Você sabia que os Estados Unidos financiaram e armaram grupos rebeldes na Síria por meio de uma operação secreta da CIA? Conhecida como Operação Timber Sycamore, essa ação clandestina foi uma das mais controversas da política externa americana durante a guerra civil síria. Conduzida entre 2012 e 2017, ela envolveu o envio de armas, treinamento e recursos logísticos a facções que lutavam contra o regime de Bashar al-Assad. No entanto, investigações e documentos vazados apontam que parte desse apoio pode ter beneficiado grupos extremistas, como a Al-Qaeda e até o Estado Islâmico (EI).
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| Fonte: great game Confidential. |
Nas últimas duas semanas do ano de 2012, um e-mail vazado envolvendo Jake Sullivan — então assessor assistente de Segurança Nacional de Barack Obama — e Hillary Clinton, ex-secretária de Estado, ressurgiu online. O cargo de Sullivan o colocava diretamente envolvido na formulação da política externa e na coordenação de estratégias de segurança nacional da Casa Branca. Hillary Clinton, por sua vez, chefiava o Departamento de Estado, responsável pela diplomacia e pelos interesses dos EUA no cenário internacional. No e-mail, Sullivan afirma que "a AQ está do nosso lado na Síria", referindo-se à Al-Qaeda — o que gerou grande controvérsia ao ser interpretado como evidência do apoio americano a grupos jihadistas durante o conflito sírio. Esse trecho passou a ser amplamente citado por críticos da política externa dos EUA como prova de conivência ou omissão diante da ascensão de grupos terroristas na região.
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| A Al-Qaeda está do nosso lado na Síria" — e-mail do assessor político da Secretária de Estado Hillary Clinton (fevereiro de 2012). WikiLeaks. | |
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Jake
Sullivan ouve enquanto o presidente Barack Obama conversa com a
secretária de Estado Hillary Clinton em novembro de 2012. Foto oficial da Casa Branca por Pete Souza
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No entanto, o mesmo e-mail
traz uma outra afirmação que contextualiza essa relação de forma diferente.
Sullivan relata que o líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, fez um apelo para
que os muçulmanos na Turquia e no Oriente Médio ajudassem as forças rebeldes
sírias em sua luta contra o regime de Bashar al-Assad, e alertou o povo sírio a
não depender da Liga Árabe, Turquia ou dos Estados Unidos para obter
assistência. A Liga Árabe, organização que reúne países do Oriente Médio e Norte da África, teve uma atuação limitada na Guerra Civil Síria. Em 2011, suspendeu a Síria da entidade e impôs sanções econômicas contra o regime de Assad. No ano seguinte, reconheceu a Coalizão Nacional Síria, um grupo de oposição ao governo sírio, como representante legítimo da população. Apesar dessas medidas, seus esforços diplomáticos fracassaram e a organização demonstrou pouca capacidade de influenciar o desfecho do conflito.
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O mapa da Liga Árabe. Uma das mais antigas organizações regionais, foi fundada em 1945 e atualmente tem 22 membros. Fonte: Álvaro Merino (2024). |
Para Zawahiri, a Liga Árabe era apenas uma extensão dos governos pró Ocidente e não representava verdadeiramente os interesses jihadistas. A visão da Al-Qaeda era clara: confiar em entidades internacionais significava se submeter a agendas políticas externas, enquanto a resistência contra Assad deveria ocorrer sem depender de apoio governamental ou diplomático.
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Emblema da Liga Árabe. |
O vazamento desse e-mail reforçou os debates sobre a complexidade da política externa dos EUA na Síria e o papel dos grupos extremistas em meio à fragmentação de interesses geopolíticos no conflito.
Isso revela que, embora os EUA estivessem envolvidos no apoio aos
rebeldes, não se tratava de uma aliança formal com a Al-Qaeda ou com o EI. Pelo
contrário, os EUA estavam lidando com um cenário de complexas alianças volúveis,
onde interesses políticos e militares se sobrepunham à natureza ideológica dos
grupos combatentes.
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| Zawahiri era o porta-voz e ideólogo mais proeminente da Al-Qaeda nos últimos anos. Fonte: Getty Images |
Apesar disso, um ano
depois, o governo Obama aprovou a Operação Timber Sycamore, uma iniciativa
secreta coordenada pela CIA, que envolveu o treinamento e o fornecimento de
armas para grupos rebeldes sírios. A Operação visava fortalecer as forças
anti-Assad, com o objetivo de enfraquecer o regime sírio e minar o apoio a
Bashar al-Assad. Ao longo de 2013, os EUA destinaram aproximadamente US$ 1
bilhão para financiar esse programa. Porém, as consequências dessa ação se
mostraram mais complicadas do que o esperado.
Embora os EUA tivessem
como objetivo apoiar grupos moderados, o cenário na Síria era extremamente
fluido, com facções mudando de lado conforme as dinâmicas do conflito. A Frente
al-Nusra, uma antiga afiliada da Al-Qaeda e precursora do grupo Hay’at Tahrir
al-Sham (HTS), se tornou uma das facções mais poderosas do conflito. O apoio
dos EUA aos rebeldes moderados logo se complicou, pois muitos desses grupos se
viram em uma luta constante contra facções extremistas, como o EI (Estado Islâmico, também conhecido como ISIS ou ISIL) e a própria
Al-Qaeda. A Operação Timber Sycamore envolveu o apoio dos EUA a várias facções rebeldes, algumas das quais, por sua vez, formaram alianças pragmáticas com grupos jihadistas como Jabhat al-Nusra ou até mesmo o próprio Estado Islâmico. Esse apoio indireto foi extremamente controverso, dado que muitos dos grupos moderados que receberam suporte estavam entrelaçados com facções extremistas, criando um ambiente caótico e difícil de controlar. Embora os EUA tivessem a intenção de combater o regime de Assad, a ascensão do EI foi um efeito colateral inesperado que gerou sérias questões sobre os riscos de apoiar grupos rebeldes em um contexto tão fragmentado e volátil.
Em 2014, quando o Estado Islâmico declarou oficialmente seu califado, a situação tornou-se ainda mais delicada. Facções que foram apoiadas na tentativa de derrubar Assad muitas vezes se viam em conflito direto com o EI e a Al-Qaeda, que competiam pela liderança do movimento jihadista na região. No entanto, como os EUA estavam inicialmente focados em combater o regime de Assad, a aliança com qualquer grupo que se opusesse ao governo sírio se tornava uma prioridade, independentemente das consequências a longo prazo, como o fortalecimento de extremistas.
No contexto da declaração do Estado Islâmico (EI), o termo califado se refere a um governo político e religioso que o grupo tentou estabelecer, baseado em uma interpretação radical e extremamente rigoroso da Sharia (lei islâmica). A Sharia, que é o sistema legal do Islã, foi utilizada pelo EI para justificar suas ações, impondo regras rigorosas de comportamento social, econômico e religioso, incluindo punições severas para quem desobedecesse suas normas.
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| A Sharia tem diretrizes para todos os aspectos da vida dos muçulmanos. Fonte: AFP |
Quando o EI proclamou o califado em 2014, sob a liderança de Abu Bakr AL-Baghdadi, o grupo não apenas declarou o controle de territórios no Iraque e na Síria, mas também se autoproclamou a liderança legítima do mundo muçulmano, afirmando que todos os muçulmanos deveriam obedecer ao califa, que seria o sucessor do profeta Maomé. Al-Baghdadi assumiu esse título, com a ambição de restaurar um califado que, na visão do EI, representaria a verdadeira implementação da lei islâmica e a unidade dos muçulmanos.
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| A última aparição pública de Al-Baghdadi foi em Mossul, em 2014. O vídeo foi postado pela agência de notícias Al-Furqan, controlada pelo Estado Islâmico. Fonte: Reuters. | | |
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O avanço do ISIS na época da proclamação do Califado em 2014. Fonte: Washington Post
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A criação do califado do EI tinha um caráter simbólico e estratégico. Além de um regime político territorial, o califado era uma forma de desafiar a ordem internacional e os governos considerados "não islâmicos", como as monarquias do Golfo ou os regimes ocidentais. Para o EI, o califado representava a substituição dos sistemas de governo modernos, com a extinção das fronteiras nacionais do Oriente Médio, buscando restaurar o que consideravam ser uma "sociedade islâmica pura". A visão do EI era de uma comunidade global unificada sob a autoridade do califa, sem as divisões criadas pelos Estados modernos.
A declaração de um califado pelo EI também tinha um impacto estratégico significativo, uma vez que se tornava um ponto de atração para jihadistas de todo o mundo. A ideia de um califado legítimo, com uma luta global contra o que consideravam inimigos do Islã, ampliou sua base de apoio internacional, enquanto ao mesmo tempo, causava grandes preocupações na comunidade internacional devido à brutalidade das táticas do grupo e à violação flagrante dos direitos humanos sob seu domínio.
Em resumo, o califado do Estado Islâmico não era apenas uma tentativa de estabelecer um governo em territórios específicos, mas um movimento ideológico com a intenção de reconfigurar o mundo islâmico e desafiar a ordem internacional, com um governo autoritário que se baseava em uma interpretação radical da Sharia.
A ligação entre a Operação Timber Sycamore e o fortalecimento de grupos como o Estado Islâmico e Al-Qaeda é uma das questões mais polêmicas dessa fase da guerra. Embora os EUA não tenham apoiado diretamente o EI, os efeitos colaterais da operação e o apoio a grupos rebeldes moderados que estavam infiltrados ou cercados por elementos extremistas contribuíram para a perpetuação do caos e a ascensão do califado do Estado Islâmico. O apoio indireto, combinado com a falta de controle sobre as facções extremistas, resultou em uma situação onde os interesses ocidentais e a luta contra Assad se mesclaram com a criação de um terreno fértil para o crescimento de grupos jihadistas.
Em resumo, a Operação Timber Sycamore, ao tentar apoiar facções moderadas contra o regime sírio, teve consequências imprevistas que facilitaram a ascensão de organizações como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda na Síria. O apoio a facções que muitas vezes estavam comprometidas com a luta de um califado, mesmo que não diretamente ligadas ao EI, gerou um ambiente em que o extremismo floresceu, tornando a política externa dos EUA na região mais complexa e controversa.
A incapacidade dos EUA de manter o controle sobre os grupos
financiados gerou um ciclo de ineficiência, onde, por um lado, os rebeldes
apoiados pelos EUA estavam sendo ultrapassados por facções mais radicais,
enquanto, por outro, a dinâmica de poder na Síria se tornava ainda mais
fragmentada e imprevisível.
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Combatentes do HTS treinam na província de Idlib, Síria. Foto: OMAR HAJ KADOUR/AFP/Getty Images |
A Operação Timber Sycamore se tornou uma das ações mais controversas da guerra
civil síria. Ao tentar treinar e armar rebeldes moderados, os EUA se viram em
um dilema estratégico, pois o apoio à oposição síria não garantia que os grupos
combatentes se mantivessem fiéis à causa original.
O programa foi realizado em
colaboração com aliados como Arábia Saudita, Catar, Turquia, Jordânia e Reino
Unido, que também forneciam financiamento, armamentos e apoio logístico. Mas, à
medida que os grupos rebeldes se dividiam e se infiltravam facções extremistas,
o controle dos EUA sobre o processo tornava-se cada vez mais difícil.
O impacto dessa operação
não foi apenas militar, mas também estratégico e diplomático. A intervenção dos
EUA na Síria, e o apoio àqueles que lutavam contra Assad, acabou colocando as
potências ocidentais em uma posição delicada. Por um lado, estavam tentando
combater o regime de Assad e, por outro, suas ações contribuíam para a ascensão
de grupos extremistas que mais tarde se tornariam ameaças globais. O
envolvimento da CIA, com a ajuda de diversos aliados regionais, gerou uma série
de consequências imprevisíveis, não apenas para a Síria, mas para a política de
segurança internacional, exacerbando a instabilidade na região e fortalecendo
grupos que, eventualmente, desestabilizariam ainda mais o Oriente Médio. Em
suma, a Operação Timber Sycamore exemplifica os dilemas e paradoxos das
intervenções militares no Oriente Médio. A falta de controle sobre as facções
financiadas, aliada à natureza volúvel dos grupos rebeldes, criou uma situação
em que os Estados Unidos, ao tentar alcançar objetivos de curto prazo, acabaram
alimentando a ascensão de facções extremistas, como a Al-Qaeda e o Estado
Islâmico. Esse ciclo de ineficiência e imprevisibilidade se reflete não só na
Síria, mas em todo o Oriente Médio e em uma série de intervenções que moldaram o cenário geopolítico
global nas últimas décadas.
Contexto
e Criação da Operação
A guerra civil síria começou em 2011, o ponto inicial foi um movimento contra o regime de Assad, mas rapidamente se transformou em um conflito complexo com múltiplos jogadores externos, incluindo os Estados Unidos e a Arábia Saudita, que buscavam enfraquecer a influência do Irã e seus aliados regionais.
A Primavera Árabe foi uma série de protestos, revoltas e revoluções que ocorreram no Oriente Médio e no Norte da África a partir de 2010. Impulsionados por insatisfação popular contra governos autoritários, corrupção e crises econômicas, esses levantes derrubaram regimes na Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, mas tiveram desdobramentos diferentes em cada país.
Tudo começou com um vendedor ambulante na Tunísia. Mohamed Bouazizi, um jovem de 26 anos, vendia frutas na cidade de Sidi Bouzid, onde enfrentava constantes intimidações por parte da polícia, alegações de falta de licença, problemas com seus produtos e pedidos de propina eram frequentes.
No dia 17 de dezembro de 2010, mais um episódio de repressão ocorreu: seu carrinho de frutas foi apreendido sob a justificativa de que ele não tinha autorização para vender no local. Desesperado, Bouazizi foi até a sede do governo tentar recuperar seus pertences, mas sequer foi ouvido.
Sem alternativas e já afetado há anos pelo desemprego e pela falta de perspectivas, ele tomou uma decisão extrema. Adquiriu um galão de combustível, despejou o líquido sobre o próprio corpo e, diante do prédio do governo, ateou fogo a si mesmo.
A cena foi registrada e rapidamente ganhou as redes sociais, espalhando-se com a mesma intensidade das chamas que o consumiam.
O ato de Bouazizi tornou-se um símbolo do desespero de milhões de árabes e deu início a uma onda de protestos contra a corrupção e a falta de oportunidades, primeiro na Tunísia, depois em todo o mundo árabe.
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| Mohamed Bouazizi se tornou um símbolo da luta por direitos civis no Mundo Árabe. Fonte: Getty Images |
No caso da Síria, os protestos começaram em março de 2011, na esteira dos acontecimentos em outras nações árabes. Inicialmente, manifestantes exigiam reformas democráticas e mais liberdade política, mas o governo de Bashar al-Assad respondeu com repressão violenta. Rapidamente, a situação escalou para uma guerra civil com múltiplos atores internos e externos.
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| Gráfico sobre a Primavera Árabe. Fonte: O Globo 2011. |
O conflito sírio se tornou um tabuleiro geopolítico onde potências regionais e globais buscaram influenciar os rumos do país. Estados Unidos e Arábia Saudita apoiaram grupos rebeldes para minar a influência do Irã, que, por sua vez, via o regime de Assad como um aliado estratégico essencial. Rússia e Hezbollah entraram em cena para defender o governo sírio, enquanto grupos jihadistas como o Estado Islâmico e a Frente Al-Nusra exploraram o caos para expandir seu domínio.
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| Vladimir Putin e Barack Obama divergem sobre o regime de Bashar al-Assad. Fonte: AP |
O caso sírio mostra como a Primavera Árabe, em vez de trazer estabilidade e democracia, abriu caminho para intervenções estrangeiras, guerras por procuração e um conflito devastador que ainda reverbera no Oriente Médio.
A Operação Timber Sycamore surgiu dentro desse contexto caótico, com o intuito de financiar e treinar forças rebeldes. A operação foi estratégica, não só como um golpe contra Assad, mas também para projetar uma posição mais forte da Arábia Saudita contra o crescente poder iraniano na região.
Em 2012, o então diretor
da CIA, David Petraeus, propôs um programa secreto de armamento e treinamento
de rebeldes sírios. Inicialmente, o presidente Barack Obama rejeitou a
proposta, mas posteriormente a aprovou, em parte devido ao lobby de líderes
estrangeiros, como o rei Abdullah II da Jordânia e o primeiro-ministro
israelense, Benjamin Netanyahu. Documentos classificados do Departamento de
Estado dos EUA, assinados pela secretária de Estado Hillary Clinton, indicavam
que doadores sauditas eram um suporte significativo para forças militantes
sunitas globalmente, e alguns oficiais americanos temiam que os rebeldes
apoiados tivessem ligações com a Al-Qaeda.
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| David Petraeus. Fonte: Wikimedia Commons, pd / Darren Livingston. |
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| O primeiro-ministro Benjamin
Netanyahu, à direita, e o rei Abdullah II da Jordânia, à esquerda, no
Palácio Real de Amã, na Jordânia, em 16 de janeiro de 2014. (Fonte: Yousef
Allan/ AP, Palácio Real da Jordânia) |
Funcionamento
e Execução
A operação de apoio aos rebeldes sírios foi conduzida pela CIA em colaboração com serviços de inteligência de países aliados, visando fortalecer grupos rebeldes moderados para equilibrar o poder na região e pressionar o regime de Bashar al-Assad. A Jordânia foi escolhida como base operacional devido à sua proximidade com os campos de batalha na Síria. Relatos indicam que, desde 2012, agentes da CIA treinavam rebeldes sírios em território jordaniano, com o objetivo de fortalecer os militantes na batalha contra o Exército de Assad.
