Geórgia em Conflito: O Cabo de Guerra Entre o Ocidente e a Rússia no Cáucaso
No sábado, 11 de maio de 2024, a capital da Geórgia, Tbilisi, foi tomada por uma onda de protestos liderada por milhares de jovens que empunhavam bandeiras da União Europeia. À primeira vista, parecia apenas mais um embate político interno. No entanto, para quem observa com atenção o xadrez geopolítico da região, o que está em jogo vai muito além: trata-se de um possível prenúncio de uma nova crise na Eurásia, com ecos alarmantes dos eventos que precederam o conflito entre Rússia e Ucrânia em 2014.
| Bidzina Ivanishvili - também conhecida como Boris Grigoryevich Ivanishvili; nascido em 18 de fevereiro de 1956), ]é um político georgiano, empresário bilionário e oligarca, que serviu como primeiro-ministro da Geórgia de outubro de 2012 a novembro de 2013. |
Tbilisi, 12 maio (Prensa
Latina) Vários milhares de opositores ao projeto de lei sobre agentes
estrangeiros marcharam até a Praça Européia de Tbilisi, informou hoje o
Ministério do Interior do país caucasiano. Prensa Latina Agência Latino-americana de Notícias. |
| United Nations Cartographic Section, with amendments by User: ChrisO |
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A motivação e a luz vermelha para Moscou talvez tenham ocorrido quatro meses antes, conhecida como a Cimeira ou Cúpula de Bucareste, entre os dias 2 e 4 de abril de 2008. Nesta cúpula, a aliança debateu se deveria oferecer aos georgianos e ucranianos a adesão à OTAN.
| Cúpula de Bucareste |
A Rússia realizou um cálculo muito arriscado referente ao custo de oportunidade, que é o valor perdido ao fazer uma determinada ação. Com méritos, possivelmente baseado em informações de seus serviços de inteligência, acertou que o Ocidente não reagiria, e foi o que aconteceu. Além de o Ocidente, principalmente os Estados Unidos, ter ignorado a invasão russa à Geórgia, os americanos “recompensaram” esta ação se reaproximando da Rússia em 2009. Na época, o presidente era Barack Obama. E qual foi a mensagem passada por esta conduta do governo de Washington e captada por Moscou? Foi a seguinte: enquanto o Ocidente continuasse a receber petróleo e gás barato de campos russos, não estaria disposto a lutar por Tbilisi. A pergunta que jamais será respondida: Será que uma ação mais forte diplomaticamente, condenando a invasão, auxílio ocidental logístico aos georgianos para evitar a anexação russa, travaria a ação que estamos presenciando na atual guerra na Ucrânia ?
O receio georgiano do retorno da influência russa levou ao poder Mikheil Saakashvili e seu partido, Movimento Nacional Unido. Nesse contexto político, ressurgiu Bidzina Ivanishvili, que venceu as eleições de 2012 e culpou Mikheil pela guerra de 2008. Ivanishvili prometeu estabilidade no país e o retorno das boas relações com a Rússia, mas que não fecharia a possibilidade de acordos com o Ocidente. Ao estudarmos a vida e o passado de Ivanishvili, ficou fácil identificar para que lado ele pendesse. O bilionário é o legítimo oligarca russo, tendo feito sua fortuna nas décadas de 80 e 90 em Moscou. Quinze anos depois, Ivanishvili retorna a Geórgia como patriota e empresário de sucesso. Detalhe interessante: antes de entrar na política georgiana, Ivanishvili faturou muito dinheiro vendendo ativos russos.
| Mikheil Saakashvili, Ex presidente da Geórgia |
Após o início do conflito na Ucrânia, a Geórgia presenciou novamente o crescimento em sua economia. Isto ocorreu pelo fato de o país ser o principal paraíso fiscal, laranja de bens e ativos russos sancionados pelo Ocidente, além de ser um destino para russos que desejam guardar ou investir sua economia em um país que não irá confiscar seus bens ou congelar sua economia.
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Audiência em tribunal de Tbilisi Ex Presidente
Mikheil Saakashvili, condenado por abuso de Poder em 2018- foto:
Irakli Gedenidze / REUTERS.
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Resumidamente, como funciona a política na Geórgia e a difícil missão da presidente atual, Salome Zurabishvili, pró Ocidente: A Geórgia é uma república semipresidencial representativa democrática, com o presidente como chefe de estado e o primeiro-ministro como chefe de governo. Ou seja, a polarização envolvendo Ocidente e Rússia na Geórgia está inserida na administração do próprio governo, tendo em vista que o primeiro-ministro Irakli Kobakhidze possui declarações e atitudes pró Kremlin, além de ter como principal mentor Bidzina Ivanishvili. Este cenário faz da presidente Salome uma importante peça do ocidente na manutenção da soberania Georgiana, que é vista como aliada importante no Cáucaso.
Protestos continuam em Tbilisi com manifestantes clamando pelo não alinhamento da Rússia, pela lei russa aprovada pelo governo, solicitando um posicionamento sobre o país para a União Europeia.
Para Hubert Walas, as ações russas no território da Geórgia devem ser monitoradas de perto. Segundo ele, a Geórgia tem sido frequentemente um laboratório para novas táticas e estratégias russas. “Os desenvolvimentos na Geórgia muitas vezes antecipam o que Moscou pode estar planejando para outros países da região”, afirmou Walas.
À medida que a Geórgia se encontra em uma encruzilhada geopolítica, a tensão entre as aspirações pró ocidentais de sua população e o governo influenciado por interesses russos cresce a cada dia. As manifestações de maio de 2024 são apenas a ponta do iceberg de um descontentamento mais profundo e uma luta pelo futuro do país. A aprovação da controversa Lei de Agentes Estrangeiros, apesar das fortes reações internacionais, ilustra a determinação do governo em seguir uma linha pró Kremlin, mesmo em face da oposição popular.
A história recente da Geórgia, desde a guerra de 2008 até os atuais confrontos políticos, demonstra a complexidade das dinâmicas internas e externas que moldam o destino do país. Com as eleições de outubro de 2024 no horizonte, o mundo observa atentamente para ver se a Geórgia optará por um futuro alinhado à União Européia ou se manterá sua proximidade com a Rússia.
O dilema georgiano é emblemático das lutas maiores que definem o cenário geopolítico contemporâneo. A Geórgia é não apenas um campo de batalha físico, mas também informacional, onde narrativas competem para moldar a percepção pública e a política. A pergunta crucial permanece: a Geórgia será o próximo palco de um conflito direto com a Rússia, similar ao que estamos vendo na Ucrânia? Só o tempo dirá. O que é certo é que os próximos meses serão decisivos para o futuro da Geórgia e, potencialmente, para a estabilidade da região como um todo.
Escrito por Gabriel Chagas.
Entusiasta por Geopolítica, Espionagem e Relações Internacionais. Autor do Blog "Mundo em Conflito".
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Referências:
- Hubert
Walas
· New York Times
· Good Times Bad Times Brasil
· Agencia latina americana de Noticiais
· Reuters
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