o que aconteceu. Além de o Ocidente, principalmente os Estados Unidos, ter ignorado a invasão russa à Geórgia, os americanos “recompensaram” esta ação se reaproximando da Rússia em 2009. Na época, o presidente era Barack Obama. E qual foi a mensagem passada por esta conduta do governo de Washington e captada por Moscou? Foi a seguinte: enquanto o Ocidente continuasse a receber petróleo e gás barato de campos russos, não estaria disposto a lutar por Tbilisi. A pergunta que jamais será respondida: Será que uma ação mais forte diplomaticamente, condenando a invasão, auxílio ocidental logístico aos georgianos para evitar a anexação russa, travaria a ação que estamos presenciando na atual guerra na Ucrânia ?

 

Contexto Político

O receio georgiano do retorno da influência russa levou ao poder Mikheil Saakashvili e seu partido, Movimento Nacional Unido. Nesse contexto político, ressurgiu Bidzina Ivanishvili, que venceu as eleições de 2012 e culpou Mikheil pela guerra de 2008. Ivanishvili prometeu estabilidade no país e o retorno das boas relações com a Rússia, mas que não fecharia a possibilidade de acordos com o Ocidente. Ao estudarmos a vida e o passado de Ivanishvili, ficou fácil identificar para que lado ele pendesse. O bilionário é o legítimo oligarca russo, tendo feito sua fortuna nas décadas de 80 e 90 em Moscou. Quinze anos depois, Ivanishvili retorna a Geórgia como patriota e empresário de sucesso. Detalhe interessante: antes de entrar na política georgiana, Ivanishvili faturou muito dinheiro vendendo ativos russos.

No discurso, Ivanishvili tranquilizava a maior parcela da população georgiana que tinha o desejo de ver seu país mais próximo do Ocidente, enquanto, secretamente, se alinhava cada vez mais com Moscou. Os dados econômicos da United Nations Com trade mostram que as exportações georgianas para a Rússia aumentaram: em 2012 eram de 36 milhões de dólares; já em 2023 os valores chegaram à casa dos 650 milhões de dólares.

 

Mikheil Saakashvili, Ex presidente da Geórgia
 
Economia e Paraíso Fiscal

Após o início do conflito na Ucrânia, a Geórgia presenciou novamente o crescimento em sua economia. Isto ocorreu pelo fato de o país ser o principal paraíso fiscal, laranja de bens e ativos russos sancionados pelo Ocidente, além de ser um destino para russos que desejam guardar ou investir sua economia em um país que não irá confiscar seus bens ou congelar sua economia.

O partido Sonho Georgiano (Georgian Dream), do primeiro-ministro georgiano Irakli Kobakhidze, cujo mandato iniciou em 8 de fevereiro de 2024, e com a atuação de Ivanishvili nos bastidores, tem sido criticado por estar aumentando a repressão contra a população e expandindo o controle dos órgãos governamentais, como os de segurança e de justiça, além de estar censurando mídias independentes e opositores ao governo, segundo críticos.
O principal símbolo do autoritarismo do atual governo do primeiro-ministro Irakli e da presidente Salome Zurabishvili foi há prisão do principal líder da oposição, o ex-presidente Mikheil Saakashvili. Inclusive, há muitas placas de protestantes exigindo a libertação do ex-presidente que foi condenado a seis anos de prisão por abuso de poder.

 

Audiência em tribunal de Tbilisi Ex Presidente Mikheil Saakashvili, condenado por abuso de Poder em 2018- foto: Irakli Gedenidze / REUTERS.
 
Reações Ocidentais
 
Governos ocidentais reagiram negativamente à tentativa de aprovação da Lei de Agentes Estrangeiros, principalmente na voz do Departamento de Estado Americano, que deixou claro que a aprovação da lei tornaria as relações Geórgia EUA piores. O chefe da política externa da União Européia, Josep Borrell, expressou o mesmo sentimento.
O projeto de lei foi vetado e arquivado em virtude da pressão popular e da pressão do Ocidente, com ênfase nos Estados Unidos. Entretanto, no dia 28 de maio de 2024, o parlamento da Geórgia anulou o veto presidencial de Salome, ocasionando a aprovação da lei. A situação intensificou a já conturbada Geórgia. O país se tornou candidato para integrar o bloco da União Européia em dezembro de 2023. No entanto, autoridades da União Européia temem pela interrupção do processo de adesão ao bloco se a lei entrar em vigor. Bruxelas (União Européia) tem como principal objetivo mudar a geopolítica no Cáucaso, confrontando a Rússia nesta região.
 