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| Bashar Al Assad. Fonte: Getty Images |
O treinamento foi realizado por pequenos grupos da Divisão de Atividades Especiais da CIA, um ramo paramilitar que utiliza terceirizados e ex-membros das Operações Especiais americanas. A instrução durava de quatro a seis semanas e incluía o uso de armamentos como fuzis de assalto Kalashnikov, morteiros, granadas propelidas por foguete, mísseis antitanque e óculos de visão noturna. Muitas dessas armas foram adquiridas nos Bálcãs ou em outros locais da Europa Oriental e, posteriormente, enviadas aos rebeldes sírios através de serviços de segurança jordanianos. No entanto, o treinamento não envolvia armas pesadas como lançadores de foguetes ou munição antitanque, arsenais que eram fornecidos por países como Catar e Arábia Saudita.
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| Operador do SAC operando em um lugar desconhecido. Fonte:
US-OGA / PMO
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| A
Special Activities Divison (SAD), atualmente chamada de SAC, é uma divisão da Agência Central de
Inteligência (CIA) dos Estados Unidos, responsável por operações
secretas e clandestinas. Fonte:
US-OGA / PMO
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| fuzil de assalto Kalashnikov (AK-47). Fonte: Sree Bot. |
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Míssil BGM-71 TOW, fornecido por EUA e aliados aos rebeldes que combatem Assad e o ISIS. Fonte: Desconhecida. |
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| Rebeldes sírios lançam foguete caseiro contra forças do governo (Foto: Reuters/Ahmad Rif) |
A operação enfrentou desafios significativos na identificação e controle dos grupos que recebiam apoio. Uma análise do Grupo Soufan, uma empresa de inteligência privada, destacou a incapacidade dos EUA em vetar adequadamente o extremismo violento entre a oposição síria, apontando que moderados e extremistas frequentemente se misturavam, e que os rebeldes moderados eram vistos com suspeita e desdém como ferramentas do Ocidente.
Além disso, a Jordânia negou que a CIA estivesse treinando rebeldes sírios em seu território, conforme afirmado por fontes anônimas e reportagens na mídia internacional. O Ministro da Informação jordaniano, Mohammad Momani, declarou que tais informações eram imprecisas e não refletiam a realidade das operações no País.
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| Mohammad Momani. Fonte: Foto Petra. |
Em julho de 2017, o presidente Donald Trump ordenou a eliminação gradual do Programa Timber Sycamore, uma operação secreta da CIA que, desde 2013, fornecia armas, treinamento e financiamento a grupos rebeldes sírios na luta contra o regime de Bashar al-Assad. O programa, iniciado durante o governo Barack Obama, representava uma tentativa dos Estados Unidos de influenciar o equilíbrio de poder na guerra civil síria, mas enfrentava desafios operacionais e geopolíticos cada vez maiores.
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| Presidente Barack Obama visitando a Jordânia. Fonte: Pablo Martinez Monsivais/AP Photo
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A iniciativa tinha um custo estimado de 1 bilhão de dólares por ano e, segundo relatos, chegou a treinar e equipar aproximadamente 10.000 combatentes. No entanto, ao longo dos anos, relatórios indicaram que parte significativa do armamento e dos recursos fornecidos acabou caindo nas mãos de grupos jihadistas, como a Frente Al-Nusra (afiliada à Al-Qaeda) e até mesmo o Estado Islâmico. Esse desvio de recursos gerou preocupações dentro do próprio governo americano, que temia que as armas destinadas a forças "moderadas" fossem utilizadas por organizações extremistas, minando a própria estratégia dos EUA na região.
Além da dificuldade de controle sobre os destinatários do apoio militar, a decisão de Trump foi influenciada por um novo cenário geopolítico. Desde 2015, a Rússia vinha conduzindo operações militares diretas em defesa do regime sírio, alterando significativamente o curso da guerra. O apoio russo fortaleceu Assad, tornando a vitória dos rebeldes cada vez mais improvável. Diante dessa realidade, continuar financiando grupos opositores tornou-se uma aposta arriscada e ineficaz para os Estados Unidos.
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| Aleppo, na Síria, foi devastada por ataques aéreos russos. Fonte: Getty Images |
Para Moscou, o encerramento do programa da CIA representou uma vitória estratégica, uma vez que removia um dos principais obstáculos à consolidação do regime sírio. A Rússia já havia criticado publicamente o apoio americano aos rebeldes, alegando que isso prolongava o conflito e incentivava grupos terroristas. Ao descontinuar a operação, Trump enviou um sinal de que os Estados Unidos estavam reavaliando sua postura na Síria, priorizando o combate ao Estado Islâmico e reduzindo seu envolvimento no conflito entre Assad e a oposição.
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| Momento curioso, rotas das patrulhas americanas e
russas se encontrando
em um campo de petróleo, perto da cidade de Al-Qahtaniyah, na província
de Hasaca, no leste, segundo correspondentes da AF. Registro de 2022. |
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| Os canais diplomáticos não oficiais do conflito seguem abertos desde 2015 na Síria, para evitar qualquer confronto entre russos e americanos |
Esses eventos ilustram a complexidade e os desafios enfrentados pelas operações de apoio aos rebeldes sírios. A guerra civil tornou-se um tabuleiro geopolítico, onde potências externas manipulavam facções locais para alcançar seus próprios interesses. A decisão de encerrar o programa da CIA não apenas refletiu a dificuldade dos EUA em controlar o destino dos recursos fornecidos, mas também revelou a crescente influência da Rússia e do Irã na Síria, redesenhando o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
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| Donald Trump. Fonte: Reuters/Jonathan Ernst. |
A Rede de Países
Envolvidos no Financiamento e Treinamento de Combatentes
A Operação Timber Sycamore não foi apenas uma ação isolada da CIA, mas sim uma engrenagem dentro de uma complexa rede internacional de interesses. Conduzida pelos Estados Unidos, essa operação secreta contou com a participação ativa de países do Oriente Médio e da Europa — cada um movido por seus próprios cálculos estratégicos e com níveis distintos de envolvimento. A seguir, analiso os principais atores e como suas decisões influenciaram os rumos da guerra na Síria:
Estados Unidos (EUA): Como
principal articulador da operação, os EUA, por meio da Agência Central de
Inteligência (CIA), foi responsável por organizar, financiar e supervisionar
o treinamento e o fornecimento de armas para grupos rebeldes sírios. A CIA
criou bases de treinamento em países vizinhos, como a Jordânia, e canalizou
bilhões de dólares para sustentar a insurgência contra Bashar Al-Assad. O
envolvimento americano refletia não apenas o desejo de enfraquecer o regime
sírio, aliado histórico da Rússia e do Irã, mas também a tentativa de moldar o
futuro político da Síria em consonância com os interesses ocidentais.
A CIA esteve envolvida em uma operação secreta conhecida como "linha de ratos", que visava enviar armas da Líbia — atacada pela OTAN em 2011 — para jihadistas na Síria. Seymour Hersh, em seu artigo de 2014, “The Red Line and the Rat Line”, revelou que um anexo altamente classificado descrevia um acordo secreto feito no início de 2012 entre os governos de Obama e Erdoğan, no qual o financiamento vinha da Turquia, Arábia Saudita e Catar, enquanto a CIA, com apoio do MI6, transportava armas dos arsenais de Gaddafi para a Síria. Logo após o lançamento da Timber Sycamore, em março de 2013, Obama declarou em uma coletiva com Netanyahu: “Com relação à Síria, os Estados Unidos continuam a trabalhar com aliados e amigos e a oposição síria para acelerar o fim do regime de Assad.”
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| Erdoğan e Obama. Fonte: DHA Photo |
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| Seymour Hersh. Fonte: Medium. |
Agentes paramilitares da CIA desempenharam um papel crucial na capacitação dos rebeldes. Os treinamentos abordavam desde o uso básico de armamentos até táticas avançadas de guerrilha. Além disso, os rebeldes recebiam instruções sobre coordenação de ataques, comunicação em campo e primeiros socorros em combate.
Agentes paramilitares são operativos altamente treinados em combate, infiltração e guerra não convencional. Na CIA, eles integram o Grupo de Operações Especiais (SOG), unidade do Centro de Atividades Especiais (SAC), responsável por missões clandestinas, treinamento de forças aliadas e ações de guerra irregular. Atuam sem reconhecimento oficial, operando em zonas de conflito para promover interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Arábia Saudita: O serviço de Inteligência da Arábia Saudita, a Al Mukhabarat Al A'amah ou General Intelligence Presidency (GIP), foi a principal parceira financeira dos Estados Unidos nessa operação.
No xadrez geopolítico do Oriente Médio, a Arábia Saudita nunca atuou como uma mera espectadora. Sua participação na Operação Timber Sycamore, coordenada pela CIA para armar e treinar rebeldes contra o regime sírio de Bashar al-Assad, foi movida por objetivos bem definidos — e profundamente ligados à sua disputa de influência com o Irã.
A monarquia saudita via em Assad um elo direto com Teerã, seu principal rival regional. Ao enfraquecer o governo sírio, Riad buscava conter a projeção de poder iraniano no Levante (região estratégica do Oriente Médio que inclui países como Síria, Líbano, Jordânia e Israel) protegendo sua zona de influência e tentando alterar o equilíbrio de forças a seu favor. Financiar a rebelião significava, portanto, muito mais do que intervir numa guerra civil: era travar uma guerra indireta contra o Irã em solo sírio.
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Salman bin Abdulaziz Al Saud (terceiro, da esquerda para a direita na primeira fileira) ao lado de membros do conselho real. Em disputa pela supremacia no Golfo Pérsico, Arábia Saudita liderou ataque às forças houthis do Iêmen Foto: AP
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| Mohamed Bin Salman foi designado herdeiro da coroa. Fonte: Handout (Reuters). |
Além disso, apoiar certos grupos opositores também era uma tentativa de moldar o futuro político da Síria — e garantir que qualquer governo pós-Assad fosse menos hostil aos interesses sauditas. Para isso, a Arábia Saudita não economizou recursos: forneceu armamentos, dinheiro e respaldo logístico, enquanto a CIA coordenava os treinamentos em solo.
Essa aliança entre Washington e Riad é parte de uma longa história de cooperação entre os serviços de inteligência de ambos os países. Porém, como em outras operações do gênero, os resultados foram ambíguos: parte do material enviado caiu nas mãos de grupos extremistas, o que alimentou ainda mais a fragmentação do cenário sírio e comprometeu os objetivos iniciais da missão.
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Selo da Presidência Geral de Inteligência |
Catar: Qatar State Security, Serviço de Segurança de Estado do Catar também
desempenhou um papel significativo, contribuindo financeiramente e oferecendo
apoio logístico para grupos insurgentes. A rivalidade com a Arábia Saudita e a
busca por maior protagonismo regional levaram Doha a apoiar facções rebeldes
específicas, muitas das quais possuíam vínculos ideológicos mais próximos com
grupos islamistas. Esse apoio resultou em uma fragmentação ainda maior da
oposição síria, complicando a coordenação entre os diferentes grupos armados.
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| Qatar State Security, Serviço de Segurança de Estado do Catar. Fonte: Ministry of Foreign Affairs, Mofa |
Turquia: A Turquia foi um
dos principais pontos de trânsito para combatentes estrangeiros e armamentos
destinados à Síria. Ancara permitiu que a CIA e seus aliados utilizassem seu
território para transportar armas e suprimentos, além de oferecer apoio direto
a grupos de oposição com o objetivo de enfraquecer as forças curdas no norte da
Síria. O governo turco analisa a guerra civil síria como uma oportunidade para
conter o crescimento do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e seus
aliados sírios, resultando em uma política externa muitas vezes divergente dos
objetivos dos EUA.
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| Mapa da Turquia e da Síria. Fonte: Peter Hermes. |
A Operação Timber Sycamore foi marcada por uma colaboração entre aliados improváveis. Embora os EUA e a Turquia sejam aliados na OTAN, a operação gerou tensões devido ao apoio dos EUA aos curdos, considerados pela Turquia como terroristas. Além disso, a Arábia Saudita e o Catar, com suas próprias agendas no Oriente Médio, tinham objetivos diferentes da coalizão ocidental, o que complicou ainda mais a coordenação e os resultados da operação.
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Curdos e tropas americanas na fronteira entre a Turquia e a Síria FOTO: DELIL SOULEIMAN/AFP – 06.10.2019
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Emirados Árabes Unidos: Embora sua participação tenha sido menos expressiva que a da Arábia Saudita e
do Catar, os Emirados Árabes Unidos contribuíram financeiramente para a
operação, alinhando-se com os esforços para conter a influência iraniana na região.
Os Emirados também forneceram suporte logístico e de inteligência, colaborando
discretamente para evitar exposição pública.
Reino Unido: O Reino Unido
esteve envolvido principalmente no treinamento de combatentes rebeldes e no
fornecimento de suporte logístico e de inteligência. Agentes britânicos
trabalharam em estreita colaboração com a CIA, especialmente nas operações
realizadas a partir da Jordânia. Londres via a derrubada de Assad como uma
oportunidade para minar a influência russa no Oriente Médio e promover uma
transição democrática na Síria, embora os resultados tenham sido muito
diferentes do esperado.
Jordânia: A Jordânia
desempenhou um papel estratégico fundamental, abrindo seu território para a
criação de bases militares utilizadas pela CIA para treinar combatentes sírios. A Jordânia foi escolhida como base principal para a operação devido à sua proximidade com os campos de batalha na Síria e à estabilidade relativa do país, que permitia operações discretas e eficazes. A CIA estabeleceu centros de treinamento em território jordaniano, onde agentes paramilitares instruíam os combatentes rebeldes. Esses treinamentos incluíam táticas de infantaria, manuseio de armas e estratégias de combate.
Além disso, o país facilitou a entrada de armas e suprimentos para os grupos
rebeldes no sul da Síria. O governo jordaniano, preocupado com a segurança de
suas fronteiras e a estabilidade interna, cooperou de forma pragmática,
buscando manter o equilíbrio entre a pressão internacional e seus próprios
interesses de segurança.
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Mapa para ilustrar a proximidade entre Síria e Jordânia. Fonte: Info escola.
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Outros Países Além dos
principais envolvidos, países ocidentais, como França e Israel, podem
ter tido participação indireta na operação. A França, historicamente envolvida
nos assuntos sírios devido ao seu passado colonial, teria oferecido apoio
logístico e de inteligência. Israel, por sua vez, monitorava de perto os
acontecimentos, intervindo pontualmente para conter a presença iraniana e do
Hezbollah na região.
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EUA, Reino Unido e França bombardeiam alvos na Síria em 2018 — Foto: Betta Jaworski/G1 |
A coordenação entre os serviços de inteligência foi fundamental para a execução da Operação Timber Sycamore. A colaboração entre os EUA, a Arábia Saudita, o Catar e a Turquia foi essencial para identificar alvos e coordenar ataques aéreos, mas também gerou tensões devido aos diferentes objetivos estratégicos de cada país envolvido. Esses conflitos de interesse prejudicaram a eficácia da operação, especialmente quando as facções rebeldes se mostraram cada vez mais desorganizadas e propensas a desentendimentos internos.
A Operação Timber Sycamore
não foi apenas um empreendimento americano, mas sim um esforço multinacional
que refletiu os complexos interesses geopolíticos do Oriente Médio. A
diversidade de atores envolvidos, cada um com suas próprias agendas, contribuiu
para a fragmentação da oposição síria e para a escalada do conflito, cujas
consequências reverberam até hoje.
Alcance e Impacto
Estima-se que milhares de
combatentes rebeldes tenham sido treinados e equipados pelos EUA e seus aliados
através da Operação Timber Sycamore. No entanto, o programa enfrentou desafios
significativos. Uma consequência não intencional foi o aumento do mercado clandestino e irregular
de armas no Oriente Médio, com armas fornecidas pela CIA sendo desviadas e
vendidas ilegalmente.
Um dos casos mais comprometedores envolvendo falhas no controle de armamentos por parte da CIA ocorreu em 2015 e veio à tona por meio de uma investigação conjunta do The New York Times e da Al Jazeera. Segundo as apurações, oficiais de inteligência jordanianos desviaram sistematicamente armamentos enviados secretamente pela CIA e pela Arábia Saudita como parte do programa clandestino Timber Sycamore. O objetivo declarado da operação era treinar e equipar rebeldes sírios moderados na luta contra o regime de Bashar al-Assad.
No entanto, os bastidores da operação revelaram uma realidade muito mais caótica e preocupante. O escândalo envolveu diretamente agentes jordanianos encarregados da logística dentro do território do país — um dos principais centros operacionais do programa. Esses oficiais, ao invés de garantir o envio correto das armas aos grupos rebeldes selecionados, passaram a desviar o material bélico para o mercado negro. O esquema gerou milhões de dólares em lucros ilícitos e colocou armamentos avançados nas mãos de atores não estatais, grupos criminosos e milícias fora do controle da aliança ocidental.
A corrupção foi tão extensa que, em pouco tempo, ficou claro que parte significativa do arsenal enviado sob o pretexto de estratégia geopolítica havia desaparecido de forma sistemática. Um exemplo dramático das consequências dessa negligência ocorreu em novembro de 2015, quando um oficial da polícia jordaniana abriu fogo durante um exercício de treinamento em uma instalação de segurança em Amã. No ataque, morreram dois contratantes americanos, uma instrutora sul-africana e dois jordanianos. As investigações posteriores revelaram que parte das armas utilizadas na ação fazia parte do lote desviado originalmente pela CIA.
Inicialmente, as autoridades jordanianas negaram qualquer conexão entre o ataque e o esquema de desvio. No entanto, informações obtidas por jornalistas e agentes ligados à investigação comprovaram que o armamento vinha diretamente dos estoques enviados pela CIA no contexto da Timber Sycamore.
