A guerra mais danosa é
guerra cognitiva, ela esta inserida no contexto do mundo pós-verdade, onde cada
indivíduo possui suas verdades, em virtude da globalização, o indivíduo é
apresentado a inúmeras narrativas, fazendo com que elas se tornem
protagonistas, funciona da seguinte maneira: o ser humano possui sua crença
referente a um determinado assunto, a partir disso, irá beber de fontes e
buscar apenas notícias/narrativas que corroboram com suas crenças, baseado em
um conceito de TREVERTON - relação baseadas em áreas de conectividade, redes,
que disponibiliza que todos possam expressar suas opiniões, muitas vezes
proporcionando poder a atores mais fracos; o rápido desenvolvimento de
tecnologias que originam novos domínios, como o espaço cibernético; alterações
no espaço da informação e a velocidade com que as pessoas podem ficar a parte
de inúmeras informações e no cenário midiático; a mudança geracional, com uma
nova geração muito mais ligada ao mundo digital, mais conectada aos discursos de
ódio ou de rápida absorção nas redes sociais do que às memórias e os conceitos
históricas.
Conceitualmente, segundo NORFOLK, VA – “A
Guerra Cognitiva inclui atividades conduzidas em sincronização com outros
Instrumentos de Poder, para afetar atitudes e comportamentos, influenciando,
protegendo ou interrompendo a cognição individual, grupal ou populacional, para
obter vantagem sobre um adversário. Projetado para modificar as percepções da
realidade, a manipulação de toda a sociedade tornou-se uma nova norma, com a
cognição humana se moldando para ser um domínio crítico da guerra”.
Entrando brevemente em um
conceito da guerra híbrida que para Frank Hoffman, militar e analista
americano, no seu artigo
Conflit in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars, as guerras
híbridas incorporam uma gama de diferentes modos de guerra,
incluindo capacidades convencionas, não convenções, propaganda, ações
psicológicas, táticas e formações irregulares, atos terroristas incluindo
violência e coerção indiscriminadas, desordem criminal o
uso de armas avançadas, tecnologias agressivas, ferramentas psicológicas,
manipulação de problemas identitários (diferenças históricas, étnicas,
religiosas, socioeconômicas, geográficas), promoção de desinformação, lawfare
(guerra jurídica) e outros meios. (2007,
p.14).
A informação molda sua
percepção da realidade, a cognição é a capacidade de transformá-la em
conhecimento, seguindo a introdução, abordamos um dos conceitos das guerras
modernas, a chamada Guerra Híbrida: que são as campanhas de influencia, onde
as verdadeiras operações de influencia não afetam a informação, mas sim a
cognição do indivíduo, pois deste modo, afetando a cognição, independente da
informação que tiver, irá produzir o mesmo conhecimento, tendo em vista que o
processo cognitivo e decisório estará afetado.
Como conclusão, o destaque
será para uma citação do site eletrônico da OTAN – Combatendo a guerra cognitiva: consciência e
resiliência. “Na guerra cognitiva a mente humana se torna o campo de batalha. O
objetivo é mudar não apenas o que as pessoas pensam, mas como elas pensam e agem”,
estas ações exploram fraquezas do cérebro chamadas de
dissonâncias cognitivas, que corresponde ao ato do cérebro não aceitar duas
verdades ao mesmo tempo.
Desta forma, as verdades que
julgamos ser as nossas opiniões podem ser construídas através de agentes e
estímulos externos, ocasionando muitas vezes uma dissonância cognitiva e uma
confusão que resultando em uma falta de clareza em determinar o certo e o
errado, pois tudo se torna relativo.
O efeito e a consequência da
guerra cognitiva são descrito por inúmeros autores. Como por exemplo, Claverie
e Du Cluzel, onde o mesmo relata que “A Guerra Cognitiva exerce um efeito
insidioso. Ela desvirtua, de forma paulatina e sutil, os entendimentos e as
reações que são comumente associados aos eventos, provocando efeitos
prejudiciais ao longo do tempo.” (CLAVERIE; DU CLUZEL, 2021).
Principais objetivos desta
técnica de guerra, diminuir a coesão social do País ou da região alvo,
desprestigiar as instituições públicas, normalmente as forças armadas, a
comunidade de inteligência e de segurança nacional do País e as instituições
policiais.
As estratégias e táticas
empregadas nesses ataques exploram diversas formas de engano e provocação,
incluindo a veiculação de vídeos falsos, o uso de deepfakes (que consiste na
manipulação da face e voz humana por meio de inteligência artificial) e fake
news (notícias falsas), a aplicação de gaslighting (violência psicológica), doxing (exposição pública de informações pessoais por terceiros), trolling
(incitação a conflitos e hostilidade) e outras formas (FOREST, 2021).
Existem dois tipos de
operações cognitivas: (FOREST, 2021)
· Operações
cognitivas abertas: são campanhas de propaganda oficial, disseminação de
informações por meio de mídias tradicionais e redes digitais, operações
psicológicas direcionadas e outras atividades que são atribuídas publicamente a
um governo ou entidade específica.
· Operação
Cognitiva Encoberta: Realizada de forma clandestina e muitas vezes ilegal.
A pergunta que fica após as
questões teóricas é saber se já tivemos na prática, os conceitos citados acima,
a resposta é... Inúmeras vezes, em todos os momentos, porém, imperceptíveis na
visão do grande público, mas podemos citar alguns casos deste tipo de operação,
como por exemplo, no ano de 2017 as Comunidades de Inteligência dos Estados
Unidos da América (ICA), produziram um relatório e apresentaram no senado
federal e para a procuradoria geral dos EUA, uma conclusão de que a Rússia realizou
uma operação de influência nas eleições presidências dos EUA no ano de 2016, o Kremlin
teve como objetivo desacreditar a democracia americana, sujar a imagem da
candidata e antiga secretaria de estado Hilary Clinton, não apenas prejudicar a
candidata do partido democrata, mas comprovadamente, ocorreu um favorecimento
ao então candidato do partido republicano Donald Trump.
Outro exemplo foi à atuação
da Cambridge consultoria britânica Cambridge Analytica (CA) nas eleições
presidenciais de 2016 nos EUA que sinalizou o surgimento de uma nova forma de
batalha: a guerra orientada por dados (Data-Driven Warfare) (KAISER, 2019).
Algoritmos, Big Data, Machine Learning, ferramentas utilizada para moldar o
futuro da guerra.
A outra atuação de destaque
da Cambridge consultoria, neste mesmo conceito, foi no Brexit do Reino Unido,
resumidamente foi um referendo referente à saída do Reino Unido da União Europeia,
linkando com o parágrafo anterior Špalková (2019), em estudo para o think tank
Kremlin Watch, tanto a Rússia Today, seria uma espécie de Sputnik versão britânica,
imprensa de propriedade do governo Russo, exibiram de maneira constante e
aumentaram as postagens de conteúdos anti-europeus, fazendo com que se tornasse
ainda mais nítido os esforços do Kremlin através de uma operação de influencia
durante o referendo.
O que podemos tirar como
lição após esta abordagem, e a dificuldade de diferenciar tempos de guerra e
tempos de paz, onde todas as ferramentas estão sendo utilizadas a todo o
momento para obter informações, influenciar decisões, moldar o comportamento de
uma população, abrangendo ainda mais a esfera das operações fazendo com que
ocorra uma expansão, domínio físico – informacional e agora cognitivo e mental
com o propósito de moldar o comportamento de uma sociedade alvo.

Escrito por Gabriel Chagas.
Entusiasta por Geopolítica, Espionagem e Relações Internacionais. Autor do Blog "Mundo em
Conflito".
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