Funcionamento da Política na Geórgia

Resumidamente, como funciona a política na Geórgia e a difícil missão da presidente atual, Salome Zurabishvili, pró Ocidente: A Geórgia é uma república semipresidencial representativa democrática, com o presidente como chefe de estado e o primeiro-ministro como chefe de governo. Ou seja, a polarização envolvendo Ocidente e Rússia na Geórgia está inserida na administração do próprio governo, tendo em vista que o primeiro-ministro Irakli Kobakhidze possui declarações e atitudes pró Kremlin, além de ter como principal mentor Bidzina Ivanishvili. Este cenário faz da presidente Salome uma importante peça do ocidente na manutenção da soberania Georgiana, que é vista como aliada importante no Cáucaso.

 
Tbilisi

Protestos continuam em Tbilisi com manifestantes clamando pelo não alinhamento da Rússia, pela lei russa aprovada pelo governo, solicitando um posicionamento sobre o país para a União Europeia.

A Geórgia se encontra novamente em posição delicada e, ao que tudo indica, as eleições de outubro de 2024 serão decisivas para determinar se o país vai se alinhar à União Européia ou continuar com relações mais estreitas com a Rússia. Neste sábado, 11 de maio de 2024, várias placas de protestos possuíam escritas como: “Não deixe que a Geórgia se torne um estado vassalo russo” e “Queremos a União Europeia.”
 
Análise de Hubert Walas

Para Hubert Walas, as ações russas no território da Geórgia devem ser monitoradas de perto. Segundo ele, a Geórgia tem sido frequentemente um laboratório para novas táticas e estratégias russas. “Os desenvolvimentos na Geórgia muitas vezes antecipam o que Moscou pode estar planejando para outros países da região”, afirmou Walas.

 
Conclusão  

 

À medida que a Geórgia se encontra em uma encruzilhada geopolítica, a tensão entre as aspirações pró ocidentais de sua população e o governo influenciado por interesses russos cresce a cada dia. As manifestações de maio de 2024 são apenas a ponta do iceberg de um descontentamento mais profundo e uma luta pelo futuro do país. A aprovação da controversa Lei de Agentes Estrangeiros, apesar das fortes reações internacionais, ilustra a determinação do governo em seguir uma linha pró Kremlin, mesmo em face da oposição popular.

A história recente da Geórgia, desde a guerra de 2008 até os atuais confrontos políticos, demonstra a complexidade das dinâmicas internas e externas que moldam o destino do país. Com as eleições de outubro de 2024 no horizonte, o mundo observa atentamente para ver se a Geórgia optará por um futuro alinhado à União Européia ou se manterá sua proximidade com a Rússia.

O dilema georgiano é emblemático das lutas maiores que definem o cenário geopolítico contemporâneo. A Geórgia é não apenas um campo de batalha físico, mas também informacional, onde narrativas competem para moldar a percepção pública e a política. A pergunta crucial permanece: a Geórgia será o próximo palco de um conflito direto com a Rússia, similar ao que estamos vendo na Ucrânia? Só o tempo dirá. O que é certo é que os próximos meses serão decisivos para o futuro da Geórgia e, potencialmente, para a estabilidade da região como um todo.

 

Escrito por Gabriel Chagas.

 Entusiasta por Geopolítica, Espionagem e Relações Internacionais. Autor do Blog "Mundo em Conflito".

 Siga - me no Instagram: https://www.instagram.com/gabriel.schagas

 

Referências:

  • Hubert Walas

    · New York Times

    · Good Times Bad Times Brasil

    · Agencia latina americana de Noticiais

    · Reuters


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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