Esse episódio é emblemático porque escancara a vulnerabilidade estrutural de operações secretas conduzidas em parceria com regimes aliados, especialmente em regiões marcadas por interesses conflitantes, instabilidade interna e corrupção endêmica. A Timber Sycamore, além de levantar sérias dúvidas sobre os critérios de seleção dos chamados “rebeldes moderados”, evidenciou que mesmo aliados considerados estratégicos — como a Jordânia — não estavam imunes à tentação dos interesses paralelos, sejam eles financeiros ou políticos.
Mais do que um erro operacional, o caso expôs uma falha sistêmica: a ausência de mecanismos sólidos de supervisão e prestação de contas em programas que operam à margem da transparência pública. No fim, a operação que pretendia ser um instrumento de influência dos EUA no tabuleiro do Oriente Médio acabou alimentando redes de corrupção, fomentando o tráfico de armas e, tragicamente, contribuindo para a morte de cidadãos americanos e aliados.
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| Três soldados mortos no ataque a uma base militar norte-americana na Jordânia: William Jerome Rivers de 46 anos e de duas mulheres, Kennedy Ladon
Sanders de 24 anos e a especialista Breonna Alexsondria Moffett de 23
anos. Fonte: Departamento de Defesa dos EUA/ AFP |
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A investigação foi originalmente publicada pelo jornal The New York Times e pelo canal de televisão Al Jazeera, com repercussão no Brasil por meio da Revista Exame.
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Controvérsias e Consequências
A Operação Timber Sycamore, conduzida pela CIA, é frequentemente confundida com um outro programa independente e hoje descontinuado do Pentágono, conhecido como Syrian Train and Equip Program. Enquanto a Timber Sycamore tinha como objetivo enfraquecer o regime de Bashar al-Assad por meio do financiamento, treinamento e envio de armas a grupos rebeldes sírios, o programa do Pentágono focava exclusivamente em treinar combatentes para enfrentar o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL).
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| O autoproclamado Estado Islâmico controlou partes da Síria e do Iraque e cometeu atrocidades pelo mundo. Fonte: AFP |
É importante destacar que a Operação Timber Sycamore, conduzida pela CIA, não foi a única iniciativa norte-americana no território sírio. Paralelamente, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Pentágono) lançou, em 2014, um programa independente chamado "Syrian Train and Equip Program", com um foco distinto: treinar e equipar forças rebeldes sírias para combater exclusivamente o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL/ISIS).
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| Programa de treinamento do Pentágono. Fonte: Andrew Tabler |
Essa operação, anunciada como uma resposta direta à ascensão do Estado Islâmico, foi inicialmente apresentada ao público com a promessa de formar um contingente de combatentes moderados, que seriam capazes de frear o avanço jihadista na Síria e no Iraque. O plano previa o investimento de US$ 500 milhões e a formação de cerca de 5 mil combatentes por ano, com treinamento sendo realizado em países aliados como Jordânia, Turquia, Arábia Saudita e Catar.
No entanto, a execução ficou longe das expectativas. Em setembro de 2015, o então comandante do Comando Central dos EUA, General Lloyd Austin, admitiu diante do Congresso que menos de cinco combatentes treinados pelos EUA estavam efetivamente no campo de batalha na Síria. Muitos desertaram, abandonaram os equipamentos ou entregaram armas diretamente a grupos jihadistas como a Frente Al-Nusra, braço sírio da Al-Qaeda.
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| General Lloyd Austin III, em foto de 2015 .Fonte: Pablo Martinez Monsivais/Arquivo/Reuters |
Esse cenário levantou preocupações dentro da própria administração Obama, principalmente diante dos relatos de que rebeldes treinados e armados pelo Pentágono frequentemente atuavam lado a lado da Frente Al-Nusra. A presença de armamento americano em mãos de grupos extremistas era tudo aquilo que Washington pretendia evitar — e ainda assim, tornou-se realidade.
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General Lloyd Austin com o presidente Barack Obama na MacDill Air Force Base, 17 de setembro de 2014. Fonte: U.S. Central Command Public Affairs
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A falta de controle sobre os grupos beneficiados, aliada à fragmentação do campo de batalha sírio, tornou a operação do Pentágono um fracasso político e militar. Com resultados pífios e forte repercussão negativa na imprensa e no Congresso, o programa foi oficialmente encerrado em outubro de 2015, menos de um ano após seu início efetivo.
Esse episódio reforça a complexidade de se intervir militarmente em um conflito assimétrico como o da Síria, os conflitos assimétricos são caracterizados por uma disparidade significativa entre os oponentes, seja em termos de poder militar, recursos ou estratégias. No caso da Síria, forças estatais e coalizões internacionais enfrentavam inúmeros grupos armados não estatais, como as milícias rebeldes, organizações jihadistas e facções locais, grupos com alianças fluidas, agendas divergentes e atuação descentralizada. Isso torna extremamente difícil identificar aliados confiáveis, prever as consequências do apoio externo e manter controle sobre o destino de armas e recursos fornecidos.
Mesmo com intenções declaradas de combate ao terrorismo, os Estados Unidos acabaram, involuntariamente ou não, fortalecendo as mesmas redes jihadistas que pretendiam enfraquecer.
Rebeldes apoiados pelos EUA frequentemente lutavam ao lado da
Frente Al-Nusra, afiliada à Al-Qaeda, e algumas das armas fornecidas pelos EUA
acabaram nas mãos desse grupo, o que era uma das principais preocupações da
administração Obama quando o programa foi inicialmente proposto.
O programa
permanece classificado, e muitos detalhes sobre ele ainda são desconhecidos,
incluindo o total de apoio fornecido, a variedade de armas transferidas, a
profundidade do treinamento oferecido, os tipos de treinadores americanos
envolvidos e os grupos rebeldes específicos que receberam suporte. No entanto,
foi relatado que, até abril de 2016, duas mil toneladas de armas da era
soviética foram entregues em Aqaba. Além disso, os EUA entregaram armas através
da Base Aérea de Ramstein, possivelmente em violação das leis alemãs.
Aqaba, localizada na Jordânia, é uma cidade estratégica devido à sua proximidade com os conflitos na Síria e no Iraque, além de ser um ponto chave para o transporte de armas e apoio logístico. Sua posição geográfica no Mar Vermelho facilita o acesso rápido e seguro para operações militares secretas.
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| Aqaba, Jordânia – Um ponto estratégico no Mar Vermelho Localizada próxima aos conflitos na Síria e no Iraque, a cidade serve como um ponto crucial para transporte de armas e apoio logístico, facilitando operações militares secretas na região. Imagem: Vacations. |
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| Golfo de Aqaba – Um ponto estratégico para operações na Síria e no Iraque. Fonte: Desconhecida da Imagem. |
A Base Aérea de Ramstein, localizada no sudoeste da Alemanha, é muito mais do que uma instalação militar americana no exterior. Trata-se de um dos centros nevrálgicos mais importantes da arquitetura militar dos Estados Unidos no mundo. Operada pela Força Aérea norte-americana em parceria com a OTAN, Ramstein funciona como ponto-chave para o deslocamento de tropas, armamentos e suprimentos com destino a múltiplas regiões em conflito — do Oriente Médio à África, da Europa Oriental à Ásia Central.
Sua localização estratégica, próxima a fronteiras sensíveis e zonas de interesse dos EUA, permite um controle logístico quase ininterrupto. Aeronaves de grande porte como os C-17 Globemaster III e os C-130 Hércules operam diariamente no local, transportando milhares de toneladas de equipamentos e pessoal militar. Ramstein se tornou uma peça essencial para sustentar operações militares em larga escala, incluindo guerras prolongadas e ações de contraterrorismo. A base é, de fato, uma plataforma de lançamento para a projeção do poder militar americano muito além de suas fronteiras.
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| C-17 Globemaster III na Base Aérea de Balad — aeronave estratégica dos EUA, vital em missões de transporte tático e evacuação aeromédica em zonas de conflito. Fonte: Força Aérea dos Estados Unidos |
Mas a relevância de Ramstein não se limita ao aspecto logístico, a Base de Ramstein abriga o Comando Aéreo dos EUA na Europa (USAFE) e também o Comando Aéreo Aliado da OTAN, sendo o elo entre a capacidade operacional americana e o compromisso coletivo com a defesa europeia. Em outras palavras, é a partir de Ramstein que se coordenam inúmeras missões militares internacionais, muitas das quais envolvem ações sigilosas ou estratégicas com implicações diretas na geopolítica global.
A poucos quilômetros da base, outro componente reforça a magnitude da estrutura: o Landstuhl Regional Medical Center (LRMC). Este é o maior hospital militar norte-americano fora do território dos EUA. É para lá que são levados, com frequência, soldados feridos em combate em zonas de guerra como Afeganistão, Iraque e Síria. O LRMC oferece suporte cirúrgico, atendimento de trauma, reabilitação física e cuidados psicológicos — funcionando como um verdadeiro braço médico da máquina de guerra norte-americana. Essa estrutura médica, acoplada a uma base aérea de alta mobilidade, forma um complexo que sustenta uma presença militar constante e operacional.
Ramstein também já esteve no centro de controvérsias internacionais. Diversas reportagens apontaram que a base foi utilizada como elo técnico para operações com drones armados em países como Síria, Iêmen, Paquistão e Somália — inclusive sem o conhecimento formal do governo alemão. Essas ações geraram protestos e questionamentos sobre soberania, legalidade e responsabilidade internacional, além de colocarem em debate os limites da atuação americana dentro do território europeu.
Outro ponto importante é que Ramstein serviu como canal logístico para envio de armamentos a zonas de conflito por meio de operações classificadas. No contexto da guerra civil síria, por exemplo, a base foi fundamental para o fluxo de recursos destinados a grupos armados locais.
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Base militar americana em Ramstein, Alemanha, 20 de julho 2020. Fonte: Reuteurs.
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Aeronave na força aérea americana na base de Ramstein na Alemanha, em foto de 2021 — Foto: AP Photo/Matthias Schrader |
Ambos os locais, Aqaba e Ramstein, são essenciais para as operações militares e logísticas dos EUA no Oriente Médio, com Ramstein sendo um ponto de apoio estratégico para ações em grande escala, e Aqaba facilitando a entrega e o transporte de materiais e treinamento para forças aliadas na região.
A Operação Timber Sycamore, conduzida pela CIA, difere significativamente de outro programa do Pentágono, que tinha como objetivo treinar forças rebeldes sírias especificamente para combater o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Enquanto o programa do Pentágono enfrentou dificuldades operacionais e foi amplamente criticado por sua ineficácia, Timber Sycamore adotou uma abordagem mais abrangente e secreta, focada no fornecimento de armas e treinamento a grupos rebeldes sírios em oposição ao regime de Bashar al-Assad.Contudo, a operação foi marcada por diversas controvérsias. Um dos principais pontos de preocupação era a aliança instável entre os rebeldes apoiados pelos EUA e a Frente Al-Nusra, braço sírio da Al-Qaeda. Relatos indicam que combatentes treinados e armados sob a supervisão americana frequentemente lutavam lado a lado com a Al-Nusra, criando um cenário de incerteza sobre o destino final dos armamentos fornecidos. Essa proximidade entre forças rebeldes e grupos jihadistas gerou receios de que a ajuda militar americana estivesse, inadvertidamente, fortalecendo organizações extremistas. As consequências dessa aliança ainda são debatidas, principalmente no que diz respeito ao fortalecimento de grupos radicais na região e à dificuldade de se estabelecer um controle efetivo sobre o fluxo de armas e combatentes.
A operação teve implicações tanto no campo de batalha quanto no cenário geopolítico. Enquanto as forças rebeldes conseguiram alguns avanços, a natureza fragmentada e a falta de coesão entre os diferentes grupos armados resultaram em vitórias efêmeras e em uma crescente instabilidade no território sírio. Além disso, o enfraquecimento da oposição moderada contribuiu para a ascensão de grupos extremistas, como facções alinhadas à Al-Qaeda, que se aproveitaram da falta de controle sobre as armas entregues aos rebeldes.
A Operação Timber Sycamore, conduzida secretamente pela CIA a partir de 2013, tinha como objetivo fortalecer grupos rebeldes sírios contra o regime de Bashar al-Assad. No entanto, na prática, essa intervenção teve efeitos colaterais graves. Entre os principais desdobramentos, destaca-se o fortalecimento de grupos extremistas, como a Frente Al-Nusra - afiliação síria da Al-Qaeda, posteriormente reestruturada como o Hay'at Tahrir al-Sham (HTS) -, que se tornou uma das forças dominantes na oposição armada síria.
Além disso, outras facções jihadistas também se beneficiaram indiretamente desse apoio. A cooperação entre o Exército Livre da Síria (FSA), considerado moderado, e grupos extremistas facilitou a transferência de armas e recursos para organizações como o Estado Islâmico (ISIS) e o Ahrar al-Sham, ampliando suas capacidades operacionais. Com isso, a Timber Sycamore não apenas falhou em conter o extremismo, mas acabou contribuindo para a ascensão e o fortalecimento de grupos terroristas na Síria, cujos impactos reverberam até hoje no cenário geopolítico do Oriente Médio.
Outro aspecto controverso envolve a logística do programa. Até abril de 2016, estima-se que cerca de duas mil toneladas de armas de fabricação soviética foram entregues no porto de Aqaba, na Jordânia, antes de serem transportadas para a Síria. Essas transferências ocorreram por meio de uma rede complexa de rotas de abastecimento, que incluíam intermediários regionais e parceiros de coalizão. As operações de transporte e distribuição das armas eram realizadas de forma altamente sigilosa, com a intenção de mascarar a origem e o destino final do armamento. Esse processo também gerou desconfiança entre países vizinhos, que temiam o descontrole sobre essas remessas.
Como citado anteriormente, surgiram alegações de que a Base Aérea de Ramstein na Alemanha, foi utilizada para o transporte de armas americanas com destino à Síria, potencialmente em violação das leis alemãs. A utilização dessa base sem o devido consentimento do governo alemão causou desconforto diplomático e levantou questionamentos sobre a legalidade das operações conduzidas em solo europeu. O governo alemão, em resposta, exigiu maiores esclarecimentos por parte dos Estados Unidos, enquanto ativistas e membros da oposição alemã denunciaram a falta de transparência no processo.
Forças Democráticas Sírias: A Complexidade de uma Aliança Controversa
Um bom ponto de partida para entender a dinâmica do conflito sírio é analisar as Forças Democráticas Sírias (SDF), um grupo que, em grande parte, é composto por combatentes das Unidades de Proteção Popular (YPG). Este último é uma facção ligada ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização considerada terrorista pelos Estados Unidos.
Apesar do nome, as Forças Democráticas Sírias não representam, necessariamente, uma aliança democrática nos moldes ocidentais. A escolha do termo “democráticas” tem mais valor estratégico e simbólico do que político — sendo usada para se contrapor tanto ao autoritarismo de Assad quanto ao extremismo jihadista do Estado Islâmico.
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| Mapa da região do Curdistão em destaque (Foto: outraspalavras.net) |
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| Soldadas da YPG e combatentes do PKK (Foto: Facebook Kurdish Female Fighters/YPJ) |
O apoio dos EUA às SDF foi formalmente declarado como uma estratégia para derrotar e evitar o ressurgimento do Estado Islâmico (EI) na Síria. A relação, no entanto, levanta questões complexas sobre os interesses estratégicos e os grupos com os quais os EUA se aliaram, dada a relação das SDF com o PKK e o envolvimento dos curdos em disputas com a Turquia.
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Combatentes das Forças Democráticas Sírias
(SDF) apoiados pelos EUA posam para uma foto em um telhado com vista
para Baghouz, Síria, depois que as SDF declararam a área livre de
terroristas do ISIS após meses de combates em 23 de março de 2019 (Maya
Alleruzzo/AP) |
Em 2012, as forças curdas pressionaram o exército sírio a se retirar do nordeste da Síria. Três anos depois, as SDF foram estabelecidas como uma coalizão que incluía, além dos curdos, grupos árabes e outras etnias, criando uma administração autônoma que desafiava o controle do governo central de Bashar al-Assad.
No entanto, a dinâmica foi alterada em 2019, quando, após o anúncio de Donald Trump da retirada das tropas dos EUA, as SDF chegaram a um acordo com o governo de Assad. Esse acordo permitiu a reentrada das tropas sírias em algumas áreas sob controle das SDF, com o objetivo de ajudar a combater as operações militares turcas. No cenário atual, cerca de 900 soldados dos 2.000 inicialmente posicionados na Síria ainda permanecem no território.
Apesar do controle sobre uma parte significativa da Síria, as SDF enfrentam desafios contínuos, incluindo a perda de território para os rebeldes apoiados pela Turquia, com os EUA tentando conter as ofensivas contra as forças curdas. No orçamento do Pentágono para 2024, foram alocados US$ 156 milhões para combater o EI, com uma parte considerável desses fundos direcionada ao treinamento, fornecimento de equipamentos e apoio logístico às SDF, incluindo o YPG.
Exército Livre Sírio: Uma Aliança com Interesses Estratégicos
É fundamental não confundir o Exército Livre da Síria (ELS) com o Exército Árabe Sírio, este último sendo a força armada oficial do regime de Bashar al-Assad. O Exército Livre da Síria - ELS, surgiu em 2011 como uma força rebelde composta, inicialmente, por desertores do próprio Exército Árabe Sírio que se recusaram a reprimir civis durante os protestos da Primavera Árabe. Desde então, passou a agrupar diversas facções opositoras ao governo de Damasco. Ao contrário do Exército Sírio, que opera sob o comando direto do regime e com apoio de aliados como Irã e Rússia, o ELS é descentralizado, fragmentado e, por vezes, cooptado por potências estrangeiras interessadas em influenciar os rumos do conflito. Essa diferença estrutural e ideológica torna essencial compreender que, apesar do nome semelhante, os dois grupos atuam em campos opostos na guerra civil Síria.
O ELS opera principalmente no sudeste da Síria, nas proximidades da fronteira com o Iraque e a Jordânia, e também é aliado dos EUA, recebendo apoio para manter a segurança em torno da base militar de al-Tanf.
O Exército Livre da Síria foi anteriormente conhecido como Maghawir Al-Thawra e tem sido treinado e financiado pelos EUA por vários anos. Sua principal função, de acordo com o Pentágono, é combater o EI e garantir a segurança na região, especialmente em Al-Tanf. Embora o ELS tenha desempenhado um papel secundário durante o ataque rebelde de 2024, sua presença no sudeste da Síria continua a ser uma chave importante para os interesses dos EUA na região.
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| Combatentes do ELS a caminho de Afrin. Fonte: picture-alliance/abaca/B. El Haleb |
A Intervenção Secreta e seus Desdobramentos
A Operação Timber Sycamore, coordenada pela CIA a partir de 2013, tornou-se um dos episódios mais emblemáticos — e controversos — da política externa dos Estados Unidos durante a guerra civil síria. Com um orçamento estimado em cerca de US$ 1 bilhão, o programa consistia em treinar, financiar e fornecer armamentos a grupos rebeldes considerados "moderados", com o objetivo de enfraquecer o regime de Bashar al-Assad. A iniciativa teve apoio logístico de aliados regionais, como Arábia Saudita, Jordânia e Turquia, e contou com centros de treinamento em território jordaniano, conforme revelado por reportagens do jornalista Mark Mazzetti, no The New York Times, e por Adam Entous, no The Washington Post.
Apesar das intenções estratégicas, a operação evidenciou falhas estruturais desde o início. A CIA enfrentou dificuldades em rastrear o destino das armas fornecidas, enquanto muitos combatentes desertaram ou foram incorporados a facções jihadistas. A Frente Al-Nusra — braço oficial da Al-Qaeda na Síria — emergiu como uma das forças mais influentes na luta contra o governo Assad, e chegou a se beneficiar direta ou indiretamente de armamentos que originalmente seriam destinados a outros grupos rebeldes, como denunciado por analistas e ex-oficiais entrevistados pela Al Jazeera e pela Reuters.
Em 2017, o presidente Donald Trump decidiu encerrar progressivamente a Operação Timber Sycamore, em uma tentativa de reorientar a estratégia americana na Síria. O fim da operação foi noticiado por Greg Jaffe e Adam Entous, no Washington Post, e confirmado por autoridades da Casa Branca sob condição de anonimato.
Ainda assim, os EUA mantiveram tropas em território sírio, alegando combate ao Estado Islâmico e apoio a forças locais como as Forças Democráticas Sírias (FDS).
Hay’at Tahrir al-Sham: A Evolução de um Grupo Jihadista
O Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), designado como organização terrorista pelos Estados Unidos e outras potências ocidentais, representa uma das facções mais poderosas e controversas no conflito sírio. O grupo surgiu em janeiro de 2017, como resultado da fusão entre a Jabhat Fatah al-Sham — anteriormente conhecida como Jabhat al-Nusra, o antigo ramo da Al-Qaeda na Síria — e diversas outras facções rebeldes islamistas.
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O grupo mudou seu nome para Jabhat Fateh al-Sham em julho de 2016. Fonte: Getty Images |
A Jabhat al-Nusra foi fundada em 2012, durante os estágios iniciais da guerra civil síria, com apoio direto do Estado Islâmico do Iraque, grupo que mais tarde se tornaria o Estado Islâmico (EI). No entanto, em 2013, o líder da al-Nusra, Abu Mohammad AL-Jolani, rejeitou a fusão proposta pelo então líder do EI, Abu Bakr AL-Baghdadi, resultando em uma ruptura que levou a al-Nusra a consolidar seus laços com a Al-Qaeda até 2016. Nesse período, a organização ganhou força e popularidade entre as facções rebeldes por seu papel efetivo no combate ao regime de Bashar Al-Assad.
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A partir de 2016, a Jabhat al-Nusra deu início a um processo estratégico de rebranding — uma reformulação de identidade pública —, adotando o nome Jabhat Fatah al-Sham e anunciando o rompimento formal com a Al-Qaeda. Essa mudança de nome e de posicionamento político foi interpretada por diversos analistas como uma tentativa calculada de ampliar sua legitimidade entre a população síria e reduzir a pressão internacional sobre suas operações. Em 2017, essa reconfiguração organizacional culminou na criação da coalizão Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), composta majoritariamente por ex-integrantes da Al-Nusra, que se consolidaria como a principal força insurgente na província de Idlib, no noroeste da Síria.
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Idlib
foi uma das primeiras províncias a se juntar ao levante de 2011 contra o
governo Assad e foi descrito como um reduto de militantes islâmicos e
jihadistas entre grupos de oposição. O controle sobre a cidade de Idlib
flutuou por vários anos entre as forças GoS e grupos armados
antigovernamentais, até que em 2015 grupos armados anti-governo
conseguiram obter o controle total. Fonte: Comissão de Inquérito Internacional Independente sobre a Síria (COI ONU) |
Embora o HTS afirme ter abandonado a ideologia jihadista transnacional em favor de uma agenda com foco local, sua conduta no terreno revela contradições significativas. Em áreas sob seu controle, são recorrentes os relatos de repressão a civis, assassinatos seletivos de opositores políticos e imposição de interpretações rígidas da Sharia. Além disso, o grupo tem se envolvido em sucessivos confrontos com outras facções rebeldes, numa tentativa clara de consolidar sua hegemonia sobre a oposição armada na região de Idlib.
A percepção internacional sobre o HTS permanece marcada por desconfiança. Em entrevistas, o ex-embaixador dos Estados Unidos para a Síria, James Jeffrey, revelou que o grupo buscou abrir canais de comunicação com Washington na tentativa de ser reconhecido como um ator legítimo no conflito. No entanto, essas iniciativas foram rejeitadas, tanto pelo histórico de violência quanto pelos vínculos anteriores com a Al-Qaeda, que ainda pesam na avaliação de governos ocidentais e organismos multilaterais.
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| James Jeffrey, representante especial dos EUA para o engajamento na Síria, fala em uma coletiva de imprensa. Fonte:
Getty Images. |
Atualmente, o HTS controla grande parte da província de Idlib, um dos últimos redutos da oposição ao regime de Assad. Seu líder, Abu Mohammad Al-Jolani, tem tentado redesenhar a imagem do grupo como um governo de fato, promovendo a ideia de estabilidade e administração civil na região.
No entanto, as ações do HTS continuam sob escrutínio internacional, com muitas nações mantendo sua classificação como uma organização terrorista.
Com o tempo, o HTS foi se distanciando da ideologia jihadista transnacional e procurando se consolidar como uma força dominante dentro da oposição síria.
Apesar da mudança de postura, o HTS continua a ser considerado uma ameaça terrorista pelos EUA e não recebeu apoio direto dos Estados Unidos. No entanto, conforme declarado pelo ex-embaixador dos EUA, James Jeffrey, o HTS fez tentativas de buscar apoio de Washington, que foram prontamente ignoradas, dada a posição dos EUA contra o grupo.
A Complexidade das Alianças e os Efeitos da Intervenção
O envolvimento dos EUA na Síria, particularmente através do apoio às SDF (Forças democráticas da Síria) e ao Exército Livre Sírio, revela um cenário geopolítico complexo e dinâmico. Embora o objetivo declarado seja combater o EI, a realidade é que os EUA se viram, muitas vezes, forçados a lidar com alianças impopulares e grupos com os quais compartilham interesses estratégicos, mas que estão longe de ser aliados ideológicos.
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| Combatentes das forças democráticas da Síria (SDF) em Baghouz, Síria em março de 2019. Fonte: AFP. |
Além disso, a Operação Timber Sycamore e o papel do HTS reforçam inconstância da intervenção externa na Síria, onde alianças e interesses políticos podem mudar rapidamente, impactando diretamente os resultados no terreno. A história recente da Síria demonstra que, embora os EUA tenham desempenhado um papel crucial na derrota do EI, suas ações também têm implicações significativas e, por vezes, contraditórias, no longo prazo.
A Operação Timber Sycamore não é um caso isolado na história das intervenções secretas americanas. Como as operações de apoio aos mujahidins no Afeganistão nos anos 1980, a operação nos trouxe lições sobre o risco de perder o controle sobre os aliados locais e sobre o longo prazo das consequências dessas ações. A experiência da Guerra do Vietnã também serve como um alerta sobre a complexidade de se envolver em guerras por procuração e o impacto que isso tem na estabilidade de um País a longo prazo.
A Operação Sycamore é um exemplo claro de guerra por procuração, em que potências estrangeiras utilizam grupos locais para alcançar objetivos estratégicos sem se envolver diretamente no combate. Conduzida pela CIA, a operação teve como foco treinar e armar rebeldes sírios considerados moderados, com o objetivo de enfraquecer o regime de Bashar al-Assad e conter a influência iraniana e russa na região. Nesse contexto, os Estados Unidos e seus aliados usaram os rebeldes como intermediários em uma disputa geopolítica mais ampla, fornecendo recursos como armamentos e suporte logístico, enquanto adversários como a Rússia apoiavam Assad. Esse tipo de intervenção reflete a complexidade do conflito sírio, no qual interesses estrangeiros moldaram o campo de batalha local, transformando o País em palco de uma guerra travada por terceiros.
O sigilo em torno da Operação Timber Sycamore permanece até hoje. Detalhes cruciais como o montante total de apoio financeiro, a variedade de armas transferidas, a profundidade do treinamento fornecido e os grupos específicos que receberam suporte ainda não são completamente conhecidos. Essa falta de clareza contribui para debates acalorados sobre as consequências de longo prazo da intervenção americana na guerra civil síria e o impacto geopolítico da operação. Para muitos analistas, o legado de Timber Sycamore reflete não apenas a complexidade do conflito sírio, mas também os riscos inerentes a operações secretas que, muitas vezes, resultam em consequências imprevisíveis.
O Tabuleiro Armado da Guerra civil Síria: milícias, exércitos e alianças.
Exército Árabe Sírio (EAS): O EAS serviu como o principal braço militar do regime de Bashar al-Assad, desempenhando um papel central na repressão às revoltas populares iniciadas em 2011 e na contenção de insurgências ao longo da guerra civil Síria. Durante os primeiros anos do conflito, o Exército enfrentou desafios significativos, incluindo deserções em massa, perdas territoriais substanciais e uma capacidade operacional comprometida.
Em 2015, a intervenção militar direta da Rússia e o apoio estratégico do Irã proporcionaram ao EAS uma reestruturação significativa. Essa assistência externa incluiu treinamento, fornecimento de equipamentos e suporte em operações de combate, permitindo ao EAS recuperar territórios estratégicos como Aleppo, Ghouta Oriental e Daraa. No entanto, essas campanhas foram frequentemente acompanhadas por acusações de violações de direitos humanos e crimes de guerra.
Em dezembro de 2024, o regime de Bashar al-Assad foi deposto após uma ofensiva coordenada por grupos de oposição, incluindo o Hay'at Tahrir al-Sham (HTS) e o Exército Nacional Sírio (SNA), apoiado pela Turquia. A captura de Damasco marcou o colapso do governo de Assad, que fugiu para a Rússia, onde recebeu asilo .
Com a dissolução do regime, o EAS efetivamente deixou de existir como uma força militar unificada. Remanescentes das forças leais a Assad ou se dispersaram ou foram integrados em milícias locais, enquanto alguns cruzaram para o Iraque .
Em janeiro de 2025, a liderança interina da Síria anunciou a criação de um novo exército nacional, visando unificar diversas milícias e grupos armados sob um comando centralizado. Este esforço busca estabelecer uma força militar coesa e representativa, capaz de garantir a segurança e a estabilidade do País.
A formação deste novo exército enfrenta desafios significativos, dada a diversidade ideológica e operacional das facções envolvidas. O Ministério da Defesa sírio está trabalhando para integrar esses grupos, com o objetivo de criar uma estrutura militar que represente os diversos segmentos da sociedade síria.
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A bandeira do exército. Imagem: MrPenguin20 |
Forças de Defesa Nacional (FDN): Criadas em 2012 com o apoio do Irã e sob orientação da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), as Forças de Defesa Nacional (FDN) surgiram como uma resposta direta à crescente incapacidade do Exército Árabe Sírio (EAS) de manter o controle territorial frente à multiplicação dos focos de resistência armada. Compostas majoritariamente por civis pró-governo, essas milícias passaram a ser recrutadas, armadas e treinadas para atuar em conjunto com as forças regulares — especialmente em áreas urbanas e mistas, onde o conhecimento do terreno e dos habitantes oferecia vantagens táticas importantes.
Seu modelo operacional foi inspirado nos Basij iranianos, e rapidamente se consolidaram como uma força auxiliar decisiva para a manutenção do regime de Bashar Al-Assad. Em várias localidades, como Homs, Aleppo e Damasco, a FDN assumiu funções de patrulhamento, combate urbano e repressão política, frequentemente substituindo ou complementando as forças regulares do Exército.
Apesar de seu papel relevante na contenção da insurgência, a atuação das FDN é marcada por graves denúncias de abusos contra civis, incluindo execuções sumárias, saques e prisões arbitrárias. Relatórios da ONU e de organizações como Human Rights Watch documentam uma série de violações cometidas por essas milícias, que operam com ampla autonomia e forte lealdade local. Esse tipo de estrutura descentralizada e baseada em lealdades locais acabou por favorecer dinâmicas de milicianismo, nas quais as FDN passaram a operar como autoridades paralelas em diversos bairros e vilarejos. Em muitas dessas áreas, a distribuição de favores, proteção e recursos passou a depender do alinhamento com líderes locais das milícias, o que consolidou práticas clientelistas e corroeu ainda mais o já fragilizado aparato estatal sírio.
Nos últimos anos, houve um enfraquecimento gradual das FDN, com relatos de desmobilização em algumas regiões e incorporação parcial de seus membros às novas estruturas de segurança organizadas com apoio russo
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| Forças de Defesa Nacional. Imagem: MrPenguin20. |
Hezbollah: O grupo xiita libanês Hezbollah, aliado estratégico do Irã, desempenha um papel decisivo no tabuleiro militar da Síria desde sua entrada formal no conflito em 2013. Justificando sua intervenção como uma medida preventiva para proteger santuários xiitas e combater o “terrorismo takfiri”, o Hezbollah forneceu milhares de combatentes experientes ao lado do regime de Bashar al-Assad, participando diretamente de ofensivas cruciais como a reconquista de Qusair, a batalha por Aleppo e o cerco de Zabadani.
Mais do que um apoio tático, o envolvimento do Hezbollah trouxe uma dimensão transnacional à guerra, fortalecendo o chamado “eixo de resistência” — aliança geopolítica entre Irã, Síria e o próprio grupo libanês, voltada a conter a influência dos EUA, de Israel e das potências do Golfo na região.
Com o passar dos anos, o Hezbollah consolidou posições permanentes dentro da Síria, especialmente nas regiões próximas à fronteira libanesa, e manteve-se como uma força de combate relevante, apesar das perdas sofridas. Informações recentes apontam que o grupo continua presente em solo sírio até 2025, ainda que em menor escala e com foco na proteção de rotas logísticas e postos avançados sob coordenação iraniana.
Seu papel militar também contribuiu para o fortalecimento da presença iraniana no Levante, aumentando as tensões com Israel — que, em resposta, intensificou seus bombardeios contra alvos ligados ao Hezbollah e à Guarda Revolucionária Iraniana em território sírio.
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Hezbollah حزب الله Ḥizbu 'llāh. Fonte: Desconhecida. |
Liwa Fatemiyoun: A brigada Liwa Fatemiyoun, composta majoritariamente por voluntários afegãos da etnia hazara e de orientação xiita, representa uma das mais notórias milícias estrangeiras a atuar sob comando iraniano no conflito sírio. Formada e treinada pela Força Quds da Guarda Revolucionária do Irã (IRGC), essa força paramilitar foi mobilizada como parte da estratégia de Teerã para expandir sua influência regional e garantir a sobrevivência do regime de Bashar al-Assad.
Recrutados em campos de refugiados no Irã, muitos combatentes da Fatemiyoun têm origem humilde e enfrentam condições precárias de vida, o que torna o serviço militar uma via de renda — em alguns casos, até com a promessa de cidadania iraniana ou compensações financeiras para as famílias em caso de morte em combate. Estima-se que milhares de afegãos tenham sido mobilizados desde 2014, sendo empregados em algumas das batalhas mais sangrentas da guerra, como em Aleppo, Palmira e Deir ez-Zor.
A atuação da Liwa Fatemiyoun foi marcada por sua disciplina em campo, mas também por acusações de violações aos direitos humanos. A milícia operava quase sempre sob comando direto iraniano e articulada com outras forças como o Hezbollah e milícias iraquianas aliadas. Em 2025, a presença de remanescentes da brigada ainda é registrada em áreas de interesse estratégico iraniano, especialmente no eixo Damasco-Deir ez-Zor.
Sua permanência no território sírio reflete a consolidação de uma infraestrutura militar transnacional coordenada pelo Irã, projetando poder por meio de milícias estrangeiras e redes logísticas que ultrapassam fronteiras estatais.
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Liwa Fatemiyoun Fonte: O Instituto Washington
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Liwa Zaynabiyoun: Formada por combatentes xiitas oriundos do Paquistão, principalmente da etnia hazara e da região de Parachinar, a Liwa Zaynabiyoun é uma unidade paramilitar mobilizada pelo Irã para atuar no teatro de operações sírio. Assim como a Fatemiyoun, essa brigada atua sob coordenação da Força Quds da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), com o objetivo declarado de proteger os santuários xiitas na Síria — notadamente o de Sayyidah Zaynab, nos arredores de Damasco.
Recrutados principalmente entre comunidades xiitas vulneráveis, muitos combatentes da Zaynabiyoun foram aliciados em solo iraniano, onde viviam como trabalhadores migrantes ou refugiados. A promessa de pagamento, status legal ou benefícios para familiares tem sido uma tática recorrente do aparato iraniano para mobilizar mão de obra armada estrangeira.
Desde 2015, a milícia vem sendo empregada em missões de apoio a operações do Exército Árabe Sírio e de outras milícias xiitas aliadas, participando de batalhas em Aleppo, Damasco e Daraa. Seu envolvimento também foi observado na proteção de rotas logísticas iranianas que cruzam o território sírio rumo ao Líbano — parte fundamental do chamado "Eixo da Resistência" promovido por Teerã.
Apesar de ser menos numerosa que a Fatemiyoun, a Zaynabiyoun possui um simbolismo importante dentro da estratégia iraniana de exportação da ideologia revolucionária e da construção de um corredor de influência xiita. Sua atuação, porém, também é alvo de críticas de organizações de direitos humanos, que denunciam o recrutamento de menores de idade e o envolvimento em execuções extrajudiciais.
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| Liwa Zaynabiyoun. Fonte: Instituto para Assuntos Contemporâneos |
Grupos rebeldes (oposição ao regime)
Exército Nacional Sírio (ENS): Estruturado com apoio direto da Turquia, o Exército Nacional Sírio (ENS) é uma coalizão de grupos rebeldes formada a partir de 2017, sucedendo o antigo Exército Sírio Livre (ESL) nas áreas sob influência turca. O ENS é composto por facções sunitas pró-Ancara, incluindo antigos combatentes da oposição moderada e grupos islamistas, com atuação concentrada principalmente no norte da Síria, nas regiões de Afrin, Tal Abyad, Ras al-Ayn e partes do campo de Aleppo.
Seu principal objetivo é duplo: conter a expansão das Forças Democráticas Sírias (SDF) lideradas pelos curdos, especialmente o YPG, e ao mesmo tempo manter pressão militar sobre posições do regime de Bashar al-Assad. O ENS tem operado como força terrestre auxiliar nas ofensivas turcas, como as operações "Ramo de Oliveira" (2018), "Fonte de Paz" (2019) e em ações mais recentes de estabilização nas zonas de ocupação turca, onde exerce funções de policiamento, segurança e controle populacional.
Apesar de ser promovido como um embrião de "exército unificado da oposição", o ENS é amplamente fragmentado, sofrendo com rivalidades internas, acusações de corrupção, saques, violações de direitos humanos e conflitos entre suas subdivisões. Relatórios de organizações internacionais e de veículos investigativos apontam para práticas sistemáticas de extorsão, desaparecimentos forçados e repressão a minorias étnicas e religiosas — particularmente curdos e yazidis — nas áreas sob seu controle.
A relação com Ancara é marcadamente assimétrica: os combatentes do ENS recebem treinamento, armamento e salários pagos pela Turquia, que também interfere diretamente em nomeações e decisões operacionais. O grupo é, na prática, uma extensão das ambições geopolíticas turcas no norte da Síria, funcionando como instrumento de contenção do nacionalismo curdo e de projeção de poder regional.
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| Exército Nacional Sírio. Fonte: BBC Brasil. |
Exército Livre da Síria (ELS): Fundado em 2011 por desertores do Exército Árabe Sírio (EAS) e civis armados contrários ao regime de Bashar al-Assad, o Exército Livre da Síria (ELS) foi a primeira tentativa organizada de estruturar uma força militar de oposição. Nos anos iniciais da guerra, o ELS simbolizou a ala “moderada” da revolta síria, com apoio político e logístico de potências ocidentais e países do Golfo, sendo visto como a principal alternativa ao regime em um momento em que ainda havia esperança de transição política. Contudo, a estrutura do ELS sempre foi descentralizada e informal, composta por brigadas regionais com diferentes lideranças, agendas locais e graus de profissionalização. Essa fragmentação impediu a construção de uma cadeia de comando unificada e dificultou a coordenação de ofensivas em larga escala, tornando o grupo vulnerável ao enfraquecimento progressivo diante do avanço de forças mais coesas e ideologicamente motivadas, como a Frente al-Nusra (afiliação da Al-Qaeda) e, posteriormente, o Estado Islâmico.
Com o tempo, o ELS perdeu protagonismo no campo de batalha, viu parte de suas brigadas se fundirem com formações islamistas mais radicais ou serem absorvidas por outras coalizões, como o Exército Nacional Sírio (ENS), apoiado pela Turquia. Embora ainda existam grupos que se identificam com a sigla ELS em algumas regiões, especialmente sob tutela turca, sua influência atual é limitada e amplamente simbólica.
O declínio do ELS reflete o colapso da oposição armada “moderada” na Síria e ilustra as dificuldades enfrentadas por projetos insurgentes sem apoio logístico sustentável, sem coesão ideológica e submetidos à dinâmica de competição entre potências externas.
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| "Bandeira
do Exército Livre da Síria (ELS) — símbolo inicial da oposição armada
ao regime de Assad. Representava a tentativa de unificar desertores e
civis em torno de uma alternativa republicana e moderada, antes da
fragmentação e ascensão de grupos jihadistas. Fonte: Desconhecida. |
Hay’at Tahrir al-Sham (HTS): Organização jihadista salafista formada em 2017, após a fusão de diversas facções islamistas — incluindo a Jabhat Fatah al-Sham, nome adotado anteriormente pela Frente al-Nusra, braço oficial da Al-Qaeda na Síria. Embora o grupo tenha anunciado o rompimento com a rede fundada por Bin Laden, analistas internacionais e agências de inteligência ocidentais continuam vendo a mudança como uma manobra estratégica de rebranding.
Atualmente, o HTS exerce controle territorial sobre grande parte da província de Idlib, no noroeste da Síria, onde tenta se apresentar como uma autoridade de fato. Seu líder, Abu Mohammad Al-Jolani, busca construir uma imagem de governo local relativamente estável e eficiente, promovendo uma administração civil paralela. No entanto, relatos de repressão a opositores, prisões arbitrárias e imposição rígida da lei islâmica permanecem comuns nas áreas sob seu domínio.
Apesar dos esforços para distanciar-se da Jihad global, o HTS continua listado como organização terrorista por países como os Estados Unidos, Rússia e Turquia, além da ONU. O grupo também tem enfrentado confrontos com outras milícias jihadistas e rebeldes rivais, consolidando sua hegemonia na oposição armada ao regime sírio, mas mantendo uma postura ambígua em relação a atores internacionais.
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| Hay’at Tahrir al-Sham (HTS): Organização jihadista salafista formada em 2017, após a fusão de diversas facções islamistas. Fonte: SARA ALMARZOO QI Director, Sawab Center |
Grupos jihadistas transnacionais
Estado Islâmico (EI ou ISIS): Organização terrorista sunita de orientação jihadista salafista, que ganhou projeção global ao declarar um “califado” em junho de 2014, controlando amplas regiões da Síria e do Iraque. Liderado por Abu Bakr Al-Baghdadi até sua morte em 2019, o grupo ficou conhecido por sua propaganda extremamente violenta, execuções públicas, escravidão sexual e destruição de patrimônio histórico.
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Tiros
devastaram uma região perto da aldeia de Barisha, no noroeste da Síria,
depois que um ataque militar dos EUA na mesma província levou à morte
do líder do Estado Islâmico. Fonte: Getty Images |
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| Captura de vídeo que mostra o ataque de forças especiais dos EUA à casa de Al Bagdadi, em 26 de outubro. Reuters |
Entre 2014 e 2019, o EI estabeleceu uma estrutura de governo rudimentar, cobrando impostos, administrando serviços básicos e impondo uma versão ultrarradical da Sharia. Foi combatido por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, pelas Forças Democráticas Sírias (FDS), pelo exército iraquiano e pelo regime sírio.
A partir da queda territorial de seu “califado” em 2019, o grupo perdeu capacidade de governar regiões inteiras, mas continua ativo como uma insurgência — promovendo atentados, emboscadas e operações clandestinas em zonas rurais e desertos da Síria, do Iraque e de outros países onde estabeleceu filiais, como Afeganistão (EI-Khorasan) e África (EI -Oeste da África).
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| O Estado Islâmico perdeu o controle da maior parte do território que
invadiu, incluindo os redutos de Mossul, no Iraque, e Raqqa, na Síria. |
O EI é considerado uma organização terrorista por praticamente toda a comunidade internacional, incluindo a ONU, Estados Unidos, União Europeia, Rússia, Irã e China.
Hurras Al-Din: Facção jihadista surgida em 2018 como dissidência do Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), após este romper publicamente com a Al-Qaeda. Composta por veteranos jihadistas sírios e estrangeiros, o grupo manteve fidelidade formal à Al-Qaeda Central, adotando uma postura mais ideológica e menos pragmática em comparação ao HTS.
O Hurras Al-Din atua principalmente na região de Idlib e em áreas rurais do norte da Síria, com foco em táticas de guerrilha, atentados seletivos e emboscadas contra forças do regime sírio, da Rússia e de outras facções rivais. Seu objetivo declarado é o estabelecimento de um emirado islâmico baseado na Sharia, sem concessões políticas ou alianças com atores estatais.
Apesar de sua menor capacidade operacional e territorial em relação ao HTS, o grupo é considerado altamente perigoso por sua disciplina doutrinária, conexão com a Al-Qaeda e experiência de combate adquirida em diversos conflitos, como os do Afeganistão, Iraque e Chechênia.
O Hurras Al-Din é classificado como organização terrorista por países como os Estados Unidos, e está na lista de alvos prioritários da coalizão internacional devido à sua ligação direta com a Al-Qaeda.
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Uma
foto de um vídeo mostrando membros do Hurras al-Din participam de um
treinamento em um acampamento na província de Idlib, dezembro de 2019
(Hurras al-Din). Fonte: Walid Al Nofal
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Forças curdas e aliadas
YPG (Unidades de Proteção Popular): Milícia curda estabelecida em 2011 como o braço armado do Partido da União Democrática (PYD), considerado o principal representante político dos curdos sírios. Com uma estrutura fortemente influenciada pela ideologia do confederalismo democrático — proposta por Abdullah Öcalan, líder do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) — o YPG defende uma organização social baseada na autonomia local, igualdade de gênero e pluralismo étnico.
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| Abdullah Öcalan, líder do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). Fonte: RA-L ZIBECHI |
O grupo ganhou projeção internacional ao se tornar uma das forças mais eficazes na luta contra o Estado Islâmico (EI), especialmente durante batalhas decisivas como a de Kobane (2014-2015) e a campanha para libertar Raqqa (2017), então capital de facto do califado. O sucesso do YPG nesses combates levou à formação das Forças Democráticas Sírias (SDF), uma coalizão multiétnica liderada pelos curdos e apoiada militarmente pelos Estados Unidos.
Apesar do reconhecimento internacional como força anti jihadista, o YPG enfrenta forte oposição da Turquia, que acusa o grupo de ser uma extensão síria do PKK — organização classificada como terrorista por Ancara, Washington e a União Europeia. Em consequência disso, o YPG foi alvo de várias ofensivas turcas no norte da Síria, principalmente em regiões como Afrin (2018) e Ras al-Ain (2019).
Atualmente, o YPG segue sendo o componente militar central das SDF e controla grandes faixas do norte e nordeste da Síria, onde mantém administrações autônomas conhecidas como Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES) ou “Rojava”.
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| A milícia curda Unidades de Proteção Popular (YPG). Fonte: Desconhecida. |
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| Combatentes do YPJ (Unidades de Proteção das Mulheres), símbolo da resistência curda contra o Estado Islâmico. Formadas por voluntárias, essas mulheres não apenas empunham armas, mas desafiam estruturas opressoras de grupos radicais enraizadas, tornando-se ícones em meio ao caos da guerra. Fonte: Rede social - Kurdish Female Fighters/YPJ. |
FDS (Forças Democráticas Sírias): Formada em 2015, a FDS é uma coalizão militar multiétnica composta majoritariamente por curdos das YPG (Unidades de Proteção Popular), além de combatentes árabes, assírios, turcomanos e outras minorias locais. Liderada politicamente pelo Conselho Democrático Sírio e militarmente pelas YPG, a aliança surgiu como resposta à ameaça do Estado Islâmico e ganhou proeminência internacional após se tornar o principal parceiro local da coalizão liderada pelos Estados Unidos no combate ao grupo jihadista.
Com treinamento, apoio aéreo e armamentos fornecidos por Washington, as FDS desempenharam papel central na campanha para desmantelar o "califado" do ISIS, culminando na reconquista de Raqqa — então capital de facto do grupo extremista — em 2017. Além da atuação militar, as FDS assumiram a administração de vastos territórios no norte e nordeste da Síria, adotando um modelo político descentralizado baseado no confederalismo democrático, com foco em diversidade étnica, igualdade de gênero e autogestão local.
Apesar dos avanços, a FDS enfrenta desafios contínuos: pressões militares da Turquia, tensões com o regime sírio e dificuldades para manter o apoio internacional em meio a reconfigurações geopolíticas na região. Ainda assim, permanece como uma das forças mais organizadas e influentes na Síria contemporânea, especialmente nas zonas anteriormente ocupadas pelo Estado Islâmico.
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| Forças Democráticas Sírias - Hêzên Sûriya Demokratîk. Fonte: Fugee Camp. |
Contexto Geopolítico Mais Amplo
A resposta internacional à operação foi imediata e profundamente polarizada, refletindo os interesses conflitantes das potências envolvidas na guerra por procuração na Síria. De um lado, os Estados Unidos e a Arábia Saudita viam a derrubada de Bashar al-Assad como essencial para conter a crescente influência iraniana e restaurar uma suposta “ordem regional” sob seus termos. Para Washington, a deposição de Assad também representava a oportunidade de enfraquecer um regime que historicamente se alinhou com inimigos estratégicos dos EUA, como o Hezbollah e o próprio Irã. Riad, por sua vez, via na queda do regime alauíta um golpe direto na espinha dorsal do eixo xiita que se estende de Teerã a Beirute.
Do outro lado, o Irã e a Rússia enxergavam qualquer tentativa de remover Assad como uma ameaça direta às suas esferas de influência. Moscou não apenas manteve seu apoio diplomático, como também consolidou sua presença militar com a entrada oficial no conflito em 2015, por meio de bombardeios aéreos que favoreceram diretamente as forças pró-Assad. A base de Hmeimim, na costa mediterrânea, se transformou em símbolo da projeção militar russa no Oriente Médio, algo não visto desde a Guerra Fria.
![Vladimir Putin visita a Base Aérea de Hmeimim na Síria em 11 de setembro de 2017 [Kremlin.ru]](https://i0.wp.com/www.monitordooriente.com/wp-content/uploads/2021/02/Hmeimim-airbase-e1569671420910.jpg?fit=920%2C567&ssl=1) |
Vladimir Putin visita a Base Aérea de Hmeimim na Síria em 11 de setembro de 2017. Fonte: Kremlin.ru
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Uma imagem de satélite mostrando aviões na base aérea de Hmeimim em 15 de dezembro. Fonte: Produtos da Maxar Technologies. |
O Irã, por sua vez, aprofundou significativamente sua presença no conflito ao ampliar a logística bélica e o financiamento de milícias xiitas alinhadas a seus interesses estratégicos. Entre essas forças, o Hezbollah libanês — já experiente em combates assimétricos contra Israel — se destacou como peça central no apoio terrestre ao regime de Assad. Combatentes da organização foram mobilizados para diversas frentes, especialmente em áreas urbanas estratégicas como Aleppo e Qusayr, contribuindo diretamente para a virada militar a favor do governo sírio.
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Ofensiva principal do governo contra Al-Qusayr de 4 de abril - 8 de junho de 2013. Fonte: Cedric Labrousse's |
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Áreas controladas pelo Regime Assad Áreas controladas pela Oposição Síria
Áreas controladas pelos curdos
Áreas controladas pelo Estado Islâmico. Fonte: BlueHypercane761 |
Essa atuação se insere na doutrina iraniana de profundidade estratégica, conceito que visa projetar poder para além das fronteiras nacionais, criando zonas de influência capazes de conter pressões externas e proteger os ativos da República Islâmica. A Síria, nesse contexto, funciona como elo vital entre Teerã e o Líbano, permitindo à Guarda Revolucionária manter um corredor terrestre contínuo até o Mediterrâneo. Além disso, essa presença serve como dissuasão direta contra rivais regionais, como Israel — que passou a intensificar bombardeios aéreos contra posições iranianas e depósitos de armas na Síria — e a Arábia Saudita, tradicional inimiga da influência xiita no Oriente Médio.
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| 07.dez.2021 - Israel bombardeia carga de armas iranianas em porto de Latakia, na Síria. Fonte: Imagem: SANA / Folheto via REUTERS. |
Ao usar milícias como instrumento de política externa, o Irã não só reduziu seu custo humano direto no conflito, como também reforçou sua capacidade de influenciar o equilíbrio regional sem depender exclusivamente de forças convencionais. Essa estratégia híbrida, combinando guerra por procuração com presença militar seletiva, foi moldada pelas experiências da guerra Irã - Iraque (1980–88) e se tornou um pilar da atuação iraniana em zonas de conflito nos últimos anos.
Nesse cenário, Qassem Soleimani, então comandante da Força Quds, braço de operações externas da Guarda Revolucionária Iraniana, emergiu como o principal arquiteto da resposta iraniana à estratégia americana. Sua missão era clara: garantir a sobrevivência do regime de Assad, considerado peça-chave na rede de alianças regionais do Irã.
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| O major general Qasem Soleimani, Comandante da Força Quds do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Irã (IRGC). Fonte: shafaqna |
Enquanto a CIA armava e treinava opositores, Soleimani coordenava a chegada de combatentes do Hezbollah libanês, de milícias xiitas iraquianas e até de voluntários afegãos da brigada Fatemiyoun. Ele não apenas estabeleceu uma rede militar integrada para defender o regime, como também garantiu o fluxo constante de armamentos através de rotas aéreas e terrestres que conectavam Teerã, Bagdá, Damasco e Beirute.
Além disso, Soleimani foi pessoalmente ao front em momentos críticos, como durante o cerco a Aleppo, tornando-se uma figura - chave entre os aliados de Assad e um símbolo da contraofensiva ao projeto ocidental de regime change na Síria. O termo "Regime Change", amplamente utilizado no meio geopolítico, se refere à estratégia de interferência externa para provocar a queda de um governo considerado hostil ou indesejável aos interesses de determinadas potências — neste caso, os Estados Unidos e aliados do Golfo. A Operação Timber Sycamore, liderada pela CIA, integrava esse esforço ao canalizar armas e treinamento a grupos insurgentes que buscavam depor Assad. A resposta de Soleimani foi estrutural: mobilizou milícias de diversos países, articulou ofensivas terrestres e sustentou militarmente o regime sírio nos momentos mais delicados da guerra. Sua atuação colocou o Irã como pilar essencial da coalizão pró-Assad, ao lado da Rússia, que entrou oficialmente no conflito em 2015 com poder aéreo massivo e apoio estratégico no terreno.
Assim, embora não estivesse diretamente envolvido no planejamento ou execução da Operação Timber Sycamore, Soleimani foi o principal antagonista de seus objetivos estratégicos — ele representava exatamente aquilo que os EUA e seus aliados tentavam neutralizar: o eixo de influência Irã-Síria-Hezbollah, denominado o que o Irã chama do eixo da resistência.
Ao mesmo tempo, o apoio americano às milícias curdas — especialmente às Unidades de Proteção Popular (YPG), vinculadas ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) — gerou um novo eixo de tensão, desta vez com a Turquia, membro da OTAN. Ancara, sob o governo de Recep Tayyip Erdoğan, sempre deixou claro que considera qualquer braço armado do movimento curdo como uma ameaça existencial à sua segurança nacional. A consolidação de uma entidade autônoma curda no norte da Síria era, para os turcos, inaceitável — não apenas por razões territoriais, mas por temores históricos de fragmentação e insurgência dentro do próprio território turco, especialmente nas províncias fronteiriças.
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| Presidente Recep Tayyip Erdogan. Fonte: Direcção da Agência de Polícia / Agência de Tecnologia da Informação |
Esse cenário escancarou um dos grandes paradoxos da guerra na Síria: dois aliados históricos — Estados Unidos e Turquia — se encontrando em lados opostos do conflito, operando com objetivos estratégicos conflitantes. Enquanto Washington via as YPG como a força terrestre mais eficaz contra o Estado Islâmico, Ancara enxergava nelas a extensão do PKK, organização que combate desde a década de 1980 em um conflito interno sangrento. A cooperação americana com os curdos foi interpretada por Erdoğan como um ato de traição dentro da própria aliança atlântica, e alimentou um sentimento antiamericano que reverberou na política doméstica turca.
A tensão escalou com operações militares turcas diretas contra áreas controladas pelas milícias curdas — como as ofensivas Escudo do Eufrates (2016), Ramo de Oliveira (2018) e, mais tarde, Fonte de Paz (2019). As ações visavam criar uma “zona de segurança” livre da presença curda ao longo da fronteira, mas também serviram para Erdoğan projetar força no tabuleiro regional e fortalecer seu discurso nacionalista internamente. A partir daí, a Turquia começou a recalibrar suas alianças, se aproximando pontualmente da Rússia em negociações bilaterais sobre o norte da Síria, mesmo com interesses divergentes — uma manobra que evidenciou o quanto a guerra síria embaralhou linhas ideológicas, alianças formais e blocos geopolíticos tradicionais.
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Forças terrestres turcas em sua
ofensiva na província de Afrin, no norte da Síria em 2018, afirmou o exército, após a Turquia atacar uma
milícia curda apoiada pelos EUA. Foto: STRINGER / REUTERS.
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No fim, o caso dos curdos na Síria não foi apenas uma questão local, mas um símbolo do descompasso entre os interesses de Washington e Ancara, além de um retrato da fragmentação do próprio Ocidente diante de um conflito onde os adversários — como Rússia e Irã — operavam com clareza estratégica, enquanto os aliados nem sempre sabiam de que lado estavam.
A Operação Timber Sycamore não foi apenas uma ação isolada de apoio à oposição síria, mas parte de um jogo geopolítico muito mais amplo. A queda do regime de Bashar al-Assad representava, para os Estados Unidos e seus aliados, a oportunidade de enfraquecer a influência do Irã e da Rússia no Oriente Médio. O Irã, através do apoio à Síria e do financiamento do Hezbollah, consolidava um corredor estratégico até o Líbano, enquanto a Rússia mantinha uma Base Naval em Tartus, garantindo sua presença militar no Mediterrâneo. Para Washington, Assad representava o elo central dessa rede, e sua remoção poderia desarticular a estratégia do Irã e da Rússia de projetação de poder regional .
Além disso, os EUA buscavam impedir a consolidação de um "eixo de resistência" composto por Irã, Síria e Hezbollah, que desafiava diretamente os interesses americanos e israelenses na região. No entanto, essa intervenção foi percebida pela Rússia como uma tentativa de enfraquecer sua influência histórica no Oriente Médio, levando Moscou a reforçar seu apoio a Assad. Nesse contexto, a Timber Sycamore funcionava como uma peça em um tabuleiro onde potências globais e regionais disputavam poder, transformando a Síria em um campo de batalha para guerras por procuração.
Conflito de Interesses Entre os Aliados: Apesar do objetivo comum de derrubar Assad, os aliados envolvidos tinham agendas próprias. A Turquia, por exemplo, estava mais preocupada com o fortalecimento das forças curdas sírias, que viam como uma extensão do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), um grupo que Ancara considera terrorista. A estratégia turca focava em impedir a formação de um corredor curdo ao longo de sua fronteira sul, o que levou a episódios de ataques diretos contra milícias curdas apoiadas pelos EUA.
O Catar e a Arábia Saudita desempenharam papéis centrais — porém profundamente contraditórios — no financiamento e armamento da oposição síria. Apesar de compartilharem o objetivo estratégico de derrubar Bashar al-Assad e, com isso, reduzir a influência do Irã na região, suas apostas recaíram sobre grupos distintos, o que acentuou ainda mais a fragmentação das forças insurgentes.
A Arábia Saudita, seguindo sua tradição de apoio a grupos salafistas, canalizou recursos principalmente para milícias como o Jaysh al-Islam, ativo na região de Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco. Fundado em 2013 por Zahran Alloush, o grupo carregava uma agenda fortemente sectária e defendia abertamente a imposição de uma versão wahhabita da sharia. Documentos obtidos pelo New York Times e pelo Washington Post entre 2015 e 2016 indicam que Riad, através de sua inteligência militar, direcionava apoio financeiro e bélico a esses grupos como forma de criar um contrapeso ao Hezbollah e à Guarda Revolucionária Iraniana.
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| Em 25 de abril de 2020., o canal Telegram do grupo publicou mais de duas dúzias
de imagens de combatentes que conduziam treinamento militar intitulado
“Parte dos cursos de preparação conduzidos pelo Exército do Islã em
Jerusalém”. Jaysh Al-Islam. Fonte: Long war journal. |
Por outro lado, o Catar, utilizando sua diplomacia mais flexível e redes como a Al Jazeera, preferiu investir em grupos com vínculos à Irmandade Muçulmana, como o Ahrar al-Sham, além de facções locais ligadas a conselhos civis e milícias moderadas. Segundo uma investigação conduzida pelo Brookings Institution (2017), Doha via na Irmandade um aliado potencial para construir uma Síria pós-Assad que pudesse equilibrar islamismo e governança institucional. O apoio catariano incluía dinheiro, armas leves e apoio logístico, especialmente via a fronteira turca.
Essa disputa subterrânea entre sauditas e catarianos — que já vinha se acirrando desde a Primavera Árabe e culminaria no bloqueio diplomático ao Catar em 2017 — encontrou na Síria um campo fértil para projeção de poder por procuração. O resultado foi um campo de batalha pulverizado por facções que, muitas vezes, não apenas lutavam contra o regime, mas também entre si. Confrontos entre o Jaysh AL-Islam e o Faylaq al-Rahman (apoiado pelo Catar) em 2016 ilustram bem essa cisão.
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| Jaysh al-Islam, Exército do Islã. Fonte: Desconhecida. |
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| Official logo of the Faylaq al-Rahman Legion. Fonte: Desconhecida. |
Na prática, a falta de um comando centralizado entre os grupos rebeldes — somada à rivalidade silenciosa entre potências do Golfo, como Arábia Saudita e Catar — impediu a formação de uma frente minimamente coesa contra Damasco. Cada facção, muitas vezes com visões antagônicas de futuro, recebia financiamento, armas e orientação política conforme os interesses imediatos de seus patrocinadores. O resultado foi um cenário de fragmentação crônica, onde a insurgência passou a disputar poder entre si antes mesmo de ameaçar o núcleo do regime. Assad e seus aliados exploraram esse vácuo com precisão cirúrgica. Reconfiguraram o discurso: em vez de um Estado sitiado por uma revolta popular, passaram a se apresentar como o último bastião institucional diante de milícias sectárias armadas por petromonarquias. Essa narrativa, construída com apoio ativo de Moscou e Teerã, ganhou tração em fóruns internacionais — especialmente após o avanço de grupos jihadistas como a Frente al-Nusra e, posteriormente, o Estado Islâmico. Assim, o regime transformou a desordem do campo rebelde em legitimidade política, desidratando a oposição aos olhos do Ocidente e ampliando o custo internacional de uma eventual derrubada de Assad. A guerra, que começou com protestos civis legítimos, foi sequestrada por uma lógica de guerra por procuração. E no meio dessa disputa, até aliados históricos — como EUA e Turquia — passaram a operar em lados opostos, enquanto os sírios assistiam seu território se tornar campo de teste de agendas externas e rivalidades intra sunitas.
Fluxo de Armas e Desvio de Recursos: A logística de armamentos foi, sem dúvida, um dos pontos mais sensíveis e controversos da Operação Timber Sycamore. As rotas de contrabando seguiam, em sua maioria, por canais clandestinos que atravessavam a Turquia e a Jordânia, com armamentos oriundos dos Estados Unidos, da Arábia Saudita e até de arsenais iugoslavos da era soviética. Muitos desses equipamentos foram adquiridos no mercado negro, com intermediários atuando sob baixa supervisão e em condições operacionais opacas — o que abriu espaço para uma cadeia de repasses marcada por corrupção, falhas de rastreamento e sucessivas trocas de lealdade no campo de batalha.
Diversos relatórios da época, como os publicados pelo New York Times (2016) e pelo Balkan Investigative Reporting Network (BIRN), indicam que uma parte significativa desse armamento — incluindo sistemas antitanque TOW — foi desviada e acabou nas mãos de grupos jihadistas, como a Frente al-Nusra, filial da Al-Qaeda na Síria. O sistema de controle era falho, quase simbólico, e a fluidez das alianças entre milícias facilitava a migração de armas para mãos erradas. O efeito foi devastador: esses grupos se tornaram mais bem armados, mais letais e mais capazes de sustentar ofensivas prolongadas, aprofundando a instabilidade e dificultando qualquer solução diplomática realista.
Internamente, a operação não foi unânime nem dentro do próprio governo americano. Enquanto o Departamento de Estado e setores da CIA viam o apoio à oposição como uma maneira de conter o avanço iraniano e o expansionismo russo no Levante, outros atores, inclusive dentro do Pentágono e do Congresso, alertavam para os riscos de repetir o erro estratégico do Afeganistão nos anos 1980 — quando o financiamento aos mujahidins abriu caminho para a ascensão da Al-Qaeda. A falta de clareza sobre quem exatamente estava sendo armado e treinado se tornou motivo de embates entre parlamentares, muitos dos quais temiam estar alimentando futuros inimigos.
O fantasma da Líbia — com o colapso do regime de Gaddafi e a fragmentação subsequente — pairava sobre Washington. Havia uma inquietação crescente quanto à possibilidade de que a queda de Bashar al-Assad abrisse um novo vácuo de poder, facilmente explorável por facções jihadistas e senhores da guerra. O dilema era claro: como enfraquecer Assad sem entregar a Síria ao caos absoluto? Essa equação nunca foi resolvida. Ao contrário — quanto mais os anos passavam, mais evidente ficava que o projeto de mudança de regime operava sem garantias mínimas de governança futura. O resultado foi a perpetuação do conflito, a multiplicação de atores armados com agendas conflitantes e a consolidação da Síria como epicentro de uma guerra por procuração de escala regional e global.
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| Rebeldes líbios comemorando a conquista da cidade de Bani Ualide, em um dos últimos e mais violentos combates da guerra de 2011 contra o regime de Gaddafi. Fonte: Essam Mohamed. |
Encerramento e Legado
Em 2017, a administração Trump optou por encerrar a Operação Timber Sycamore, alegando sua ineficácia estratégica e os riscos crescentes de que armamentos e treinamento americano estivessem, na prática, fortalecendo inimigos dos próprios Estados Unidos. O encerramento da operação, no entanto, não representou um recuo completo da presença americana no conflito sírio — apenas uma mudança de método. Washington manteve iniciativas paralelas, inclusive o apoio contínuo a forças curdas no norte do país. O legado da Timber Sycamore é marcado por controvérsias e lições amargas. Para analistas e ex-agentes da própria CIA, a operação tornou-se um estudo de caso sobre os perigos de intervir em guerras civis com múltiplas facções, interesses sobrepostos e sem mecanismos claros de supervisão. Ao tentar enfraquecer Assad, os EUA acabaram alimentando dinâmicas sectárias e contribuindo, ainda que indiretamente, para o fortalecimento de grupos extremistas — um erro que ressoou as cicatrizes do Afeganistão nos anos 1980.
A Queda de Bashar al-Assad e a Ascensão do HTS: O Papel da Operação Timber Sycamore no Destino da Síria
A queda do regime de Bashar al-Assad, consolidada em dezembro de 2024, representa um dos marcos mais significativos do prolongado conflito sírio, cuja origem remonta a 2011 com o início dos protestos da Primavera Árabe. Esse desfecho não foi súbito, mas resultado de uma degradação progressiva do aparato estatal, alimentada por sucessivos erros estratégicos do regime, pela fragmentação da oposição armada e pela reconfiguração do apoio internacional. Entre os principais elementos que contribuíram para o colapso final do governo Assad, destaca-se a ascensão do grupo jihadista Hay'at Tahrir al-Sham (HTS), a perda gradual do controle territorial pelo exército sírio e os efeitos contraditórios da Operação Timber Sycamore — um programa secreto conduzido pela CIA e autorizado formalmente em 2013 sob a administração Obama, segundo documentos revelados pelo New York Times (2016) e pelo jornalista Seymour Hersh.
O HTS, sucessor direto da Frente al-Nusra, afiliada da Al-Qaeda, consolidou-se como a força dominante no norte da Síria, especialmente na província de Idlib. Em 2017, o grupo rompeu oficialmente com a Al-Qaeda, buscando projetar uma imagem mais pragmática e adaptável ao cenário sírio. No entanto, sua estratégia de governança local, aliada à sua capacidade militar, enfraqueceu outras facções opositoras moderadas, ampliando o vácuo político e fragmentando ainda mais o espectro rebelde. Relatórios do Institute for the Study of War (ISW) e do International Crisis Group apontam que, entre 2020 e 2023, o HTS passou a exercer controle quase estatal sobre regiões inteiras, gerenciando serviços básicos, impostos e até instituições judiciais sob uma lógica islamista autoritária.
Paralelamente, a Operação Timber Sycamore, cuja existência foi amplamente detalhada por The Washington Post e pelo Guardian, investiu centenas de milhões de dólares no treinamento e armamento de grupos opositores considerados “moderados”. Porém, na ausência de uma triagem eficiente e de um monitoramento rigoroso, grande parte desse arsenal acabou sendo desviado para grupos extremistas ou foi capturado por facções rivais — um cenário já alertado por analistas do RAND Corporation e confirmado em investigações do Senate Intelligence Committee. A própria retirada do apoio americano a partir de 2017, intensificada durante o governo Trump, deixou a oposição ainda mais vulnerável, contribuindo para a reconfiguração do equilíbrio de forças no conflito.
Por fim, a prolongada crise econômica, a destruição da infraestrutura civil e a pressão internacional — incluindo novas sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia após denúncias de crimes de guerra confirmadas por órgãos como a Independent International Commission of Inquiry on the Syrian Arab Republic, da ONU — aceleraram o colapso do regime. Isolado diplomática e militarmente, Assad viu sua base de apoio ruir inclusive dentro da própria elite alauíta, diante da impossibilidade de reconstrução do país e da crescente perda de legitimidade entre os próprios aliados históricos, como o Irã e a Rússia, cujos interesses estratégicos na Síria passaram a ser questionados diante do desgaste financeiro e político da ocupação
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| Celebração convocada pelo grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS) em Damasco
20/12/2024 (Foto: REUTERS/Yamam Al Shaar). |
A guerra civil síria teve início em 2011, impulsionada por protestos pacíficos que exigiam reformas democráticas no regime de Bashar al-Assad, em sintonia com a onda de mobilizações populares da Primavera Árabe. A resposta do governo foi imediata e brutal: o uso sistemático de força letal contra manifestantes civis, prisões arbitrárias em massa e denúncias de tortura generalizada, conforme registrado por organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional. Essa repressão desproporcional acabou por catalisar a militarização da oposição, dando origem a um cenário caótico e multifacetado que logo se transformou em guerra civil de alta intensidade.
O arsenal distribuído incluía fuzis de assalto Kalashnikov, lançadores de granadas, morteiros e sistemas antitanque, como o TOW (Tube-launched, Optically tracked, Wire-guided), além de munições e equipamentos táticos. Parte significativa desses armamentos foi adquirida em mercados do Leste Europeu — principalmente Bósnia, Croácia e Bulgária — e redirecionada à Síria por meio de corredores logísticos operados a partir da Jordânia, em uma triangulação cuidadosamente planejada. Uma investigação conduzida pelo Balkan Investigative Reporting Network (BIRN) e pelo Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) revelou que bilhões de dólares em armas foram movimentados nesse processo, muitas vezes com pouca rastreabilidade, facilitando que parte desses recursos acabasse em mãos de grupos extremistas ou em mercados paralelos.
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| Fonte: Stijn Mitzer e Joost Oliemans |
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| O General Issam Jad'aan Zahreddine testando um lança-granadas acoplado em um AK-74M. O general era
uma celebridade entre os combatentes pró-Assad até sua morte aos 56
anos, quando sua viatura detonou uma mina em Hawija Saqr, próximo a Deir
Ezzor, em 18 de outubro de 2017. Fonte: Stijn Mitzer e Joost Oliemans |
Apesar da intenção inicial de conter a expansão de grupos jihadistas e enfraquecer o regime de Assad, a operação acabou por acentuar a complexidade do conflito. O fornecimento descentralizado e mal monitorado de armamentos, combinado à fragmentação da oposição síria, contribuiu para o fortalecimento de facções radicais, como o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS) e até mesmo o Estado Islâmico, em estágios iniciais. Em 2017, a operação foi oficialmente encerrada durante a gestão Trump, diante dos altos custos e dos resultados considerados insatisfatórios pelo aparato de inteligência americano.
Com o passar dos anos, a oposição síria perdeu coesão diante da multiplicidade de grupos, rivalidades ideológicas e disputas territoriais internas. Esse cenário de fragmentação comprometeu severamente a eficácia do apoio externo, incluindo o fornecimento de armamentos, treinamento e inteligência, já que muitos dos grupos inicialmente apoiados pelos Estados Unidos e aliados se dispersaram, foram neutralizados ou acabaram absorvidos por facções mais radicais. Nesse vácuo de liderança e estrutura, o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS) emergiu como a força mais organizada, disciplinada e resiliente na região noroeste da Síria, especialmente na província de Idlib. Originado em 2017 a partir da fusão do Jabhat Fateh al-Sham (antigo braço sírio da Al-Qaeda) com outras formações jihadistas, o HTS passou por um processo de rebranding ideológico e reestruturação militar, buscando se distanciar formalmente do extremismo salafista global para consolidar autoridade local e atrair apoio tático.
Entre 2023 e 2024, diante do enfraquecimento logístico das tropas de Assad, isoladas pelas sanções, pela crise econômica crônica e pela crescente distância do apoio direto russo, o HTS adotou uma estratégia de longo prazo voltada à desestabilização total do regime. A liderança do grupo, sob Abu Mohammad al-Julani, criou uma "sala de guerra unificada", um centro de comando operacional interligado a diversas brigadas subordinadas, com sistemas de comunicação criptografados e inteligência própria, segundo análises do Institute for the Study of War (2023). Essa centralização permitiu uma inédita coordenação entre frentes de batalha, especialmente em áreas estratégicas como Saraqib, Jisr al-Shughur e as colinas de Kabani, pontos-chave de acesso ao litoral e ao coração da Síria governamental.
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Além do avanço tático, o HTS passou a investir em capacidades militares autônomas. Unidades de engenharia desenvolveram versões caseiras de drones kamikaze, utilizados para atingir depósitos de munição e centros de comando do regime com precisão crescente. Também foram identificados esforços na fabricação local de morteiros, mísseis artesanais e explosivos improvisados de alta potência. Em entrevistas conduzidas por jornalistas independentes e corroboradas por relatórios da ONU, combatentes do grupo revelaram que parte da expertise técnica foi herdada de ex-militares desertores e treinadores estrangeiros, incluindo veteranos do conflito no Iraque.
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| Imagem 1 - Operador de drones HTS lança um novo drone de longo alcance durante a Batalha de Aleppo. Imagem 2 - HT treina operadores de drones em jogos de vídeo de simulador de voo. Fonte: Global Network on Extremism and Technology (GNET) |
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Essas capacidades fizeram do HTS um ator com poder militar considerável, rivalizando com exércitos regulares na condução de operações complexas, com domínio territorial e capacidade de governança paralela em zonas sob seu controle. A ascensão do grupo não apenas remodelou o tabuleiro do conflito sírio, mas também marcou um ponto de inflexão: a guerra deixou de ser uma simples disputa entre rebeldes e governo, para se tornar uma luta entre estruturas militares híbridas e o que restava do aparato estatal tradicional.
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Imagem 1 - Drones movidos a foguete de longo alcance representam um avanço tecnológico significativo para o HTS. Imagem 2 - O HTS teve como alvo indivíduos, incluindo altos funcionários do regime, durante a ofensiva. Fonte: Global Network on Extremism and Technology (GNET)
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A ofensiva final, batizada de “Dissuadir a Agressão” (em árabe, ردع العدوان), foi lançada em novembro de 2024 pelo comando unificado do HTS e facções aliadas, marcando o clímax militar de mais de uma década de guerra. A operação teve início com ataques sincronizados a posições do Exército Árabe Sírio nas províncias de Hama, Homs e Aleppo, regiões que historicamente funcionaram como bastiões do regime. Utilizando drones de reconhecimento e artilharia leve de fabricação própria, as forças rebeldes obtiveram ganhos territoriais rápidos, impulsionadas por uma combinação de moral elevada, logística eficiente e colapsos nas linhas de suprimento do regime. Segundo análises do Syrian Observatory for Human Rights (SOHR), as tropas governamentais, já fragilizadas por deserções, cortes de financiamento e redução da presença russa, encontraram dificuldades crescentes para manter posições defensivas.
Em menos de quatro semanas, os rebeldes conseguiram cercar e tomar centros urbanos estratégicos, como Homs e a cidade industrial de Aleppo — locais que simbolizavam tanto o poderio militar do regime quanto sua capacidade de projeção territorial. Em 8 de dezembro de 2024, combatentes do HTS entraram nos arredores de Damasco pela região de Ghouta e, sem resistência significativa, tomaram o controle de edifícios governamentais, instalações de comunicação e pontos logísticos-chave da capital. Imagens de satélite e transmissões ao vivo em canais árabes e ocidentais confirmaram a debandada das forças leais a Assad, que não contaram com apoio aéreo russo — em parte devido à retração estratégica de Moscou diante do desgaste provocado pela guerra na Ucrânia e pelas sanções ocidentais.
Isolado política e militarmente, e sem respaldo ativo do Irã ou da Rússia nos últimos dias do cerco, Bashar al-Assad optou por abandonar o país. De acordo com fontes do Al Jazeera Arabic e do Le Monde, o ex-presidente embarcou em um voo secreto com destino a Moscou, onde recebeu asilo político sob supervisão do Kremlin. Ainda que Vladimir Putin tenha evitado manifestações públicas, o gesto de acolhimento evidenciou os laços históricos entre os dois governos — agora fragilizados por uma derrota estratégica sem precedentes no Oriente Médio. O fim do regime Assad não apenas redesenhou o equilíbrio interno da Síria, como também colocou em xeque a presença russa na região, reacendendo debates sobre a eficácia da política externa de Moscou no mundo árabe.
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Rebeldes sírios na ofensiva contra o regime de Assad Foto: Ghaith Alsayed/AP |
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| O presidente sírio, Bashar al-Assad, e sua família chegaram à Rússia e
receberam asilo por razões humanitárias, informaram agências de notícias
russas, citando uma fonte não identificada do Kremlin. |
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| Fonte: CNN Brasil. |
O impacto da Timber Sycamore nesse desfecho é inegável. Embora o programa visasse fortalecer grupos moderados, a falta de controle permitiu que armamentos e táticas chegassem a mãos de facções extremistas, como o HTS, que souberam aproveitar esse suporte para se consolidar militarmente. A queda de Assad não apenas reconfigurou a política síria, mas também redefiniu o equilíbrio de poder no Oriente Médio, com implicações globais.
A ascensão do Hay’at Tahrir al-Sham ao poder central da Síria inaugura um novo ciclo de instabilidade e incerteza. Embora o grupo tenha demonstrado uma capacidade militar superior às demais facções rebeldes, sua legitimidade política interna e externa permanece amplamente contestada. Governos ocidentais, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia, ainda classificam o HTS como uma organização terrorista, dificultando qualquer possibilidade imediata de reconhecimento internacional ou liberação de ajuda humanitária estruturada. Ao mesmo tempo, atores regionais como Turquia e Qatar mantêm uma relação ambígua com o grupo, ora tolerando sua presença estratégica em Idlib, ora pressionando por reformas e moderação ideológica.
Internamente, a Síria continua um mosaico de lealdades tribais, sectárias e territoriais. A ausência de uma autoridade central legítima capaz de representar todas as regiões do país dificulta qualquer esforço real de reconstrução institucional. As infraestruturas estão em ruínas, a economia colapsou, e mais de 12 milhões de sírios seguem deslocados, segundo dados atualizados da ONU (OCHA, 2024). Muitos dos refugiados não têm perspectivas reais de retorno, e as divisões entre comunidades étnicas e religiosas foram profundamente acirradas ao longo de treze anos de guerra civil.
No cenário internacional, a queda de Assad e a consolidação do HTS como força dominante também provocam ondas de choque. Países como Israel, Jordânia e Líbano agora enfrentam uma fronteira ainda mais volátil, e os planos de reabertura diplomática com Damasco — iniciados por alguns Estados árabes em 2023 — foram interrompidos abruptamente. Para a Rússia, trata-se de uma derrota geopolítica simbólica e operacional, cuja repercussão se soma ao desgaste provocado por seu envolvimento na Ucrânia e à redução de sua influência no Oriente Médio.
Em última instância, o futuro da Síria permanece suspenso entre o vácuo institucional deixado pelo colapso do regime Assad e a incógnita representada pelo HTS. As lições desse conflito, desde o fracasso das intervenções externas até a resiliência de estruturas híbridas de poder, ainda estão sendo absorvidas por analistas e governos mundo afora. O pós-Assad, longe de significar uma solução, representa o início de uma nova e complexa etapa da tragédia síria — um capítulo ainda em aberto no mapa da geopolítica contemporânea.
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Os militantes islâmicos do Hayat Tahrir al-Sham (HTS) tomaram o controle de Aleppo e chegaram a Damasco em poucos mais de uma semana. Fonte: BBC News Brasil
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Cabeça de estátua de Hafez
al-Assad, ex-presidente da Síria e pai do atual presidente Bashar, é
rebocada por caminhão em Hama, cidade tomada por rebeldes, em 6 de
dezembro de 2024. — Foto: Muhammad Haj Kadour/AFP |
A Retirada de Bashar al-Assad: A Operação da Rússia para Garantir a Fuga do Presidente Sírio
A queda de Bashar al-Assad, presidente da Síria desde o ano 2000, em dezembro de 2024, marcou um ponto de inflexão decisivo não apenas para o regime sírio, mas para toda a arquitetura geopolítica do Oriente Médio. Após treze anos de guerra civil, marcada por ciclos intensos de violência, intervenções estrangeiras e deslocamentos em massa, o colapso de Damasco evidenciou o esgotamento estrutural de um modelo autoritário sustentado por repressão interna e apoio externo — especialmente da Rússia e do Irã. No entanto, ao contrário do que muitos analistas previam, a derrocada do regime não ocorreu em meio ao caos absoluto, mas sim sob um aparente controle operacional liderado por Moscou, revelando um último movimento estratégico para preservar seus interesses no Levante.
Com o avanço implacável das forças rebeldes, lideradas por uma coalizão capitaneada pelo grupo islamista Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), Assad viu suas principais linhas de defesa ruírem rapidamente, enquanto sua base de apoio militar era desmobilizada ou derrotada. Em paralelo, serviços de inteligência russos, notadamente o GRU (inteligência militar) e o SVR (serviço de inteligência externa), iniciaram uma operação encoberta para extrair Assad de forma segura. De acordo com fontes da Al Jazeera e de analistas do Middle East Institute, a evacuação foi conduzida com o apoio de forças especiais russas (Spetsnaz), que operavam em regime de prontidão nas imediações do aeroporto militar de Mezzeh, em Damasco.
A operação, descrita por alguns como “a última missão da Rússia em solo sírio”, incluiu o bloqueio temporário de canais de comunicação, o uso de corredores aéreos alternativos e uma intensa campanha de desinformação para despistar drones e rebeldes em avanço. Assad, acompanhado por sua esposa Asma e um círculo restrito de assessores, embarcou em um voo noturno com destino a Moscou, onde foi recebido discretamente por autoridades do Kremlin. A concessão de asilo político evidenciou dois pontos centrais: o compromisso russo com a proteção de seus aliados estratégicos, e a intenção de manter um canal de influência ativo na transição de poder síria — mesmo que o novo comando do país não compartilhe, a princípio, os mesmos interesses de Moscou.
Esse movimento não só selou o fim de uma era na política síria, como revelou o pragmatismo russo diante de um cenário irreversível. A Rússia não buscou resistir até o fim ao colapso do regime, mas, sim, garantir uma saída controlada que lhe permitisse preservar ativos, proteger informações sensíveis e talvez reconfigurar sua presença no novo xadrez pós-Assad. O gesto também funcionou como mensagem indireta a outros líderes aliados ao redor do mundo: a lealdade de Moscou pode ser tática, mas nunca improvisada.
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Celebração em Damasco depois de os rebeldes derrubarem o regime de Assad. Fonte: EPA/BILAL AL HAMMOUD |
Em dezembro de 2024, a ofensiva dos rebeldes avançava de forma acelerada, tomando importantes cidades e aproximando-se de Damasco, a capital síria. A situação para o regime de Assad ficou insustentável, e o líder sírio, que por tanto tempo se manteve em poder com o apoio da Rússia e do Irã, viu-se com poucas opções. A Rússia, que já havia sustentado a resistência do regime sírio durante a guerra civil, teve de intervir uma vez mais, desta vez para garantir a fuga de Assad.
De acordo com informações obtidas de fontes diplomáticas e militares, a operação de retirada de Bashar al-Assad foi cuidadosamente planejada pelas autoridades russas, com a colaboração de agências de inteligência, como o FSB (Serviço Federal de Segurança da Rússia) e as forças militares russas. A operação foi um segredo absoluto, até mesmo dentro das mais altas esferas do governo sírio. Uma série de medidas de dissimulação foi tomada para evitar a detecção das forças rebeldes, que estavam a poucos quilômetros de Damasco.
A rota de fuga de Bashar al-Assad foi executada como uma operação de inteligência de alta complexidade, planejada para ocorrer sem qualquer interferência externa e com o máximo de sigilo. À medida que os rebeldes se aproximavam da capital, os serviços de segurança russos ativaram um plano de extração cuidadosamente elaborado, digno de uma operação clandestina militar em território hostil. Fontes ligadas a think tanks especializados, como o Carnegie Middle East Center, apontaram que a estratégia envolveu múltiplos vetores de distração e contramedidas eletrônicas para iludir tanto os radares rebeldes quanto as ferramentas de monitoramento utilizadas por potências estrangeiras envolvidas indiretamente no conflito.
Para confundir a vigilância aérea e digital, foram utilizados helicópteros falsos — voando em rotas deliberadamente expostas — cuja função era atrair a atenção dos sistemas de defesa e observação operados por facções insurgentes e por drones de reconhecimento turcos e americanos. Ao mesmo tempo, aeronaves militares russas decolaram de bases aéreas no oeste sírio, como Hmeimim e Shayrat, com transponders desativados, tornando-se invisíveis para radares civis e comerciais. A ausência de sinal em plataformas de rastreamento como o FlightRadar24 foi interpretada por analistas como um indicativo da natureza clandestina do movimento.
Durante a execução da operação, um avião militar russo — possivelmente um Ilyushin Il-76 ou um Tupolev Tu-154 modificado para transporte de alta autoridade — desapareceu dos sistemas de radar poucos minutos após decolar da Base Aérea de Mezzeh, nas proximidades de Damasco. Esse desaparecimento foi relatado por jornalistas de segurança internacional como parte de uma "janela escura" nas comunicações da aviação sobre o espaço aéreo sírio. Embora Moscou não tenha se pronunciado oficialmente, múltiplas fontes do Middle East Eye e da Deutsche Welle Arabic sugeriram que a aeronave foi usada para transportar Assad, sua família e documentos sensíveis diretamente para Moscou, em uma rota não divulgada que evitou o espaço aéreo turco e sobrevoou o norte do Iraque com cobertura eletrônica russa.
Esse termo, cobertura eletrônica, refere-se a um conjunto de técnicas associadas à guerra eletrônica (Electronic Warfare – EW), aplicadas aqui como parte de uma operação de proteção e ocultamento aéreo. A Rússia, reconhecida por seu domínio nesse campo, utiliza aeronaves especializadas como o Il-22PP “Porubshchik” e o Tu-214R, além de sistemas terrestres como o Krasukha-4 e o Borisoglebsk-2, capazes de interferir e bloquear sinais de radar inimigos, neutralizar comunicações e criar "zonas de silêncio" no espectro eletromagnético.
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Aviões de contramedidas eletrônicas Ilyushin Il-22PP Porubschik, com
equipamentos de interferência atualizados e capazes de desativar
sistemas eletrônicos em aviões inimigos. Fonte: Poder Aéreo
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| Tu-214R. Foto /Rimma Sadykova |
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| Krasukha-4 é um dos sistemas de guerra eletrônica mais sofisticados da Rússia. Fonte: Vitaly V. Kuzmin. |
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| Sistema de interferência Borisoglebsk 2. (Fonte de imagem: russo MoD) |
Na prática, isso significa que o avião que transportava Assad foi possivelmente encoberto por um espectro artificial de invisibilidade, resultado da interferência de sinais de radar ativos e passivos ao redor da aeronave alvo. Além disso, as transmissões de transponder — que normalmente identificam a aeronave e sua altitude — foram desativadas ou mascaradas, dificultando a detecção por radares convencionais, satélites de inteligência e sistemas de vigilância aérea controlados por potências ocidentais ou por forças rebeldes com acesso a drones e sensores de baixa frequência.
Essas técnicas permitiram à Rússia conduzir a operação com um nível de discrição comparável ao de evacuações realizadas durante a Guerra Fria, quando a movimentação de ativos sensíveis exigia ambientes de completa negação de inteligência inimiga. No caso sírio, tratou-se de garantir que nenhum ator — nem Estados Unidos, nem Turquia, nem Israel, tampouco o próprio Hay’at Tahrir al-Sham — tivesse capacidade de interceptar, rastrear ou abater a aeronave que levava a peça central do regime em colapso.
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Ilyushin Il-76. Fonte: Aeroflot Ilyushin Il-76TD at Zurich Airport in May 1985. |
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| Tupolev Tu-154 da Força Aérea Russa. Fonte: Alexander Usanov |
O sucesso da operação confirmou a capacidade da Rússia de conduzir extrações de alto valor mesmo sob pressão geopolítica intensa, além de destacar a fragilidade do controle aéreo dos grupos rebeldes sírios, ainda dependentes de equipamentos de vigilância limitados e inteligência fragmentada. Mais do que uma retirada, tratou-se de uma retirada simbólica: o fim de um regime conduzido por mãos estrangeiras, em silêncio, enquanto o país ardia em sua transformação mais profunda desde o início da guerra.
Em uma reviravolta digna de um roteiro de espionagem, a operação de fuga também contou com o uso estratégico de “body doubles”, ou sósias de Bashar al-Assad, para confundir tanto os serviços de inteligência ocidentais quanto as patrulhas rebeldes que monitoravam os acessos à capital. Fontes ligadas à inteligência turca e ao Observatório Sírio para os Direitos Humanos indicaram que pelo menos dois veículos blindados deixaram o palácio presidencial em Damasco em rotas opostas, transportando homens com aparência semelhante à de Assad. Essas movimentações foram cuidadosamente sincronizadas com o momento da decolagem da aeronave não identificada da Base Aérea de Mezzeh, criando múltiplos sinais visuais e eletrônicos falsos que alimentaram a narrativa de que o presidente ainda permanecia no perímetro urbano da capital.
O uso de sósias em operações de alto nível não é novidade no campo da espionagem. Durante a Guerra Fria, a KGB empregava essa técnica com frequência em deslocamentos sensíveis de líderes soviéticos. Saddam Hussein, no Iraque, foi um dos mais conhecidos usuários dessa estratégia, tendo investido em treinamento específico de seus sósias para confundir até mesmo os serviços secretos ocidentais. Na Síria, o objetivo foi semelhante: garantir tempo suficiente para que a evacuação verdadeira ocorresse sem que os rebeldes ou seus aliados pudessem interceptar o comboio real ou a aeronave de extração.
Essa manobra permitiu que o regime simulasse normalidade nas últimas horas de resistência, enquanto a Rússia finalizava a evacuação de Assad e consolidava uma nova fase de sua presença militar no país. Ao confundir adversários com imagens falsas e movimentações enganosas, Moscou e Damasco conseguiram manter controle narrativo e operacional até o último minuto, enfraquecendo qualquer tentativa de capturar ou neutralizar o presidente sírio durante a queda definitiva do regime.
À medida que a ofensiva dos rebeldes chegava a Damasco, Assad foi transportado em uma caravana blindada, passando por rotas secundárias menos monitoradas. Ele foi levado até um aeroporto militar russo localizado em uma região montanhosa ao norte de Damasco, onde um aviação russa o aguardava para a evacuação.
Embora o Kremlin tenha mantido um silêncio absoluto sobre os detalhes da operação, fontes indicam que uma equipe de forças especiais russas garantiu a segurança do transporte de Assad, especialmente na área do aeroporto. Essa evacuação foi concluída com sucesso e Assad foi transportado para a Rússia, onde lhe foi concedido asilo político por "razões humanitárias", conforme confirmado pelo governo russo em uma declaração oficial.
A fuga de Assad teve repercussões imediatas tanto para a Síria quanto para os aliados da Rússia na região. De um lado, foi uma grande vitória para as forças rebeldes, que conseguiram derrubar um regime opressor que durava mais de 50 anos. Do outro lado, a Rússia teve que lidar com as consequências dessa retirada forçada de Assad, sendo forçada a adaptar sua presença na Síria para lidar com o vácuo de poder.
A Rússia também teve que reavaliar suas estratégias regionais, já que a perda de Assad significava que a sua influência direta na Síria estava em risco. O governo russo intensificou sua presença militar nas áreas controladas por seus aliados, buscando garantir a estabilidade e proteger seus interesses no País.
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| Forças armadas russas mantiveram seu apoio a Assad até os últimos momentos, realizando bombardeios contra as forças rebeldes. Fonte: EFE/EPA/ABIR SULTAN |
O Kremlin tratou a evacuação de Bashar al-Assad como um sucesso estratégico, ressaltando sua capacidade de proteger um aliado histórico e preservar seus interesses no Oriente Médio, mesmo diante do colapso iminente do regime. Para Moscou, garantir a integridade física de Assad e extrair documentos e oficiais-chave foi uma manobra que assegurou a continuidade de sua influência política e militar em território sírio, especialmente nas bases de Tartus e Hmeimim, consideradas cruciais para a projeção de poder naval e aéreo na região.
Entretanto, a operação não passou despercebida pela comunidade internacional. Países ocidentais reagiram com críticas cautelosas, preocupados com o vácuo de poder criado pela queda do regime e a possibilidade de que grupos islamistas radicais, como o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), consolidassem uma nova ordem política baseada em interpretações estritas da sharia. Os Estados Unidos mantiveram uma postura ambígua, enquanto a União Europeia expressou preocupações com a instabilidade iminente e a radicalização de setores armados, mas também sinalizou disposição para dialogar com lideranças locais em um eventual processo de transição e reconstrução institucional.
A Comissão Europeia, por meio de uma declaração conjunta do Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE), destacou a urgência de mecanismos multilaterais para garantir que a Síria pós-Assad não se torne um enclave de grupos jihadistas transnacionais. Apesar das reservas quanto ao HTS, fontes diplomáticas em Bruxelas sugeriram que a estabilidade regional e o retorno de refugiados dependem de algum grau de cooperação com as novas lideranças de facto. A reconstrução, portanto, surge como um campo de disputas entre os interesses estratégicos da Rússia, das potências ocidentais e de atores regionais como Turquia, Irã e os países do Golfo.
Em contrapartida, a Alemanha foi um dos países a reconhecer a mudança de governo e reabriu sua embaixada em Damasco, sinalizando um possível recomeço nas relações diplomáticas com a Síria pós-Assad. No entanto, a realidade no terreno continua sendo instável, com focos de resistência e a presença de facções rebeldes que ainda controlam várias partes do país.
Apesar de a queda de Assad ter representado uma mudança histórica para a Síria, o país ainda enfrenta enormes desafios na reconstrução e na busca por uma estabilidade política. A transição pós-Assad, liderada por um governo interino formado pelos rebeldes, está longe de ser tranquila. Foco central está em garantir uma estrutura política inclusiva e a cessação das hostilidades, o que ainda parece distante, com confrontos contínuos entre várias facções e grupos armados.
A retirada de Bashar al-Assad da Síria, em dezembro de 2024, marcou o desfecho de uma operação meticulosamente coordenada por Moscou. Utilizando táticas clássicas de guerra não convencional, como o uso de sósias, “janelas escuras” no espaço aéreo e bloqueios eletrônicos de radares, a inteligência russa conseguiu executar a evacuação do líder sírio sem interferências externas. A operação revelou não apenas o alcance da capacidade técnica e estratégica da Rússia na região, mas também expôs os limites da resistência do regime de Assad diante de um conflito prolongado, fragmentado e cada vez mais marcado por atores não estatais com força militar significativa, como o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS).
Embora o Kremlin tenha comemorado o sucesso logístico e simbólico da operação, o colapso do regime sírio representa, na prática, uma inflexão importante em sua presença no Oriente Médio. A Rússia se vê agora diante de um cenário instável, com incertezas sobre o controle territorial, a emergência de novas lideranças com viés islamista e a crescente competição com potências regionais como Irã, Turquia e Arábia Saudita. Além disso, as pressões diplomáticas por uma reconstrução inclusiva colocam Moscou diante do desafio de manter influência sem um aliado direto no poder.
Assad tornou-se um símbolo de encerramento de um dos regimes autoritários sustentados por alianças militares externas, e sua saída abre uma nova fase para a Síria, ainda sem garantias de estabilidade. O futuro do País dependerá da habilidade dos novos atores em equilibrar os interesses locais, as demandas internacionais e os traumas acumulados por mais de uma década de guerra civil.
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| De 1971 até a queda de Bashar al-Assad em 2024, a Síria foi governada pela família Assad — primeiro por Hafez al-Assad (1971–2000), e depois por seu filho Bashar (2000–2024), em um regime autoritário que marcou mais de meio século da história síria. |
A Síria em 2025: Fragmentação, Conflitos Sectários e o Legado da Guerra Civil
Colapso do Regime de Assad e o Vácuo de Poder: Em dezembro de 2024, a deposição de Bashar al-Assad encerrou mais de cinco décadas de domínio da família Assad na Síria, mas a esperança de estabilidade rapidamente se dissipou. Em vez de um período de transição pacífica, o País mergulhou em uma nova fase de conflitos sectários e disputas territoriais. A queda de Assad resultou em um vácuo de poder que grupos armados jihadistas, facções tribais e remanescentes do antigo regime rapidamente tentaram preencher. Muitos dos combatentes que participaram da ofensiva contra o regime passaram a disputar influência sobre territórios estratégicos, resultando em confrontos violentos e massacres.
Conflitos sectários e violência contra minorias: A instabilidade política acentuou a perseguição contra minorias religiosas, especialmente os alauítas, que tradicionalmente sustentavam o governo Assad. Cidades como Homs e Damasco se tornaram campos de batalha entre jihadistas islâmicos e comunidades alauítas, resultando em massacres que chocaram a comunidade internacional. Relatos apontam que o grupo Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), uma das facções rebeldes mais poderosas, executou alauítas em represália ao apoio que essa minoria deu ao antigo regime. O novo governo interino, liderado por Ahmed Al-Sharaa, também conhecido por seu nome de guerra Abu Mohammad al-Julani condenou os atos de violência, mas enfrenta dificuldades em conter seus próprios aliados, muitos dos quais mantêm uma agenda sectária e radical. Além dos Alauítas, Cristãos ortodoxos, Drusos e curdos também enfrentam perseguição, agravando a crise humanitária.
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| Ahmed Al-Sharaa, também conhecido por seu nome de guerra Abu Mohammad al-Julani. Fonte: European Union, 2025. |
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| Linha temporal de Al Julani. Fonte Mansur Peixoto. |
Desafios do novo governo e falta de controle sobre os grupos armados: O governo de transição tem se esforçado para consolidar o poder e restaurar a ordem, mas a fragmentação política e militar dificulta essa tarefa. Com a dissolução do Exército Árabe Sírio (EAS), as antigas forças governamentais se dividiram em diferentes milícias que atuam de forma independente. Embora Al-Sharaa (Mohammad al-Julani) tenha prometido formar um exército nacional unificado e desarmar os combatentes civis, a resistência dentro de sua própria base política tem impedido avanços significativos. A presença de senhores da guerra e líderes tribais que exercem poder local impede a criação de uma autoridade central forte. Além disso, algumas facções islâmicas se recusam a reconhecer o governo interino, criando áreas autônomas onde impõem sua própria interpretação da Sharia (lei islâmica).
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| Sharia (em árabe: شَريعَة) é um corpo de leis religiosas que faz parte
da tradição islâmica. É derivado dos preceitos religiosos do
Islã e é baseado nas escrituras sagradas do Islã, particularmente no
Alcorão e no Hadith. Fonte: OLIVEIRA, Icaro Aron Paulino Soares.
Sharia: o direito islâmico.
Revista Jus Navigandi,
ISSN 1518-4862, Teresina, ano 28, n. 7423, 28 out. 2023. |
A influência estrangeira e a geopolítica do novo conflito: A queda de Assad não significou o fim da interferência de potências estrangeiras na Síria. Pelo contrário, a luta pelo controle do país se intensificou. A Rússia, que historicamente apoiava Assad, manteve presença militar no país, ocupando bases estratégicas na província de Latakia. O presidente Vladimir Putin ofereceu cooperação ao governo de transição, mas impôs condições, incluindo a proteção de seus interesses econômicos e militares na região. O Irã, por outro lado, perdeu influência significativa com a deposição de Assad, mas mantém grupos aliados, como o Hezbollah, operando na Síria. Já os Estados Unidos e seus aliados ocidentais condicionam qualquer apoio ao compromisso do novo governo em conter os jihadistas e promover um sistema de governo mais democrático e inclusivo. A hesitação do Ocidente em oferecer apoio imediato tem gerado incerteza sobre o futuro do País.
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| A decisão de dar Asilo Político a Bashar Al Assad partiu de Vladimir Putin, informação confirmada pelo Kremlin e divulgada pela CNN. Foto: Valery SHARIFULIN / POOL / AFP |
O impacto da Operação Timber Sycamore no atual cenário sírio: A presença contínua de grupos extremistas na Síria pode ser parcialmente atribuída à Operação Timber Sycamore, um programa secreto da CIA que forneceu armas e treinamento a rebeldes sírios entre 2013 e 2017. Muitos dos armamentos distribuídos durante essa operação acabaram redes de comércio ilícito (mercados paralelos) e continuam sendo usados não apenas na Síria, mas também em conflitos no Líbano e no Iraque. Além disso, combatentes treinados pela CIA e outras potências estrangeiras se reconfiguraram em redes criminosas transnacionais, ampliando o caos regional. O descontrole na distribuição de armas e a falta de monitoramento dos grupos que receberam apoio fizeram com que a Timber Sycamore se tornasse um exemplo clássico das consequências imprevisíveis das intervenções externas.
A reconstrução lenta e desigual do País: A infraestrutura da Síria permanece devastada após mais de uma década de guerra, e a reconstrução tem sido um processo fragmentado e desigual. Damasco e Aleppo, duas das cidades mais importantes do país, ainda apresentam bairros inteiros em ruínas, enquanto outras áreas sob controle de grupos islâmicos operam com infraestrutura mínima. A falta de investimento estrangeiro e a crise econômica global dificultam a recuperação do país. A ONU e ONGs internacionais tentam fornecer assistência humanitária, mas o ambiente caótico e a presença de facções armadas impedem a distribuição eficiente de suprimentos.
Um futuro incerto para a Síria: A Síria, em 2025, encontra-se em uma encruzilhada histórica. O colapso do regime de Assad não trouxe estabilidade, mas sim uma nova fase de conflitos internos e disputas de poder. O governo de transição luta para consolidar sua autoridade, ao mesmo tempo em que enfrenta desafios significativos, como a violência sectária, a influência de grupos jihadistas e a interferência de potências estrangeiras. O legado da Operação Timber Sycamore e de anos de intervenções externas ainda pesa sobre o País, tornando a pacificação um objetivo distante.Podemos traçar um paralelo entre a atual fragmentação da Síria e sua longa história de instabilidade da seguinte forma: Há mais de 3.000 anos, a região já era disputada entre os impérios Egípcio e Hitita. No século VIII a.C., caiu sob domínio dos Assírios, depois dos Babilônios, e, no século VI a.C., foi conquistada pelos Persas. No século IV a.C., Alexandre, o Grande, tomou a região, que depois foi absorvida pelos Romanos. No século VII, chegou o domínio islâmico, mas a paz nunca veio: Omíadas, Abássidas, Aiúbidas, Mamelucos e Otomanos se revezaram no controle da Síria até o século XX, quando a França impôs seu mandato colonial. A independência, conquistada em 1946, não trouxe estabilidade: golpes militares, ditaduras brutais e guerras marcaram o País até a guerra civil iniciada em 2011 que permanece até os dias de hoje.
Diante dessa linha do tempo, a conclusão é brutal: a Síria nunca conheceu paz duradoura. Os senhores da guerra mudam, os impérios caem, mas o ciclo de sangue e dominação se repete. Sem uma transformação estrutural que rompa com esse passado, o País pode nunca ter uma solução, apenas uma nova face para a mesma tragédia.
Operação Timber Sycamore revela apenas uma das muitas camadas da complexa guerra por procuração travada na Síria. Para entender como essa e outras ações moldaram o conflito — e como potências como Estados Unidos, Rússia, Irã, Turquia.... entre outras, atuam nos bastidores — recomendo a leitura do artigo:
👉 Conflito na Síria: Análise das Potências Estrangeiras e suas Influências
(Publicado em abril de 2024 aqui no blog)
Essa leitura complementa e amplia a visão geopolítica que você acabou de conhecer. Clique e continue a se aprofundar nesse cenário estratégico que ainda reverbera no xadrez internacional.
https://gabriel-chagas.blogspot.com/2024/04/siria.html
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